Manufatura enxuta

Manufatura enxuta

(Parte 1 de 8)

Moacir Godinho Filho

Flavio César Faria Fernandes

Departamento de Engenharia de Produção,

Programa de Pós-Graduação,

Universidade Federal de São Carlos,

C.P. 676, CEP 13565-905, São Carlos, SP, e-mails: moacir_godinho@uol.com.br e dfcf@power.ufscar.br

Recebido em 8/5/2003

Aceito em 5/3/2004 v.1, n.1, p.1-19, jan.-abr. 2004

Resumo

Este trabalho apresenta uma revisão bibliográfica (82 artigos) sobre a Manufatura Enxuta (ME), revisão esta não encontrada até agora na literatura de Gestão da Produção. A partir de tal revisão propôs-se um sistema de classificação para a ME baseada em 4 parâmetros: metodologia, abrangência, princípios e capacitadores, a qual serviu para classificar e estruturar os artigos da revisão. Uma vez classificada e estruturada, a revisão bibliográfica sobre ME serviu de base para uma ampla análise do tema. Essa análise se baseou em dois pontos fundamentais: i) um estudo quantitativo das metodologias, abrangências, princípios e capacitadores utilizados nos trabalhos e i) um estudo qualitativo dos principais assuntos e objetivos alcançados por esses trabalhos. As principais contribuições deste trabalho são: servir de base para um maior conhecimento da literatura existente atualmente sobre ME e propor sugestões de pesquisas futuras na área.

Palavras-chave: Manufatura Enxuta, revisão.

1. Introdução

O presente trabalho trata do tema Manufatura Enxuta, também conhecido como Sistema Toyota de Produção (STP), o qual teve início na década de 1950, no Japão, mais especificamente na Toyota. De acordo com Womack et al. (1992), foram Eiiji Toyoda e Taiichi Ohno, da Toyota, que perceberam que a manufatura em massa não funcionaria no Japão e, então, adotaram uma nova abordagem para a produção, a qual objetivava a eliminação de desperdícios. Para conseguir esse objetivo, técnicas como produção em pequenos lotes, redução de set up, redução de estoques, alto foco na qualidade, dentre outras, eram utilizadas. Essa nova abordagem passou a ser conhecida como Sistema Toyota de Produção. Apesar do STP muitas vezes ser entendido como algo novo, na verdade, muitos de seus princípios são trabalhos de pioneiros como Deming, Taylor e Skinner (James-Moore & Gibbons,

1997). O STP foi popularizado no ocidente por Womack et al. (1992). Esses autores denominam o STP de Manufatura Enxuta.

Atualmente coexistem várias definições para a Manufatura Enxuta (ME). Womack & Jones (1998), por exemplo, definem ME como uma abordagem que busca uma forma melhor de organizar e gerenciar os relacionamentos de uma empresa com seus clientes, cadeia de fornecedores, desenvolvimento de produtos e operações de produção, segundo a qual é possível fazer cada vez mais com menos (menos equipamento, menos esforço humano, menos tempo, etc.). Segundo Shah & Ward (2003), a abordagem da ME engloba ampla variedade de práticas gerenciais, incluindo just in time, sistemas de qualidade, manufatura celular, entre outros. Ainda de acordo com esse autor, o ponto fundamental da ME é que essas práticas devem trabalhar de maneira sinérgica para criar um sistema de alta qualidade que fabrica produtos no ritmo que o cliente deseja, sem desperdícios.

Godinho Filho & Fernandes – Manufatura Enxuta: Uma Revisão Que Classifica e Analisa...2

A partir de características da ME citadas por diversos autores sobre o tema e no intuito de fornecer uma definição mais precisa para a Manufatura Enxuta, Godinho Filho (2004) apresenta a ME como um Paradigma Estratégico de Gestão da Manufatura (PEGEM), ou seja, define a Manufatura Enxuta como um modelo estratégico e integrado de gestão, direcionado a certas situações de mercado, que propõe auxiliar a empresa a alcançar determinados objetivos de desempenho (qualidade e produtividade); paradigmas esses compostos por uma série de princípios (idéias, fundamentos, regras que norteiam a empresa) e capacitadores (ferramentas, tecnologias e metodologias utilizadas).

Neste artigo apresentamos uma revisão da literatura sobre

ME da maneira mais ampla possível, tentando abranger a maior parte dos trabalhos relacionados à ME atualmente encontrada nos mais importantes periódicos nacionais e internacionais da área da Gestão da Produção. Também desenvolvemos um sistema de classificação, com o qual estruturamos a própria revisão da literatura. Tomou-se muito cuidado para não confundir ME com just in time. Entendemos que o just in time (JIT) é um princípio dentro do paradigma enxuto. Assim, trabalhos desenvolvidos somente sob uma ótica do JIT, sem estar diretamente relacionado à ME, foram excluídos deste estudo. Vários autores aceitam a afirmação de que o JIT é um princípio da ME, dentre eles Ahlstron & Karlsson (1996), Henderson & Larco (2000) e Sanchez & Perez (2001). Nas palavras de Ghinato (1995), "o JIT é somente um meio para se alcançar o verdadeiro objetivo do Sistema Toyota de Produção que é o de aumentar o lucro através da completa eliminação dos desperdícios". Uma revisão completa, embora não atualizada, sobre JIT pode ser encontrada em Moras et al. (1991).

A importância das classificações dentro da atividade científica é clara, visto que o conhecimento científico se baseia na classificação. Portanto, a realização de uma classificação é ferramenta essencial para o conhecimento de determinada área.

Para Good (1965), as classificações podem servir para os seguintes propósitos: i) conhecimento mental e comunicação; i) descoberta de novo campo de pesquisa; ii) planejamento de estrutura organizacional ou estrutura de máquina; iv) lista de conferência; v) entretenimento.

A classificação que será apresentada neste trabalho se encontra principalmente nos grupos (i) e (i), a qual servirá para maior conhecimento do tema ME, além de propor pontos importantes para serem estudados em futuras pesquisas.

Nossa classificação se baseia em quatro parâmetros: a metodologia usada, a abrangência, os princípios e os capacitadores da ME discutidos.

Estruturamos este trabalho da seguinte forma: na seção 2 apresentamos a metodologia; na seção 3, o sistema de classificação de trabalhos e como este foi utilizado para classificar os artigos encontrados na revisão; na seção 4 apresentamos a revisão da literatura sobre ME, devidamente estruturada de acordo com a classificação anterior; na seção 5 fazemos uma análise geral da ME; e, finalmente, na seção 6, tecemos algumas conclusões e sugerimos novos temas de pesquisas dentro da ME.

2. Metodologia

Este trabalho é do tipo teórico-conceitual e realiza uma revisão bibliográfica sobre estudos que falam sobre a ME. Para isso, é utilizada a estrutura metodológica proposta por Godinho Filho & Fernandes (2003). Essa estrutura é mostrada na Figura 1, na qual podemos notar que a realização de uma revisão sobre ME deve ser o passo inicial para este tipo de trabalho. Em nosso estudo realizamos uma pesquisa sobre ME utilizando diversas bases de dados (COMPENDEX, INSPEC, entre outras). Foram encontrados 82 artigos sobre ME. Em seguida desenvolvemos um sistema de classificação (detalhado na seção 3) que se baseia em quatro parâmetros principais: metodologia, abrangência, princípios e ferramentas. Proposto o sistema de classificação, este foi utilizado para classificar os artigos da revisão (seção 3). Assim pôde-se estruturar a revisão bibliográfica da forma mais conveniente (seção 4) e também realizar a análise geral da ME (seção 5). Essa análise possibilita melhor conhecimento do tema ME e sugere futuras pesquisas (seções 5 e 6 ).

3. Classificação da literatura sobre Manufatura Enxuta

3.1 O sistema de classificação proposto

Apresentamos nesta seção o sistema de classificação propriamente dito. Esse sistema baseia-se em quatro categorias principais:

•a metodologia usada; •a abrangência;

•os princípios da ME enfatizados;

•os capacitadores da ME discutidos.

Para facilitar a classificação dos trabalhos, faremos uma codificação para cada atributo que as categorias assumirem.

A primeira categoria do sistema de classificação proposto é a metodologia usada no trabalho. Filippine (1997), Fernandes (1999) e Berto & Nakano (1998, 1999, 2000) dividem os procedimentos de pesquisa mais utilizados na área de Gestão da Produção em cinco classes: teóricoconceitual, experimental, pesquisa de avaliação (survey), estudo de caso e pesquisa-ação. Para este trabalho, dividimos os procedimentos, assim, a categoria metodologia,

GESTÃO & PRODUÇÃO, v.1, n.1, p.1-19, jan.-abr. 2004 3 de nosso sistema de classificação, foi separada em duas grandes classes:

•Trabalhos teóricos (representaremos esta classe pela letra T) – dentro desta classe estão os trabalhos que utilizam metodologia científica baseada na teoria, ou seja, pesquisas do tipo teórico-conceitual, como discussões conceituais e revisões da literatura.

•Trabalhos práticos (representaremos esta classe pela letra P) – dentro desta classe estão todos os outros procedimentos de pesquisa citados por Filippine (1997), Fernandes (1999) e Berto & Nakano (1998, 1999, 2000): pesquisas do tipo experimental, surveys, estudos de caso e pesquisa-ação. Todas utilizam a prática para testar ou validar algum conceito determinado.

A segunda categoria do sistema de classificação proposto é a abrangência do trabalho. Essa categoria referese basicamente ao nível da cadeia de suprimentos em que está focado o trabalho sobre ME. A criação dessa categoria justifica-se pelo fato de que a Manufatura Enxuta, apesar de ter nascido em chão de fábrica, como o próprio nome mostra, evoluiu para outras áreas da cadeia de suprimentos; nas palavras de Warnecke & Hüser (1995): "A produção propriamente dita é somente um aspecto da ME". Esses autores identificam aspectos da ME relacionados a quatro áreas: desenvolvimento de produto, cadeia de suprimentos, chão de fábrica e serviço de pós-venda. Para Panizzolo (1998), muitos autores, em razão do aumento do escopo da ME, chegaram a sugerir o termo Empresa Enxuta em vez de somente Manufatura Enxuta. A segunda categoria de nosso sistema de classificação compreende exatamente esta questão. Assim, quanto à abrangência, dividiremos os trabalhos em três grandes classes:

•foco no chão de fábrica (representaremos esta classe pelas letras CF) – refere-se aos trabalhos cujo foco principal é o estudo das práticas enxutas no chão de fábrica;

Figura 1 – Estrutura metodológica do trabalho. Fonte: Adaptado de Godinho Filho & Fernandes (2003).

Godinho Filho & Fernandes – Manufatura Enxuta: Uma Revisão Que Classifica e Analisa...4

•foco em outras áreas da empresa (representaremos esta classe pelas letras OA) – refere-se aos trabalhos cujo foco principal é o estudo das práticas enxutas em outras áreas da organização (projeto, recursos humanos, contabilidade/custos, etc.). Esta classe engloba as áreas desenvolvimento de produto e serviço pós-venda citados por Warnecke & Hüser (1995);

•foco na cadeia de suprimentos (representaremos esta classe pelas letras CS) – refere-se a trabalhos cujo foco principal são as práticas enxutas relacionadas a clientes e fornecedores da empresa.

A terceira categoria do sistema de classificação são os princípios enxutos enfatizados no trabalho. Para este trabalho extraímos de importantes referências sobre Manufatura Enxuta e Sistema Toyota de Produção (Monden, 1984; Shingo, 1985; Robinson, 1990; Shingo, 1996a; Shingo, 1996b; Ohno, 1997; Womack & Jones, 1998; Henderson & Larco, 2000) os princípios mais importantes da ME. A Tabela 1 mostra esses princípios com seus respectivos códigos do sistema de classificação.

Finalmente, a quarta categoria do sistema de classificação proposto são os capacitadores (tecnologias, metodologias e ferramentas) da ME. A partir das referências citadas anteriormente e da própria revisão realizada sobre o tema ME, foram identificadas as principais tecnologias, ferramentas e metodologias necessárias para conseguir um sistema enxuto nas empresas. Também a partir da revisão, pode-se organizar os capacitadores de acordo com o princípio (representado pelo código mostrado na Tabela 1) que está mais relacionado. Isto é mostrado na Tabela 2.

3.2Classificação da revisão bibliográfica sobre ME

Após apresentarmos a estrutura do sistema de classificação, vamos para a classificação propriamente dita. A revisão bibliográfica foi composta de 82 trabalhos sobre

ME. Uma observação é de extrema importância: a revisão buscou somente trabalhos que tratam claramente do assunto Manufatura Enxuta, não se preocupando com trabalhos que tratam apenas de algum princípio ou capacitador específico da ME, como just in time, seis sigma, entre outros.

A classificação, quanto às quatro categorias mostradas na seção anterior, é apresentada na Tabela 3. Os artigos estão em ordem cronológica e alfabética dentro do ano de publicação.

A Figura 2 mostra os artigos da revisão divididos de acordo com a referência (artigos técnicos, proceedings e periódicos) e ano de publicação. Pode-se observar que há forte predominância de artigos publicados em periódicos científicos, que começaram a ser publicados em 1993. Há grande variação no número destes artigos: um pico maior em 1996, outros em 1997 e 2000 e provavelmente ocorrerão novos picos em 2004 ou nos próximos anos, ou seja, a Manufatura Enxuta é um tema que não está esgotado.

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