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Após a correta administração do medicamento, resta ao homeopata aguardar, acompanhar e observar. Se a substância for verdadeiramente homeopática, ou seja, se apresentar similaridade com o doente, sua ação será imediata e terão início as alterações da energia vital.

O que pode ocorrer com o doente?- A resposta a essa questão é a elaboração de um prognóstico, a previsão de eventos futuros.

O homeopata James Tyler Kent foi o responsável pela sistematização das observações clínicas feitas após a tomada do remédio homeopático. Kent descreveu 12 observações que são chamadas de “prognósticos clínicos dinâmicos de Kent”.

1ª possibilidade: agravação prolongada seguida de morte.

Interpretação: foi administrado o similimum, mas o estado do paciente era muito ruim para suportar as lesões estruturais graves de órgãos vitais. O remédio homeopático apenas acelerou a morte. Melhor conduta: seria ter administrado um remédio similar ao invés do similimum para não haver agravações.

2ª possibilidade: agravação prolongada seguida de lenta melhoria.

Interpretação: o remédio estava correto e a doença, apesar de grave, não progrediu tanto nos órgãos vitais. Havia ainda suficiente capacidade de reação da energia vital. Melhor conduta: aguardar para repetir a dose.

3ª possibilidade: agravação rápida, breve e forte, seguida de rápida melhoria.

Interpretação: remédio correto. Uma agravação que surge e desaparece rapidamente indica que a melhoria será duradoura. Essa é a agravação nas enfermidades agudas em pacientes sem lesões orgânicas (ou com lesões apenas superficiais, em órgãos não vitais). Paciente com excelente vitalidade.

4ª possibilidade: melhora sem agravação.

Interpretação: remédio correto (similimum) na potência adequada. Esse é o melhor modo de obter a cura.

5ª possibilidade: primeiro melhora e depois agrava.

Interpretação: após tomar o remédio volta dizendo que melhorou muito, mas em alguns dias está muito pior. Tal evolução pode ter dois significados: ou o remédio é apenas um similar (um paliativo) com alívio provisório, ou o paciente é incurável.

6ª possibilidade: Alívio curto dos sintomas.

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Interpretação: a melhoria não dura o tempo que deveria durar. Rápida agravação como na 3ª possibilidade, porém não é duradoura a melhoria. Duas alternativas: remédio correto com potência baixa ou paciente gravemente afetado em órgãos vitais.

7ª possibilidade: melhoria parcial de todos os sintomas.

Interpretação: o remédio está correto, pois age na totalidade, mas a reação da energia vital não ultrapassa certos limites impostos por condições próprias do doente. Por exemplo: um paciente que fuma há muito tempo possui capacidade pulmonar já limitada, seus sintomas melhorarão, mas o tratamento não devolverá a capacidade original definitivamente perdida.

8ª possibilidade: remédio produz uma patogenesia.

Interpretação: paciente é hipersensível e o remédio desperta novos sintomas como se fosse uma experimentação. Os sintomas são próprios da substância administrada e desaparecerão quando o doente parar de usar o remédio.

9ª possibilidade: ação dos medicamentos sobre os experimentadores.

Interpretação: a possibilidade anterior (8ª) é a ocorrência de novos sintomas em uma pessoa doente que está sob tratamento. Já esta 9ª possibilidade é o surgimento de sintomas em experimentadores, ou seja, pessoas sadias que se submeteram voluntariamente a uma pesquisa homeopática.

10ª possibilidade: surgem sintomas novos.

Interpretação: após administração do remédio, aparecem sintomas que o paciente nunca observou. Se neste caso for excluída a 8ª possibilidade, então, a prescrição está errada e não há similitude entre remédio e doente.

11ª possibilidade: retorno de sintomas antigos.

Interpretação: o remédio é similimum e o doente está no caminho de cura. Reaparecem enfermidades antigas que foram suprimidas. A cura das várias enfermidades ocorre na ordem inversa do seu aparecimento. A primeira suprimida será a última a reaparecer para só então desaparecer por completo.

12ª possibilidade: supressão dos sintomas.

Interpretação: se um paciente apresenta erupções na pele e, após tomar o remédio, percebe melhora, mas em pouco tempo volta com sintomas cardíacos dizemos que houve uma supressão. O remédio foi escolhido segundo sinais exteriores, segundo sintomas que não correspondem à totalidade. Ocorreu o aprofundamento da doença, seguindo um caminho centrípeto, ou seja, das extremidades ao centro, de órgãos não vitais para órgãos vitais. È um simples desaparecimento de sintomas e não uma verdadeira cura. Uma supressão que pode ocorrer após a instituição de qualquer tipo de terapêutica, inclusive com Homeopatia, se esta tiver seus fundamentos negligenciados por quem a pratica.

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A Medicina não é somente ciência, é também arte: permite que cada médico a exerça imprimindo suas próprias marcas, conforme sua experiência. Segundo Lemos Torres, citado por Paulo Rosenbaum: “A Medicina é ciência no conteúdo e arte na sua aplicação”.

Com o tempo, a Homeopatia foi assistindo o surgimento de algumas vertentes com práticas distintas.

Basicamente, podemos discernir duas escolas dentro da Homeopatia, dois modos de praticá-la: o Unicismo e o Pluralismo.

o Unicismo – tratamento com remédio único, individualizado, objetivando o similimum (o remédio mais semelhante ao caso). o Pluralismo – tratamento com uma mistura de medicamentos, chamados “complexos homeopáticos”.

Na verdade, a diferença não se limita à prescrição. A forma do tratamento é reflexo da visão que se tem sobre saúde, doença e cura. A administração de vários “princípios ativos” por parte da prática pluralista tem, por objetivo, sanar vários problemas pontuais. Receita-se o remédio de acordo com a tendência do mesmo em influenciar determinado órgão ou sistema do corpo.

A Homeopatia original (fundada, desenvolvida e aperfeiçoada por Samuel Hahnemann e seus sucessores) tem como uma de suas bases a descoberta e a prescrição de um remédio único, individualizado e dinamizado para a cura da totalidade sintomática do sujeito doente.

Remédio para o doente, não para a doença.

Uma única substância é dada para os experimentadores nas pesquisas patogenéticas em seres humanos saudáveis. São colhidos todos os tipos de sintomas que aquela determinada substância em estudo é capaz de provocar. Portanto, após recolher a totalidade sintomática de um doente, o homeopata deverá colocar toda sua ciência e arte na busca por uma única substância conhecida que abarque essa totalidade de seu paciente.

São vários os argumentos contra a prática pluralista:

1. Só conhecemos a ação das substâncias administradas individualmente nas experimentações em homens sãos. 2. Desconhecemos as interações entre as várias substâncias de um “complexo homeopático” (são vários medicamentos juntos ou tornam-se um novo medicamento? ). 3. Se ocorrer melhora não saberemos qual a droga foi responsável. 4. O alívio de sintomas não é cura, há risco de supressão (12º prognóstico de Kent).

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Por que existem médicos homeopatas pluralistas?

Somos tentados a responder que prescrever várias substâncias é mais fácil do que buscar, no universo de medicamentos conhecidos, o remédio similimum, o mais semelhante ao caso. Além disso, quando o paciente apresenta queixas físicas bem pontuais, o médico acaba optando por administrar medicamentos consagrados que tradicionalmente aliviam os sintomas.

Ocorrem curas utilizando-se a prática pluralista. Certamente porque, entre as várias substâncias prescritas, estava também o remédio correto, o remédio constitucional, mais semelhante ao caso.

Nasceu nos Estados Unidos em 1849. Praticou a medicina alopática até o dia em que sua segunda esposa, gravemente enferma, foi curada por um médico homeopata. Tornou-se um grande estudioso das obras de Hahnemann. Foi professor em várias escolas médicas homeopáticas e publicou livros que contribuíram para o aperfeiçoamento da Homeopatia: “Repertory”, “Lectures on homeopathic philosophy” e “Lectures on materia medica”. Morreu em 1916. Durante o século X, o pensamento de Kent dominou a prática homeopática.

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