salário remuneração pesquisa

salário remuneração pesquisa

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Resumo: Buscando a discussão e o aperfeiçoamento de questões jurídicas relevantes, o presente trabalho dirige sua atenção ao instituto do adicional de insalubridade, visando demonstrar e questionar a evolução do entendimento da base de incidência dos percentuais de insalubridade, dos seus primórdios históricos, na legislação pátria, até o entendimento mais recente, quer na legislação, na doutrina e na jurisprudência. Este artigo se desenvolverá através de abordagens históricas, legais, conceituais, doutrinárias, sociais e jurisprudenciais, sempre relacionadas ao tema “adicional de insalubridade”. Sumário: 1. Abordagem histórica – 2. Abordagem legal – 3. Abordagem doutrinária – 4. Abordagem social – 5. Abordagem jurisprudencial – 6. Conclusão. Palavras-chave: Adicional de Insalubridade; Base de Cálculo; Remuneração.

A primeira inserção sobre adicional de insalubridade na legislação brasileira ocorreu em 1936, portanto, anterior a Consolidação das Leis do Trabalho, que foi aprovada pelo Decreto-lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943.

Ilustrando, cronologicamente, os primeiros contatos da legislação pátria com o termo “adicional de insalubridade”, o Professor Ivan da Costa Alemão Ferreira2, cita a obra do ilustre Professor Doutor ARION SAYÃO ROMITA3, qual seja, “Comentários aos Prejulgados do TST” (Editora Rio), afirmando que “Foi a Lei 185 de

1Especializando em Direito e Processo do Trabalho.

Graduado em Ciências Jurídicas e pós-graduado em Curso de Aperfeiçoamento de magistrados pela ESMEC (Escola Superior da Magistratura do Estado do Ceará).

Advogado do Banco do Brasil

2FERREIRA, Ivan da Costa Alemão, professor da Faculdade de Direito da Universidade

Federal Fluminense e Juiz do Trabalho da 1ª Região, “Adicional de Insalubridade (ônus da prova e laudo técnico)”, disponível em: (w.uff.br/direito/artigos).

3Prof. Dr. Arion Sayão Romita – Membro da Academia Brasileira de Letras Jurídicas, doutor em Direito do Trabalho pela UFRJ e professor da UERJ da UFRJ e do programa de pós-graduação da UGF.

14/01/36 que primeiro determinou, entre nós, o pagamento da taxa de insalubridade, até 50% a mais do salário mínimo (art. 2º). O Decreto-lei nº 399 de 30/04/48, que regulamentou a citada lei, deu às Comissões de Salário-Mínimo a atribuição de fixar o adicional dentro do limite legal e no seu art.4º, declarou caber ao então Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio organizar quadro das indústrias insalubres, sujeito à revisão periódica. Em virtude desse dispositivo, expediu-se a Portaria nº SMC- 51 de 13.04.39. O percentual respectivo, de 40%, 20% ou 10%, se máximo, médio ou mínimo o grau de insalubridade, foi fixado pelo Decreto-lei 2.165 de 01/05/40 (art. 6º)”.

Observa-se que o Decretro-lei nº 399/48, acima citado, normatiza que o adicional seria fixado pelo Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, devendo este direito (adicional de insalubridade) ser adquirido somente após enquadramento das indústrias ditas insalubres, sujeitando, ainda, à revisão periódica.

O art. 79 da CLT, inserido no capítulo – Do Salário Mínimo – normatiza que “Quando se tratar da fixação do salário mínimo dos trabalhadores ocupados em serviços insalubres, poderão as Comissões de Salário Mínimo aumentá-lo até de metade do salário mínimo normal.”

O Professor Ivan da Costa Alemão Ferreira, ancorando-se no douto

Professor ARION ROMITA, afirma que este ilustre doutrinador, em sua mencionada obra sustentava que o adicional sob análise era devido somente aos empregados que auferissem o salário mínimo. Corroboravam, neste diapasão, Arnaldo Sussekind e acórdão do STF. À época, reclamava-se o adicional como se pleiteia salário mínimo, com base em “enquadramento”. Todavia, o Prejulgado nº 8 do TST definiu opinião contrária (“É devido o adicional de serviço insalubre, calculado à base do salário mínimo da região, ainda que a remuneração contratual seja superior ao salário-mínimo acrescido da taxa de insalubridade”). Dessa forma o adicional deixa de ser parte integrante do salário mínimo para servir, apenas, de base de cálculo. A aquisição do direito passa a depender do trabalho insalubre (ainda definido pelo Mtb e não sobe o fato do trabalhador receber salário mínimo).4

4FERREIRA, Ivan da Costa Alemão. Op. cit.

Neste momento, faz-se necessário um rápido conceito sobre os termos remuneração, salário e salário mínimo. Os doutrinadores Evaristo de Moraes Filho e Antônio Carlos Flores de Moraes, na obra “Introdução ao Direito do Trabalho”5, abrangendo mais um termo, conceituam remuneração, salário e vencimento como sendo: “O valor, fixo ou variável, em dinheiro ou sob outra modalidade, que o empregador ou o Estado paga, respectivamente, ao empregado ou funcionário, como contraprestação dos serviços por eles desempenhados”. A designação vencimento, ou no seu plural, vencimentos, é usada no ramo do direito administrativo, enquanto que os termos remuneração e salário são utilizados no direito do trabalho.

Segundo texto legal (CLT, art. 457, caput), “Compreendem-se na remuneração do empregado, para todos os efeitos legais, além do salário devido e pago diretamente pelo empregador, como contraprestação do serviço, as gorjetas que receber.” Assim, conclui-se que o salário é parte integrante da remuneração, onde a remuneração é gênero, enquanto que o salário é espécie.

Por sua vez, os parágrafos 1º e 2º do mesmo artigo assim dispõem: “§1º – Integram o salário não só a importância fixa estipulada, como também as comissões, percentagens, gratificações ajustadas, diárias para viagens e abonos pagos pelo empregador. §2º – Não se incluem nos salários as ajudas de custo, assim como as diárias para viagem que não excedam 50% (cinqüenta por cento) do salário percebido pelo empregado.”

Deste modo, finalizam os doutrinadores: “Percebe-se, portanto, que o salário, parcela da remuneração do empregado, é constituído por uma importância fixa estipulada, acrescida de comissões, percentagens, gratificações, diárias e abonos. Este salário, somado às gorjetas, pequenas diárias e ajudas de custo, constitui a remuneração total do empregado.” 6

5MORAES FILHO, Evaristo de. Introdução ao direito do trabalho/ Evaristo de Moraes

Filho , Antônio Carlos Flores de Moraes. - 8. ed. rev., atual. e ampl. - São Paulo: LTr, 2000. p. 410 e 411.

5MORAES FILHO, Evaristo de. Op. Cit., p. 411.

Diante de tais conceitos, perguntar-se-ía, do que se trata o termo “salário mínimo”? O conceito legal de salário mínimo está no art. 76, da CLT, qual seja: “Salário mínimo é a contraprestação mínima devida e paga diretamente pelo empregador a todo trabalhador, inclusive ao trabalhador rural, sem distinção de sexo, por dia normal de serviço, e capaz de satisfazer, em determinada época e região do País, as suas necessidades normais de alimentação, habitação, vestuário, higiene e transporte.”

Do discorrido acima, e retornando aos textos legais relativos ao adicional de insalubridade, observa-se que houve uma mudança de entendimento, quanto à base de cálculo, pois, inicialmente, a “taxa de insalubridade” (Lei 185/1936) incidia somente sobre o salário mínimo, na qualidade de remuneração, ou seja, só tinha direito ao adicional de insalubridade o empregado que percebesse como remuneração o salário mínimo, eis que referido adicional só poderia incidir sobre o salário mínimo. Entretanto, com o passar do tempo, o percentual do adicional de insalubridade passou a incidir sobre o salário mínimo (art. 79, da CLT), e deste resultado poderia ser acrescido na remuneração do empregado, explicitando melhor, o empregado que recebesse remuneração superior e diferente do salário mínimo, também poderia ter acrescido em sua remuneração o adicional de insalubridade, lembrando, por oportuno, que a base de cálculo deste adicional, seria o salário mínimo.

A Consolidação das Leis do Trabalho, traz em seu bojo, inserido no capítulo que trata – Da Segurança e da Medicina do Trabalho –, a conceituação legal das atividades insalubres (art. 189. Serão consideradas atividades ou operações insalubres aquelas que, por sua natureza, condições ou métodos de trabalho, exponham os empregados a agentes nocivos à saúde, acima dos limites de tolerância fixados em razão da natureza e da intensidade do agente e do tempo de exposição aos seus efeitos.), redação data pela Lei nº 6.514, de 2.12.1977.

A Constituição Federal, em 1988, inseriu no capítulo DOS DIREITOS

SOCIAIS, os direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social. Dentre eles, o “adicional de remuneração para as atividades penosas, insalubres ou perigosas, na forma da lei.”, na conformidade do inciso XI, art. 7º.

Os adicionais, em regra, são calculados percentualmente sobre um parâmetro salarial. O que distingue os adicionais de outras parcelas são tanto o fundamento como o objetivo de incidência da figura jurídica. Os adicionais correspondem a parcela salarial deferida suplementarmente ao obreiro por este encontrar-se, no plano do exercício contratual, em circunstâncias tipificadas mais gravosas. A parcela adicional é, assim, nitidamente contraprestativa: paga-se um plus em virtude do desconforto, desgaste ou risco vivenciados, da responsabilidade e encargos superiores recebidos, do exercício cumulativo de funções, etc.7

A base de cálculo para a incidência dos percentuais 10%, 20% e 40%, de acordo com os graus mínimo, médio e máximo de trabalho insalubre, é divergente no meio doutrinário.

Há entendimento de que a base de incidência deve ser o salário mínimo, neste sentido, os seguintes doutrinadores: Arnaldo Süssekind8 Octavio Bueno Magano9, Victor Russomano Mozart10, Evaristo de Moraes Filho e Antonio Carlos Flores de Moraes11, Sérgio Pinto Martins12, dentre outros.

Amauri Mascaro Nascimento, afirma e opina que os percentuais, conforme os graus de insalubridade mínimo (10%), médio (20%) e máximo (40%), “vinham incidindo sobre o salário mínimo, qualquer que fosse o salário contratual do empregado. A Constituição (art. 7º, IV), ao proibir a vinculação de outros pagamentos ao salário mínimo, alterou o critério que vinha sendo observado. Uma solução possível é o cálculo sobre os pisos salariais das categorias estabelecidas em convenções ou sentenças normativas.”13

7DELGADO, Maurício Godinho. Curso de direito do trabalho. 3. ed. São Paulo: LTr, 2005. p. 736.

8SÜSSEKIND, Arnaldo. Curso de direito do trabalho. 2ª ed. Renovar, 2004. p. 500.

9MAGANO, Octavio Bueno. Primeiras lições de direito do trabalho. 3. ed. rev. e atual. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2003. p. 5.

10MOZART, Victor Russomano. Curso de direito do trabalho. 9. ed.. Juruá. 2002. p. 394. 11MORAES FILHO, Evaristo de. Ob. Cit. p. 515

12MARTINS, Sérgio Pinto. Curso de direito do trabalho. 4. ed. ver. e atual. São Paulo: Dialética, 2005. p. 97.

13NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de direito do trabalho. 19. ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2004., p. 830.

O professor e magistrado Pedro Paulo Teixeira Manus14, faz uma explanação evolutiva, comentando que o cálculo do adicional de insalubridade tinha por base o salário mínimo ou o salário profissional da categoria a que pertence o trabalhador, independentemente do salário efetivamente percebido, na conformidade dos Enunciados 17 e 228, ambos do Tribunal Superior do Trabalho. Porém, faz referência à decisão do Supremo Tribunal Federal (RE 236.396-MG Rel. Min. Sepúlveda Pertence, 2-10-98, publ. No DOU de 20-1.98), que alterou o entendimento fixado pelo TST, deixando claro que a base de cálculo do adicional de insalubridade, a partir da vigência do art. 7º da Constituição Federal, já não pode ser o salário mínimo. Contudo, deixa em aberto qual a exata base de cálculo. Afirma, ainda, este douto professor e magistrado que decisões regionais têm sido proferidas, à luz do entendimento transcrito do STF, utilizando o salário-base contratual como indexador do adicional de insalubridade, onde este salário base contratual seria o salário ajustado contratualmente, excluídos eventuais outros adicionais pagos.

O ambiente insalubre, porventura existente em local de trabalho, devido ao seu caráter nocivo, pode gerar, não raras vezes, doenças momentâneas ou permanentes, as quais prejudicariam não só o trabalhador, mas também o empregador, pois na possibilidade de ausência do empregado por licença-saúde, ausente também é a respectiva mão de obra. Assim, o ambiente insalubre é indesejável, tanto para o empregado como para o empregador.

Uma vez detectado pelo Ministério do Trabalho atividades ou operações consideradas insalubres, dever-se-á eliminar ou neutralizar esta insalubridade, quer “com a adoção de medidas que conservem o ambiente de trabalho dentro dos limites de tolerância;”(inciso I, do art. 191, da CLT) quer “com a utilização de equipamentos de proteção individual ao trabalhador, que diminuam a intensidade do agente agressivo a limites de tolerância.” (inciso I, do art. 191, da CLT), cabendo “às Delegacias Regionais do Trabalho comprovada a insalubridade, notificar as empresas, estipulando prazos para sua eliminação ou neutralização” (§ único, do art. 191, da CLT).

14MANUS, Pedro Paulo Teixeira. Direito do trabalho. 5. ed. São Paulo: Atlas, 1999. p. 140 e 141.

Dessa maneira, detectadas e enquadradas as atividades e operações insalubres pelo Ministério do Trabalho, e ocorrendo trabalho insalubre, haverá o adicional respectivo, nos percentuais mínimo (10%), médio (20%) e máximo (40%) incidentes sobre uma base de cálculo.

Se for considerado o entendimento de que a base de cálculo para o adicional de insalubridade seja o salário mínimo, poder-se-ía considerá-lo justo, tão somente se o salário mínimo fosse a remuneração do trabalhador. Porém, se o empregado tem como contraprestação uma remuneração superior ao salário mínimo, esta remuneração deveria ser a base de cálculo para o adicional de insalubridade, primeiro, porque estaria em sintonia com o adicional de periculosidade que incide sobre o salário (art. 193, § 1º, da CLT), considerado este como remuneração; segundo, porque o empregador estaria interessado em solucionar mais rapidamente a insalubridade existente, eliminando ou neutralizando o meio nocivo, pois, persistindo o ambiente insalubre, teria que desembolsar valor maior, à título de adicional ao trabalhador; terceiro, porque sendo o salário mínimo a base de cálculo para o adicional de insalubridade, o impacto econômico para o empregador seria mínimo e ou suportável, não havendo, deste modo, interesse na mudança do quadro de insalubridade, eliminando ou neutralizando a situação nociva à saúde.

Neste sentido, caminha-se, paralelamente, com o recém notável

Doutor, Juiz e Professor Jorge Luiz Souto Maior15, que em sua obra “O Direito do Trabalho como Instrumento de Justiça Social”, faz o seguinte comentário: “Interessante destacar, quanto a este aspecto que a legislação trabalhista é profundamente ineficiente para proteger a saúde do trabalhador, ou, pelo menos, o é a interpretação dominante sobre as normas legais. Com efeito, um adicional de 10, 20 ou 40%, incidente sobre o valor do salário mínimo, para compensar os prejuízos à saúde do trabalhador, causados por um trabalho insalubre, em primeiro lugar não compensa os prejuízos e, em segundo, não incentiva os empregadores implementar medidas para eliminação do risco”

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