Carta de Caminha

Carta de Caminha

(Parte 1 de 2)

A Carta de Pero Vaz de Caminha no contexto das diferentes mentalidades.1 Tatiane Bartmann*

“Toda a história escrita tende a tornar-se uma interpretação atual do passado” Jaime Cortesão.

Resumo: Um documento importante ultrapassa seu período de criação e influencia diversos momentos históricos. Tenho o intuito de analisar a Carta de Pero Vaz de Caminha e as diferentes abordagens que ela proporciona. Sabemos que no ano de 1500 a Carta foi escrita a fim de informar o rei D. Manoel sobre o achamento de terras atualmente brasileiras. Já na primeira metade do século XIX, o documento foi exposto a uma visão ufanista em função da necessidade de um engajamento nacionalista da sociedade e do meio romântico em que se encontrava a academia. Por fim, é objetivo deste, analisar a influência permanente de uma visão idealizada do Brasil.

Palavras-chaves: História do Brasil, A Carta de Pero Vaz de Caminha, Descobrimento, Documento.

O Descobrimento

Quando o assunto é descobrimento do Brasil, aviva em nossa memória o nome de um português chamado Pedro Álvares Cabral, pois atribuímos a ele o primeiro contato casual com a terra que hoje constitui a nação brasileira. Valho-me dos escritos de Rodolfo Espínola para afirmar que não foi este português o primeiro a desembarcar no atual Brasil, mas sim, um espanhol -Vicente Yáñez Pinzón- o qual aportou em 26 de janeiro de 1500 na ponta do Mucuripe, Fortaleza. O motivo pelo qual Pedro Álvares Cabral obtém prestígio pela descoberta está relacionado ao Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494, que divide o mundo em duas partes: uma pertencendo à Espanha e outra a Portugal. Por este tratado,

O Brasil estava dividido antes de ser descoberto. (...) Foi o Tratado de Tordesilhas, portanto, o instrumento jurídico que garantiu aos portugueses a glória e a consagração de Pedro Álvares Cabral (...) como o verdadeiro descobridor do Brasil.2

*Graduando de História da PUCRS. 1 Artigo desenvolvido durante as atividades da disciplina de Prática de Pesquisa I, do Curso de História da PUCRS, ministrada pela professora Elizabeth Torresini.

2 ESPÍNDOLA, Rodolfo. Vicente Pinzón e a descoberta do Brasil. RJ: Topbooks, 2001. p. 24.

Este acontecimento tende a validar a idéia de que o achamento do Brasil não foi casual e a esta opinião somam-se análises, como a de Jaime Cortesão que trabalha a intencionalidade da viagem a partir de algumas observações da Carta de Pero Vaz de Caminha. Jaime Cortesão verifica o uso da locução “mar de longo”, o que significaria um movimento progressivo, uma continuidade reta, sem voltas. Sabendo que a expressão foi usada durante a viagem, torna-se um ponto favorável do afastamento intencional da costa, já que, os portugueses possuíam instrumentos razoavelmente precisos para o cálculo da latitude em que se encontravam, a exemplo, o astrolábio e tábuas da índia.3

Caráter Informativo da Carta de Pero Vaz de Caminha

A Carta de Pero Vaz de Caminha não é um documento solto, pois faz parte de um gênero literário conhecido como narrativas de viagens. As cartas de viagens resultam da ambição e coragem portuguesa, porque nasceu de um desejo de conquista por parte dos portugueses. Estes aventureiros sempre eram acompanhados por escrivães que tinham por objetivo informar ao rei os descobrimentos, apresentando claramente as características do lugar em questão. É o que diz Maria Luiza Abaurre e Marcela Pontara no seguinte parágrafo:

O objetivo da Literatura de viagens era informar. E isso criou um desafio interessante para seus autores: como, por meio de palavras, apresentar um retrato compreensível de uma realidade inteiramente desconhecida e estranha?4

Trata-se de documentos bastante ricos. A Carta, em especial, possui características religiosas, artísticas e costumeiras, demonstrando assim o erro que muitos cometem ao analisarem somente o caráter filológico da Carta, tornando, dessa forma, a abordagem menos ligada a acontecimentos atuais. Mas, esta tendência é perfeitamente compreensível, já que, trata-se de um documento

3 CORTESÃO, Jaime. A Carta de Pero Vaz de Caminha. Lisboa: Portugália, 1967.p. 86. 4 ABAURRE, Maria Luiza M. e PONTARA, Marcela. Literatura Brasileira. São Paulo: Moderna, 2005.p.151.

demasiadamente antigo e a tendência historiográfica deste trabalho é razoavelmente recente.

Em Portugal, caminha está longe de ser o pioneiro da literatura informativa, pois esta existe desde a segunda metade do século XV. Mas é certo que este gênero sofreu mudanças, porque, no início os relatos partiam de uma necessidade específica de registrar o número de milhas ou léguas percorridas, os escambos feitos sob o olhar lucrativo ou sob a forma de despesas. Isso difere bastante da Carta de Caminha, a exemplo: Da marinhagem e singradura do caminho não darei conta aqui a Vossa Alteza, porque não saberia fazê-lo e porque os pilotos que devem ter esse encargo.5

Nesta passagem inicial, Caminha refere-se às informações técnicas as quais não irá deter-se, servindo, assim, como exemplo da evolução ocorrida no encargo de narrar as viagens. Segundo Jaime Cortesão:

Esses relatos, começados a escrever no cumprimento dum dever, passaram a ser redigidos ou ditados espontaneamente, por interesse, disposição e talento natural. Eles marcam, pois, uma segunda fase na evolução do gênero.6

O gênero das narrativas de viagens tem no início um caráter geográfico.

Os escrivães davam uma informação administrativa, onde os lucros e despesas eram registrados cronologicamente. Jaime Cortesão informa-nos a respeito dos escrivães das caravelas do infante D. Henrique, dizendo-nos que estes relatavam de forma mais exata e informativa os acontecimentos. Sendo assim, Cortesão afirma:

Por certo os primeiros cronistas, como Afonso Cerveira e

Azura, que escreveram sobre os descobrimentos em tempos do infante D. Henrique, serviram-se de relações de escrivães para elaborar os seus relatos.7

5 CASTRO, Silvio. A Carta de Pero Vaz de Caminha. Porto Alegre: LePM Pocket, 2005. p. 8. 6 CORTESÃO, Jaime. A Carta de Pero Vaz de Caminha. Lisboa: Portugália, 1967.p. 20. 7 Ibidem, p. 18.

Alguns relatos bastante específicos, com dados muito precisos, foram fonte de inspiração para textos posteriores mais corriqueiros. Já a Carta por ser desde sua origem um relato cultural do cotidiano da viagem, serviu de inspiração a elaboração de obra de arte. Uso como exemplo disto, o quadro criado por Vítor Meirelles, intitulado A Primeira Missa no Brasil. Este foi composto após inspiração suscitada pela Carta do Descobrimento. Segundo Jorge Coli:

[foi seu mentor brasileiro Araújo Porto Alegre] quem insistiu para que Meirelles se embebesse do texto de Caminha: “Leia cinco vezes o Caminha, que fará uma cousa digna de si e do país” (...) [Contudo] o estilo de Caminha fez com que o documento se projetasse definitivamente na cultura do século XIX brasileiro.8

A imagem da Primeira Missa, criada por Vítor Meirelles, mostra os índios muito interessados no conteúdo religioso que os portugueses se esforçam em ensiná-los. O índio amistoso ganha formas idealizadas em um cenário paradisíaco, eis o conteúdo romântico da visão do Brasil.

Sobre o Romantismo

Em meados do século XVIII, uma série de tensões agitam a Europa. A queda da monarquia absolutista, primeiramente francesa, soma-se a mudanças econômicas na Inglaterra com a troca da mão-de-obra artesanal para o fabril, com a utilização dos teares mecânicos. Estes fatos alteram de imediato a velocidade e a quantidade de produção. O comerciante que inicialmente adquiriu rendas com o comércio, passa a investir na fábrica, resultando na ampliação de sua fortuna.

Em meio a processos políticos e progressos tecnológicos há o burguês em ascensão que vem com novos pensamentos, novos gostos. Assim, a arte romântica surge para satisfazer os anseios de um grupo, resultante de uma política capitalista.

8 COLI, Jorge. A Primeira Missa no Brasil, Vítor Meirelles. A arte fabrica a imagem do Descobrimento. IN: Nossa História1. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, nov. 2003.p. 18.

Até o século XVIII, a arte esteve voltada para os nobres e seus valores. Quando o burguês conquista poder político, precisa criar as suas referências artísticas, definir padrões estéticos nos quais se reconheça e que o diferenciem da nobreza deposta. É neste contexto que o movimento romântico surge, provocando uma verdadeira revolução na produção artística.9

Já no Brasil, este movimento literário romântico tratará, em sua primeira geração -indianista-, a figura central da Carta de Pero Vaz de Caminha, ou seja, “o bom selvagem”, aquele que amistosamente recebe o branco em suas terras. Aliada a esta visão idealizada do índio, está a imagem paradisíaca de uma terra “onde tudo dá”.

Estes serão elementos constitutivos da nacionalidade brasileira, uma vez que a Corte portuguesa encontra-se no Brasil rompendo o pacto colonial. O que gera, por sua vez, maior interação econômica a arcaica exportadora de matériaprima cuja função era enriquecer a metrópole.

Uma série de missões estrangeiras vieram ao Brasil na segunda metade do século XIX. Entre os viajantes que aqui chegaram destaca-se Auguste de Saint-Hilaire, respeitado professor do Museu de História Natural de Paris, o qual resgata em seus textos o mito do “território sagrado”. Maria Luiza e Marcela citam Saint-Hilaire:

“Comecei a descer, e logo o mais majestoso espetáculo se ofereceu aos meus olhos. Ao redor de mim altas montanhas, cobertas de espessas florestas, dispunham-se em semi-circulo. (...) O céu mais brilhante e os efeitos de luz mais variados aumentavam a beleza dessa vista imensa. Não pude, confeso, contemplá-la sem profunda emoção.” 10

9 ABAURRE, Maria Luiza M. e PONTARA, Marcela. Literatura Brasileira. São Paulo: Moderna, 2005.p. 217. 10 Ibidem, p. 236.

Pode-se assim perceber a base formadora da identidade nacional brasileira permeada de idealização, o que permite uma idéia do que será a nossa independência de 1822.

O Caminho da Carta de Caminha

Soma-se ao retorno da visão paradisíaca o fato da publicação, em 1817, da Carta de Pero Vaz de Caminha na Corografia brasílica por Aires de Casal. A Corografia foi dedicada a D. João que residia no Rio de Janeiro. Sua presença anunciava o que seria a independência a qual se aproximava.

Uma questão surge com naturalidade: Como explicar o aparecimento deste documento tão tardiamente? Creio que a resposta não será satisfatória, pois não há um entendimento claro sobre o fato a Carta estar “perdida”.

A única versão do descobrimento do Brasil, publicada relativamente próxima à investida marítima dos portugueses ao lado oeste do mundo, foi a chamada Relação do Piloto Anônimo, no ano de 1507. Uma explicação, talvez não muito completa, mas real, é a que diz respeito ao acontecimento de um terremoto em Lisboa, o que contribuiu para a perda de alguns documentos, bem como o esquecimento de outros.

Não somente a Carta, mas Pedro Álvares também foi esquecido. Após breve consagração deste que foi o capitão-mor da esquadra que descobrira o novo mundo. Dessa forma, Cabral refugia-se na vida agrícola em Santarém e morre, provavelmente nesta mesma cidade, em 1520. Em relação aos portugueses, Cortesão lembra:

Preocupava-os mais o descobrimento e posse dos Novos

Mundos que o relato das suas façanhas. (...) Agravaram essa tendência a averiguada política de reserva seguida pelos dirigentes em tudo que se referia à informação geográfica sobre as terras descobertas. 1

Faz-se necessário uma observação sobre o cenário competitivo da época das grandes navegações, no qual Portugal e Espanha disputavam a posse de novas terras, a descoberta de riquezas. Neste contexto, teria D. Manoel um descaso com a descoberta de um mundo novo? Este é um questionamento que Jaime Cortesão oferece-nos e explica:

Tudo isto está longe de mostrar descaso. Ao contrário, a exploração pertinaz, a consciência da grandeza e unidade geográfica, a vasta ambição política, capciosamente figura, ressaltam da Carta vistosamente colorida e historiada, com todas as lisonjas dum brasão ou dum pano de rãs. 12

Para confirmar a idéia de que o Brasil não ficou ao descaso régio, existe um mapa intitulado Magnus Brasil, datado de 1519 (Capa do Atlas Lopo Homem), no qual há uma grande riqueza de detalhes, uma precisa imagem do estuário do Amazonas, incluindo 146 nomes de acidentes geográficos que bordam desde o Maranhão até o Prata, sendo esta área, delimitada por duas bandeiras portuguesas.

Quando diz-se que D. Manoel deu pouca importância a descoberta do

Brasil, esquece-se que as façanhas portuguesas são muitas e, segundo Jaime Cortesão, “esquecem que o monarca àquela data tinha o maior interesse em lançar poeira nos olhos da Espanha para assim protelar, como protelou, o conflito das soberanias do Novo Mundo.” 13

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