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A Cultura da Soja A Cultura da Soja

Grandes Culturas – Professor Fábio de Lima Gurgel

1. Importância e Aspectos Econômicos

A soja é a mais importante oleaginosa cultivada no mundo. As oito principais oleaginosas são: soja, algodão amendoim, girassol, colza, linho, copra e palma.

Seu alto teor de proteínas proporcionou múltiplas utilizações e a formação de um complexo industrial destinado ao seu processamento, visando a produção de óleo e farelo. O farelo é o produto mais valioso, principalmente na receita de exportações.

A tendência do mercado de soja, tanto interna como externamente, tem sido estudada por diferentes pesquisadores, que têm procurado identificar as variáveis responsáveis pelas respostas da oferta e demanda desse produto. Os estudos do mercado externo da soja têm considerado o Brasil como tomador de preços, ou seja, o preço tem sido uma variável dada no mercado internacional. Porém, a partir de meados da década de 70, pode-se considerar o Brasil como um país que influi no mercado internacional dos produtos de soja.

No Brasil, até meados dos anos 60 a soja não tinha importância econômica dentre as culturas principais, como cana-de-açúcar, algodão, milho, arroz, café, laranja e feijão. No entanto, a partir do final dos anos 60, a produção de soja teve um crescimento extraordinário, alterando-se sua importância relativa no cenário nacional e internacional.

Dentre os fatores responsáveis pelo grande aumento da produção de soja brasileira podem-se citar:

• significativo aumento real do prelo internacional dos produtos primários no início da década de 70;

• condições favoráveis do mercado externo à comercialização da soja brasileira, que acontece justamente na entressafra norte-americana;

• adaptação das cultivares oriundas do sul dos EUA na região Sul do Brasil;

• possibilidade do cultivo do trigo na mesma área de soja, como cultura de inverno;

• disponibilidade de uma estrutura cooperativista, montada no sul do país;

• aumento progressivo da capacidade de esmagamento da soja, resultante da necessidade de abastecer o mercado interno com óleos vegetais comestíveis, e da política brasileira de exportação, incentivando a exportação de produtos industrializados ou semi-industrializados, tal como farelo de soja, que se tornou a principal fonte de receita do complexo de soja;

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• rápido crescimento da avicultura brasileira no final da década de 60 e início dos anos 70, quando foram adotadas modernas tecnologias de produção de aves de corte e para produção de ovos;

• grande redução, no início dos anos 70, da produção mundial de farinha de peixe que, pelo seu alto teor protéico, é muito utilizada na composição de rações para animais;

• incentivo da política agrícola brasileira, na década de 70, ao crescimento da produção;

• apoio da pesquisa e da assistência técnica;

• pagamento , pelo governo, aos produtores de café para que erradicassem suas plantações e as substituíssem por uma cultura de sua escolha, ante a excessiva produção de café do início dos anos 60. Grande número de produtores de café substituiu a cultura pela soja, dada a sua lucratividade.

A produção de soja no Brasil concentrou-se na região Centro-Sul até o início dos anos 80. A partir daí, a participação da região Centro-Oeste aumentou significativamente. A expansão da área cultivada de soja no Brasil é resultado tanto da incorporação de novas áreas, nas regiões Centro-Oeste e Norte, quando da substituição de outras culturas, na região Centro-Sul.

A área cultivada na safra 2005/2006 é de 47,3 milhões de hectares, inferior em 3,7% (1,8 milhões de hectares) à da safra anterior. Dessa área, a soja ocupa 2,2 milhões de hectares (47,1%). A produção nacional de grãos estimada neste levantamento é de 119,7 milhões de toneladas, que é 5,1% (5,8 milhões de toneladas) superior à da safra anterior. Dessa produção, a soja participa com 53,4 milhões de toneladas. No Brasil, o estado do Mato Grosso é o maior produtor, responsável por cerca de 25% da produção nacional. É seguido pelo estado do Paraná (21%), Rio Grande do Sul (18,5%) e Goiás (2%). A produção mundial de soja (em média 125 milhões de toneladas), cujo volume participa do mercado internacional na formação da oferta e demanda pelo produto, está restrita principalmente a três países: Estados Unidos, Brasil e Argentina. Em relação ao aumento da produção destes países, o Brasil pode ser o maior produtor de soja do mundo, pois é o único com áreas vazias representadas pela maioria de cerrado e apresenta solos e clima adaptados para o desenvolvimento da cultura. Já os EUA não

Grandes Culturas – Professor Fábio de Lima Gurgel apresentam áreas descobertas para iniciar novos plantios, ou seja, necessita diminuir o espaço de uma cultura instalada para poder aumentar a área produtiva de soja.

2. Botânica, Origem, Evolução e Introdução no Brasil

A soja (Glycine max (L) Merrill) que hoje cultivamos é muito diferente dos seus ancestrais, que eram plantas rasteiras que se desenvolviam na costa leste da Ásia, principalmente ao longo do Rio Yang-Tse, na China. Sua evolução começou com o aparecimento de plantas oriundas de cruzamentos naturais entre duas espécies de soja selvagem que foram domesticadas e melhoradas por cientistas da antiga China. Sua importância na dieta alimentar da antiga civilização chinesa era tal, que a soja, juntamente com o trigo, arroz, centeio e milheto, era considerada um grão sagrado, com direito a cerimoniais ritualísticos na época do plantio e da colheita.

Apesar de conhecida e explorada no Oriente há mais de cinco mil anos, sendo uma das mais antigas plantas cultivadas do Planeta, o Ocidente ignorou o seu cultivo até a segunda década do século vinte, quando os Estados Unidos (EUA) iniciaram sua exploração comercial, primeiro como forrageira e, posteriormente, como grãos. Em 1940, no auge do seu cultivo como forrageira, foram plantados, nesse país, cerca de dois milhões de hectares com tal propósito. A partir de 1941, a área cultivada para grãos superou a cultivada para forragem, cujo plantio declinou rapidamente, até desaparecer em meados dos anos 60, enquanto a área cultivada para a produção de grãos crescia de forma exponencial, não apenas nos EUA, como também no resto do mundo.

A soja chegou ao Brasil via Estados Unidos, em 1882. Gustavo Dutra, então professor da Escola de Agronomia da Bahia, realizou os primeiros estudos de avaliação de cultivares introduzidas daquele país.

Em 1891, testes de adaptação de cultivares semelhantes aos conduzidos por

Dutra na Bahia, foram realizados no Instituto Agronômico de Campinas, Estado de São Paulo (SP). Igual que nos EUA, nessa época a soja era estudada mais como uma cultura forrageira, do que como planta produtora de grãos para a indústria de farelos e óleos vegetais. Eventualmente também produzindo grãos para consumo de animais em nível da propriedade.

Em 1900 e 1901, o Instituto Agronômico de Campinas, SP, promoveu a primeira distribuição de sementes de soja para produtores paulistas e para essa mesma data temse registros do primeiro plantio de soja no Rio Grande do Sul (RS), onde a cultura encontrou efetivas condições para se desenvolver e expandir, dadas as semelhanças

Grandes Culturas – Professor Fábio de Lima Gurgel climáticas do ecossistema de origem dos materiais genéticos (EUA), com as condições climáticas predominantes no RS.

Com o estabelecimento do programa oficial de incentivo à triticultura nacional em meados dos anos 50, a cultura da soja foi igualmente incentivada, por ser, desde o ponto de vista técnico (leguminosa sucedendo gramínia), quanto econômico (melhor aproveitamento das máquinas, implementos, infra-estrutura e mão de obra), a melhor alternativa de verão para suceder o trigo plantado no inverno.

Vagem de soja, em média com 3 grãos

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6 Grãos

Plantio de soja

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Biologia da planta de soja 3. Cultivares

As informações estão publicadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e

Abastecimento (MAPA) sobre as cultivares inscritas no Zoneamento Agrícola de cada Unidade da Federação. As cultivares estão inscritas no Registro Nacional de Cultivares, quanto às características morfológicas e fisiológicas e de produtividade.

Cultivares melhoradas portadoras de genes capazes de expressar alta produtividade, ampla adaptação e boa resistência/tolerância a fatores bióticos ou abióticos adversos representam usualmente a contribuição mais significativa à eficiência do setor produtivo. O desenvolvimento de cultivares de soja com adaptação às condições edafo-climáticas das principais regiões do País, especialmente as dos cerrados e as de baixas latitudes vem também propiciando nas últimas três décadas, a expansão da fronteira agrícola brasileira. Programas de melhoramento genético de soja são conduzidos nos Estados do RS, SC, PR, SP, MS, MG, MT, GO, RO, BA, TO, MA, PI, PA, R, AL e no DF por instituições públicas e privadas isoladamente ou em parceria. Os parentais para cruzamento e/ou retrocruzamento (obtenção de variabilidade

Grandes Culturas – Professor Fábio de Lima Gurgel genética para exploração no programa de melhoramento) são selecionados com base nas regiões brasileiras alvo do programa e nos objetivos: produtividade, adaptação e resistência/tolerância a doenças e pragas e outras características específicas. As populações resultantes dos cruzamentos/retrocruzamentos são conduzidas preferencialmente pelo método massal ("bulk") ou pelo método da descendência por semente única tradicional ou modificada. O F1 é multiplicado em casa-de-vegetação e as gerações subseqüentes em campo experimental aproveitando as baixas latitudes do País para obter duas ou três multiplicações anuais, através da manipulação do fotoperíodo (com uso de luz artificial) e da disponibilidade hídrica (complementada por irrigação). A agilidade no avanço das gerações - para aumento de homozigose - é fundamental para garantir rapidez na obtenção de cultivares em resposta às demandas do setor produtivo. Nessa fase são realizados vários testes visando selecionar contra as principais doenças e pragas (Cercospora sojina, cancro-da-haste, nematóides de cisto e de galhas, insetos, ferrugem, etc.). O avanço de geração é realizado em diversas regiões normalmente até a geração F5, quando coleta-se plantas para formação e teste de progênies e seleção de linhagens para composição dos testes de avaliação de produtividade e adaptação. Esses testes são realizados nos Estados do RS, SC, PR, SP, MS, MG, MT, GO, RO, BA, TO, MA, PI, PA, R, AL e no DF, por um período de cinco anos, em experimentos denominados Ensaios de Avaliação Preliminar de 1o ano (API), de 2o ano (APII) e 3o ano (APIII) e Ensaios de Avaliação Final (AF - 2 anos). Os ensaios são realizados por grupo de maturação: precoce - até 115 dias; semiprecoce - 116 a 125 dias; médio - 126 a 135 dias; semitardio 136 a 145 dias. Os delineamentos experimentais são Blocos Aumentados no PI e Blocos Completos Casualizados com 4 repetições nas demais etapas. As parcelas são de 4 fileiras de 5 metros (10 m2 totais; 4 m2 úteis) e os números mínimos de locais por região variam com o experimento: API - 3 locais; APII - 4 locais; APIII - 5 locais; AF - mínimo de 5 locais. As linhagens selecionadas em função do potencial produtivo, estabilidade e características agronômicas superiores às das cultivares padrões serão disponibilizadas como cultivares.

A indicação para cultivo é formalizada após registro das cultivares no Serviço

Nacional de Proteção de Cultivares - SNPC do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento - MAPA. O registro é feito utilizando as informações de Valor de Cultivo e Uso - VCU das novas cultivares, obtido com os dados de produtividade, adaptação, ciclo de maturação e altura de planta dos ensaios, e possibilita o início da

Grandes Culturas – Professor Fábio de Lima Gurgel produção de sementes para fins comerciais. Para serem protegidas as novas cultivares necessitam passar pelo teste de Distingüibilidade, Homogeneidade e Estabilidade - DHE, realizado por dois anos em cada região, normalmente utilizando uma amostra de 300 plantas coletadas durante a fase de produção de semente genética. Esse teste assegura, como o próprio nome indica, que a nova cultivar é diferente das demais disponíveis e apresenta homogeneidade e estabilidade na expressão suas das características.

Nos últimos anos, atendendo à demanda por produtos com maior valor agregado, têm sido lançadas cultivares de soja com características especiais para o consumo in natura e para a indústria de alimentos. Para essa linha de produtos, são consideradas diversas características tais como: sementes graúdas com alto teor de proteína, coloração clara do hilo e que conferem boa qualidade organoléptica aos produtos de soja (QO); ausência das enzimas lipoxigenases (AL), conferindo sabor mais suave aos produtos de soja; teor reduzido do inibidor de tripsina Kunitz (KR), o que permite a redução de tratamento térmico e dos custos de processamento; e tamanho, coloração e textura de sementes ideais para produção de "natto" (PN - alimento fermentado japonês). Dentre as cultivares desenvolvidas para esse fim e que apresentam algumas das características citadas, destacam-se: BR-36 (QO), BRS 155 (KR), BRS 213 (AL), BRS 216 (PN), IAC PL-1 (QO), UFVTN 101 (AL), UFVTN 102 (AL), UFVTN 103 (AL), UFVTN 104 (AL), UFVTN 105 (AL), UFVTNK 106 (AL, KR).

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1 4. Soja Transgênica - Vídeo

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5. Soja Orgânica

A produção orgânica, no Brasil, vem crescendo progressivamente na última década, ajudando na preservação do meio ambiente e incentivando o consumo de gêneros saudáveis. Dentre esses vegetais, a soja desponta, cada vez mais, como um produto rentável, apesar dos altos custos para cultivá-la. Atualmente, diversos estados do país já produzem a leguminosa, como Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo e Goiás. Segundo as estimativas dos especialistas, os agricultores brasileiros acumularam um total de 30.0 mt de soja orgânica em 2005.

Como todo produto orgânico, os gastos são mais elevados, mas a procura é intensa. Praticamente toda a produção é exportada, principalmente para a Europa e para os Estados Unidos, onde os consumidores podem pagar mais caro por um gênero de qualidade, internacionalmente certificado. Desde 1994, a demanda tem aumentado 20% ao ano, o que mantém o mercado aquecido.

O Brasil ainda não tem tradição de consumir a soja orgânica. O consumidor típico é aquele de poder aquisitivo médio e alto, que se preocupa com a saúde e com o meio ambiente. Algumas empresas vendem soja frita no mercado interno, como aperitivo, mas em pequeno volume – explica Leon Klein, diretor da Commodities Brasil, uma companhia de consultoria que representa, no país, diversas corporações estrangeiras que compram produtos orgânicos.

Nem toda soja exportada é destinada ao consumo humano direto. Grande parte dos compradores a processam em leite de soja e em tofu (espécie de queijo). Parte da produção é transformada em ração, e vendida aos produtores de carne orgânica. Em uma esfera bem menor, há o aproveitamento da fibra para a confecção de roupas. Os tecidos derivados da fibra da soja (neste caso, orgânica e tradicional) são caros, mas novamente a demanda compensa. Os vendedores americanos afirmam que os aminoácidos presentes na soja trazem benefícios à pele.

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