desnutrição na adolescencia

desnutrição na adolescencia

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Introdução

A adolescência é um tempo de intenso e rápido crescimento e desenvolvimento físico, psíquico e social, demandando um aumento das necessidades nutricionais assim como a habilidade do indivíduo em satisfazer estas necessidades.

O crescimento ocorre numa velocidade acelerada durante o estirão puberal, com um aumento médio de peso de 16 g/dia para o sexo feminino e 19g/dia para o sexo masculino. Nesta etapa, completa-se a construção mineral esquelética, através do crescimento máximo da massa óssea, fundamental para a manutenção esquelética e a prevenção da osteoporose. Neste período etário se intensificam as lesões da aterosclerose e também ocorre o pico de incidência de anorexia e bulimia nervosa. O "sobrepeso" e a obesidade causam efeitos prejudiciais décadas mais tarde. Portanto, a adolescência é um tempo crítico e oportuno para a prevenção e a intervenção precoce.(2)

 

Fatores de risco nutricionais

É importante considerar sempre as condições mais comuns que afetam o estado nutricional dos adolescentes:

  • conteúdo alimentar ingerido inadequado (" ingesta")

  • condição sócio-econômica

  • doenças nutricionais específicas

  • fatores psicossociais

  • estilos de vida

O conteúdo de ingestão alimentar inadequado pode resultar do uso freqüente das "dietas e modismos" ou de "pular" refeições, monotonia de hábitos na escolha de alimentos, troca de refeições por lanches comerciais rápidos impropriamente escolhidos, voracidade ou uso excessivo de suplementos dietéticos. Todas estas situações são freqüentes entre adolescentes desde o momento em que eles começam a sair do controle e da supervisão familiar no planejamento das refeições, na compra dos alimentos e nos horários de refeições. A condição sócio-econômica pode agravar estes problemas e a pobreza acresce outros, tais como a indisponibilidade de certos alimentos fundamentais, além das dificuldades relacionadas à falta de refrigeração ou ao preparo e cozimento insatisfatórios.

As doenças nutricionais mais comuns:

  • anemia ferropriva,

  • desnutrição,

  • hiperlipidemia,

  • obesidade

  • diabetes mellitus,

  • inflamatorias intestinais,

  • parasitoses,

  • insuficiência renal,

  • fibrose cística,

  • e outras doenças crônicas.

 

Orientação nutricional

  • Comer uma variedade de alimentos

  • Realizar 5 refeições diárias (café, almoço e janta, além de 2 pequenos lanches intercalados)

  • Manter um peso saudável balanceando "ingesta" e gastos calóricos

  • Escolher uma dieta pobre em gorduras saturadas e colesterol

  • Comer frutas, verduras/legumes, e grãos integrais suficientes

  • Beber líquidos em quantidade adequada, principalmente nos meses de verão e após exercícios

  • Evitar "guloseimas", "refrigerantes" e "belisquetes", nos horários entre as refeições.

A pirâmide dos alimentos compreende os 5 grupos de nutrientes:

  • leite e seus derivados: 2 a 4 porções ao dia

  • carnes de gado, aves e peixe; ovos ou outras fontes de proteínas: 2 a 3 porções ao dia

  • cereais, pães, massas, tubérculos, leguminosas: 6 a 11 porções ao dia

  • verduras (vegetais e hortaliças) e frutas: 3 a 5 porções ao dia

  • gorduras, óleos, manteiga: devem ser usados de forma restrita

 

Principais necessidades nutricionais

Energia: as necessidades calóricas podem ser estimadas em kcal/ cm de altura variando com idade e sexo, acrescentando os gastos com as atividades extras.

O consumo máximo no sexo feminino é cerca de 2.550 kcal na época da menarca, 12 anos; no sexo masculino, acompanha o estirão puberal até cerca de 3.400 kcal; depois dos 16 anos sofre uma diminuição progressiva.

Proteínas: as necessidades proteicas também podem ser expressas em termos de sexo e altura para os adolescentes, o máximo também coincide com as necessidades calóricas e podem ser estimadas em 12 a 15% do total energético.

Gorduras: na dieta, a gordura serve como fonte concentrada de energia (9 kcal/g), assim como um veículo para as vitaminas lipossolúveis e fonte dos ácidos graxos essenciais, cerca de 30% das necessidades. Neste papel, as gorduras são, ao mesmo tempo, uma "bênção" e um "pecado". Os adolescentes, na velocidade máxima do estirão puberal, necessitam tanta energia que sem as gorduras a dieta ficaria volumosa e intragável. Por outro lado, o excesso facilitado dos "petiscos" gordurosos na frente da "televisão" e a vida sedentária das sociedades mais afluentes são responsáveis pela "epidemia" da obesidade e aterosclerose. É importante procurar diminuir a porcentagem de gorduras totais e saturadas na dieta para influir beneficamente sobre o perfil lipídico e a composição corporal.

Carboidratos: os carboidratos fornecem a principal fonte de energia para os adolescentes e devem compreender cerca de 55% da "ingesta" calórica. Além de serem agentes do "doce" açúcar, são fontes de fibras e têm importância nas características neurolépticas dos alimentos.

Minerais: as necessidades de cálcio são ainda controversas, mas seu papel nos efeitos das dietas restritivas, na amenorréia e nas competições esportivas sobre a mineralização óssea e a osteoporose são definitivas. Noventa e sete por cento (97%) do cálcio corporal está contido na massa esquelética, que se encontra em franco incremento durante a adolescência, daí a necessidade de aumentar a "ingesta" para compensar a demanda e evitar a osteopenia.

As necessidades de ferro e zinco também estão aumentadas durante o estirão puberal e aumentam mais em função das perdas menstruais e das atividades físicas e musculares. As deficiências comprovadas de zinco e ferro causam retardo de crescimento e atraso puberal.

Vitaminas: as necessidades vitamínicas estão todas aumentadas durante o anabolismo e produção energética na adolescência. Outros fatores também podem aumentar estas necessidades: atividade física, gravidez, contracepção oral, doenças crônicas. A "ingesta" de vit. A costuma ser insuficiente em adolescentes e as necessidades estão aumentadas pela sua participação na diferenciação e proliferação celular. As vitaminas do complexo B têm papel fundamental no metabolismo energético celular e durante o crescimento. A vit. C é essencial para a síntese de colágeno e auxílio na absorção do ferro, portanto sua necessidade também acompanha paralelamente o crescimento puberal. A vit. D é essencial para absorção do cálcio e a mineralização óssea, além do folato para a síntese do ADN. A suplementação de ácido fólico deve ser prescrita de rotina em adolescentes grávidas e de baixo nível sócio-econômico.

 

Principais distúrbios nutricionais

Anemia por deficiencia de ferro: pode ser definida por uma taxa de hemoglobina menor que o ponto de corte para idade, sexo, raça, usando critérios diagnósticos do CDC,(8) mas sem qualquer dúvida há anemia num adolescente com a taxa menor que 11,6 g/ dl, ou hematócrito abaixo de 35%. Os androgênios da puberdade estimulam a eritropoietina resultando num aumento da hemoglobina com a evolução da maturação sexual. O início das menstruações aumenta as perdas de sangue e de hemoglobina que precisam ser repostas. Deve-se prescrever um suplemento de ferro em torno de 100 mg/dia. A contagem de reticulócitos deve aumentar em 10-14 dias e a taxa de hemoglobina deve estar normalizada em um mês após o tratamento adequado.

Desnutrição crônica: muitas vezes pode passar despercebida em adolescentes de baixa estatura com atraso puberal, mas deve ser sempre considerada como um diagnóstico provável nos adolescentes com deficits de IMC/idade < 5 percentil (igual ou menor que 5) e história positiva para situações de maior risco, como parasitoses, infecções crônicas, pobreza, desintegração ou falta de vínculos afetivos, familiares ou sociais e/ou evasão escolar.

O papel da recuperação nutricional com alimentos de baixo custo mas de alto valor nutritivo é fundamental para o adolescente romper este ciclo vicioso e recuperar seu potencial genético de crescimento e desenvolvimento.

Anorexia nervosa: inanição auto-induzida, mais freqüente em adolescentes do sexo feminino, que apresentam padrão alimentar desordenado e restritivo, com distúrbio da imagem corporal, baixo peso, com recusa de manter o peso ideal > 85% do esperado para idade e altura, e amenorréia. Muitos outros sinais clínicos, como palidez, carotenemia, pele ressecada com lanugo, equimoses, extremidades frias, podem estar associados com problemas psicológicos como depressão, distúrbio obsessivo-compulsivo, hiperatividade, disfunção familiar e pressões sociais para se manter magra apesar da intensa e abrupta perda de peso. Realimentação é o principal objetivo do tratamento, com aumentos graduais da "ingesta" calórica, para se evitar outros disturbios metabólicos como edema e complicações cardíacas ou gastrintestinais. A psicoterapia, e a terapia familiar também estão indicadas como modalidades de tratamento complementar.

Bulimia nervosa: também um disturbio alimentar que afeta mais adolescentes do sexo feminino, podendo anteceder ou alternar com sintomas de anorexia. São períodos de inanição seguidos por voracidade descontrolada e "purgação", que pode se manifestar por vômitos auto-induzidos, ou o uso de diuréticos, laxantes ou exercícios excessivos. Estes ciclos de voracidade/purgação devem ocorrer pelo menos 2 vezes por semana nos últimos 3 meses da avaliação, para confirmar o diagnóstico. Os vômitos ocasionam aumento de parótidas, perda do esmalte dentário e cicatrizes sobre os dedos (sinal de Russel). Pode ou não haver perda de peso ou períodos de amenorréia, mas a adolescente permanece com distúrbio da imagem corporal e sintomas de insatisfação com o corpo. Enquanto que na anorexia a personalidade é de "bom comportamento", tímida e isolada, na bulimia pode ser promíscua, com abuso de drogas e episódios de "atuação" ("aprontar" riscos). O tratamento é centrado na terapia de comportamento cognitivo e nos antidepressivos (inibidores da captação de serotonina ou tricíclicos). A terapia nutricional deve enfocar a normalização do padrão alimentar, a reversão da recusa dos alimentos e o controle da voracidade. A perda de peso deve ser desencorajada até se estabelecer padrões normais de equilíbrio alimentar.

Aterosclerose: Os fatores de risco são facilmente identificados, portanto podem ser planejadas intervenções adequadas e ações de prevenção: história familiar de problemas cardíacos ou obesidade, alta taxa de colesterol, dislipidemia, hipertensão arterial, fumo, vida sedentária. O rastreamento começa com a história familiar, se o pai ou avós tiveram sintomas de enfarte, derrame ou quadro similar antes dos 55 anos ou, se o colesterol estiver acima de 240 mg/dl, deve-se realizar no adolescente dois exames de perfil lipídico em jejum. Se o valor estiver dentro dos limites normais, a recomendação é repetir o teste em 5 anos.

Valores limítrofes devem resultar numa avaliação dos fatores de risco nutricionais com mudanças de hábitos alimentares e repetição dos exames a cada ano. 

A modificação da dieta deve alcançar dois objetivos principais: a diminuição do conteúdo total de gorduras (em média não mais que 30% das calorias totais), das gorduras saturadas (menos que 10% das calorias totais) e diminuição do colesterol (menos que 300 mg/dia), além do controle do peso (IMC próximo ao percentil 50).

As proteínas devem representar cerca de 15 a 20% e os carboidratos 55% das calorias totais. A prática de exercícios deve ser incentivada . O tratamento farmacológico da hipercolesterolemia está indicado nos adolescentes com níveis de colesterol - LDL acima do percentil 99 com história familiar positiva.

Obesidade: as definições de sobrepeso e obesidade dependem de vários critérios. Geralmente, usamos o consenso, publicado pela Organização Mundial de Saúde(6) de IMC/idade >85 percentil para sobrepeso e IMC/idade > 30 kg/m2 para obesidade. Uma revisão recente, realizada por autores americanos,(10) considera o IMC entre os percentis 85 e 95 como de alto risco para obesidade e >95 como obesidade, para adolescentes.

As principais mudanças na dinâmica da família, na sociedade, no abastecimento de alimentos e no tempo de atividade de lazer, todas elas causaram um impacto sobre o aumento dos índices de obesidade. A história familiar é importante porque o risco é de 30% se um dos pais for obeso e de 70% se os dois forem.

Conclusão

Analisando este trabalho de pesquisa conclui-se que os adolescentes devem ter uma alimentação observada de perto, uma vez que neste período de suas vidas estão passando por diversas mudanças físicas e psicológicas, para que não adquiriam doenças devido a uma má alimentação.

REFERÊNCIAS:

http://ral-adolec.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-71301998000100004&lng=es&nrm=iso

 

 

 

 

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