Métodos qualitativos de pesquisa: uma tentativa de desmistificar a sua compreensão

Métodos qualitativos de pesquisa: uma tentativa de desmistificar a sua compreensão

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Profa. Dra. Silvia Cristina Mangini Bocchi

Profa. Dra. Carmen Maria Casquel Monti Juliani Profa. Dra. Wilza Carla Spiri

DEPARTAMENTO DE ENFERMAGEM – FACULDADE DE MEDICINA - UNESP BOTUCATU 2008

“Manual de estudos para alunos de pós-graduação, pretende ser um guia orientador em alguns dos métodos de pesquisa qualitativa”

As autoras

Métodos Qualitativos de Pesquisa

1- INTRODUÇÃO02
2.1 Pesquisa-ação04
2.2 Fenomenologia07
2.3 Etnografia10
2.4 Grounded Theory13
2.5 Materialismo Histórico Dialético15

SUMÁRIO/MENU 2 - ABORDAGENS

3.1 – Como conseguir os sujeitos participantes da pesquisa?20
3.2 – Quando eu sei que houve a saturação?20
3.3 – Quando eu integro as categorias e encontro temas?21
3.4 – Como integrar dados provindos de várias técnicas de coleta?21

3 – AMOSTRA INTENCIONAL NA PESQUISA QUALITATIVA

4.1 - Observação participante2
4.2 – Notas de campo2
4.3 – Entrevista2
4.3.1 – Entrevista não estruturada interativa2
4.3.2 – Entrevista semi-estruturada2
4.4- Grupo focal23
5 – ANÁLISE DE CONTEÚDO26
6 – RIGOR NA QUALIDADE DA INVESTIGAÇÃO29
7 – ETAPAS QUE UM PROJETO DE PESQUISA DEVERÁ ABORDAR30

4 – ESTRATÉGIAS PARA COLETA DE DADOS 8 – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................................................................. 31

Métodos Qualitativos de Pesquisa 1 – INTRODUÇÃO

Este texto foi escrito com a finalidade de desmistificar a pesquisa qualitativa, como um caminho de se construir um corpo de conhecimento na área, bem como, as suas principais abordagens. Contudo, nessa aproximação, não temos a intenção de nos aprofundarmos em uma ou outra abordagem, tampouco esgotar o assunto, mas apresentarmos algumas possibilidades para que os alunos possam escolher uma modalidade de acordo apropriada à pergunta elaborada em seus projetos de pesquisa. Assim, pretendemos oferecer uma visão geral das possibilidades e opções metodológicas para o desenvolvimento da pesquisa.

Existem, atualmente, duas linhas complementares de pesquisa, os métodos quantitativos e os qualitativos, possibilitando ao pesquisador uma escolha daquele que dê melhores respostas ao seu problema (FIELD, MORSE, 1985). TURATO (2005) explicita estas diferenças em um quadro sintético:

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Não devemos alimentar discussões quando os participantes justificam a escolha do método quantitativo ou qualitativo, fundamentada em preferências pessoais, bem como, apontando as deficiências entre um e outro (FIELD, MORSE, 1985).

As origens desses tipos de atitudes, consideradas como inadequadas entre pesquisadores não estão inteiramente claras e, portanto se acredita existir relações com as percepções de pesquisadores quantitativos, que por não entenderem a perspectiva epistemológica desta abordagem, acabam acusando o pesquisador qualitativo como burlador de regras da metodologia científica. A outra causa pode estar relacionada às próprias frustrações de pesquisadores qualitativos, que ao tentarem conseguir aprovações de seus projetos em comitês que utilizam critérios quantitativos para avaliações, acabam se revoltando com tais atitudes e, portanto direcionando suas críticas (FIELD, MORSE, 1985). Se nós nos perdermos nessas discussões, poderemos nos enfraquecer enquanto profissionais responsáveis pela construção do conhecimento.

Não devemos nos esquecer que na área da Saúde o propósito da pesquisa quantitativa e qualitativa é o mesmo: construir o conhecimento, por meio de métodos que se complementam.

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2 – ABORDAGENS: COMO ESCOLHER A QUE MELHOR ATENDA AO NOSSO QUESTIONAMENTO?

É importante ter em mente que o ideal é que o problema e a questão a ser investigada é que deve nortear a escolha do método científico a ser utilizado. Também os dados do contexto estudado devem ser considerados. Apenas para citar um exemplo, em situações onde existem deficiências dos sistemas de informação, muitas vezes os dados não se apresentam confiáveis para contemplar estudos quantitativos, fazendo-se necessário delinear um estudo qualitativo.

Visto isso, é preciso fazer uma aproximação dos métodos para saber qual a melhor escolha para aquilo que se pretende estudar, pesquisar. Assim, esse manual de orientação permitirá uma aproximação de algumas modalidades de pesquisa qualitativa, no entanto, após esse primeiro reconhecimento, recomendamos um aprofundamento naquela escolhida.

2. 1 – Pesquisa-Ação A pesquisa-ação, tradicionalmente utilizada na área da educação, pode ser uma interessante modalidade de escolha para projetos que, além do caráter de pesquisa, envolvem também intervenção em uma determinada realidade, com abertura a construção coletiva dos diversos atores envolvidos no contexto e podem variar em graus distintos de participação, dada a fatores relacionados ao contexto, ao tempo de execução do projeto, ao número de sujeitos/instituições envolvidos.

De acordo com Loureiro (2007) na pesquisa-ação a transformação prática da realidade é o problema central, de modo que, as incertezas e certezas, o conflito e o consenso, a organização e o caótico, dentre outros, não são erros, defeitos ou exercício lógico-abstrato, mas a própria existência em movimento.

Reis (2007) aponta a denominação de pesquisa-ação-participativa por considerá-la mais adequada à produção de conhecimentos no campo das ciências humanas e sociais que dá ênfase à ação e a participação. A mesma autora apoiada nas idéias de Brandão, neste tipo de pesquisa existe a superação dos “pesquisados” como “objeto” de estudo, mas o entendimento é que “pesquisadores” e “pesquisados” são sujeitos, aliados e parceiros, no processo de produção de conhecimentos sobre a realidade social.

Demo (apud Reis, 2007) reconhece a pesquisa-ação como uma modalidade de pesquisa que coloca que coloca a ciência a serviço da emancipação social, com

Métodos Qualitativos de Pesquisa duplo desafio, o de pesquisar e participar, o de investigar e educar, de modo a articular a teoria e a prática.

Participação, transformação e ação educativa são, portanto, componentes da pesquisa=ação. Assim, responde à necessidade de superar um modelo de ciência fundamentado na separação entre o saber científico e o saber popular, entre a teoria e a prática, entre o conhecer e o agir, entre a neutralidade e a intencionalidade,

Essas reflexões, embora voltadas ao contexto da educação ambiental, podem ser extrapoladas e aplicadas ao contexto do trabalho, do trabalho em saúde e, na saúde do trabalhador, permite aproximações da realidade de forma crítica e consciente que favoreça a transformação da realidade. É importante que se reconheça a pesquisa-ação como um dos inúmeros tipos de investigação-ação, que é um termo genérico para qualquer processo que siga um ciclo no qual se aprimora a prática pela oscilação sistemática entre agir no campo da prática e investigar a respeito dela. Planeja-se, implementa-se, descreve-se e avaliase uma mudança para a melhora de sua prática, aprendendo mais, no correr do processo, tanto a respeito da prática quanto da própria investigação. (Tripp, 2005).

Fonte: Tripp, 2005.

O mesmo autor classifica a pesquisa-ação em 5 modalidades: 5/32

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1 - Pesquisa-ação técnica A pesquisa-ação técnica constitui uma abordagem pontual na qual o pesquisador toma uma prática existente de algum outro lugar e a implementa em sua própria esfera de prática para realizar uma melhora.

2 - Pesquisa-ação prática Nesse caso, as duas características distintivas são: primeiro, é mais como a prática de um ofício - o artífice pode receber uma ordem, mas o modo como alcança o resultado desejado fica mais por sua conta de sua experiência e de suas idéias -; e segundo, porque as decisões que ele toma sobre o quê, como e quando fazer, são informadas pelas concepções profissionais que tem sobre o que será melhor para seu grupo.

3 - Pesquisa-ação política A terceira pergunta (c) refere-se à mudança da cultura institucional e/ou de suas limitações. Quando se começa tentar mudar ou analisar as limitações dessa cultura sobre a ação, é preciso engajarse na política, porque isso significa trabalhar com ou contra outros para mudar "o sistema". Só se pode fazer isso pelo exercício do poder e, assim, tal ação torna-se política.

4. Pesquisa-ação socialmente crítica

A pesquisa-ação socialmente crítica passa a existir quando se acredita que o modo de ver e agir "dominante" do sistema, dado como certo relativamente a tais coisas, é realmente injusto de várias maneiras e precisa ser mudado.

5. Pesquisa-ação emancipatória

Assim também a pesquisa-ação emancipatória é uma modalidade política que opera numa escala mais ampla e constitui assim, necessariamente, um esforço participativo e colaborativo, o que é socialmente crítico pela própria natureza. Não é preciso dizer que a pesquisa-ação emancipatória ocorre muito raramente.

Apresentamos a seguir um modelo de relatório de pesquisa-ação segundo Tripp (2005):

O relatório da pesquisa-ação

O que se segue é um esquema de um típico relatório de estudo de caso de pesquisa-ação, o qual pode ser utilizado para qualquer projeto e também é adequado para dissertações.

1 - Introdução: intenções do pesquisador e benefícios previstos 2 - Reconhecimento (investigação de trabalho de campo e revisão da literatura) 2.1 - da situação

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2.2 - dos participantes (o próprio e outros) 2.3 - das práticas profissionais atuais 2.4 - da intencionalidade e do foco temático inicial 3 - Cada ciclo 3.1 - Planejamento: da preocupação temática (ou ciclo anterior) ao primeiro passo de ação 3.2 - Implementação: relato discursivo sobre quem fez o quê, quando, onde, como e por quê. 3.3 - Relatório de pesquisa sobre os resultados da melhora planejada: 3.3a - resumo e base racional do(s) método(s) de produção de dados 3.3b - apresentação e análise dos dados 3.3c - discussão dos resultados: explicações e implicações 3.4 - Avaliação 3.4a - da mudança na prática: o que funcionou ou não funcionou e por quê 3.4b - da pesquisa: em que medida foi útil e adequada 4 - Conclusão: 4.1 - Sumário de quais foram as melhorias práticas alcançadas, suas implicações e recomendações para a prática profissional do próprio pesquisador e de outros 4.2 - Sumário do que foi aprendido a respeito do processo de pesquisa-ação, suas implicações e recomendações para fazer o mesmo tipo de trabalho no futuro.

2. 2 - Fenomenologia Etimologicamente fenomenologia é o estudo ou ciência do fenômeno, sendo que por fenômeno, em seu sentido mais genérico, entende-se tudo o que aparece, que se manifesta ou se revela por si mesmo.

Os tipos de questões respondidos pela fenomenologia são aqueles designados a extrair a essência das experiências. Querem compreender as percepções dos sujeitos e, sobretudo, ressaltam o significado que os fenômenos têm para as pessoas.

Essência é “aquilo que constitui a natureza das coisas; substância. A existência. Idéia principal. Significação especial; espírito. O que constitui o cerne de um ser; natureza” (FERREIRA, 1995). Referem-se portanto, ao sentido ideal ou verdadeiro de alguma coisa, dando um entendimento comum ao fenômeno sob investigação. (MOREIRA, 2002)

A fenomenologia busca compreender o ser humano, utilizando-se de formulações de problemas como:

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- Quais são as causas, segundo a percepção dos alunos repetentes, dos pais e dos professores, do fracasso escolar e o significado que este tem para a vida dos estudantes que fracassam, segundo estes mesmos, os pais e os educadores das escolas de primeiro grau da cidade de Porto Alegre –RS?

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