A saúde bucal de adolescentes de Recife

A saúde bucal de adolescentes de Recife

(Parte 1 de 4)

A saúde bucal de adolescentes: aspectos de higiene, de cárie dentária e doença periodontal nas cidades de Recife, Pernambuco e Feira de Santana, Bahia

Oral health among adolescents: aspects relating to hygiene, dental cavities and periodontal disease in the cities of Recife and Feira de Santana, Brazil

Nilton Cesar Nogueira dos Santos 1 Técia Daltro Borges Alves 1 Valéria Souza Freitas 1 Silvia Regina Jamelli 2

Emanuel Sávio Cavalcanti Sarinho 2 Universidade Estadual de Feira de Santana, UEFS. BR 116, Km 3, Campus Universitário, Módulo VI, Departamento de Saúde. Feira de Santana BA.

nogueira@uefs.brUniversidade Federal de Pernambuco. Recife PE.

Abstract Objective: To characterize the oral health in adolescents in the cities of Recife and Feira de Santana, Northeast Brazil by assessment of personal hygiene and dental cavities and periodontal disease. Method: Forty adolescents between ten and eighteen years old were assessed through an exploratory study run in Recife in 2005. In Feira de Santana, 971 adolescents (twelve years old) were examined through a cross section study in 2002. It was assessed cavity status through the number of cavitied, missing and filled teeth, visible dental plaque, bleeding gums and periodontal status. The analysis was based on Chi-Square, Kruskall-Wallis and Fisher tests, with a confidence interval of 95%. Results: The most of adolescents followed oral hygiene practices three times a day. The DMTF values presented a median of 1.5 in Recife and averages of 1.89 in state schools, 2.17 in municipal schools and 2.39 in private schools in Feira de Santana. The bleeding gum in Recife presented a median of 27%, and in Feira de Santana the healthy sextant averages of 4.36, 4.08 and 5.16 in state, municipal and private schools respectively. Conclusion: The frequency of the dental cavities was low, with most of the adolescents reporting good habits of oral hygiene and favorable periodontal conditions. Key words Adolescence, Oral health, Dental cavities, Periodontal disease, Habits

particulares respectivamente. Conclusão:A fre-

Resumo Objetivo: Caracterizar a saúde bucal de adolescentes nas cidades de Recife e Feira de Santana, pela avaliação de higiene bucal, cárie dentária e doença periodontal. Método: Foram avaliados 40 adolescentes com 10 a 18 anos de idade em Recife, em estudo exploratório, em 2005 e, em Feira de Santana, 971 adolescentes com 12 anos idade, num estudo de prevalência, em 2002. Avaliaram-se: cárie, pelo número de dentes cariados, perdidos e obturados; placa dentária visível, sangramento gengival e condição periodontal. Para análise, utilizaram-se os testes Quiquadrado, Kruskall-Wallis, Exato de Fisher, com intervalo de confiança de 95%. Resultados: A maioria dos adolescentes realizavam higiene oral três vezes ao dia. Os valores do CPOD apresentaram mediana de 1,5 em Recife e médias de 1,89 nas escolas estaduais, 2,17 nas municipais e 2,39 nas particulares, em Feira de Santana. O sangramento gengival em Recife teve mediana de 27% e, em Feira de Santana, a média de sextantes sadios foi de 4,36, 4,08 e 5,16, nas escolas estaduais, municipais e qüência da cárie dentária foi baixa, a maioria dos adolescentes relatou bons hábitos de higiene bucal e a condição periodontal nos adolescentes foi favorável. Palavras-chave Adolescência, Saúde bucal, Cárie dentária, Doença periodontal, Hábitos

S a ntos, N.

et al.

Introdução

É crescente a preocupação por parte dos pesquisadores na investigação de aspectos relativos à saúde dos adolescentes, bem como no estabelecimento de medidas que visem à obtenção e manutenção de condições aceitáveis de saúde, incluindo a saúde bucal. Dados do Levantamento Epidemiológico Nacional realizado no Brasil (Saúde Bucal/SB 2003) revelaram um quadro insatisfatório da saúde bucal dos adolescentes brasileiros, com discrepâncias regionais, quando se comparam as regiões norte e nordeste com o sul e sudeste do país, e demonstrou um caráter mais crítico quando se verifica que, em todo o território nacional, cerca de 14% dos adolescentes brasileiros nunca foram ao dentista e, no nordeste, esse percentual se eleva para 2%. Alarmante também é constatar que o motivo da ida ao dentista tenha sido a experiência de dor dentária, relatada por quase um terço dos adolescentes do estudo1.

Em relação à auto-avaliação sobre as condições de saúde bucal, este levantamento nacional demonstrou que quase metade dos adolescentes brasileiros avaliados considerou péssima, ruim ou regular sua condição de saúde bucal, e elevada parcela destes relatou ter alguma dificuldade mastigatória e/ou dor dentária1.

Na literatura brasileira, existem poucos estudos sobre a saúde bucal dos adolescentes. Em se tratando da cárie dentária, em São Paulo, Gushi et al.2 buscaram delinear o perfil epidemiológico de cárie dentária em adolescentes de 15 a 19 anos de idade, observaram prevalência de 90,4% e CPO-D = 6,4 (dentes cariados, perdidos ou com extração indicada e restaurados), sendo mais acometidos os adolescentes do sexo masculino2.

Em Salvador, Bahia, um estudo com 3.313 adolescentes descreveu a prevalência de cárie dentária em escolares das redes pública e privada de 12 a 15 anos de idade, dentre os quais 50% relataram ter ido ao dentista no último ano que antecedeu a pesquisa. Foi constatado também um incremento na experiência de cárie dentária dos 12 anos de idade, de 1,4 para 2,6 aos 15 anos. Analisando a composição percentual do CPO-D, a maior proporção deveu-se a dentes cariados para a idade de 12 anos e a dentes restaurados para a idade de 15 anos. Os valores médios do CPO-D foram considerados baixos e embora se observasse uma maior proporção de dentes cariados na rede pública e dentes restaurados na rede privada, não houve diferença na distribuição entre as redes pública e privada3. Para a doença periodontal, o número de pes- quisas é ainda menor. Provavelmente, isto se reflete na crença de que, nesta faixa etária, não são identificadas com muita freqüência alterações periodontais com conseqüências graves. Entretanto, a detecção precoce, prevenção e tratamento da doença periodontal resultará numa população adulta mais saudável, do ponto de vista da saúde bucal.

Nos estudos analisados em adolescentes sobre doença periodontal, a condição mais prevalente foi a gengivite na forma leve com prevalência superior a 70%. Porém, este grupo também pode desenvolver formas graves da doença periodontal, caracterizadas por reabsorção óssea e perda de inserção (periodontite), cuja prevalência é bastante variável, com valores entre 0,1% a 7%4-7.

Diante deste panorama, surge a necessidade de estudos regionais, com vistas a contribuir com a programação/implementação de políticas e de programas em saúde bucal, na tentativa de reversão dos índices insatisfatórios, assim como possibilitar a elaboração de indicadores de saúde bucal na faixa da adolescência. O objetivo deste trabalho foi caracterizar a saúde bucal em dois grupos de adolescentes nas cidades de Recife, Pernambuco e Feira de Santana, Bahia, identificando características relacionadas à higiene, bem como estimando clinicamente as condições de saúde bucal através dos índices de cárie dentária e doença periodontal.

Método

Os dados foram obtidos a partir de dois estudos: um estudo descritivo de corte transversal, com amostra aleatória e proporcional de adolescentes das escolas públicas e privadas do município de Feira de Santana, Bahia e um estudo exploratório desenvolvido na cidade de Recife, Pernambuco, Brasil.

O primeiro estudo teve como objetivo identificar as condições de saúde bucal de uma amostra de estudantes na idade de 12 anos, área urbana do município de Feira de Santana8. O estudo exploratório verificou a freqüência de doenças orais entre adolescentes asmáticos e não asmáticos atendidos nos ambulatórios de alergia e puericultura do Hospital das Clínicas de Pernambuco e do Hospital Municipal Helena Moura, na faixa etária de 10 a 18 anos, na cidade de Recife, Pernambuco, Brasil9.

No estudo conduzido em Feira de Santana, a população de referência foi constituída de escolares com 12 anos de idade das redes estadual,

1157 Ciência & Saúde Coletiva, 12(5):15-16, 2007 municipal e particular. O tamanho da amostra foi calculado segundo preconizado por Pinto10, adotando como critério para cálculo o índice CPOD médio de 1,91, com desvio padrão igual a 1,72 e o nível de significância de á= 0,05. Ao tamanho calculado da amostra de 384 foi acrescido um percentual de 20%, para eventuais perdas, o que resultou numa amostra de 461 crianças em cada tipo de escola, perfazendo um total de 1.383 escolares. A seleção da amostra foi feita em dois estágios. No primeiro estágio, a fim de se selecionar as escolas, construiu-se um cadastro, calculou-se o número de escolas segundo o princípio de amostra por conglomerados e procedeu-se ao sorteio. No segundo estágio, para definição dos alunos participantes, a partir da relação das turmas com alunos de 12 anos matriculados nas escolas sorteadas, construiu-se o rol destes alunos segundo cada grupo de escolas. Da listagem geral construída para cada tipo de escola, realizou-se o sorteio sistemático dos adolescentes.

No segundo estudo, a população de referência constituiu-se de adolescentes que freqüentavam o serviço público de saúde na cidade de Recife. Para o cálculo da amostra, tomou-se como referência o estudo de Mc Derra et al.1, de 1998, que apresentou uma freqüência de alterações orais de 50% para adolescentes asmáticos e de 19% para não asmáticos. Utilizou-se uma amostra de conveniência calculada a partir da diferença de proporção12 entre a condição oral e a presença da asma.

Em ambos os estudos, foi realizado o exame bucal, utilizando espelho plano, sonda exploradora de ponta romba e sonda periodontal.

No estudo de Feira de Santana, a coleta de dados foi realizada, no ano de 2002, em ambiente escolar, com iluminação natural seguindo critérios da Organização Mundial da Saúde13. Para medir a reprodutibilidade e concordância do examinador, utilizou-se o índice Kappa, que variou de 0,84 a 1,0. Os agravos avaliados foram: a cárie dentária e condição periodontal. Também foram aplicados formulários aos pais e aos adolescentes para registrar características socioculturais e hábitos relacionados à higiene oral.

O segundo estudo foi realizado em 2005, no período de abril a outubro, em clínicas odontológicas vinculadas à Universidade Federal de Pernambuco – UFPE/PE. Os parâmetros avaliados foram cárie dentária, sangramento gengival, placa dentária visível, além de também terem sido coletadas informações sobre comportamentos e atitudes dos adolescentes em relação a sua saúde bucal. Nos dois estudos, foram respeitados os requi- sitos da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde/Ministério da Saúde do Brasil. Foram obtidas aprovações dos Comitês de Ética e Pesquisa da Faculdade de Saúde Pública/Universidade de São Paulo (Parecer COEF no 036/01) no primeiro estudo da Universidade Federal de Pernambuco (ano de 2005, Prot. 049/2005) no segundo.

Para a análise dos dados, utilizou-se o programa SPSS 9.0 for Windows para o primeiro estudo, sendo executada a análise descritiva. Os resultados do segundo estudo foram analisados através do programa Epi Info, versão 6.04. O nível de significância utilizado foi de α = 0,05.

Resultados

Estudo na cidade de Recife, Pernambuco, Brasil

A faixa etária dos adolescentes foi de 10 a 18 anos, dos quais 52,5% eram do sexo masculino, sendo que a maioria dos pais/responsáveis possuía baixos níveis de instrução e de condição socioeconômica (Tabela 1).

A auto-avaliação apontou que grande parte dos adolescentes considerava sua condição dentária insatisfatória (37,5%) e, em relação aos hábitos, a maioria realizava escovação dentária duas ou mais vezes ao dia, sendo que um adolescente admitiu nunca escovar os dentes. Constatou-se também que quase todos os adolescentes não faziam uso de qualquer suplemento com fluoretos (Tabela 2).

Quando questionados sobre o recebimento de instruções de higiene oral, quatro adolescentes responderam não ter recebido qualquer orientação; para aqueles que foram orientados, verificou-se que apenas dois adolescentes receberam essas orientações de médicos, embora freqüentassem regularmente o ambulatório de puericultura para acompanhamento do seu desenvolvimento físico (Tabela 2)

Na Tabela 4, são apresentados os dados relativos à condição clínica bucal. Para o grupo total de adolescentes, na avaliação da higiene oral, verificou-se que 91,4% dos adolescentes apresentaram acúmulo de placa em mais de 30% das superfícies examinadas. O cálculo dentário esteve presente em quinze adolescentes (37,5%). Não foram verificadas diferenças estatisticamente significativas em relação ao sexo para estes parâmetros.

Na avaliação da cárie dentária, a mediana para o CPO-D foi de 1,5 (0-3,5), verificando-se também que apenas 35,0% dos adolescentes apresen-

S a ntos, N.

et al.

tavam valores médios do CPO-D maior que 3,0. Não foram identificadas diferenças significativas entre os sexos.

Em relação à condição periodontal, o sangramento gengival teve mediana 27 (18-36), sendo que 35% dos adolescentes apresentavam sangra- mento gengival generalizado. Alterações periodontais como recessão e hiperplasia estiveram presentes em 35% e 25% dos adolescentes, respectivamente. Para a hiperplasia, os meninos foram mais acometidos e esta diferença foi estatisticamente significativa.

Tabela 1Caracterização da amostra dos adolescentes segundo sexo, escolaridade da mãe e renda familiar nas

cidades de Recife, 2005 e Feira de Santana, 2002.

Variável

Sexo

Masculino Feminino

Escolaridade da mãea 1o grau incompleto 1o grau completo 2o grau incompleto 2o grau completo 3o grau incompleto 3o grau completo Pós-graduação

3 S.M.

Renda familiarb < 1 S.M.* 2 S.M. > 3 SM

Falta a informação para: e = 1 pesquisado no estudo de Recife; S.M.= Salário Mínimo; Conforme referido no texto, o n de pais = 284, 247 e 262 nas escolas respectivamente no estudo de Feira de Santana.

Recife(n = 40) Feira de Santana**

Estadual (n=318)Municipal (n=334)Particular (n=319)

Tabela 2. Auto-avaliação de adolescentes (40) quanto aos hábitos e orientações para higiene oral, freqüência de escovação, uso de bochecho fluoretado, de acordo com o sexo. Recife, 2005.

Variável

Auto-avaliação do adolescente da condição bucal1, *

Satisfatória Insatisfatória

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