Guia do Instrutor em Práticas da Boa Prescrição Médica

Guia do Instrutor em Práticas da Boa Prescrição Médica

(Parte 1 de 8)

WHO/EDM/P AR/2001.2

Distribuição: geral

Original: Inglês Tradução: Português

Guia do Instrutor em Práticas da Boa Prescrição Médica

Organização Mundial da Saúde

Departamento de Medicamentos Essenciais e Políticas de Medicamentos Genebra, Suíça

Autores: Hans V. Hogerzeil1 (Editor) Karen I. Barnes2 Rob H. Henning3 Yunus E. Kocabasoglu3 Helene Möller4 Anthony J. Smith5 Rob S. Summers6 Theo P.G.M. de Vries7 com contribuições de Hannelie Meyer, Sule Oktay, Budiono Santoso e Sri Suryawati

1 WHO Department of Essential Drugs and Medicines Policy, Geneva, Switzerland 2 WHO Collaborating Centre for Drug Policy, Information and Safety Monitoring, Department of Clinical Pharmacology, Medical School, University of Cape Town, Cape Town, South Africa 3 WHO Collaborating Centre for Pharmacotherapy Teaching and Training, Department of Pharmacology and Clinical Pharmacology, Medical Faculty, Groningen University, Groningen, The Netherlands 4 WHO South African Drug Action Programme, Pretoria, South Africa 5 WHO Collaborating Centre for Pharmacotherapy Teaching and Training, Discipline of Clinical Pharmacology, Medical School, Newcastle, Australia 6 WHO Collaborating Centre for Pharmacy Curriculum Development and Rational Use of Drugs, School of Pharmacy, Medical University of Southern Africa, Pretoria, South Africa 7 Department of Pharmacology, Medical Faculty, University of Amsterdam, Amsterdam, The Netherlands

Agradecimentos Agradecemos o apoio das seguintes pessoas na revisão dos rascunhos iniciais deste livro:

F. Danish (Kabul, Afeganistão), A. Haeri (Teerã, República Islâmica do Irã), A. Helali (Algiers, Algéria), K.K. Kafle (Kathmandu, Nepal), R.O. Laing (Boston, USA), J.C. Lombard (Sovenga, África do Sul) e I. Moodley (Johannesburg, África do Sul).

Tradução e adaptação para o português: Vera Lucia Luiza 1 Claudia Garcia Serpa Osorio de Castro1

Revisão Maria Auxiliadora Oliveira1

Editoração Eletrônica Lúcia Regina Pantojo de Brito

Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil. Centro Colaborador da OPAS/OMS em Políticas Farmacêuticas.

1 Pesquisadoras do Núcleo de Assistência Farmacêutica da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação

Trabalho realizado como parte das atividades do Núcleo de Assistência Farmacêutica (NAF/DCB/ ENSP/FIOCRUZ) como Centro Colaborador da OPAS/OMS. Em especial, destaca-se cooperação com PAR/EDM/WHO, sob a coordenação do Prof. Jorge Bermudez.

© Organização Mundial da Saúde 2001

Este documento não é uma publicação formal da Organização Mundial da Saúde (OMS), e todos os direitos estão reservados à OMS. O documento pode, entretanto, ser livremente revisado, resumido, reproduzido e traduzido, em parte ou no todo, mas não para venda ou uso em propostas comerciais.

As opiniões expressas no documento pelos autores nominados são de responsabilidade somente destes

Introdução 1

O Guia da OMS para a Boa Prescrição Médica O ensino da farmacoterapia baseado em problemas A relação com o treinamento clínico

Guia para a Boa Prescrição Médica
Capítulo 1: O papel do instrutor7
Capítulo 2: Como estabelecer objetivos de aprendizagem1
Capítulo 3: Como construir bons exemplos de pacientes15
Capítulo 4: Notas para o Instrutor do Guia para a Boa Prescrição Médica19
Capítulo 5: Desenvolvendo habilidades para avaliação crítica3
Capítulo 6: Aplicações na Atenção Básica de Saúde45

PARTE 1: Como ensinar farmacoterapia com o

do treinamento
Capítulo 7: Como avaliar os alunos51
Capítulo 8: Como avaliar os instrutores69
Capítulo 9: Como medir o impacto do treinamento73

Parte 2: Como avaliar os alunos, os instrutores e o efeito Parte 3: Como mobilizar apoio

Capítulo 10: Como mobilizar apoio para o ensino da farmacoterapia81
baseado em problemas
Anexo 1: Exemplos de casos simples de pacientes usados87
para treinamento de prescritores não médicos na África do Sul.
Anexo 2: Formulário de pontuação de prescrição na África do Sul95
Anexo 3: Exemplos de casos de pacientes usados no estudo no Iemen96
Anexo 4: Formulário de pontuação no programa de pesquisa no Iemen101

Sumário

Guia do Instrutor para Práticas da Boa Prescrição Médica Introdução

prescrição irracional é uma doença difícil de tratar. Entretanto, sua prevenção é possí-
vel. Por esta razão o Departamento de Medicamentos Essenciais e Políticas de Medica-
mentos da OMS tem como objetivo, entre outros, melhorar o ensino de farmacoterapia

para estudantes de medicina.

O Guia do Instrutor em Práticas da Boa Prescrição Médica é a obra que acompanha o Guia para a Boa Prescrição Médica. Seu público alvo são professores universitários que desejem utilizá-lo para lecionar a estudantes de medicina. Seus principais objetivos são: apontar a abordagem educacional que orienta o Guia; explicar como ensinar farmacoterapia; prover orientações práticas de como avaliar os alunos, os professores e o curso; e fornecer suporte de mobilização para o ensino da farmacoterapia baseado em problemas.

O Guia da OMS para a Boa Prescrição Médica

Pesquisas no Canadá, EUA e Europa concluíram que o treinamento estruturado em farmacoterapia é relativamente infreqüente. Em muitas escolas médicas o ensino da farmacoterapia é caracterizado pela transferência de conhecimento sobre os medicamentos, mais do que pelo desenvolvimento de habilidade para lidar com os pacientes. Entretanto, desde a década de 90, têm sido desenvolvidos programas educacionais com o objetivo de melhorar o ensino da farmacoterapia.

Tendo como base a experiência positiva desenvolvida em Groningen (Holanda), e um amplo estudo internacional envolvendo sete escolas médicas em países desenvolvidos e em desenvolvimento1, a OMS desenvolveu um manual sobre os princípios da prescrição racional para estudantes de medicina, o Guide to Good Prescribing 2, traduzido para o português como Guia para a Boa Prescrição Médica (Artmed, 1998). Esse manual apresenta ao estudante o seguinte modelo normativo para a farmacoterapia racional: primeiro, os estudantes são levados ou conduzidos a selecionar tratamentos padronizados para as doenças comuns, resultando em um conjunto de medicamentos de primeira escolha, chamados de medicamentos-I (individuais). No curso do desenvolvimento de seus medicamentos-I, os estudantes são ensinados a consultar protocolos de tratamento nacionais e internacionais, formulários, livros texto e outras fontes de informação sobre medicamentos. Em seguida, eles são ensinados a aplicar o conjunto de medicamentos-I a problemas específicos de pacientes, usando um esquema de resolução de problemas composto por 6 passos: (1) definir o problema do paciente; (2) especificar o objetivo terapêutico; (3) verificar a conveniência de seus medicamentos-I e escolher o tratamento para esse paciente individual; (4) escrever a prescrição; (5) informar e instruir o paciente e (6) monitorar e/ou interromper o tratamento.

A racionalidade subjacente a essa abordagem é que o estudante desenvolve, em algum momento de seus estudos ou precocemente em sua carreira, a definição de um conjunto de medicamentos que usará regularmente a partir de então. A escolha de medicamentos, entretanto, é muitas vezes feita com bases irracionais, isto é, copiando o comportamento prescritivo de professores clínicos ou colegas, sem considerar outras alternativas ou desconhecendo a forma como é feita a escolha deles. De Vries TPGM, Henning RH, Hogerzeil HV, Bapna JS, Bero L, Kafle K, Mabadeje AFB, Santoso B, Smith AJ. Impact of a Short Course in Pharmacotherapy for Undergraduate Medical Students. Lancet 1995; 346: 1454-7 De Vries TPGM, Henning RH, Hogerzeil HV, Fresle DF. Guide to Good Prescribing. Geneva: World Health Organization, 1994. WHO/DAP/94.1

O Guia para a Boa Prescrição Médica não somente auxilia os estudantes a selecionarem os medicamentos-I de forma racional, mas também a consultar, entender e usar os protocolos de tratamento existentes. Por exemplo, ensina os estudantes como verificar, para cada paciente individual, se o tratamento-I padrão é também a escolha mais apropriada naquele caso individual, e, se necessário, como adaptar o medicamento, a forma farmacêutica, a freqüência de tomadas ou a duração do tratamento.

Mais tarde em suas carreiras, os médicos estarão sujeitos a muitas outras influências em seus hábitos de prescrição, incluindo publicações científicas, informações comerciais e pressão dos pacientes. O Guia torna o estudante consciente destas influências e o ajuda a fazer o melhor uso da informação disponível para atualizar sua escolha dos medicamentos-I de forma racional.

O Guia para a Boa Prescrição Médica foi largamente aclamado como ferramenta de ensino inovadora e muito prática. Embora publicado pela OMS, ele pode ser livremente resumido, traduzido, reproduzido no todo ou em parte, mas não para venda ou outras propostas comerciais. Pode também ser obtido no website WHO Medicines (http://w.med.rug.nl/pharma/who-c/ggp/ homepage.htm/). Na prática, isto significa que não existe necessidade de os estudantes procurarem cópias originais, dado que o Guia pode ser facilmente reproduzido como parte do material básico do estudante. Até 2000 ele havia sido traduzido para 18 idiomas.

O ensino da farmacoterapia baseado em problemasO ensino da farmacoterapia baseado em problemasO ensino da farmacoterapia baseado em problemasO ensino da farmacoterapia baseado em problemasO ensino da farmacoterapia baseado em problemas

O esquema de seis passos oferece uma estrutura lógica para orientar o estudante no processo de escolha da farmacoterapia e no uso do Guia para o autoaprendizado. Entretanto, estudantes de medicina precisam ser treinados em habilidades adicionais necessárias para aplicar o método com sucesso. O treinamento de habilidades cognitivas requer métodos pedagógicos especiais, e o método recomendado é o treinamento baseado em problemas usando pequenos grupos de discussão. Adicionalmente, são necessários métodos educacionais específicos para ensinar habilidades de comunicação, tais como o uso de pacientes simulados e o ensino à beira do leito.

A principal mensagem deste Guia do Instrutor é que o ensino da farmacoterapia baseado em problemas é possível dentro da estrutura de um currículo tradicional (não baseado em problemas). Este manual contém informações práticas de como implementá-lo.

A relação com o treinamento clínico

O ensino da farmacoterapia baseado em problemas, seja no curso introdutório, antes de os estudantes entrarem na clínica, seja como parte integrante do treinamento clínico, não é suficiente para “vacinar” os estudantes de medicina contra as pressões para a prescrição irracional, as quais enfrentarão no dia-a-dia em suas carreiras. Um primeiro período crítico, e provavelmente uma das mais fortes influências, são os momentos do internato e da residência. Após alguns anos de estudos principalmente teóricos, os estudantes tornam-se clinicamente ativos e muito sensíveis ao modelo de seus professores clínicos.

O ensino da farmacoterapia baseado em problemas é possível dentro de um currículo tradicional.

Guia do Instrutor para Práticas da Boa Prescrição Médica

Infelizmente, a prescrição irracional é largamente realizada em hospitais de ensino3 uma vez que o ensino da clínica para alunos de graduação é muitas vezes insuficientemente planejado, supervisionado e geralmente delegado a residentes. Desta forma, o comportamento de prescrição irracional que ocorre nas enfermarias será automaticamente copiado pelos estudantes. Mesmo nas ocasiões em que tenham a chance de observar o exemplo de professores clínicos e consultores, suas prescrições poderão refletir o tratamento de doença rara ou complicações difíceis, que não representarão necessariamente o tipo de problemas dos pacientes, que terão maior probabilidade de encontrar nos primeiros anos de suas vidas profissionais. Entretanto, o ensino da farmacoterapia não deve ser apenas baseado em problemas, mas também deve ser norteado por objetivos claros (Capítulo 2). Que tipo de médico deve ser produzido pelo currículo da graduação? Que tipos de doenças e queixas devem ser capazes de reconhecer e tratar? Que medicamentos esses médicos devem ser capazes de usar com eficácia e segurança? Que habilidades são necessárias para escolher o tratamento correto e informar adequadamente o paciente? Como se instrumentaliza a leitura de informações sobre novos medicamentos com olhar crítico e se obtém disto o máximo benefício? É essencial que estas habilidades, uma vez ensinadas no curso de graduação, sejam reforçadas durante o internato. A base e o conteúdo acadêmico deste internato devem refletir isto.

O capítulo 5 sumariza algumas idéias de ensino inovadoras, implementadas por escolas médicas em países desenvolvidos e em desenvolvimento. Desde 1994, quando o Guia para a Boa Prescrição Médica foi publicado, o livro tem sido usado como base para o ensino de prescritores não médicos, tais como auxiliares médicos e enfermeiras, dentro de programas de treinamento em serviço. Essa aplicação do Guia foi inovadora em dois aspectos: incorporou estudantes de diferentes áreas da saúde e o treinamento em serviço. Este aspecto é discutido no capítulo 6.

Enquanto o método de ensino objetiva conferir habilidades tácitas de prescrição e não apenas o conhecimento sobre os medicamentos, o método de avaliação dos alunos deve também refletir tal objetivo. Aqui o método de avaliação contínua deve ser considerado, abrangendo exames de conteúdos com consulta e exames de observação clínica padronizada. A parte 2 contém informações práticas de como organizar tais exames e termina com um capítulo sobre como mobilizar recursos para o ensino da farmacoterapia baseado em problemas (Capítulo 10).

Este Guia do Instrutor foi desenvolvido por um grupo de autores que trabalharam sob o comando do Departamento de Medicamentos Essenciais e Política de Medicamentos da OMS. Comentários sobre o texto e os exemplos neste manual, bem como relatos de seu uso, são fortemente solicitados e devem ser enviados ao Diretor do Departamento de Medicamentos Essenciais e

Política de Medicamentos da OMS, 1211, Genebra, Suíça (fax 41-2-7914167). Hogerzeil HV. Promoting Rational Prescribing - an International Perspective. Br J Clin Pharmacol, 1995; 39: 1-6

Guia do Instrutor para Práticas da Boa Prescrição Médica

PARTE 1 Como ensinar farmacoterapia com o Guia para a Boa Prescrição Médica

Guia do Instrutor para Práticas da Boa Prescrição Médica

CAPÍTULO 1 O papel do instrutor

Fique feliz quando eles erram, pois não existe melhor oportunidade para ensiná-los. Adaptado de M. Gauss, treinador de cães.

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