Tipos de memória e Amnésia

Tipos de memória e Amnésia

(Parte 1 de 3)

Universidade Federal do Rio Grande do Sul ESTUDO DOS SISTEMAS DE MEMÓRIA E DE APRENDIZAGEM E MEMÓRIA

Nome:Número do Cartão:
Bruno Ricardo Bortagaray182596

Porto Alegre, 03 de Julho de 2009

Introdução

A maioria das pessoas fala sobre a memória como se ela fosse parte de seu corpo. Mas a memória não existe da mesma forma que o corpo - não é algo que se pode tocar. É um conceito que se refere a um processo de lembranças.

O que parece ser uma única memória é, na verdade, uma construção complexa. Se pensar em um objeto - digamos, uma caneta - o cérebro lembra do nome do objeto, seu formato, sua função, o som que faz quando desliza sobre o papel. Cada parte da memória do que é uma "caneta" vem de uma região diferente do cérebro. A imagem inteira dessa uma caneta é ativamente reconstruída pelo cérebro a partir de muitas áreas diferentes.

Muitos são os tipos de memórias. Temos basicamente 2 tipos principais de memoria: as memórias declarativas (ou explícitas) e as memórias não-declarativas (ou implícitas). A memória declarativa constitui naquilo que nós podemos expressar com palavras, ou seja, a memória que estão disponíveis por evocação consciente - é o que cotidianamente queremos dizer com memória. Já a nãodeclarativa nos exprime um relacionamento com habilidades e são inconscientes ou não podem ser expressas por palavras. Amarrar o cadarço do sapato é um bom exemplo para exemplificar a memória implícita. Você pode não se lembrar a primeira vez que fez, mas caso você precise, seu encéfalo saberá o que fazer.

Claro que “nem tudo são flores” nessa área da neurociência. Doenças neurodegenerativas como o Mal de Alzheimer ou a amnésia anterógrada deixam o indivíduo incapaz de reter qualquer tipo de informação nova.

Este trabalho tem o objetivo de esclarecer e informar um pouco sobre a memória e o aprendizado, tal como sua área e sua forma de atuação no cérebro.

Considerações Gerais

Engraçado como nos lembramos detalhadamente de coisas de nossa infância não? Existe o ditado: “...é como andar de bicicleta: não se esquece nunca”. Por que nunca nos esquecemos?

A memória aparenta ser um grande “Hard Disk” de informações: fatos e habilidades adquiridas ficam armazenadas e toda vez que necessitamos de algo, buscamos nessa importante função cerebral, nesse processo de retenção de informação que é a memória.

Memória, do latim “memoriam”, significa lembrança, capacidade de reter conhecimentos adquiridos no passado. A memória é uma faculdade cognitiva extremamente importante porque ela forma a base para a aprendizagem, que é o ato de adquirir novas informações ou conhecimentos. Se não houvesse uma forma de armazenamento mental de representações do passado, não teríamos uma solução para tirar proveito da experiência.

Assim, a memória é um mecanismo complexíssimo do nosso encéfalo responsável pela recuperação de experiências, e portanto, está diretamente associada o aprendizado. Resumindo: Aprendizado é o ato de adquirir novas informações e a memória corresponde a todo e qualquer conhecimento retido.

A maquinaria neural aqui exposta forma a base de todo o nosso conhecimento, em muitas de nossas ações, nossos planejamentos e nossas habilidades mentais e motoras, conectando o passado com o presente e oferecendo uma estrutura para o futuro.

Aprendizado

Uma definição básica para o aprendizado se refere à aquisição de conhecimento que seja retido para possíveis futuras aplicações. Mas como podemos agora definir conhecimento? E de que maneira esse conhecimento pode ser retido, ou memorizado? Uma maneira de resolvermos essa questão pode ser procurarmos o conceito mais básico possível, a partir do qual todas as nossas proposições serão fundamentadas. A unidade mais básica a que podemos no referir e a partir da qual podemos traçar nossas definições é denominada informação. Informação pode ser a menor unidade perceptível passível de interpretação. Tudo o que nossos sentidos são capazes de perceber podemos considerar como uma informação.

Para uma informação ou um conjunto de informações tornarem-se conhecimento, podemos propor que essas informações devam ser postas em prática com algum benefício para o indivíduo. Por exemplo, “Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil” é uma informação ou um conhecimento? Inicialmente podemos considerar apenas como uma informação, pois não possui nenhuma utilidade para o indivíduo. Mas se essa informação se associa com outras informações pode assim constituir-se um conhecimento acerca da realidade vivenciada pelo indivíduo. Por exemplo, “Pedro Álvares Cabral era uma navegador português que, dentro do contexto das grandes navegações, saiu de Portugal com outras embarcações em busca de novas terras, com o intuito de encontrar riquezas para levar ao seu país. Ao chegar ao Brasil iniciou a exploração das riquezas desse solo. Dessa maneira iniciaram-se os primeiros contatos entre os habitantes do Brasil e os habitantes de Portugal. Essa união juntamente com o contato com os negros, vindos posteriormente da África deu origem às pessoas que vivem hoje no Brasil”. Dessa maneira, cada unidade de informação faz parte de um significado maior cujo intuito é esclarecer ao indivíduo a diversidade de etnias observáveis no ambiente em que ele vive. Mas como o nosso cérebro é capaz de reter ou memorizar essas informações a fim de constituírem-se um conhecimento?

A Relação entre Aprendizado e Memória

Antes de explorarmos a relação da memória no aprendizado, vamos abordar outra definição utilizada correntemente: a premissa de que o conhecimento gerado deva alterar o comportamento do indivíduo com o intuito de adaptá-lo ao ambiente. Assim, o aprendizado implica a criação de um novo comportamento, ou seja, de novos processos mentais internos em função de estímulos externos percebidos pelo próprio indivíduo e que possam ser de alguma forma reutilizáveis sempre que necessário para o bem estar do organismo.

Mais uma questão básica a ser tratada a respeito do aprendizado diz respeito a sua generalização ou especificidade. A aquisição de conhecimento ou criação de novos comportamentos podem ser considerados habilidades globais do indivíduo ou devem ser estudados particularmente de acordo com as diversas atividades que somos capazes de exercer? Pelos conceitos de inteligência global e inteligências múltiplas discutidas no capítulo anterior, podemos propor que o nosso aprendizado esteja condicionado por fatores globais, mas também deve ser considerado a partir de cada uma de nossas habilidades.

Agora, quando o indivíduo se torna apto a repetir o mesmo comportamento que se mostrou eficiente, ou a resgatar um conhecimento adquirido, dizemos que ele aprendeu ou somente memorizou? Geralmente, há um certo desmerecimento quanto dizemos que o indivíduo não aprendeu, somente memorizou tal conhecimento ou comportamento. No entanto, sem a memorização não há aprendizado. Então, como podemos estabelecer a relação entre o aprendizado e a memória?

Podemos considerar o aprendizado como o processo de consolidação de um conhecimento ou comportamento que podem ser resgatados quando necessários e memória por sua vez a própria consolidação e recuperação desse conhecimento ou comportamento. A memória poderia ser considerada como o produto final de um aprendizado.

A Memória

Como inúmeros outros termos (inteligência, emoção, atenção) memória é uma palavra amplamente utilizada na nossa língua do dia a dia. A partir do uso desse termo em vários contextos distintos da nossa vida, tendemos a imaginar que memória seja uma atividade mental genérica responsável pelo armazenamento das informações em nosso cérebro que podem ser resgatadas quando necessárias. No entanto, apesar de podermos generalizar a idéia de memória dessa maneira, o que se observa é que essa atividade mental é bem mais complexa e diversa. Se a consideramos como um produto do aprendizado e aceitarmos que haja diversos tipos de aprendizado, devemos começar a pensar em diversos tipos de memória. Um exemplo do uso difundido do termo memória é o chamado “jogo de memória”. Para o nosso cérebro, esse jogo trata-se exclusivamente de uma atividade visuo-espacial que requer uma memorização de imagens e das posições dessas imagens no espaço. Ser bom no jogo de memória, não significa que o indivíduo será bom em memorizar fatos históricos ou novos comportamentos.

Algumas pessoas memorizam uma informação em um dado momento, mas no dia seguinte, ou instantes depois, se esquecem. Isso levanta uma outra questão bastante estudada em neurociência, o conceito de memória de curto e longo prazo.

Tipos de Memória

Existem, pelo menos, três diferentes processos que podem ser identificados na memória humada responsáveis pela realização de suas operações, como as operações de codificação, retenção, e recuperação: o primeiro processo, e de primordial importância, é o processo de Reconhecimento de Padrões. Este processo acontece na Memória Sensorial- Motora e envolve associação de significando a um padrão sensorial. A Memória Sensorial é um sistema de memória que através da percepção da realidade pelos sentidos retém por alguns segundos a imagem detalhada da informação sensorial recebida por algum dos órgãos de sentido. A Memória Sensorial é responsável pelo processamento inicial da informação sensorial e sua codificação.

O segundo processo acontece na chamada Memória de Curto Prazo. A

Memória de Curto Prazo recebe as informações já codificadas pelos mecanismos de reconhecimento de padrões da Memória Sensorial-Motora e retém estas informações por alguns segundos, talvez alguns minutos, para que estas sejam utilizadas, descartadas ou mesmo organizadas para serem armazenadas.

O terceiro processo acontece na Memória de Longo Prazo. A Memória de

Longa Prazo recebe as informações da Memória de Curto Prazo e as armazena. A Memória de Longo Prazo possui capacidade ilimitada de armazenamento e , as informações ficam nela armazenadas por tempo também ilimitado.

A forma como são organizadas as informações mantidas pela Memória de

Longo Prazo e os processos de procura e recuperação destas informações são foco de importantes estudos nos dias atuais.

A figura abaixo representa uma visão esquemática e simplificada de memória e os processos envolvidos para armazenar e resgatar informações.

Fig. 1 – Sistema de Memória

Memória Sensorial-Motora A Memória Sensorial-Motora funciona como um depósito de capacidade ilimitada que armazena da saída do sistema sensorial, ou seja, armazena uma imagem do mundo como ela os recebe através dos órgãos dos sentidos. Ela consiste em uma memória de muito curto prazo. Sua duração é talvez de 0.1 a 0.5 segundos.

Para estimar a duração da Memória Sensorial-Motora podemos citar alguns exemplos experimentais: 1 - Ao fechar os olhos e abri-los rapidamente em pequenos intervalos de tempo e fecha-los novamente, podemos notar ainda podemos ver por um curto tempo uma imagem clara do que vimos com os olhos abertos. 2 - Ao balançar uma caneta com os dedos na frente dos olhos , nos podemos ver somente imagem movimento contínuo do balançar da caneta que se assemelham a uma onda e não a imagem dos movimentos discretos.

Na Memória Sensorial-Motora a aquisição de informação se dá na forma de entradas sensoriais de todos órgãos dos sentidos. Estas informações sensoriais são armazenadas nos “buffers” sensoriais que podem segurar grandes quantias de informação; virtualmente toda informação que entra nas sensações.

Tecnicamente, existe um depósito sensorial diferente para cada sensação, mas a maioria dos diagramas do processamento de memória simplificam estes depósitos sensoriais separados para um depósito sensorial genérico que representa todas as sensações.

Informação armazenada na Memória Sensorial-Motora é informação crua, sensorial, e não tendo sido analisada para algum significado. Como sua duração de armazenamento é curta,uma decisão deve ser tomada depressa sobre se a informação será transferida para o próximo depósito de memória para ser analisada ou se será esquecida. Uma vez que nós decidimos qual informação desejamos armazenar, esta informação codificada será transferida do armazenamento sensorial para a memória de curto prazo.

Memória de Curto Prazo A Memória de Curto Prazo possui duas importantes características: Primeiro, a Memória de Curto Prazo contêm um número de elementos presentes a reter limitado. Um estudo de George Miller (1956) sobre as limitações da Memória de Curto Prazo mostra que uma pessoa pode reter 7 itens (+-2). O tamanho deste item depende do nível de familiaridade da pessoa com o material informacional. Um exemplo, a sequência de letras a seguir : S-A-E-C-W-S-M-U-I-P lidas sem qualquer diferença de entonação e de intervalo pode ser difícil para um ouvinte lembrar. Já a sequência E-C-H-U-S-A-W-I-M-P, composta pelas mesmas letras em outra ordem pode ser facilmente reproduzidas pelo ouvinte pois , para um certo grupo de ouvintes, a segunda sequência representa apenas 3 ítens a serem lembrados ao invés de 10 ítens como na sequência anterior. Ítens são também chamados na Literatura de Chuncks.

A segunda característica da Memória de Curto Prazo é que ela pode reter informações durante 15/30 segundos. A figura abaixo apresenta um grafico da Memória de Curto Prazo: O Grau de retenção em percentagem x Intervalo para recuperação em segundos.

Fig 2 – A Duração da Memória de Curto Prazo

Sendo esta duração de informação em Memória de Curto Prazo pequena, a informação pode ser copiada ou pode ser transferida deste depósito para a Memória de Longo Prazo antes do término deste período. Depois deste tempo, a informação será perdida. O conhecimento, ou a experiência do tipo de conteúdo, favorecem a passagem da informação da memória de curto prazo à de longo prazo, e, consequentemente, favorecendo a retenção prolongada de informações.

A informação que será lembrada ou será esquecida depende de eventos antes e depois A Memória de Curto Prazo determina se a informação é útil para o organismo e deve ser armazenada, se existem outras informações semelhantes nos arquivos de Memória de Longo Prazo e, por último, se esta informação deve ser descartada quando já existe ou não possui utilidade.

O ato de repetição da leitura (por exemplo) nos ajuda a fixar a informação lida, isto é, a informação pode tanto ser mantida por mais tempo na Memória de Curto Prazo quando poder ser passada da Memória de Curto Prazo para a Memória Longa Prazo (onde está armazenado o conhecimento do ser humano). Esta repetição mental silenciosa é nos mostra o que chamamos de Memória de Trabalho.

A retenção de informações na Memória de Curto Prazo através da repetição só pode ser realizada se a quantidade de informação for suficientemente pequena – como um numero de telefone. Repetição é capaz de manter as informações viva na Memória de Curto Prazo mas isso não aumenta a capacidade de armazenamento do sistema de memória. A Memória de Curto Prazo recebe as informações já codificadas da Memória Sensorial-Motora.

A Memória Sensorial realiza a codificação de informações na memória em seu primeiro estágio de processamento, um exemplo deste processo é uma entrada visual onde sua a codificação é realizada através do reconhecimento de padrões visuais. Neste processo pode suceder-se erros visuais, ou seja, letras que se assemelham visualmente com as letras C e O podem ser confundidas na codificação.

A Memória de Curto Prazo realiza o último estágio do processamento e codificação das informações. Foi observado em experimentos que durante processo de codificação na Memória de Curto Prazo, a não ser que seja estritamente desnecessário, a representação de um item toma a forma de representação acústica. Um exemplo deste processo pode ser mostrado pelo experimento a seguir: dada uma sequência visual tal como as letras do alfabeto, foi pedido a algumas pessoas que ao olharem o papel com a sequência por alguns instantes de tempo, tentarem escreverem o máximo de letras pertencentes a sequência que eles lembrassem em um papel. Foi constatada a probabilidade maior de ao tentarem recuperar da memória a letra B, por exemplo, erroneamente escreverem a letra V ao invés da letra E. Embora a letra B e E se assemelhem visualmente, as letras B e V possuem semelhanças sonoras. Estes conceitos do processamento e codificação das informações na MCP baseados em observações experimentais e interpretações teóricas parecem ser naturais e óbvios pois a maioria das pessoas podem ouvi-las quando estão lendo com isso tornando a representação visual de um informação como representação acústica. Foram administrados muitos estudos para determinar como recuperação acontece na Memória de Curto Prazo. Recuperação depende de fatores acústicos e por isso erros frequentemente feitos em recuperação são semelhantes em som à informação original. Assim recuperação é sensível a fatores acústicos.

A recuperação de informação de Memória de Curto Prazo é feita em uma procura sequencial e exaustiva. Tempo de reação de recuperar informação é linear e crescente. Em outras palavras, quanto maior a informação estocada, mais tempo leva. Pelo fato dos sistemas de curto e longo prazo de memória estarem ligados, transferindo informações continuamente de um para outro, em estudos administrados em interferência, foi descoberto que conhecimento anterior de um tópico particular afeta a habilidade para codificar e se lembrar de informação nova relacionada àquele tópico. Quando necessário, o conteúdo da Memória de Longo Prazo é transferido para o armazenamento da Memória de Curto Prazo. Se um item da Memória de Curto Prazo estiver ativado, a ativação se espalha aos itens a ele relacionado em vários níveis, conceitualmente como uma rede semântica. Há interferência dos novos itens com os antigos itens.

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