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A Cultura do Trigo A Cultura do Trigo

Grandes Culturas – Professor Fábio de Lima Gurgel

1. Importância

O trigo é um dos cereais mais produzidos no mundo. Graças ao seu aprimoramento genético, possui atualmente uma ampla adaptação edafoclimática, sendo cultivado desde regiões com clima desértico, em alguns países do Oriente Médio, até em regiões com alta precipitação pluvial, como é o caso da China e Índia.

No Brasil pode ser cultivado desde a região Sul do país até o cerrado, no Brasil

Central. A região tritícola do Brasil Central abrange as áreas do cerrado localizadas nos Estados da Bahia, de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e no Distrito Federal. Seu clima apresenta condições favoráveis e caracteriza-se pela existência de duas estações bem definidas: uma chuvosa e quente e outra seca, com temperaturas mais amenas. Assim permite o cultivo de trigo nos sistemas irrigado e sequeiro “safrinha”, viabilizando duas safras/ano em rotação de cultura, além de otimizar o uso da infra-estrutura disponível, e proporciona, como resultado, a redução dos custos das culturas de verão e o aumento da renda da unidade produtiva.

O cultivo de sequeiro, semeado em fevereiro e março, é de alto risco, pois o potencial de rendimento de grãos está associado à quantidade de chuvas que ocorrerão durante o ciclo da cultura. O trigo nesse cultivo é uma das culturas que melhor cobertura de solo deixa para o sistema plantio direto no Cerrado brasileiro, melhorando, portanto a sustentabilidade do sistema agrícola, através da melhoria na retenção de água no solo e de sua fertilidade.

O trigo da safrinha é colhido na entre safra brasileira e Argentina. O que é interessante sob o ponto de vista de mercado, porque garante ao produtor melhor preço e consequentemente melhor renda. Em regiões marginais da Ásia e África, semelhantes ao cultivo de sequeiro no cerrado, o trigo é a melhor opção.

No cultivo irrigado, semeado em abril e maio, por pivô central, o trigo é uma ótima opção no sistema de rotação de culturas, uma vez que o trigo ”quebraria” o ciclo das chamadas “cash crops”, como é o caso do feijão e de algumas olerícolas como alho, cebola, cenoura e batata. A vantagem desse cultivo é que os riscos são mínimos. O potencial de rendimento de grãos é elevado, sendo um determinante importante na lucratividade da lavoura de trigo irrigado.

O Cerrado do Brasil Central tem um grande potencial para a expansão da triticultura nacional. Além, de contar com grande disponibilidade de área viável para o cultivo do trigo, possui um parque industrial instalado com potencial de expansão. A região possui uma capacidade nominal de moagem da ordem de 1,6 milhões de

Grandes Culturas – Professor Fábio de Lima Gurgel toneladas-ano, distribuída em 14 unidades industriais, abastecida praticamente por trigo importado da Argentina e dos estados do Paraná e Rio Grande do Sul.

Em termos de área, para as condições de sequeiro o potencial de expansão é de 2 milhões de hectares, localizadas em altitudes superiores a 800 metros. Áreas com irrigação via pivô central já somam 300 mil hectares, com potencial de expansão, para chegar a 2 milhões de hectares, em áreas com mais de 500 metros de altitude. Portanto, a região poderia produzir em torno de 6 milhões de toneladas de trigo, 60% da demanda do mercado de trigo no Brasil, que atualmente está em torno de 10 milhões de toneladas. Atualmente, a produção brasileira representa apenas 50% dessa demanda interna.

A vantagem da produção de trigo do cerrado é a estabilidade em termos de quantidade e qualidade industrial, pois nas condições irrigadas as variações de rendimento de grãos são pequenas e o trigo é colhido no período seco e na entre safra. A região poderia funcionar como reguladora de estoques e uma exportadora de trigo para outros estados e também para outros países.

O consumo per capita anual de trigo também tem potencial para uma maior expansão no Brasil. O consumo de trigo no país apresenta crescimento vegetativo, evoluindo à taxa de aumento da população, equivalente a 100 mil toneladas anuais. No Brasil, o consumo “per capita” de trigo em grão é de 53 quilos por habitante-ano, enquanto na Argentina é de 91 kg, na França 100 kg e no mundo 85 kg. O consumo per capita de pão no Brasil é de 27 quilos por habitante-ano, considerada baixa pela organização Mundial da Saúde que tem como meta 60 kg. Na Argentina, o consumo “per capita” de pão é de 73 kg, na Itália de 60 kg, e na França 56 kg.

Para um projeto de expansão da cultura do trigo na região do cerrado brasileiro, são as seguintes as principais justificativas: - O Brasil é um dos maiores importadores de trigo;

- Gastos de divisas com importação, equivalentes a um bilhão de dólares;

- Apoio à política de geração de emprego e renda;

- Otimização do uso de tecnologia e infra-estrutura disponível;

- Consumo nacional em expansão;

- Aumento e regularidade da oferta na região central do país;

- O trigo é produzido na entre safra do trigo brasileiro e Argentino;

- Capacidade instalada de processamento industrial de 1,6 milhões de toneladas/ano

- Sustentabilidade econômica do produtor pelo cultivo de duas safras/ano;

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- Defesa ambiental e sanitária pelo uso de plantio direto e rotação de culturas; - Redução dos custos de produção dos cultivos de verão.

2. Estatística de Produção

Os 10 maiores produtores mundiais de trigo são: União Européia, China, Índia,

Estados Unidos, Rússia, Canadá, Austrália, Paquistão, Ucrânia e Turquia (Figura 1 e Tabela 1).

Figura 1. Produção Mundial de Trigo (FAO, 2007). Tabela 1 – Maiores produtores e exportadores de trigo no mundo.

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A área de produção de trigo no Brasil encontra-se dividida em três regiões distintas: Sul, Centro-Sul e Brasil Central, de acordo com características climáticas, variedades e sistemas de produção. A região do Cerrado, no Brasil Central, apresenta um dos maiores potenciais para a produção de trigo no mundo, podendo proporcionar produtividades superiores a 6.0 kg/ha. Isso corresponde a uma eficiência de produção de 50kg de trigo por hectare ao dia, um recorde mundial. Essa região, que no século passado chegou a exportar trigo para outros estados, atualmente importa quase todo o trigo necessário ao seu consumo. Naquela época, devido à falta de variedades adaptadas e produtivas, o trigo perdeu espaço para as culturas tropicais, como o milho, mandioca e arroz, e foi sendo esquecido. Por isso, não foi criada a tradição de se cultivar trigo nas pequenas propriedades.

Nos últimos anos, por motivos estratégicos e em busca da auto-suficiência de trigo no Brasil , a Embrapa, Emater de diversos estados, cooperativas e escolas de agronomia da região, vêm realizando pesquisas com o trigo no Cerrado. Os resultados dessas pesquisas têm sido utilizados com sucesso apenas pelos médios e grandes produtores. Isso porque foi criado o mito de que o cultivo de trigo e seu beneficiamento só são possíveis com o emprego de máquinas e equipamentos sofisticados.

Nas últimas safras a área semeada com trigo no Brasil Central, foi em torno de 50 mil hectares no regime irrigado e aproximadamente 15 mil hectares no sequeiro. No curto prazo podemos atingir facilmente uma área de mais de 120 mil hectares somadas as lavouras em regime irrigado e de sequeiro. A região produziria mais de 700 mil toneladas de trigo anualmente, colhido em uma época de escassez de trigo no mercado, de junho a setembro, e quando os preços de mercado geralmente estão com os valores máximos durante o ano.

Em maio do ano passado o Brasil importava trigo da Argentina por US$ 120 a tonelada. Atualmente o produto está sendo comprado por US$ 200. Mesmo com essa alta, o trigo argentino é o que chega com melhor preço ao Brasil, pois as regras do Mercosul oneram muito e até inviabilizam as importações procedentes de outros países. Por isso, a farinha de trigo e o pão estão encarecendo.

Não há escassez de trigo no mundo. O problema é regional. A Argentina, que sempre foi o maior fornecedor do Brasil, não vem conseguindo acompanhar o aumento da demanda e instituiu uma política interna que restringe as exportações.

A produção brasileira de trigo também encolheu, de quatro milhões para dois milhões de toneladas. O trigo brasileiro é caro, mas serve como regulador de mercado.

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A saída seria importar trigo de outros países, porém isso provocaria uma tempestade no Mercosul, já que se trata do carro-chefe das exportações da Argentina para o Brasil.

De acordo com o 6º levantamento da produção de grãos 2006/2007, divulgado oficialmente em abril de 2007, as lavouras de trigo encontram-se completamente colhidas. A área cultivada foi de 1,76 milhão de hectares, inferior à da safra passada em 25,6%, redução essa, impulsionada pelos baixos preços do produto e pelas condições climáticas adversas na época da implantação da cultura (estiagem) e no período de floração e frutificação (geadas). Como resultado, a produtividade da safra caiu para 1.271 kg/ha, sendo inferior à da safra anterior em 38,4%.

Em função da redução da área plantada e da produtividade, a produção foi de 2,23 milhões de toneladas, inferior à da safra passada em 54,2% (2,64 milhões de toneladas).

3. Origem, Domesticação e Introdução no Brasil.

O trigo, cujo nome científico é Triticum aestivum, é uma planta da família das gramíneas, assim como o arroz e o milho, e se originou do cruzamento de outras gramíneas silvestre que existiam nas proximidades dos rios Tigre e Eufrates (região do Crescente Fértil), na Ásia, por volta de 15 mil a 10 mil antes de Cristo. Sua importância está ligada ao desenvolvimento da civilização e da agricultura moderna, sendo considerado um alimento sagrado por muitos povos.

Considerado um dos principais alimentos da humanidade, ocupa em torno de 20% da área cultivada no mundo. A utilização do trigo, como alimento, data de cerca de 17 mil anos. O primeiro homem a comer trigo, provavelmente mastigou os grãos do cereal silvestre e descobriu que poderia cultivá-lo e, com isso, se estabelecer em um local definitivo, deixando de ser nômade.

Este fato pode ser considerado como a descoberta da agricultura. A próxima descoberta foi moer os grãos, obter a farinha e fazer o pão. O primeiro pão de que se tem notícia foi feito pelos habitantes da Idade da Pedra, há 8 mil anos. Eles misturavam a farinha com água, a qual cozinhava em pedras quentes, sem uso de fermento. O pão possuía uma forma achatada, lembrando uma pizza grossa.

A descoberta de primeiro fermentado foi provavelmente acidental, há cinco mil anos, no Egito. Um padeiro, a serviço do soberano, colocou de lado uma massa composta de farinha, açúcar e água, esquecendo-a. Quando percebeu, a massa havia

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Grãos de trigo carbonizados, que datam de mais de 6 mil anos, foram encontrados por arqueologistas nos países considerados por um longo período. Os grãos mantêm as características de qualidade mesmo quando armazenados por um longo período.

A chegada do trigo no Brasil remonta ao período colonial. Ainda no século 16, os portugueses que para cá vieram tentaram o cultivo deste cereal, no centro do país, como a iniciativa de Martin Afonso de Souza, em 1531, de cultivar trigo na Capitania Hereditária de São Vicente, que hoje corresponde ao Estado de São Paulo.

Depois o trigo migrou para o sul, encontrando ambiente, clima e solo mais adequados às suas exigências. Os açorianos, que chegaram em meados do século 18, foram os protagonistas da experiência mais difundida historicamente sobre o cultivo de trigo no Brasil. E vieram as epidemias de ferrugem, as guerras, a abertura dos nossos portos às nações amigas e o trigo quase desapareceu das terras brasileiras.

Com a independência do Brasil e a fase imperial, chegaram os alemães, em 1824, que mantiveram o trigo nas colônias germânicas do Rio Grande do Sul. Depois, foi a vez dos italianos, em 1875, dando um novo impulso ao trigo no Brasil.

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