A Importância da Gestão do Fluxo de Caixa nas Micro e Pequenas Empresas

A Importância da Gestão do Fluxo de Caixa nas Micro e Pequenas Empresas

(Parte 1 de 3)

24

A IMPORTÂNCIA DA GESTÃO DO FLUXO DE CAIXA COMO INSTRUMENTO DE GERENCIAMENTO DAS MICRO E PEQUENAS EMPRESAS (MPE’s): UM ESTUDO DE CASO DAS MPE’s INSTALADAS NO ENTORNO DO DISTRITO INDUSTRIAL DE MARACANÁU.

Felipe de Sousa Mota 1

RESUMO: O presente trabalho tem como objetivo geral investigar e analisar a importância da gestão do fluxo de caixa como instrumento de gerenciamento das micro e pequenas empresas instaladas no entorno do Distrito Industrial de Maracanaú, e como objetivos específicos: caracterizar o contexto econômico a que estão inseridas as micro e pequenas empresas no Brasil, analisar a importância do fluxo de caixa no processo de tomada de decisões das micro e pequenas empresas, bem como revisar as principais linhas teóricas com respeito ao assunto proposto. O referencial teórico do presente artigo esta fundamentado em farto conteúdo acadêmico, em fontes como artigos, periódicos, literatura técnica, legislação, entre outras; além de inúmeros autores citados: Zdanowicz, Silva, Assaf Neto, Padovese, Gitman, Frezatti, Santos, Sanvicente, sempre com o objetivo de esclarecer o problema proposto. A metodologia empregada consiste numa pesquisa exploratória e descritiva, tendo sido realizada pesquisa documental e bibliográfica, e um estudo de caso, com a aplicação de questionário com perguntas fechadas e entrevista semi-aberta em 05 (cinco) micro e pequenas empresas instaladas no entorno do Distrito Industrial de Maracanaú. Após a análise dos resultados concluiu-se que o fluxo de caixa é um importante instrumento para o planejamento financeiro das micro e pequenas empresas, e que vem sendo utilizado pelas MPE’s do entorno do Distrito Industrial de Maracanaú apenas como cronograma de recebimentos e pagamentos, desconhecendo as demais aplicações do fluxo de caixa.

Palavras-Chave: Gestão Financeira.Fluxo de Caixa. Micro e Pequena Empresa.

1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho procura analisar, de forma sintética e acadêmica, a utilização do fluxo de caixa no gerenciamento das micro e pequenas empresas instaladas no entorno do Distrito Industrial de Maracanaú, considerando as relações existentes entre o fluxo de caixa com a gestão do capital de giro, planejamento e controle financeiro. Nesse propósito, questiona-se: qual a importância da gestão do fluxo de caixa como instrumento de gerenciamento das micro e pequenas empresas instaladas no entorno do Distrito Industrial de Maracanaú?

Para o desenvolvimento da pesquisa fixou-se como objetivo geral a proposta de investigar e analisar a importância do fluxo de caixa como instrumento de gerenciamento das micro e pequenas empresas instaladas no entorno do Distrito Industrial de Maracanaú, e os seguintes objetivos específicos: caracterizar o contexto econômico a que estão inseridas as micro e pequenas empresas no Brasil; analisar a importância do fluxo de caixa no processo de tomada de decisões das micro e pequenas empresas e revisar as principais linhas teóricas da gestão de fluxo de caixa.

O tema proposto justifica-se pela carência de conhecimento dos micros e pequenos empresários na análise financeira de seus negócios, sobretudo na utilização do fluxo de caixa como uma ferramenta gerencial no processo de tomada de decisões, planejamento e controle financeiro das empresas. O assunto abordado também é de fundamental importância para o entendimento do fluxo de caixa conforme a visão sistêmica, com relações nas várias áreas da empresa. Para isso, busca-se a compreensão do que é gestão do fluxo de caixa e como esta pode ser enquadrada na realidade das micro e pequenas empresas instaladas no entorno do Distrito Industrial de Maracanaú.

A metodologia empregada na pesquisa caracteriza-se, quanto aos fins, por ser de natureza exploratório-descritiva, pois se preocupou em identificar, analisar e caracterizar as empresas objeto do estudo e os aspectos relacionados à utilização do fluxo de caixa no processo de tomada de decisões, planejamento e controle financeiro. Quanto aos meios, realizou-se um estudo de caso, sendo utilizado para levantamento dos dados um questionário com perguntas fechadas, com o objetivo de coletar dados para caracterização das empresas pesquisadas e verificar se estas se utilizam do fluxo de caixa; e entrevista semi-aberta, mediante roteiro, para coleta de dados a respeito dos aspectos gerenciais, referente à análise financeira, especificamente quanto à utilização do fluxo de caixa.

A amostra utilizada caracterizou-se por ser intencional e não-probabilística, levando em consideração uma série de critérios previamente definidos (localização, atividade econômica, pessoal ocupado, etc.), que resultou na seleção de 05 (cinco) empresas, instaladas no entorno do Distrito Industrial de Maracanaú e do segmento de comércio varejista de confecções e acessórios.

2 CONTEXTO DAS MICRO E PEQUENAS EMPRESAS NO BRASIL

No contexto econômico atual as micro e pequenas empresas (MPEs) representam importante pilar de sustentação para a economia brasileira, devido a capacidade de geração de emprego e renda (KOTESKI, 2004). Segundo dados de 2004 do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), as MPEs são responsáveis por 25% do Produto Interno Bruto (PIB) e geram 14 milhões de empregos, representando 60% dos empregos formais do país.

O estabelecimento de políticas públicas pelo Governo tem contribuído para o fortalecimento das MPE’s, mediante a criação do Estatuto Nacional da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte (Lei Complementar nº 123, de 14 de dezembro de 2006, publicado no DOU de 15.12.2006), garantindo a diminuição da burocracia, maior agilidade na abertura das empresas, a concessão de mercados e tratamento tributário diferenciado.

É importante ressaltar a disponibilização de recursos subsidiados e linhas específicas de financiamento ofertadas às micro e pequenas empresas por meio das instituições financeiras estatais (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES, Banco do Brasil - BB, Caixa Econômica Federal - CEF e Banco do Nordeste - BNB), demais bancos da iniciativa privada, as associações e cooperativas de crédito.

Entretanto, para Koteski (2004), as políticas adotadas pelo Governo são insuficientes para atender a demanda do número crescente de micros e pequenos empreendimentos no país. Muitos outros fatores limitam o desempenho das MPE’s, desde a tecnologia obsoleta, passando pela gestão inapropriada, até a dificuldade na inserção de novos mercados (LEVISTKY, 1996 apud LA ROVERE, 2001). Tais fatores associados à dificuldade de acesso ao crédito e ao despreparo dos micros e pequenos empreendedores na análise financeira de seus negócios (KASSAI; CASA NOVA, 2006) resultam no alto índice de mortalidade das MPEs nos primeiros anos de constituição das empresas.

O cotidiano dos micro e pequenos empresários é enfrentar a dificuldade de manter a liquidez e o caixa operacional de seus negócios, sobretudo na tarefa de levantar recursos financeiros de terceiros, para o complemento do capital de giro ou para aplicação em novos investimentos, em virtude das altas taxas de juros, impraticáveis à realidade das pequenas organizações. Para Kassai e Casa Nova:

De uma hora para outra, uma empresa pode se encontrar em uma situação incontrolável, devido ao saldo negativo do fluxo de caixa financiado por altas taxas de juros e aos saldos devedores ‘rolados’ para os meses seguintes. Aí começa uma caminhada árdua com destino às agências bancárias (2006, p. 03).

Contudo, em pesquisa divulgada pelo SEBRAE (2008), a taxa de sobrevivência das MPE’s no Brasil teve significativa elevação de 27,4% no período de 2002 a 2005. Segundo a pesquisa se atribui esse resultado a dois importantes fatores: a maior qualidade empresarial e melhoria do ambiente econômico, no referido período. De acordo com a pesquisa, a taxa de preocupação do micro e pequeno empresário com a análise financeira era de 7% no triênio de 2000/2002, passando para 36% no triênio de 2003/2005. Para Luiz Carlos Barboza, diretor técnico do SEBRAE (2008, p. 5), essa nova conjuntura é conseqüência de “empresários mais bem qualificados,[no qual] passaram a cuidar melhor das empresas(...)”.

Percebe-se a importância do empresário deter conhecimentos sobre gestão de negócios, principalmente no momento da tomada das decisões na organização, pois circunstancialmente, a tomada errônea de uma decisão pode colocar em dificuldade a estabilidade da empresa. Segundo Antonik (2004, p. 37): “No momento de tomar decisões, não valem os ‘achismos’. As decisões devem sempre se basear em informações armazenadas, comprovadas e tabuladas nos sistemas integrados que compreendem a gestão de negócios”. Na área de finanças, conforme Kassai e Casa Nova (2006), a habilidade e os conhecimentos dos micros e pequenos empresários são limitados, sobretudo na hora de buscar crédito nas instituições financeiras.

Por conseguinte, torna-se fundamental ao desenvolvimento de qualquer empreendimento o empresário conhecer ferramentas que auxiliem na gestão financeira e do capital de giro, com o objetivo de evitar a tomada de decisões equivocadas e o endividamento da empresa (OTTOBONE; PAMPLONA, 2001). Um importante instrumento de análise financeira consiste no fluxo de caixa, no qual possibilita ao micro e pequeno empresário a visualização financeira de seu negócio em determinado instante e eventualmente a melhor decisão a ser tomada, desempenhando fundamental papel no apoio gerencial.

3 ASPECTOS RELEVANTES SOBRE O CAPITAL DE GIRO

Na concepção de Assaf Neto e Silva (2002, pág. 14) “O termo giro refere-se aos recursos correntes (curto prazo) da empresa, geralmente identificados como aqueles capazes de serem convertidos em caixa no prazo máximo de ano”. Na análise dos autores citados, o capital de giro tem importante participação no desempenho operacional das empresas, já que os recursos do capital de giro geralmente cobrem mais da metade dos ativos totais investidos nas organizações. A administração ineficiente do capital de giro acarreta sérios problemas financeiros para a organização, principalmente relacionados à liquidez (ASSAF NETO; SILVA, 2002, p. 13). Por exemplo, a política de concessão de crédito incriteriosa ocasiona a elevação da inadimplência e o não recebimento das vendas, afetando a liquidez da empresa.

A administração do capital de giro está diretamente relacionada ao gerenciamento dos ativos e passivos correntes com decisões interdependentes. Para Assaf Neto e Silva (2002, p. 13) a importância e o volume de capital de giro para uma empresa são determinados principalmente por fatores como: o volume de vendas, identificado pelo volume de estoques, contas a receber e geração de caixa; sazonalidade dos negócios, determinando a necessidade de recursos financeiros para financiar a operação da empresa ao longo do período; contexto econômico, variações de mercado e recessão econômica; tecnologia, englobando custos e tempo de produção; e política de negócios, centradas em alterações de vendas, de crédito, produção, entre outros.

Esses fatores são contextualizados à realidade da organização através do estudo do nível de estoques adequados à empresa, a política de concessão de crédito aos clientes, critérios na gestão de caixa e a estrutura dos passivos correntes, com o objetivo de obter a consistência na operação dos negócios da empresa, de forma a manter um nível desejado de liquidez e rentabilidade.

3.1 CAPITAL CIRCULANTE LÍQUIDO

De acordo com Assaf Neto e Silva (2002, p. 16) o Capital Circulante Líquido (CCL): “Reflete a folga financeira da empresa e, dentro de um conceito mais rigoroso, o CCL representa o volume de recursos de longo prazo (exigibilidades e patrimônio líquido) que se encontra financiando os ativos correntes (de curto prazo)”. O CCL é obtido por meio da diferença entre o ativo circulante ou corrente e o passivo circulante ou corrente, a seguir se ilustra o cálculo do capital circulante líquido.

CCL = Ativo Circulante - Passivo Circulante

Ou:

CCL = (Patrimônio Líquido + Exigível à Longo Prazo) – (Ativo Permanente + Realizável à Longo Prazo)

Analisando a Figura (1), a seguir, observa-se que o capital circulante líquido é considerado positivo à medida que a aplicação no ativo circulante é financiada por créditos de curto prazo (passivo circulante) e o capital de giro líquido é oriundo dos recursos de longo prazo (exigível de longo prazo e patrimônio líquido), ou seja, do recurso captado em longo prazo, parte está aplicado no ativo também de longo prazo (ativo permanente) e o excedente é direcionado para financiar o capital de giro da empresa, apontando certa folga financeira (ASSAF NETO; SILVA, 2002, p. 17).

AP

PL

AC

PC

AC

PC

ELP

POSITIVO

ELP

NEGATIVO

AP

PL

Figura 1. Comportamento do capital de giro líquido numa empresa.

Fonte: adaptado de Assaf Neto e Silva (2002).

Na maioria das empresas o comportamento positivo do CCL é a condição básica aos seus negócios, principalmente quando são verificadas que as saídas de caixa (pagamentos) são eventos relativamente previstos, já as entradas de caixa (recebimentos) são de difícil previsão (ASSAF NETO; SILVA, 2002; GITMAN, 2004).

Observa-se na Figura (1), que a empresa com o capital de giro líquido negativo, ou seja, com o passivo circulante maior que o ativo circulante, não possui recursos de longo prazo suficientes para financiar suas aplicações de longo prazo, sendo necessário se utilizar dos recursos do passivo circulante para os investimentos a longo prazo.

Em síntese, o CCL negativo demonstra que a organização utiliza seus recursos passivos correntes para financiar os investimentos permanentes, isto significa diminuição ou perca de liquidez para empresa, no entanto há a necessidade de considerar a estrutura financeira da empresa em questão, uma vez que esta posição pode ser uma preferência na relação risco/retorno. Empresas com fluxos de caixa previsíveis podem operar com o nível baixo de capital circulante líquido, chegando até mesmo a ser negativo, exemplo disso são empresas prestadoras de serviços públicos (ASSAF NETO; SILVA, 2002, p. 17 e 18).

3.2 CICLO OPERACIONAL E CICLO FINANCEIRO

O ciclo operacional conceitualmente trata-se do intervalo de tempo gasto para a execução das atividades operacionais da empresa. No entendimento de Assaf Neto e Silva (2002, p. 19) “(...) o ciclo operacional incorpora seqüencialmente todas as fases operacionais presentes no processo empresarial de produção-venda-recebimento”.

Entende-se por processo operacional de uma empresa industrial como sendo o conjunto de atividades desde a aquisição de matéria-prima, pagamento dos fornecedores, produção, estocagem, vendas até o recebimento destas. Já no caso de uma empresa comercial o processo operacional engloba as atividades de aquisição de mercadorias ou produtos, estocagem, comercialização e recebimento das vendas.

O ciclo operacional representa o número de dias transcorridos desde a aquisição das matérias-primas ou mercadorias até o recebimento das vendas dos produtos fabricados ou comercializados (SANTOS, 2001). Assaf Neto e Silva (2002, p. 19) acrescentam que nesse período de tempo, cada fase operacional da organização apresenta determinada duração. Então, na aquisição de matérias-primas, implica em um prazo médio de estocagem; com a produção, o prazo médio de fabricação; aos produtos acabados, o prazo médio de venda; para o recebimento das vendas efetuadas a prazo, o prazo médio de cobrança. Ressalta-se que as fases se ajustam de acordo com a realidade da empresa, podendo ou não existir.

Santos (2001) observa que a duração do ciclo operacional está intimamente relacionada aos processos de produção e operação da organização, e com as políticas de estoque, comercial e financeira da empresa, envolvendo os prazos dos pagamentos aos fornecedores, estocagem e recebimentos das vendas. Assim, a duração de cada processo componente do ciclo operacional influência diretamente no volume de recursos financeiros, utilizados para financiar o estoque de matérias-primas ou mercadorias e as vendas a prazo.

Ampliando-se esta abordagem, Assaf Neto e Silva (2002, p. 19) defendem que “Uma boa administração do capital de giro envolve imprimir alta rotação (giro) ao circulante, tornando mais dinâmico seu fluxo de operações”. A conseqüência direta deste princípio é o incentivo ao aumento da rentabilidade da empresa, por meio da menor necessidade de imobilização do capital no ativo circulante.

O ciclo financeiro, também denominado ciclo de caixa, é obtido por meio do ciclo operacional, compreendendo as fases com real movimentação de caixa, ou seja, os desembolsos efetuados para pagamentos das matérias-primas até os recebimentos das vendas realizadas (ASSAF NETO; SILVA, 2002). O ciclo financeiro consiste no intervalo de tempo entre as atividades financeiras acontecidas ao longo do ciclo operacional, representado pelo o pagamento a fornecedores e pelo recebimento das vendas (SANTOS, 2001).

Nas empresas industriais o ciclo financeiro ou ciclo de caixa é obtido por meio do cálculo dos prazos de fabricação, pagamento dos fornecedores de matérias-primas e recebimentos da vendas efetuadas. Para empresas comerciais, o ciclo financeiro é calculado a partir dos prazos de estocagem, pagamento dos fornecedores de mercadorias ou produtos e recebimentos das vendas. Já nas empresas prestadoras de serviços o ciclo financeiro é constituído apenas pelos prazos de pagamentos e recebimentos (SANTOS, 2001).

Para Santos (2001) existe a necessidade de se avaliar a realidade de cada organização a fim de se definir os prazos de fabricação, estocagem, pagamentos e recebimentos. Utiliza-se, como regra geral para o cálculo do ciclo financeiro, os prazos médios de fabricação, estocagem, pagamentos e recebimentos, de acordo as práticas da empresa, o tipo de negócio ou segmento de atividade.

A Figura (2) a seguir, ilustra o conceito de ciclo operacional e financeiro de uma empresa industrial e seus componentes. Não será possível o aprofundamento conceitual dos componentes do ciclo operacional e financeiro, visto que não constitui o objetivo deste trabalho e foge a delimitação do tema proposto.

Aquisição de Matéria-prima

Início da Fabricação

Fim da Fabricação

Recebimento das Vendas

Vendas

PME (Mp)

PMF

PMV

PMC

PMPF

Ciclo Operacional

(Parte 1 de 3)

Comentários