Adubação Orgânica

Adubação Orgânica

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Cada colóide (argiloso ou orgânico) apresenta uma carga líquida negativa (-), desenvolvida durante o processo de formação. Isto significa que ele pode atrair e reter partículas com carga positiva (+), do mesmo modo que pólos diferentes de um imã se atraem. Os colóides repelem outras partículas de carga negativa, da mesma forma que polos idênticos de um imã se repelem.

Origem das cargas negativas devido a matéria orgânica

As cargas negativas no solo, que, em geral, superam as cargas positivas, são consideradas como originárias por exemplo de Dissociação do grupo OH-: A presença do grupo OH nas bordas de um cristal da argila ou da matéria orgânica pode levar à dissociação do H+, havendo a formação de uma carga elétrica negativa. As cargas oriundas da dissociação dos radicais orgânicos (carboxílicos, fenólicos, em geral) e minerais, principalmente óxidos e hidróxidos de ferro e alumínio, são chamadas de cargas dependentes do pH, pois, à medida que se eleva o pH, o seu aparecimento é favorecido. O mesmo pode ocorrer pela desobstrução de cargas da matéria orgânica ocupadas por alumínio, ferro e manganês. É um processo que ocorre em função da calagem adequada dos solos ácidos.

· CaCO3 +H2OCa+2 + OH- + CO2
• R-COOH + 0H-R-COO- + H2O

Como visto, a carga negativa (-) do solo pode ser permanente ou variável. A carga variável, que depende do pH do solo, é muito importante para as condições da maioria dos solos brasileiros. Sob estas condições, as únicas formas de aumentar a carga negativa variável e, conseqüentemente, aumentar a capacidade de troca de cátions (CTC), é através da calagem (elevação do pH), manejo adequado dos restos culturais,adubação verde e adubação orgânica.

Balanço de cargas no solo

Muitos solos da região tropical apresentam também cargas positivas, muito embora na grande maioria predominem as cargas negativas, como explicado anteriormente. Mesmo em solos que apresentem um teor considerável de cargas elétricas positivas, a presença da matéria orgânica, cuja quase totalidade é formada por cargas negativas e dependentes de pH, leva a um balanço final de cargas negativas nas camadas superiores do solo. Isto não elimina a possibilidade de ocorrer em certos solos, nas camadas subsuperficiais, uma predominância de cargas positivas.

As cargas positivas do solo ocorrem pela protonação das hidroxilas (OH) dos óxidos de ferro e alumínio, em condições de pH extremamente baixos, (Lopes e Guidolin, 1989).

Os solos diferem na sua capacidade de retenção de K+ trocável e de outros cátions. A CTC depende da quantidade e do tipo de argila e de matéria orgânica presentes. Por exemplo, um solo com alto teor de argila pode reter mais cátions trocáveis do que um solo com baixo teor de argila. A

CTC também aumenta com o aumento no teor de matéria orgânica. A CTC de um solo é expressa em termos de miliequivalentes por 100 gramas de solo e é escrita como meq/100g. A única razão pela qual isto é relatado é para mostrar a CTC relativa das argilas e da matéria orgânica. Geralmente os minerais de argila apresentam valores de CTC variando entre 10 e 150 meq/100g. A CTC de matéria orgânica varia de 100 a 250 meq/100g.

Conseqüentemente, o tipo e a quantidade de argila e de matéria orgânica influenciam muito a CTC dos solos.

Nas regiões tropicais, inclusive em grandes áreas no Brasil, onde os solos são mais intemperizados, predominando argilas de baixa atividade e teor baixo a médio de matéria orgânica, os níveis de CTC são baixos. Em regiões onde ocorrem argilas do grupo 2:1 (menos intemperizadas) e os níveis de matéria orgânica são, usualmente, mais altos, valores da CTC podem ser, por natureza, bastante elevados.

Solos argilosos, com argilas de alta atividade, podem reter grandes quantidades de cátions.

Solos arenosos, com baixo teor de matéria orgânica e, conseqüentemente, baixa CTC, retêm somente pequenas quantidades de cátions, sendo, portanto, mais susceptíveis a perdas de nutrientes por lixiviação. Isto faz com que a época e as doses de fertilizantes a serem aplicadas sejam importantes ao se planejar um programa de adubação.

Solos com alta CTC, no Brasil, são muito mais uma exceção do que regra. Sob condições de baixa CTC, existe predisposição para as altas taxas de lixiviação, fazendo com que o parcelamento da adubação nitrogenada e, às vezes, da adubação potássica, sejam determinantes para aumentar a eficiência das adubações. Deve-se ressaltar ser quase impossível determinar a contribuição individual dos componentes do solo, diferentes minerais de argila, óxidos e matéria orgânica, na CTC, já que estes materiais encontram-se intimamente associados’, é possível, contudo, determinar a contribuição da matéria orgânica e da fração mineral.

Cabe destacar quedesenvolvido em solos do Estado de São Paulo, a matéria orgânica, apesar de ocorrer em teores bem mais baixos que a fração argila, foi a principal responsável pela CTC, contribuindo com 56 a 82% do total de cargas elétricas negativas. Estes dados ressaltam a importância de um manejo adequado da matéria orgânica, quando se tem por meta um balanço eficiente de cátions no solo.

Os sais de sulfato podem ser retidos na superfície dos colóides do solo, e o íon sulfato pode ser fracamente retido por outros complexos nos quais são adsorvidos. A matéria orgânica algumas vezes desenvolve cargas positivas; quando isto acontece, o sulfato pode ser atraído por ela.

A retenção de sulfato, principalmente nas camadas sub-superficiais do solo, explica porque, algumas vezes, plantas cultivadas em solos deficientes em enxofre na camada de 0-20 cm, apresentam, no seu estágio inicial, deficiência deste nutriente, a qual desaparece quando as raízes atingem maior profundidade.

Este fato justifica a necessidade de se coletarem amostras de solo não somente na camada superficial, mas também nas camadas 20-40 cm e 40-60 cm, para uma correta avaliação do nível de disponibilidade de enxofre em uma gleba.

A baixa concentração de nutrientes, principalmente fósforo, nos estercos (exceção feita ao de aves), justifica, em certos casos, o seu enriquecimento com superfosfato simples (S). Esta prática tem ainda a vantagem de reduzir as perdas de amônia, por volatilização, durante o processo de decomposição. Para isto, recomendam-se as seguintes doses (Lopes e Guimarães, 1989):

Esterco de curral com cama = 500 g de S/animal/dia Estábulo de engorda e aviário = 30 g de S/m2, 2 vezes por semana

Pocilgas = 100 - 150 g de S/m2, 2 vezes por semana

O principal fator determinante da quantidade de adubo orgânico a ser aplicada é a disponibilidade e a dificuldade de seu manejo. Como orientação básica, sugerem-se as seguintes quantidades (Lopes e Guimarães, 1989):

Esterco de curral e compostos = 20 a 40 t/ha
Esterco de aves: 2 a 5 t/ha
Esterco líquido ou chorume = 30 a 90 m3/ha
Vinhaça de mosto de melaço = 50 m3/ha
Vinhaça de mosto misto = 100 m3/ha
Vinhaça de mosto de calda = 150 m3/ha

1. Aplicação em área total

2. Aplicação localizada (quando feita em covas ou sulcos de plantio).

Esterco de curral e compostos = 10 a 20 t/ha
Esterco de aves = 2 a 3 t/ha
Esterco de curral e composto = 30 a 50 t/ha
Esterco de aves = 5 a 10 t/ha

- Covas em geral . Esterco de curral e composto = 10 a 20 litros/cova

Esterco de aves e tortas = 3 a 5 litros/cova

No caso de aplicações localizadas (sulcos e covas), deve-se misturar o adubo orgânico com a terra, com antecedência mínima de 15 a 20 dias ao plantio, procurando manter umidade suficiente no período.

Mesmo que a adubação orgânica não possa, em muitos casos, ser efetuada diretamente em larga escala, devem ser adotadas todas as práticas que possam contribuir para a manutenção da matéria orgânica do solo A preservação, ou mesmo o aumento do teor de matéria orgânica do solo, são essenciais para a manutenção do processo produtivo da agricultura. É comum, quando áreas sob floresta ou mesmo sob cerrado são postas sob cultivo inadequado, observar-se a diminuição acentuada do teor de matéria orgânica com o passar dos anos. Com o manejo adequado, é possível não apenas reduzir-se a intensidade desse processo, mas até revertê-lo, levando a um aumento no teor de matéria orgânica com os anos de cultivo.

A preservação da matéria orgânica se faz através da combinação de várias técnicas de manejo:

. Adubação mineral . Conservacão do solo e da água

. Adubacão verde . Rotação de culturas

. Consorciação de culturas . Manejo adequado dos restos culturais

A maioria dos solos encontrados no Brasil apresenta, sob condições naturais, teores médios a altos de matéria orgânica. Na região dos "cerrados", por exemplo, a seca prolongada (cerca de 6 meses), o pH ácido e a baixa disponibilidade de nutrientes reduzem a taxa de mineralização da matéria orgânica, permitindo uma acumulação relativa na camada superficial do solo. Entretanto, sob manejo inadequado e cultivo intensivo, notadamente nos solos arenosos, esta matéria orgânica pode ser reduzida a níveis baixíssimos em poucos anos.

Com fertilização adequada e boas práticas de manejo, mais resíduos de culturas são produzidos. Em cultivos de milho de alta produtividade, até 16 t/ha de resíduos podem ser deixadas no campo após a colheita dos grãos. Isto ajuda a manter ou aumentar os níveis de matéria orgânica nos solos. Estes resíduos são benéficos para as propriedades físicas, químicas e biológicas do solo, e devem ser incorporados regularmente para manter a produção das culturas. O ponto importante é manter quantidades suficientes de resíduos passando pelo solo. A adubação verde ocupa, neste contexto, lugar de destaque, uma vez que, além de contribuir para a manutenção do nível de matéria orgânica no solo, atua como um importante mecanismo de fornecimento de nitrogênio às plantas, através da fixação biológica de nitrogênio, conforme discutido no Capítulo referente a nitrogênio.

Em algumas situações específicas, um melhor aproveitamento dos restos vegetais e dos estercos em uma propriedade agrícola pode ser feito através do preparo do "composto". De uma maneira geral, o processo de preparação do composto é bastante simples (Kiehl, 1985). Alguns cuidados básicos a serem levados em consideração neste processo, estão relacionados aos seguintes pontos:

. Aeração: O material empilhado não deverá sofrer compactação excessiva e, periodicamente, deverá ser revolvido (a cada 15 dias).

. Umidade: O material em decomposição deverá estar sempre úmido, sem, entretanto, deixar escorrer água quando prensado.

. Temperatura: A melhor faixa de temperatura para a decomposição dos restos vegetais está entre 5 a 65óC. Isto pode ser constatado de maneira prática pela introdução de uma barra de ferro no material empilhado a uma profundidade mínima de 50 cm. Esta, ao ser tocada com a mão, deve apresentar-se quente, mas, suportável.

INDICES DE CONVERSÃ0 DE NUTRIENTES (ORG. -- INORG.)

10 CULTIVO % 20 CULTIVO % 30 CULTIVO %1 N 50 20 -

Cultivos em relação ao aproveitamento do fertilizante organico aplicado ALGUNS NUTRIENTES ESSENCIAIS RELACINADOS COM A MATÉRIA ORGÂNICA

O enxofre inorgânico do solo ocorre na forma de sulfato. Quantidades consideráveis de enxofre

ENXOFRE NO SOLO são retidas na matéria orgânica do solo. Na realidade, a matéria orgânica é uma fonte considerável de enxofre na maioria dos solos. Conseqüentemente, o teor de matéria orgânica e a velocidade de sua decomposição influenciam a quantidade de enxofre disponível para as plantas.O íon sulfato apresenta uma carga negativa. Conseqüentemente, ele não é atráido pela argila e pela matéria orgânica do solo, exceto sob certas condições. Ele permanece na solução do solo e movimenta-se com a água. Assim sendo, é facilmente lixiviado. Esta é a razão porque as camadas superficiais dos solos são, normalmente, pobres em enxofre. Os níveis de enxofre aumentam com a profundidade do solo.

Muitos solos brasileiros apresentam, nas camadas sub-superficiais, cargas positivas que podem

adsorver quantidades apreciáveis de SO42-, embora a camada arável do solo apresente deficiência de enxofre.

Em alguns solos de regiões áridas, ocorre muito sulfato na forma de gesso, geralmente em

associação com o carbonato de cálcio livre. As águas de irrigação em tais áreas também podem conter muito sulfato.

Para aumentar a eficiência do uso de fertilizantes contendo enxofre na agricultura brasileira devese levar em conta os seguintes aspectos:

1) Análise de solos. Embora a grande maioria dos trabalhos de calibração envolvendo métodos de

extração;

2) Textura e matéria orgânica. Solos arenosos e com baixos teores de matéria orgânica são os

mais prováveis de apresentar deficiências de enxofre. Esta predisposição é ainda mais acentuada em áreas sujeitas a queimadas anuais, como a região dos cerrados brasileiros com pastagens nativas.

O uso eficiente de fertilizantes contendo micronutrientes ocupa, atualmente, lugar de destaque na

agricultura brasileira, notadamente nas áreas de expansão da fronteira agrícola como nos cerrados. Entretanto, a eficiência destes fertilizantes somente pode ser atingida se os seguintes aspectos forem

Fatores que afetam a disponibilidade de micronutrientes. Embora o conhecimento dos fatores que

levados em consideração: afetam a disponibilidade de nutrientes seja um dos instrumentos de diagnose mais importantes para

Solos arenosos e/ou argilosos mas com argilas de baixa atividade, baixos teores de matéria

o uso eficiente dos fertilizantes, esse aspecto assume maior relevância ainda para os micronutrientes.

orgânica e baixa CTC, são mais propensos a apresentar problemas de deficiência de micronutrientes, principalmente zinco, cobre e boro. Quanto mais elevado for o valor do pH, menor

Detalhes dos fatores qua afetam a disponibilidade de cada micronutriente, são apresentados a

a disponibilidade de zinco, cobre, ferro e manganês. seguir (Lopes, 1984):

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