Um olhar sobre a Loucura de Foucault

Um olhar sobre a Loucura de Foucault

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CienteFico. Ano I, v. I, Salvador, janeiro-junho 2003

Um Olhar Sobre a Loucura de Foucault Sabrina Camargo

Resumo

O presente trabalho tem por objetivo apresentar o conceito de loucura desenvolvido por Michel Foucault em seu livro História da Loucura. Descreve-se o fenômeno da loucura desde o Renascimento até a modernidade, mostrando que a maneira de o homem tratá-la foi mudando através dos séculos. Com o advento da Psiquiatria, houve algumas transformações no tratamento fornecido à loucura: o louco não tinha chão, não era dono de seu pensamento, de sua cidadania, de sua identidade, nem tampouco de seu comportamento. A metodologia escolhida foi a epistemológica, realizando-se, dessa forma, uma leitura detalhada das idéias do autor. Considera-se uma pesquisa de suma importância devido ao valor que se tem dado à loucura e aos inúmeros estudos acerca de suas manifestações.

Palavras-chave Loucura, epistemologia, Renascimento, modernidade, Psiquiatria, exclusão.

Este trabalho tem por objetivo apresentar o conceito de loucura desenvolvido por Michel Foucault em seu livro História da Loucura. O tema escolhido surgiu de uma coincidência a partir de visitas em hospitais psiquiátricos e da leitura da obra de Foucault. A metodologia escolhida foi a epistemológica, realizando-se, dessa forma, uma leitura detalhada das idéias do autor. Cabe ressaltar que, além da leitura de História da Loucura, ainda foi utilizado um fragmento do autor Isaías Pessotti extraído de seu livro O Século dos Manicômios,* por apresentar uma forte relação com o tema abordado.

Por ser uma pesquisa epistemológica, não houve o desenvolvimento empírico, bem como trabalhos de campo e de laboratório. Considera-se uma pesquisa de suma importância

manifestações, sobretudo porque demonstra que loucura não é categoria científica neutra
Um estudo epistemológico sobre o conceito de loucura, segundo Michel Foucault

devido ao valor que se tem dado à loucura e aos inúmeros estudos acerca de suas

Em seu livro História da Loucura, Foucault apresenta o fenômeno da loucura desde o Renascimento até o seu total estabelecimento na sociedade. Sendo que, não só a maneira de o homem lidar com a loucura sofreu transformações com o passar dos séculos, mas também o modo pelo qual esta foi encarada pela razão.

Toda a narrativa de Foucault começa com a disseminação da lepra através das Cruzadas. Estas, por motivos diversos, iam até o Oriente, principal foco de contaminação da enfermidade, e de lá traziam a doença, que começou a se espalhar rapidamente por toda a Europa, atingindo muitas pessoas. Inúmeros estabelecimentos precisaram ser construídos para abrigar tanta gente.

De início, o poder real mantinha e assumia o controle e a reorganização dos bens dos leprosários. No entanto, as rendas obtidas por estes bens eram empregadas não só no tratamento de soldados, como também na alimentação de homens pobres.

Em 1672, dois leprosários na França – Saint Lazare e Mont Carmel – assumem a função do poder real e passam a administrar os outros leprosários. Em 1695, os bens passam a ser administrados por outros hospitais e estabelecimentos de assistência. No entanto, a lepra já começa a desaparecer (pelo fim das Cruzadas), e os bens e as rendas destinados a ela são direcionados com bem mais freqüência aos pobres.

O personagem do leproso é como um ser que já carrega consigo uma marca, um estereótipo, com inúmeras atitudes já predeterminadas pela população, por isso excluído desta. Há realmente uma contradição a respeito do tratamento dos leprosos pela Igreja e pela população porque, segundo a Igreja, a existência dos leprosos é uma manifestação de Deus – ainda que os leprosos sejam retirados da sociedade e da “comunidade visível da

Igreja” (Foucault, 1972, p. 6). É uma manifestação de Deus, no sentido de que foi este que criou os leprosos e ordenou que estes viessem ao mundo.

Com falsas idéias e muita hipocrisia, a Igreja afirma que, embora afastados da Igreja e das outras pessoas, os leprosos não estão afastados de Deus. Assim, é preciso que tenham paciência, para que, assim, o lugar no reino dos céus lhes seja garantido.

Com o fim da lepra, a estrutura onde o leproso era mantido permanece. Contudo, este lugar será para sempre um local de exclusão, onde outros excluídos serão encaminhados e esperarão a ‘salvação’. No lugar da lepra surgem as doenças venéreas, que se disseminam rapidamente. Primeiramente, os doentes são colocados nos antigos hospitais dos leprosos. Porém, à medida que se multiplicam, é necessário que se construam outras estruturas em lugares ‘espaçosos’ e longe das pessoas. Mas estas doenças não terão tanta importância, assim como a lepra teve e a loucura terá, e acabarão por se enquadrar junto às outras doenças costumeiras.

Por ter se tornado “de âmbito do médico” (Foucault, 1972, p. 8), as doenças venéreas exigiam tratamento. Pelo fato de ser preciso internar o doente para tratá-lo, elas se integraram juntamente com a loucura, num espaço moral de exclusão.

Dessa forma, pode-se concluir que as pessoas acometidas de lepra, doenças venéreas e loucura representam os excluídos da sociedade (Foucault, 1972, p. 6), que necessitam com urgência desaparecer da visibilidade das pessoas. Assim, hão de carregar sempre com eles este estigma – a marca da discriminação e exclusão.

Na Renascença, os loucos eram colocados em barcos e navios e carregados para cidades longe das suas em busca da razão. Havia partidas de navios especialmente para levar os loucos. Quando estes chegavam nas cidades, eram enxotados pelos moradores. No entanto, havia locais destinados a colocar os loucos, existindo, assim, a possibilidade de que os que fossem enxotados fossem aqueles provenientes de outras cidades, enquanto que os que ficavam eram oriundos delas.

Hospitais e cidades faziam peregrinações dos loucos, e, às vezes, um grande número deles estava concentrado em lugares que não eram seus de origem. Em algumas cidades, os insanos chegavam a receber donativos da população.

Marinheiros atracavam em lugares comerciais e ali deixavam os loucos. Estes, quando acolhidos e mantidos pela cidade, eram levados para a prisão. Alguns insanos eram chicoteados publicamente e enxotados. Apesar de o louco não poder freqüentar a Igreja, podia receber a comunhão.

O fato de o louco ser levado para outros lugares através da água mostrava o efeito purificador que esta tem. “A navegação entrega o homem à incerteza da sorte.” (Foucault, 1972, p. 12) O mar é traiçoeiro, inesperado, incerto, ‘prega peças’.

Segundo Foucault (1972, p. 12), o louco era “prisioneiro da mais aberta das estradas”, comparando, assim, a pequenez duma prisão à imensidão do mar. O lugar para onde o insano estava indo não era a sua terra, muito menos era aquela que ficou para trás. A terra do louco se limita à distância entre ambas as terras, a que foi sua e a que nunca será. Dessa forma, a água simboliza esta aterritorialidade com a qual a loucura será presenteada pelo Ocidente. Literalmente, o louco não tinha chão. Ou tinha água em volta de si, ou tinha grades (Foucault, 1972, p. 12).

A loucura passa a ser tema principal da literatura, do teatro, enfim, das artes como um todo. Neste espaço, o louco não é visto mais como uma figura boba, e sim como o detentor da verdade (Foucault, 1972, p. 14).

Na segunda metade do século XV, com as guerras e as pestes assolando as cidades sem controle, o tema da morte reina e ninguém escapa. Entretanto, nos últimos anos do século, a loucura substitui a morte, e é esta ascensão que indicará que o mundo está mais próximo do que se pensa do seu desastre.

Inúmeras imagens, telas, quadros, com faces enigmáticas de difíceis compreensões, surgem. A imagem dá margem a diferentes interpretações. Daí o fato de ela e a palavra expressarem diferentes significados. Essas imagens surgem através dos sonhos, e por isso exercem tanto fascínio através dos tempos. A loucura representada é vista como um saber obscuro, que esconde segredos e que por isso mesmo precisam ser desvendados.

Na Idade Média, a loucura divide sua soberania com mais doze fraquezas da alma humana, como luxúria, discórdia e outras. No entanto, na Renascença, a loucura passa a dominar todas as fraquezas humanas. Isso porque a loucura é visível, não esconde nada, não obscurece; ela atrai as pessoas pelo fato de conseguir manter uma dominação sobre as coisas.

A loucura faz um sarcasmo do saber. Segundo Erasmo de Rottterdam (apud Foucault, 1972, p. 24), pelo fato de a loucura ser uma fraqueza humana, “ela é um sutil relacionamento que o homem mantém consigo mesmo”. A partir do momento que o homem se apega a si mesmo, ele se ilude, surgindo, então, o primeiro sinal da loucura. A loucura aparece como uma suposição para esta ignorância humana. Ela não diz respeito à realidade do mundo, mas sim à realidade que o homem acredita existir.

No século XV, a loucura aparece como sátira moral na Literatura e Filosofia. O mundo é facilmente dominado pela loucura. Tanto Bosh quanto Brueghel (apud Foucault, 1972, p. 25) tinham uma visão muito próxima da loucura – levando-os a fazer uma reflexão moral a seu respeito, isto porque ela estaria ligada ao homem, com suas fraquezas, sonhos e ambições (Foucault, 1972, p. 24). Já Erasmo (apud Foucault, 1972, p. 26) via a loucura estabelecendo uma certa distância, distância esta que permitia uma visão mais crítica. (Foucault, 1972, p. 26) As pinturas de Bosh (apud Foucault, 1972, p. 26) são pinturas que mostram e revelam a essência dos homens, o homem visto através do seu interior. Com o silêncio das imagens, a loucura desenvolve seus poderes.

Erasmo, com sua tradição humanista, afirma a existência da loucura através do discurso. Este discurso seria expresso através da consciência crítica dos homens. Com isso, “o homem era confrontado com a sua verdade moral, com as regras próprias à sua natureza e à sua verdade”. (Foucault, 1972, p. 27)

Por conseqüência, enquanto esta visão crítica ia fortalecendo-se, a visão trágica ia enfraquecendo-se, embora nunca tenha deixado de existir – como se pode comprovar nas obras de Sade, Goya e Freud. Esta visão crítica ganhava força através da racionalidade, ao passo que a visão trágica se enfraquecia devido à carga emocional empregada. Dessa forma, a razão se tornou predominante sobre a emoção.

A loucura, até o final do século XVIII, teve existência relacionada com a razão. Elas estavam extremamente implicadas. Esta se integrava na razão podendo até ser uma forma de sua manifestação. A loucura levava à sabedoria, e a razão toma consciência da loucura. A loucura é a “força viva e secreta da razão” para os renascentistas, por exemplo. (Foucault, 1972, p. 31)

No século XVII, em Cervantes e Shakespeare (apud Foucault, 1972, p. 39), a loucura sempre ocupa um lugar extremo no sentido de que ela não tem recurso. É uma loucura que opera sobre a morte, que precisa da “misericórdia divina” (Foucault, 1972, p. 39). No entanto, a loucura ainda triunfará, pois a morte não trouxe a paz.

Após abandonar estas regiões em que estava situada, a loucura passa a ser relacionada com a aparência de um crime. Sua seriedade dramática só existe na medida em que se trata de um falso drama. “A partir dela, a ilusão se desfaz” (Foucault, 1972, p. 40). Esta é a troca do real pelo ilusório.

A loucura é capaz de levar as pessoas a desenvolver uma falsa percepção dos sentidos, levando a crer que determinadas partes do corpo não fazem parte do corpo do insano. Assim, é importante ter consciência do conceito de loucura e se o indivíduo é ou não louco, não bastando ter um pensamento lógico e coerente se ele não acredita que é são.

Descartes, através da sua dúvida metódica e de seu subjetivismo transcendental, mostra a razão pura como meio de se chegar à verdade, alocando a loucura ao lado do sonho e de todas as formas de erro (Foucault, 1972, p. 45). Para ele, um ser que cogita (pensa) não pode estar louco. Dessa forma, para ele, que submete tudo à dúvida, até mesmo os próprios sentidos, chega à conclusão de que não é possível duvidar do pensamento: “Penso, logo existo”. Assim, se duvido, não posso estar louco, pois duvidaria de minha própria loucura. Esta dúvida metódica fez com que na dialética razão-não-razão (século XVII) a vencedora fosse a razão.

A partir do século XVIII, a loucura está fora da interlocução com a razão. Por isso, o homem da contemporaneidade deixou de se comunicar com o louco. Assim, a ciência a transformou numa patologia. Para ela, quem percebia o verdadeiro, a essência das coisas, estava longe de ser um insensato. E o louco era desprovido destes atributos. A exclusão topográfica foi substituída pela exclusão lógica. Para exercer sua cidadania no seu território, só há duas alternativas ao louco: zanzar pelos rios e mares ou ser confinado sob grade. E agora, de explosão expressiva na Literatura, passa a ser silenciado na sua voz inefável. Não tem o que dizer.

O século XVII chega com a criação de uma quantidade bastante razoável de casas de internamento. Muitas pessoas são enviadas para estas instituições. Assim, a loucura podia ser mais bem percebida através da quantidade de internamentos. Nestes locais, os insanos tinham péssimas condições de vida, viviam em condições subumanas, em locais sujos, frios, lotados de gente e sem comida. Para que fosse internado, o insano não dependia da idade, nem do sexo, nem se seu caso fosse curável ou não.

Era dever dos hospitais dar não apenas atendimento médico aos insanos, mas também ter o direito de decidir por eles e julgá-los, quando necessário. Logo no início, a instância da ordem era ligada ao poder real. Aos poucos, este poder foi concedido à burguesia.

Pode-se então concluir que, para o louco, há exclusão topográfica, exclusão lógica e exclusão política. Sem chão, sem razão e sem cidadania. Na Inglaterra, para manter as casas de correção, a população ajudava com donativos, embora estes não surtissem efeito. Algumas empresas privadas passaram então a ter o domínio sem ter de pedir permissão para abrir mais casas.

No fim do século XVIII há um total de 126 (cento e vinte e seis) casas de correção na Inglaterra. Anos depois espalham-se por toda a Europa. A própria população ajuda a isolar os insanos, segregando-os e atribuindo-os uma nova pátria. O internamento aparece como algo desumano, onde revela que os insanos não podiam responder por si mesmos – já que, por serem loucos, não tinham consciência dos seus atos; eram predestinados.

Segundo o Protestantismo de Lutero, as obras de caridade levavam à salvação porque com elas todos os pecados podiam ser redimidos. As instituições que recebiam estas doações (porque elas não iam para o clero) tinham administradores que geravam as finanças. Estas instituições representavam um castigo moral da miséria, porque esta era considerada como uma desordem quanto à ordem estabelecida. Esta filosofia protestante tinha a intenção de colocar o trabalho num local rivilegiado: o trabalho como sendo fundamentado e comprovado pela fé.

Esta concepção foi tão disseminada que a Igreja Católica logo se viu impelida a aplicar os conceitos protestantes a sua religião. Assim, esta adotou uma percepção da miséria já desenvolvida pelo Protestantismo, dividindo os miseráveis em dois grupos:

– Região do bem e da pobreza submissa, que aceita o internamento e encontra o seu descanso.

– Região do mal e pobreza insubmissa, que recusa o internamento. “Uns seriam filhos de Deus enquanto outros do demônio” (Foucault, 1972, p. 61).

Esta oposição entre bons e maus vai levar a uma divisão da loucura, segundo esta dicotomia. A miséria perde o sentido místico porque ela não remete mais à presença de Deus. Enquanto o louco da Idade Média era considerado como sagrado, no século XVII ele foi dessacralizado. Assim, a loucura, antes de natureza religiosa, passa a ser puramente moral, confrontando os costumes e ultrapassando os limites do que se considerava normal.

No século XVII, o internamento aparece não com a intenção da cura, mas com o sentido de disciplinar a mendicância e a vagabundagem. Isto é, os loucos, por ficarem na ociosidade e mendigando, eram internados para que exercessem atividades. Este louco nasce de uma sensibilidade moral; ele é excluído porque seu lugar é entre os miseráveis; ele perturba a ordem social. Com isso, o louco passa a ser propriedade do Estado. E, ironicamente, em tempos de crise o Hospital Geral tinha o direito de dar trabalho aos desempregados, e quando não havia crise o trabalho era oferecido aos presos com o intuito de obter mão-deobra barata e/ou reabsorver os ociosos. Duas críticas podem ser extraídas: além de esta concepção seguir totalmente a ética burguesa, o hospital geral não possuía um caráter médico, mas meramente normal. Neste contexto havia também uma outra exclusão: o louco não era dono de seu chão, de seu pensamento e de sua cidadania, nem tampouco de seu comportamento. A direção de suas ações era declinada por um tutor.

Ainda no século XVII, o parlamento de Paris (1606) decide, através da força, punir aqueles que não retomaram o lugar na sociedade. Estes seriam “chicoteados em praça pública, marcados nos ombros e expulsos da cidade” (Foucault, 1972, p. 64). Isto quando não recebiam a forca ou a guilhotina, que serviam de espetáculo para as multidões, com o propósito de ser exemplo de constrangimento para as repetições.

No entanto, com os efeitos da renascença econômica, aumenta o desemprego e os mendigos se multiplicam. As medidas de exclusão não são as mesmas de antes e a sociedade passa a cuidar dos desocupados. Em troca, “ele precisa aceitar a coação física e moral do internamento” (Foucault, 1972, p. 64).

Em toda a Europa o internamento surge pelos mesmos motivos: diminuição do salário, escassez de moeda, desempregos e outros problemas econômicos. A Inglaterra, mesmo sendo a mais independente entre todas as nações, também está infestada de mendigos. Pelo fato de estar fora do continente, os mendigos são mandados em comboios para as terras recém-descobertas no lado oriental. [1]

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