A natação como conteúdo da disciplina de educação física

A natação como conteúdo da disciplina de educação física

9º Congresso de Ed. Física e Desporto dos Países de Língua Portuguesa

2002w.fcdef.up.pt

São Luís - Maranhão.

R. Fernandes, P. Morouço, D. Marinho, D. Soares, J. Figueiredo, J. Mota, L. Ramos, V. Barbosa, A. B. Lima; S. Soares

Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física. Universidade do Porto, Portugal

Introdução

A didáctica da natação não tem sido um campo fértil de pesquisa científica, o que se deve, provavelmente, ao facto da aprendizagem ser multifactorialmente condicionada, tornando difícil estabelecer e operacionalizar meios e técnicas capazes de produzir resultados fiáveis. Como consequência, muitos dos trabalhos realizados nesta área são especulativos.

A questão de qual a primeira técnica de natação a ser introduzida e exercitada após a realização da adaptação ao meio aquático (AMA) não é nova para a comunidade técnica e científica ligada a esta modalidade (Wilke, 1995 e Sanders, 2001) e é um bom exemplo do anteriormente exposto. Os trabalhos encontrados nesta área não são muito numerosos e, na sua maioria, podem ser classificados como textos técnicos de opinião, consubstanciados na experiência prática de cada autor. Uma das consequências do cariz pouco científico dos trabalhos é o aparecimento de correntes de ensino muito diversas e, caso não raro, pouco consensuais, o que levanta sérios problemas ao professor de Educação Física (EF) não especialista em natação.

O ensino das técnicas de nado constitui uma etapa fundamental na formação das competências do nadador (Vilas-Boas, 2001), daí emergindo o interesse em saber se existe alguma concordância ou razão para definir qual a primeira técnica a ser ensinada. Para a maioria dos autores, esta eleição depende do objectivo que se pretende (Navarro, 1978).

Como tal pretendemos, através da revisão de algumas teorias de ensino da natação, definir as vantagens e desvantagens das diferentes técnicas de nado e apresentar uma proposta de orientação relativa à definição de qual das técnicas deve ser ensinada, pelo professor de Educação Física escolar, após a AMA.

Técnicas alternadas vs. simultâneas

Segundo Navarro (1978), é importante que o aluno tenha, desde cedo, uma primeira experiência na maioria dos gestos dos quatro estilos de nado, embora a definição da ordem de aquisições especificas de cada técnica tenha que estar definida. Actualmente, as técnicas alternadas (TA) parecem ser as privilegiadas na iniciação ao nado formal, dada a simplicidade dos gestos técnicos que as caracterizam (Dubois e Robin, s.d.) e a sua menor exigência coordenativa. Vilas-Boas (2001) justifica a opção pelas TA como primeiros conteúdos de ensino pelo facto destas serem, pelo menos aparentemente, mais próximas de opções de locomoção características da espécie humana. Relembre-se que o termo crol é a tradução linguística de crawl, que significa, literalmente, "rastejar" (em analogia ao rastejar dos bebés). O mesmo autor refere, ainda, que se deve ter em consideração que as competências desenvolvidas na aprendizagem das TA, ainda que arcaicas, podem ser importantes para a aprendizagem das técnicas simultâneas. A este propósito sublinha a possibilidade da existência de transferência positiva de aquisições relativas à técnica de crol para a técnica de mariposa.

Teorias mais antigas evidenciam as qualidades da técnica de bruços como primeira abordagem ao nado formal. Segundo Navarro (1978) e Lawton et al. (1995), o bruços é a técnica mais fácil de nadar. A manutenção da cabeça numa posição emersa facilita o nado àqueles cujo contacto da água com a face é difícil ou mesmo intolerável, levando o bruços a ser encarado como uma opção de recreação popular. No entanto, os estudos de Stallman et al. (1986) mostram que a energia gasta quando se nada sempre com emersão da cabeça é superior à que se dispende com o nado normal, sendo, talvez por isso, reduzido o número de autores que a defendem como primeira técnica a ser ensinada.

Fernandes (2001) refere, também, que a acção dos membros inferiores (MI) nesta técnica de nado implica a realização de gestos difíceis e anti-naturais, sendo esta mais uma das razões apontadas para a sua aprendizagem em fases mais avançadas.

Sendo uma técnica descontínua, o bruços implica, ainda, uma alternância entre momentos propulsivos e resistivos, que se não forem adequadamente coordenados a tornarão numa técnica profundamente desgastante.

A técnica de mariposa parece reunir consenso na decisão do seu ensino numa fase mais tardia da aprendizagem e não imediatamente a seguir à AMA (Soares e Vilas-Boas, 2001). A justificação encontrase no seu carácter eminentemente condicional, sendo, em conjunto com o bruços, as técnicas de natação menos económicas (Craig e Pendergast, 1979; Holmér, 1983 e Vilas-Boas, 1993) e de mais difícil coordenação entre membros superiores, MI e respiração (Fernandes, 2001; Soares, 2000 e Vilas-Boas, 2001).

Técnica de crol vs. Técnica de costas

A principal razão subjacente à opção do costas como primeira técnica de ensino é, para a maioria dos autores, o não condicionamento das acções motoras pela respiração. De acordo com Raposo (1978), estando o problema do domínio da respiração aparentemente mais facilitado, a técnica de costas parece apresentar um menor número de problemas a resolver no que concerne à coordenação e sincronização dos diferentes elementos que integram qualquer técnica. Dubois e Robin (s.d) referem que o costas permite uma colocação respiratória que tolera incorrecções, onde a “vigilância” privilegia o ensino. Chollet (1997) salienta, pelo seu lado, que esta técnica de nado evita a ansiedade associada ao aprender com a cara em imersão e a acção dos MI pode ser bem ministrada e desenvolvida. O mesmo é explicado por Sanders (2001) que considera que, visto não ser necessário imergir a face, existe um nível confortável que permite ao aprendiz concentrar-se nas próprias acções, favorecendo uma maior libertação sensorial, especialmente visual e auditiva, nas primeiras fases de aprendizagem. Apesar de declaradamente a favor do ensino do costas como primeira técnica, Chollet (1997) alerta para o facto de ter em atenção que a orientação dos orifícios respiratórios para cima pode facilitar a entrada da água, o que é por vezes factor de grande perturbação.

Soares (2000) apresenta uma proposta de ensino alternativa em que as duas TA são aprendidas simultaneamente, partindo dos elementos mais simples para os mais complexos. De acordo com esta autora, as discussões relativas à imersão da face são irrelevantes, dado que a aquisição dessa adaptação deverá, obrigatoriamente, acontecer durante a fase de AMA.

A natação integrada na Educação Física escolar

Quando o ensino da natação vai ser ministrado a um grupo de alunos com experiências e vivências diferentes na modalidade, a decisão pela primeira técnica de nado a ser ensinada tem, na nossa opinião, que se fundamentar numa avaliação prévia que permita registar as principais dificuldades dos alunos na sua relação com o meio aquático. As determinantes mais importantes na tomada de decisão relativa à primeira técnica a ensinar parecem ser a tolerância da água no contacto com a face e a capacidade de adopção das posições de equilíbrio ventral e dorsal. Vejamos três exemplos de resultados hipotéticos decorrentes de uma avaliação prognóstico e a decisão consonante no tocante à primeira técnica a ser abordada, à luz das orientações da literatura:

1. Os alunos passaram por um processo de AMA que não lhes resolveu todos os problemas relativos ao contacto da face com a água. Dado que a fuga da face ao contacto com a água vai induzir perturbações sérias no alinhamento horizontal ventral, uma boa solução será começar pela técnica de costas. 2. Os alunos passaram por um processo de AMA que não lhes resolveu todos os problemas de equilíbrio horizontal dorsal. A dificuldade em manter a anca numa posição elevada, por exemplo, tornará o nado de costas penosamente menos económico, pelo que o início do ensino pelo crol parece ser uma melhor opção. 3. Os alunos passaram por um processo adaptativo que lhes resolveu todos os problemas de contacto da face com a água e de equilíbrio horizontal, ventral e dorsal. Neste caso, o ensino conjunto das TA poderá ser uma boa decisão.

Caberá, então, ao professor de Educação Física avaliar os alunos e confrontar os seus resultados com as posições e discussões dos diferentes autores, no sentido de perceber o que é melhor para o seu caso particular.

Conclusões

A literatura mais actual parece reunir consenso quanto à utilização das TA na iniciação ao ensino das técnicas de nado padronizadas.

Vários autores recomendam que a iniciação ao nado formal seja feita pela técnica de crol, dada a sua semelhança com as primeiras formas de locomoção humana.

A opção metodológica pela técnica de costas parece assentar no pressuposto de que a não imersão da face permite a adopção de uma melhor posição de nado e de um melhor controlo dos movimentos.

O ensino conjunto das duas técnicas, defendido por Soares (2000), constitui-se como uma posição diferente que ultrapassa a questão levantada neste trabalho.

No âmbito do ensino da natação integrado nos programas de Educação Física escolar, a decisão do professor pela primeira técnica a ser ensinada, ou eventualmente, pelo seu ensino conjunto, deve partir de uma avaliação do nível de AMA dos alunos de cada turma.

Bibliografia

Chollet, D. (1997). Natation Sportive. Approche Scientifique (2ª édition). Editions Vigot, Paris.

Craig, A. B., Jr. e Pendergast, D. R. (1979). Relationships of stroke rate, distance per stroke and velocity in competitive swimming. Med. Sci. Sports, 1(3): 278-283.

Dubois , C. e Robin, J.-P. (s.d.). Natation «De L’École…aux associations». Éditions Revue EPS, Paris.

Fernandes, R. (2001). Avaliação qualitativa da técnica de nadadores préjúniores. Revista Natação: 1, Caderno Técnico.

swimming, p. 154-164. Human Kinetics. Champaign, Ilinois

Holmér, I. (1983). Energetics and mechanical work in swimming. In: A. P. Hollander, P. Huijing e G. de Groot (eds.), Biomechanics and medicine in

Lawton, J. Dalrymple-Smith, F., Way, V. (1995). Introduction to swimming, teaching and coaching. Swimming Times Limited.

Navarro, F. (1978). Pedagogia de la natación. Editorial Miñón, Valladolid

Raposo, A. J. (1978). O ensino da natação. Edições ISEF, Lisboa

Sanders, R (2001). What stroke should be taught first? ISBS Coaches Info Service, w.sportscoach-sci.com

Soares, S. (2000). Natação. In: Educação Física no primeiro ciclo, 154-173, CMP e FCDEF-UP.

Soares, S. e Vilas-Boas, J. P. (2001). Sequência metodológica para aprendizagem das técnicas alternadas. Rev. Natação, nsº3.

Stallman, R., Major, J., Hemmer, S., Haavaag, G. (1986). Energy expenditure in the breaststroke and swimming time to exhaustion. In: 5th International Symposium for Biomechanics and Medicine in Swimming. Bielefeld, West Germany

Vilas-Boas, J.P. (1993). Caracterização biofísica de três variantes da técnica de bruços. Dissertação apresentada às provas de douturamento no ramo de Ciências do Desporto, especialidade de Biomecânica do Desporto da Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física da Universidade do Porto. Medisa - Edições e divulgações científicas. Porto.

Vilas-Boas, J. P. (2001). O ensino e o aprimoramento das técnicas de Bruços e Mariposa. In: 1ªs jornadas de natação – Feira Viva. Santa Maria da Feira.

Wilke, K. (1995). Teaching and Practising Swimming Skills. Comunicações do XVIII Congresso Técnico-Científico da Associação Portuguesa de Técnicos de Natação. Póvoa de Varzim.

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