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Grandes Culturas – Professor Fábio de Lima Gurgel A Cultura do Arroz

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1. Importância O arroz (Oryza sativa L.) é uma espécie hidrófila, cujo processo evolutivo tem levado à sua adaptação as mais variadas condições ambientais. De uma maneira mais abrangente, são considerados dois grandes ecossistemas para a cultura, que são o de várzeas e de terras altas, englobando todos os sistemas de cultivo de arroz no país.

O consumo de arroz pela população mundial é um hábito inquestionável e dificilmente sofrerá substituição. O arroz é cultivado em todos os continentes, por cerca de 120 países.

Na primeira grande “Revolução Verde”, no final da década de 60, a planta do arroz foi objeto de expressivas modificações fenotípicas e genotípicas, o que contribuiu para proporcionar ganhos importantes em qualidade e produtividade.

Nos últimos anos, entretanto, a produtividade média vem mantendo-se estável, não só pela possibilidade de ter sido atingida a aproximação do potencial da cultura, mas, sobretudo, pelas possíveis dificuldades entre a pesquisa e o produtor, na transferência e adoção das tecnologias mais modernas.

O Brasil é o nono produtor mundial, o arroz é cultivado em todas as regiões, sob diversos ecossistemas, tanto em terras altas como em várzeas. A produção e a produtividade aumentaram nos últimos anos.

Porém, se consideradas as estatísticas até a década de 70, as médias eram muito baixas. Atualmente, mesmo com ganhos expressivos na produtividade, a média ainda está muito aquém da dos países mais evoluídos na exploração deste cereal.

Deve-se considerar que, apesar de o Brasil ser o maior produtor de arroz em regime de terras altas do mundo, neste sistema há muito que ser feito no que se refere à adoção de tecnologias.

Ainda predominam o empirismo e o risco de exploração, em contraste com a grande evolução na oferta de conhecimentos e tecnologias. É necessário concentrar esforços no sentido de melhorar as estratégias de transferência de tecnologia, já que existem muitos exemplos de produtividade entre 3 e 5 t/ha, em regime de terras altas, e de 7 a 8 t/ha, no regime com irrigação por inundação controlada, em nível de produtor.

A preferência do mercado brasileiro é pelo produto com grão da classe longofino (agulhinha), característica comumente encontrada nas cultivares de arroz irrigado. Embora a pesquisa já tenha disponibilizado, aos produtores de terras altas, cultivares de arroz com grão agulhinha, o cultivo do arroz irrigado deverá manter-se estável, ou até ter aumento na área cultivada, enquanto o arroz de terras altas certamente poderá sofrer redução na área de cultivo, se não forem tomadas algumas medidas. Isso se observa pela própria redução da disponibilidade de áreas novas para exploração, como tem acontecido historicamente, particularmente no Cerrado.

2. Estatística de Produção No mundo, a maior parte da produção e do consumo de arroz está localizada no continente asiático, cujo sistema básico de cultivo é o irrigado. O sistema de sequeiro (terras altas) é encontrado predominantemente no Brasil e, em menor proporção, no continente africano.

O crescente processo de industrialização dos países asiáticos tem resultado na diminuição da mão-de-obra disponível para o trabalho no campo e no deslocamento da produção agrícola para áreas marginais. Por outro lado, o crescimento acelerado da população está aumentando a demanda do produto em proporções não compatíveis com o crescimento da produção. Para se atender esta demanda, nos próximos anos devem ser adicionadas ao mercado mundial de arroz cerca de 10 milhões de toneladas/ano. Metade desse total deve ser produzido no continente asiático, devendo a outra parte originar-se

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de arroz e com capacidade de atender a essa demanda

fora dessa macro-região. A América Latina e a África destacam-se no cenário mundial como as duas únicas regiões com grande e quase inexplorado, potencial para produção

Produção Mundial de Arroz

ARROZ: Principais países produtores (em milhões de toneladas) Fonte: FAO – Food and Agriculture Organization (w.fao.org)

O continente latino-americano está melhor preparado que o africano para responder, de maneira rápida, a essa demanda. O Brasil como maior produtor de arroz no continente, deve considerar esse aspecto em seu planejamento estratégico para o desenvolvimento da cultura. Diante desse panorama, a discussão sobre sistemas de produção de arroz no Brasil assume um papel de extrema relevância para traçar estratégias futuras.

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5 Comparativo entre a área, rendimento e produção do arroz irrigado e de sequeiro.

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Área colhida x Produção do arroz de sequeiro e irrigado

Os produtores de arroz têm passado por dificuldades naturais e financeiras nos últimos anos. No final de 2004 e início de 2005, por exemplo, a região Sul teve a pior estiagem dos últimos 40 anos. A estiagem também atingiu o Centro-Oeste. Os altos custos de produção e a forte queda nos preços de comercialização de arroz deram prejuízos para os agricultores e contribuíram para aumento de apenas 0,5% da área semeada em 2005 e redução de 0,9% na áreas da safra de 2006.

Esta queda de renda foi manifestada com a redução de compra de máquinas e implementos agrícolas. A insatisfação dos agricultores tem sido motivo de reivindicações junto ao governo federal, como a movimentação de 3000 tratores em Brasília em junho de 2005.

Os agricultores esperam que as medidas a serem anunciadas brevemente pelo governo consistam, de um lado, de redução da carga tributária de PIS, CONFIS, imposto de renda, dos juros, custos de insumos e, de outro, iniciativas de reformas de estradas e portos, por exemplo.

No caso do arroz, em 2005 houve aumento de 5% da área cultivada, mas com redução de 0,4% na produção em relação a 2004.

Para que os produtores, órgãos de pesquisa, ensino e extensão e governos federal, estaduais e municipais possam fazer planejamento e decidir ações futuras, é necessário uma compreensão da tendência desse cultivo.

Por esse motivo, elaborou-se uma perspectiva de área, produção e produtividade do arroz irrigado e de terras altas no Brasil ate 2011, tomando como base informações de produção a partir de 2000.

No Brasil, todos os 26 Estados e o Distrito Federal produzem arroz. Os Estados do RJ e SE produzem apenas arroz irrigado, e 15 outros Estados produzem arroz irrigado e de terras altas.

Em 2005, o arroz de terras altas ocupou 64,2% da área total e o irrigado 35,8%.

No conjunto, o Irrigado em relação aos estados e os respectivos percentuais de participação de área são liderados pelo Rio Grande do Sul, com 76,63%; já o de Terras Altas é liderado pelo Mato Grosso, com 39,59%.

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A área ocupada com Irrigado e Terras Altas no Brasil indica que, no período de 2001/03, houve redução de Terras Altas, enquanto o Irrigado reduziu apenas no ano 2001. Até 2011 não haverá significativa alteração de área no Irrigado, enquanto que o de Terras Altas deverá ter um aumento de área em torno de 25%. Estas características contribuirão para o aumento geral da área em torno de 18%, em nível nacional.

A partir do ano de 2007, deverá ocorrer uma expansão de Terras Altas. A produção no de Terras Altas, no período 2001/2, decresceu, mas, a partir de 2004, começou a aumentar. No ano 2008 o aumento de produção deverá ser superior a 13% e no ano 2011 esse aumento chega a 30%, comparado ao ano 2005.

No mesmo ano de 2008 a produção no Irrigado também deverá aumentar, mas em menor escala se comparado com o Terras Altas. Em 2008, o aumento da produção em ambos os sistemas deverá apresentar o mesmo percentual, mas em 2011 o Irrigado deverá ficar 3% inferior ao de Terras Altas.

Um outro dado levantado em Terras Altas, faz referência sobre a perspectiva de ligeiro aumento de produtividade até 2011, mas, em nível nacional, tem pequena redução. Em 2001, o sistema Terras Altas teve redução, ao contrário com o Irrigado e a produtividade no Irrigado, no ano 2011 aumentou 31% em relação a 2000. Em 2004, a produtividade era 6.0 kg ha e em 2011 a previsão é em torno de 6.800 kg ha. O aumento de produtividade no Terras Altas até 2011 será pequeno, algo em torno de 3% entre 2005 e 2011.

3. Origem, domesticação e introdução no Brasil Diversos historiadores e cientistas apontam o sudeste da Ásia como o local de origem do arroz. Na Índia, uma das regiões de maior diversidade e onde ocorrem numerosas variedades endêmicas, as províncias de Bengala e Assam, bem como na de Mianmar, têm sido referidas como centros de origem dessa espécie.

O arroz é uma planta herbácea pertencente à família das Gramíneas. Alguns autores classificam-na como pertencente à família Poaceae. Duas formas silvestres são apontadas na literatura como precursoras do arroz cultivado: a espécie Oryza rufipogon, procedente da Ásia, originando a Oryza sativa; e a Oryza barthii (= Oryza breviligulata), derivada da África Ocidental, dando origem à Oryza glaberrima.

O gênero Oryza é o mais rico e importante da tribo Oryzeae e engloba cerca de 23 espécies, dispersas espontaneamente nas regiões tropicais da Ásia, África e Américas.

A espécie Oryza sativa é considerada polifilética, resultante do cruzamento de formas espontâneas variadas.

Bem antes de qualquer evidência histórica, o arroz foi, provavelmente, o principal alimento e a primeira planta cultivada na Ásia. As mais antigas referências ao arroz são encontradas na literatura chinesa, há cerca de 5.0 anos. O uso do arroz é muito antigo na Índia, sendo citado em todas as escrituras hindus. Variedades especiais usadas como oferendas em cerimônias religiosas, já eram conhecidas em épocas remotas.

Certas diferenças entre as formas de arroz cultivadas na Índia e sua classificação em grupos, de acordo com ciclo, exigência hídrica e valor nutritivo, foram mencionadas cerca de 1.0 a.C. Da Índia, essa cultura provavelmente estendeu-se à China e à Pérsia, difundindo-se, mais tarde, para o sul e o leste, passando pelo Arquipélago Malaio, e

Grandes Culturas – Professor Fábio de Lima Gurgel alcançando a Indonésia, em torno de 1500 a.C. A cultura é muito antiga nas Filipinas e, no Japão, foi introduzida pelos chineses cerca de 100 anos a.C. Até sua introdução pelos árabes no Delta do Nilo, o arroz não era conhecido nos países Mediterrâneos. Os sarracenos levaram-no à Espanha e o espanhóis, por sua vez, à Itália. Os turcos introduziram o arroz no sudeste da Europa, de onde alcançou os Bálcãs. Na Europa, o arroz começou a ser cultivado nos séculos VII e VIII, com a entrada dos árabes na Península Ibérica. Foram, provavelmente, os portugueses quem introduziram esse cereal na África Ocidental, e os espanhóis, os responsáveis pela sua disseminação nas Américas.

Alguns autores apontam o Brasil como o primeiro país a cultivar esse cereal no continente americano. O arroz era o "milho d'água" (abati-uaupé) que os tupis, muito antes de conhecerem os portugueses, já colhiam nos alagados próximos ao litoral.

Consta que integrantes da expedição de Pedro Álvares Cabral, após uma peregrinação por cerca de 5 km em solo brasileiro, traziam consigo amostras de arroz, confirmando registros de Américo Vespúcio, que trazem referência a esse cereal em grandes áreas alagadas do Amazonas.

Em 1587, lavouras arrozeiras já ocupavam terras na Bahia e, por volta de 1745, no Maranhão. Em 1766, a Coroa Portuguesa autorizou a instalação da primeira descascadora de arroz no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro. A prática da orizicultura no Brasil, de forma organizada e racional, aconteceu em meados do século XVIII e daquela época até a metade do século XIX, o país foi um grande exportador de arroz.

4. Características morfofisiológicas relacionadas à produtividade 4.1. Fases de desenvolvimento da planta de arroz O ciclo de vida da planta de arroz pode ser dividido em três fases distintas: fase vegetativa, fase reprodutiva e fase de maturação.

A fase vegetativa corresponde ao período compreendido entre a germinação da semente e a iniciação da panícula. É modificada pela temperatura e pelo fotoperíodo, o que permite sua divisão em fase vegetativa básica ou basal e fase sensível ao fotoperíodo. Diferenças varietais na duração do crescimento devem-se basicamente a diferenças na fase vegetativa. A emissão de perfilhos e a diferenciação e a diferenciação das folhas ocorre nesta fase. O número máximo de perfilhos coincide com o início da diferenciação de panículas em cultivares de ciclo curto, enquanto em cultivares de ciclo longo se prolonga pela fase reprodutiva.

A fase reprodutiva , que vai da iniciação da panícula ao florescimento, tem duração relativamente constante de cultivar para cultivar, requerendo normalmente 35 dias em condições tropicais. São reconhecidos dois períodos no processo de desenvolvimento da panícula jovem: o de formação da panícula jovem, que vai da determinação da primeira bráctea ao estádio final de diferenciação de espiguetas, e o de gestação da panícula, que finaliza com a maturação dos grãos de pólen.

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