metodologia de trabalhos acadêmicos

metodologia de trabalhos acadêmicos

(Parte 1 de 3)

METODOLOGIA DO TRABALHO ACADÊMICO - PARTE I Prof. waldemar neto

1.1. [Fichamento de] Texto ensaístico - O ensaio é um texto literário não-ficcional, razoavelmente curto, que trata de um único assunto, a partir do ponto de vista escolhido pelo autor.

Vamos estudar, agora, o fichamento passo a passo.

1º passo - para facilitar o trabalho de fichamento de um texto ensaístico, devemos fazer, em primeiro lugar, uma leitura corrente exploratória, sem nos determos nas dificuldades. Muitas delas se resolverão na segunda leitura, quando já tivermos uma idéia do texto todo, do conjunto de argumentos que foram desenvolvidos. Devemos aproveitar essa primeira leitura para numerar os parágrafos, o que nos auxiliará muito no passo seguinte.

2º passo - consiste na identificação das partes principais do textos. Todo texto ensaístico completo (isso não se aplica, é claro, a trechos retirados de um todo maior) apresenta de forma mais ou menos clara três partes distintas:

a) Introdução – nela o autor coloca o problema ou a indagação que o levou a escrever o texto. A introdução nos da, então, uma idéia do assunto tratado. Além disso, nela o autor coloca também o ponto de vista ou o ângulo sob o qual [ele vai abordar] o assunto será abordado e, às vezes, o método, ou seja, o caminho que vai seguir (se vai apresentar casos para chegar a uma generalização, ou se vai partir de um princípio geral e deduzir suas conseqüências).

b) Desenvolvimento — é o corpo do texto, que apresenta os dados, as idéias, os argumentos e as afirmações com que o autor constrói um edifício de relações entre as partes, e que constitui o seu pensamento original. A partir da indagação/problema colocada na introdução, o desenvolvimento revela como o autor conduziu a procura de soluções/explicações e quais os caminhos que escolheu em detrimento de outros.

c) Conclusão — cada a construção desemboca em algumas afirmações ou em novas indagações decorrentes da organização e do desenvolvimento do texto.

3º passo - Na terceira etapa, vamos levantar a estrutura, isto é, o plano lógico a partir do qual o texto foi escrito. Para isso, resumimos em poucas palavras as idéias principais de cada parágrafo para poder, a seguir, agrupá-las sob tópicos gerais. Perguntamos: A que diz respeito a idéia principal do parágrafo? Há uma Palavra ou um título que condense o assunto que está sendo tratado?

Para exemplificar esses procedimentos, vamos nos utilizar do texto Da arte brasileira de ler o que não está escrito, de Cláudio de Moura Castro, que se encontra no final deste prólogo, na Leitura Complementar.

Podemos dividir o texto nas seguintes partes: a) Introdução: parágrafos 1 a 3; b) Desenvolvimento: parágrafos 4 a 9; c) Conclusão: parágrafo 10.

A Introdução, por sua vez, constitui-se das seguintes partes, conforme quadro a seguir.

RESUMO DA INTRODUÇÃOTÓPICOS Parágrafo 1: O autor relata a história de um jovem das 1. Relato de caso que coloca a função da escola montanhas do Líbano que causou estranheza aos vizinhos por ter sido enviado para a capital a fim de continuar os estudos. Para os habitantes da região, a única função da escola é ensinar a ler.

como a de somente ensinar a ler.

Parágrafo 2: A maioria das pessoas pressupõe que todos os que saem da escola sabem ler porque não percebe que ler é compreender um texto, e que há diferentes níveis de compreensão.

2. O conceito de leitura como compreensão de texto.

Parágrafo 3º: Cartas de leitores comentam os outros textos do autor e que o motivaram a escrever o presente ensaio sobre a arte da leitura.

3. Motivação para escrever o ensaio e apresentação do seu tema: a arte da leitura.

Apresentando isso em forma de plano, temos: Introdução (parágrafos 1 a 3):

a)relato que evidencia a função da escola como a de ensinar a ler; b)o conceito de leitura como compreensão de texto; c)motivação do autor para escrever o ensaio e apresentação do se tema: a arte da leitura. 4º passo - agora, estamos prontos para a quarta etapa, ou seja, para examinar a relação que as idéias mantêm entre si e elaborar o plano do texto: quais as idéias, fatos ou argumentos apresentados que estão mo mesmo nível, isto é, que não dependem uns dos outros, mas que se somam no desenvolvimento do texto? Quais as idéias que dependem ou são subdivisões de outras? Tomando como exemplo o índice deste livro, Vemos que os capítulos estão no mesmo nível de importância (mesmo tamanho, e mesmo tipo de letra), sendo, portanto, idéias coordenadas. As subdivisões de cada capítulo, uma vez que dependem do assunto principal, são idéias subordinadas. Podemos perceber a estrutura de cada capítulo pelo tamanho da letra usada para compor os títulos de cada tópico (tipo maior) e subtópico (tipo menor).

Finalizando nosso trabalho, organizamos esses tópicos sob a forma de plano, numerando cuidadosamente cada idéia principal e indicando quais as idéias subordinadas [que a ela estão ligadas] a essa idéia principal.

1.2. [Fichamento de] Textos literários - A construção do texto literário não obedece ao mesmo tipo de organização que o de texto ensaístico. Apesar de o escritor também mostrar uma parte da realidade e defender idéias, isso se dá de forma encoberta, menos direta, mais figurada. A história contada vai revelar, através da sua trama, as idéias e os valores que o autor defende e que nos cabe buscar no texto. Para tanto, devemos proceder da forma explicada a seguir.

[Como primeiro passo], fazemos a leitura emocional, como foi explicada no item anterior, entregando-nos ao prazer de ler e nos envolvendo com o assunto.

[O segundo passo] é fazer o levantamento do nível denotativo, isto é, o significado imediato, literal do texto. O texto literário também apresenta uma idéia central e um encadeamento lógico detectado por meio das situações apresentadas que levam a um final (não necessariamente a uma conclusão). As perguntas que nos orientam permanecem as mesmas: Como foi montada a história? Quais os aspectos importantes mostrados? Respondendo a essas questões, teremos o resumo do enredo ou trama, que corresponde ao nível denotativo do texto ensaístico. O mesmo se aplica a um filme ou a uma novela de televisão. Não nos esqueçamos de que resumir é contar, em poucas palavras, a história apresentada no texto, mantendo apenas os detalhes importantes para que se compreenda a situação e a atuação dos personagens. [Para isso, fazemos e fichamos um resumo do enredo ou trama do texto. E o que é fazer um resumo? É contar, em poucas palavras, a história apresentada no texto, mantendo apenas os detalhes importantes para que se compreenda a situação e a atuação dos personagens.

[Em terceiro lugar], procedemos ao levantamento do nível conotativo, ou figurado, do texto: Que tema o autor está discutindo? Que idéias, que valores a história simboliza?

Vamos ver dois exemplos. A peça A vida de Galileu, de Bertolt Brecht, conta a história de

Galileu (século XVII), suas descobertas, sua defesa do heliocentrismo1, suas brigas com os cardeais e com o papa (que defendiam o geocentrismo2), seu julgamento e o fato de ele ter [negado] renegado a teoria que defendera, para não ser condenado à morte. Esse é o resumo do enredo da peça, isto é, o nível denotativo do texto.

O tema dessa peça, por sua vez, é a luta entre a fé, que representa o conservadorismo da elite no poder, e a razão (ciência), que representa a possibilidade de qualquer indivíduo chegar ao conhecimento, havendo, assim, a democratização do saber e o questionamento das ações daqueles que detêm o poder.

No fichamento devem constar, ainda, as passagens que nos permitem chegar a determinadas conotações, com a indicação da página e parágrafo.

1.3. [Técnicas de] Fichamento de tópicos - Uma vez escolhido um tema para pesquisa, passamos a fichar tópicos relativos a esse tema. Esse fichamento utiliza procedimentos bastante diferentes dos usados no fichamento de texto.

O objetivo principal desse tipo de fichamento é o levantamento mais completo possível de informações sobre determinado assunto. Nesse caso, retirar de um texto somente as partes que tiverem alguma relação com o assunto em questão.

Como, em geral, todo assunto comporta uma série de subdivisões, devemos fazer uma ficha em separado para cada idéia, indicando, no canto superior direito, o tópico e o subtópico ao qual se refere. Exemplo:

[Assim] Desse modo, sobre o único tópico [LEITURA] ENSAIO, teremos inúmeras fichas, cada uma tratando ou de um assunto ou de um enfoque diferente. Poderemos ter tantas fichas de definições quanto o número de definições que encontrarmos em autores diferentes, sendo que cada uma deve trazer a indicação completa da fonte onde foi encontrada, isto é, nome do autor, nome do livro, lugar de edição, editora, data da publicação e página onde se encontra a informação.

Devemos ter o cuidado de sempre colocar entre aspas qualquer informação que seja uma citação, isto é, uma copia direta de qualquer trecho escrito por outra pessoa. Entretanto, se a

1 Teoria defendida por Nicolau Copérnico em que o sol é o centro do universo. [Nota do Compilador] 2 Teoria de que a terra é o centro do universo. [Nota do Compilador]

Tópico: ENSAIO Subtópico: Definição

S.m. Liter – estudo sobre determinado assunto, porém menos aprofundado e/ou menor que um tratado forma e acabado.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio básico da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira/Folha de São Paulo, 1995, p. 251.

Ou: S.m. Liter - Obra literária em prosa, analítica ou interpretativa, sobre determinado assunto, porém menos aprofundada e/ou menor que um tratado formal e acabado.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Coordenação e edição de Margarida dos Anjos & Marina Baird Ferreira. Versão integral do Novo Dicionário Aurélio – Eletrônico XXI, versão 3.0. RJ, Nova Fronteira, novembro de 1999.

Tópico: ENSAIO Subtópico: Origem

A forma foi inventada no final do século XVII pelo escritor francês Michel de Monatigne, que escolher o nome essai para enfatizar que suas composições eram tentativas, modos de expressar seus pensamentos e experiências pessoais.

ENCYCOPAEDIA BRITANNICA. Micropaedia I. Londres: Encycopaedia Britacnica Inc., 1978, p. 963 a 964.

anotação na ficha for redigida com nossas palavras, não usaremos as aspas e indicaremos entre parênteses que é uma síntese própria, indicando também o autor, a obra e as páginas que resumimos.

Muitas vezes, durante a preparação das fichas ou durante a leitura dos textos, ocorrem-nos idéias, questões e dúvidas, que devemos ter o cuidado de anotar, pois, em geral, serão esquecidas ao longo do trabalho. Essas idéias, questões e dúvidas devem ser fichadas de igual maneira, uma em cada ficha, com indicação de tópico e subtópico e, se possível, o que nos levou a levantá-las.

Muitas vezes, durante a preparação das fichas ou durante a leitura dos textos, ou durante a leitura dos textos, ocorre-nos idéias, questões e dúvidas, que devemos ter o cuidado de anotar, pois, em geral, serão esquecidas ao longo do trabalho. Essas idéias, questões e dúvidas serão fichadas de igual maneira, uma em cada ficha, com indicação de tópico e subtópico e, se possível, o que levou a formulá-las.

A principal vantagem do sistema de fichamento de tópicos é que as fichas (e, portanto, os assuntos e suas subdivisões), poderão ser arranjadas e rearranjadas de acordo com o plano do trabalho, que, geralmente, é feito depois de completadas as leituras. Além disso, as fichas poderão servir a outros trabalhos sem que, na hora de os elaborar, precisemos fazer uma caca arqueológica em nossas anotações para descobrir onde está aquela coisa linda que lemos não sabemos mais em que livro.

1.4. Conclusão - Depois de lermos tudo isso, a primeira pergunta que ocorre é: mas para que toda essa trabalheira?

Tanto a leitura bem-feita quanto o fichamento cuidadoso envolvem um tempo de trabalho bastante longo. E não há razão alguma para acharmos que o trabalho intelectual não exija esforço e dispêndio de energia. Geralmente, quando nos pedem para fichar um texto, vamos grifando tudo o que nos parece importante já na primeira leitura e, depois, limitamo-nos a copiar essas partes na ficha, como se fossem pedaços de uma colcha de retalhos. Resultado: passado algum tempo, revemos aquelas anotações e não conseguimos saber por que eram importantes. Isso ocorre porque as nossas fichas não nos dão a organização lógica do texto e não podemos acompanhar o pensamento do autor. Os procedimentos aqui discutidos proporcionam exatamente isso: ao entender e anotar a organização do pensamento do autor, estamos tomando posse desse raciocínio. As idéias se tornam mais claras e passamos a saber como umas se relacionam com as outras. O fichamento nos permite conhecer o percurso do pensamento do autor e guardá-lo, para que possamos voltar a ele a qualquer momento.

Fichar é trabalhoso, mas é trabalho que fica feito e ao qual temos acesso sempre que necessário. Dito isso, passaremos a discutir os passos necessários para a elaboração de uma dissertação feita com seriedade, obedecendo a padrões científicos.

(Parte 1 de 3)

Comentários