A atuação do enfermeiro: gerencial e, ou, assistencial?

A atuação do enfermeiro: gerencial e, ou, assistencial?

(Parte 1 de 4)

Laura Thomazi Neumann

A ATUAÇÃO DO ENFERMEIRO: GERENCIAL E, OU, ASSISTENCIAL?

Monografia apresentada ao Curso de Enfermagem da Universidade de Santa Cruz do Sul, como requisito final para obtenção do título de Enfermeira.

Linha de pesquisa 36: Estudos na Área da Saúde

Orientadora: Profa. Enfª Ms. Leni Dias Weigelt

Santa Cruz do Sul, junho de 2006.

RESUMO

Atualmente o enfermeiro tem visto sua atuação se dirigir para a administração e assistência no exercício de sua profissão. Esta dupla dimensão no desenvolvimento de seu trabalho aumenta a complexidade da sua atuação, pois o contingente de atividades se torna ainda maior. Este estudo de caráter qualitativo, descritivo, que tem como objetivo principal investigar a atuação dos enfermeiros, identificando o estilo de gerenciamento adotado por estes profissionais no desenvolvimento de seu trabalho, e especificamente analisar as características das ações desenvolvidas pelos enfermeiros, identificando as que se relacionam com assistência e, ou, administração dos serviços de enfermagem; investigar quais das ações utilizam maior tempo de dedicação do profissional enfermeiro; relacionar o estilo gerencial do enfermeiro responsável por uma unidade de clínica geral com o de clínica pediátrica, além de identificar o tipo de demanda de ações solicitadas pela equipe de enfermagem aos enfermeiros. Como método de pesquisa, utilizou-se a observação participante com a coleta de dados empíricos através da observação direta do processo de trabalho em unidades de internação clínica geral e pediátrica de um hospital de médio porte do Vale do Rio Pardo – RS. A análise foi feita considerando a natureza de cada ação dos enfermeiros e a maneira com que os mesmos conduzem o gerenciamento da unidade. Os resultados evidenciaram que houve um equilíbrio nas atividades de todos os enfermeiros em relação às características das atividades, como também na quantidade de tempo que eles se dedicam a elas. Quanto à relação entre as unidades, apesar do perfil de atuação dos profissionais serem heterogêneas, houve também uma equivalência entre a natureza das atividades observadas. Quanto às solicitações das equipes, na Clínica Pediátrica percebeu-se maior dependência dos enfermeiros no que diz respeito à assistência direta aos pacientes, enquanto as solicitações de natureza administrativa foram semelhantes nas duas unidades.

ABSTRACT

In the present time, nurses have seen their practice conduct to the administration and assistance of their work. This double dimension on their profession intensifies the complexity of their performance, because the contingent of activities became higher. This study of qualitative character, aimed identifies de nurse’s performance, identifying the management style used from these professionals. And analyze the activity’s characteristics developed from nurses, identifying the assistance or administration of nurse’s service; investigate which of these activities occupy more time of dedication from nurses; relate the management style from the observed nurses; identify the kind of solicitations came from team. The method used in this study is the dates collect through the direct observation of the nurses responsible from interning unities of a general clinic and a pediatric clinic from a medium hospital from Vale do Rio Pardo – RS. The analysis was made considering the nature of each activity of nurses and the way that they conduct the management. The results make evident the activities balance of all the observed nurses in relation of the activities characteristics and the time occupied to accomplish them. In spite of the profile of professionals actuation been different, happened in the unities a equivalence of the nature of the observed activities. The nursing team of pediatric clinic solicitations shows more dependence form nurses in assistance, as while the administrative solicitations was similar in the both unities.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO..................................................................................................................

7

2.GERENCIAMENTO E ENFERMAGEM......................................................................

10

2.1 A função gerencial do enfermeiro................................................................................

10

2.2 O trabalho de enfermagem e a incorporação do saber gerencial..................................

11

2.3 Conceituando gerenciamento em enfermagem.............................................................

15

2.4 Gerenciamento e liderança..........................................................................................

16

2.5 Planejamento.................................................................................................................

18

2.6 Tomada de decisões e ética no gerenciamento.............................................................

20

2.7 Conflitos gerenciais e negociação................................................................................

22

2.8 Educação continuada....................................................................................................

24

2.9 Gerenciamento da assistência em enfermagem............................................................

26

3. METODOLOGIA...........................................................................................................

28

4. ANÁLISE E APRESENTAÇÃO DOS DADOS...........................................................

35

4.1 Características das ações desenvolvidas pelos enfermeiros.........................................

35

4.2 O trabalho do enfermeiro: atividades desenvolvidas....................................................

39

4.3 Demandas da equipe.....................................................................................................

41

CONSIDERAÇOES FINAIS.............................................................................................

45

REFERÊNCIAS.................................................................................................................

47

ANEXO A - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido do Participante.....................

53

ANEXO B - Ofício de Autorização para Desenvolvimento da Pesquisa...........................

55

LISTA DE QUADROS

Quadro I - Diário de Campo-Cronograma..................................................................................

31

Quadro II - Enfermeiras observadas...........................................................................................

35

Quadro III - Característica e quantitativo de ações dos enfermeiros na Clínica Pediátrica..

39

Quadro IV - Característica e quantitativo de ações dos enfermeiros na Clínica Geral........

40

Quadro V - Demanda de ações solicitadas pela equipe ao enfermeiro – Clínica Geral.......

41

Quadro VI - Demanda de ações solicitadas pela equipe ao enfermeiro – Clínica Pediátrica..............................................................................................................................

41

INTRODUÇÃO

O trabalho do profissional de enfermagem sofreu grandes mudanças nas últimas décadas. A atuação do enfermeiro vem se ampliando a cada dia. Além de voltar sua atenção para a assistência e cuidados com o paciente – o trabalho de enfermagem propriamente dito – hoje esse profissional vê sua área de atuação se dirigir ainda mais para o gerenciamento do seu ambiente de trabalho.

Na realidade, muitas vezes o enfermeiro se vê com um contingente muito grande de atividades administrativo/gerenciais a serem executadas, tornando sua prática muito voltada para essas atribuições e exigindo que o mesmo doe grande parte do tempo em que se dedicaria ao paciente para as atividades administrativas. O gerenciamento abrange os processos administrativo e clínico. O gerenciamento administrativo está relacionado com a coordenação de recursos para atingir alguns fins na instituição. Já o gerenciamento clínico diz respeito à coordenação da assistência prestada ao usuário no atendimento de suas necessidades.

Com suas atribuições se ampliando, e suas responsabilidades sendo maiores, os níveis de complexidade se somam exigindo do profissional de enfermagem um conhecimento abrangente e aprofundado para, assim, atingir a satisfação desejada (MENDES, 1998). Portanto, neste estudo entende-se como gerenciamento, uma competência adquirida pelo enfermeiro que abrange os processos administrativo e assistencial, tendo por objetivos administrar os recursos humanos e materiais para alcançar alguns fins e coordenar a assistência desenvolvida no atendimento das necessidades dos usuários dos serviços.

Assim, gerenciar se torna uma arte que precisa ser apreendida na prática do enfermeiro. Essa arte integra muitas especificidades e requer do profissional um perfil tático, muita astúcia e reflexão para absorver todas as particularidades vividas nas diferentes situações presenciadas pelo enfermeiro. As funções administrativas têm também como meta criar um ambiente tal dentro da organização que facilite o alcance de seu objetivo. Sendo este objetivo o favorecimento de condições para que a prestação da assistência ao usuário do serviço seja de qualidade, é necessário haver um elo entre pessoas e instituição, além de enfermeiros preparados, com conhecimento e habilidades inerentes às exigências de sua prática profissional. Sette (1997), acredita que além de conceituar o gerenciar, esta questão exige uma maior reflexão e que a atuação do profissional dependerá, muitas vezes, da filosofia da instituição onde o enfermeiro assume o papel central da equipe de enfermagem.

O contexto e as especificidades do setor de trabalho deste profissional poderão caracterizar de forma diferenciada o estilo de atuação do enfermeiro, pois numa mesma instituição de saúde os diversos setores apresentam demandas de ações pertinentes a cada realidade, e que dizem respeito ao tipo de usuário e de suas necessidades de assistência.

Através destes preceitos foi notada a relevância deste tema para a enfermagem, influenciando na escolha do assunto para a elaboração deste trabalho de pesquisa de caráter qualitativo, descritivo, que tem como objetivo geral investigar a atuação dos enfermeiros responsáveis pelas unidades em clínica geral e pediatria, identificando o estilo de gerenciamento adotado por estes profissionais no desenvolvimento de seu trabalho. E como objetivos específicos, analisar as características das ações desenvolvidas pelos enfermeiros, identificando as que se relacionam com assistência e ou, administração dos serviços de enfermagem; investigar quais das ações utilizam maior tempo de dedicação do profissional enfermeiro; relacionar o estilo gerencial do enfermeiro responsável por uma unidade clínica geral com o de clínica pediátrica; identificar o tipo de demanda de ações solicitadas pela equipe de enfermagem aos enfermeiros.

A pesquisa utilizou como local para a realização da coleta de dados as unidades de clínica geral e pediátrica de um hospital de médio porte no vale do Rio Pardo – RS, e teve como sujeitos envolvidos os enfermeiros responsáveis por estas unidades. A coleta dos dados ocorreu diretamente nas unidades referidas desta instituição através de observação participante.

A intenção deste trabalho é contribuir para a melhoria da atuação gerencial do enfermeiro, pois possibilita a abertura de um espaço de reflexão sobre a ação do enfermeiro e sobre as dificuldades desta atuação. Pois para Marx e Morita (2000), gerenciar com competência é integrar-se aos novos métodos, ou seja, tornar-se audacioso, útil, sutil e usar de muita emoção, inteligência e desenvolvimento. É mudar os paradigmas de um perfil profissional, ser flexível e manter-se atualizado para atender as demais demandas de atenção à saúde e coordenação da assistência de enfermagem e dos serviços de saúde.

2 GERENCIAMENTO E ENFERMAGEM

2.1A função gerencial do enfermeiro

O exercício da função gerencial pelo enfermeiro é uma questão atual e relevante na prática deste profissional. O gerenciamento é uma atividade meio, na qual a ação central reside na articulação e na integração dos processos administrativos e assistenciais. Desta forma, a gerência na enfermagem é um instrumento utilizado no processo de cuidado, que tem a finalidade de organizar a assistência para facilitar este processo ( MISHIMA et al., 1997).

Com base em Sette (1997), ser gerente em enfermagem é dirigir, coordenar, organizar, planejar e controlar pessoas ou grupo de pessoas para o alcance de objetivos comuns, é ter capacidade e saber utilizar de maneira eficaz seus recursos humanos e materiais disponíveis, de forma organizada e dinâmica, mantendo a motivação e a moral elevada de sua equipe, alcançando os objetivos propostos e a melhoria organizacional.

Trevisan, Mendes, Lourenço e Shinyashiki (2000), dizem que a prática profissional do enfermeiro deve prender-se à assunção da função gerencial centrada na assistência ao paciente, a qual será norteada pela compreensão e pelo conhecimento do paciente como pessoa, e de suas necessidades específicas. Este conhecimento orientará as ações do enfermeiro no sentido de implementar a assistência de enfermagem que os pacientes necessitam.

Sendo assim, não há mais como negar a importância da função gerencial como elemento integrante do trabalho do enfermeiro, entendida numa lógica que privilegia os interesses coletivos e dando concretude a uma assistência segura que leve em consideração as reais necessidades da clientela. Nessa realidade a enfermeira é o elemento da equipe de saúde que gerencia o cuidado prestado ao cliente (GAIDZINSKI, PEREZ E FERNANDES, 2004).

2.2 O trabalho de enfermagem e a incorporação do saber gerencial

O conceito de enfermagem moderna advém da segunda metade do século XIX, na Inglaterra, através da precursora Florence Nightingale. Seu trabalho colocou em prática uma parte do projeto social da saúde que se fazia no âmbito das transformações sociais da época (ALMEIDA E ROCHA, 1997).

Schaffer (1998), diz que as teorias administrativas não surgiram ao acaso, mas sim, alavancadas por influências sociais, políticas, culturais e econômicas no decorrer da evolução da própria humanidade. Para o autor, as teorias administrativas facilitam nossas decisões sobre o que temos de fazer para trabalhar de modo mais eficaz como administradores. Frederick W. Taylor (1985-1915) foi um dos preconizadores das teorias administrativas, construindo paulatinamente o corpo do princípio que constituem a essência da administração científica (SCHAFFER, 1998). Na enfermagem, como em outras profissões, o enfermeiro incorpora em sua profissão o saber de várias ciências, a ciência administrativa é uma delas (KURCGANT, 1991).

No decorrer do século XIX, a gerência torna-se difundida pelo desenvolvimento do capitalismo industrial, que consolida a divisão técnica do trabalho (BRAVERMANN, 1987). Com isso, a adoção dos princípios de Taylor, e a conseqüente separação entre as funções de execução e planejamento, propiciaram a emergência da burocratização do serviço de enfermagem e, particularmente, o trabalho da enfermeira (TREVISAN, 1988).

No século XX, sobretudo a partir dos anos 70, começam a ocorrer transformações no mundo do trabalho que passam a caracterizar-se em um modelo produtivo flexível (ANTUNES, 1995). Essas transformações ocorrem também na área da saúde.

A enfermagem enquanto prática que se insere no mundo de trabalho e na atenção à saúde, estabelece vínculos com as leis sociais. Desta maneira, o trabalho de enfermagem, na atualidade, também sofre o impacto da globalização excludente e das políticas de recorte neoliberal (KURKGANT, 2005, p 4).

Com estas mudanças ocorre, também, a divisão social de trabalho presente na equipe de enfermagem, que é constituída por trabalhadores com diferentes níveis de formação, onde os enfermeiros assumem a concepção do trabalho e seu gerenciamento, os auxiliares e técnicos de enfermagem assumem sua execução e a assistência direta. Com isso, segundo Kurcgant (2005), a organização do trabalho de enfermagem é feita através de atividades realizadas de forma fragmentada e rotinizada, nas quais estão presentes a hierarquia, a disciplina e o autoritarismo, pois as diferentes técnicas entre as atividades realizadas pela enfermeira ou pelo pessoal de nível médio se configuram em desigualdades concretamente vivenciadas pelos agentes no cotidiano do trabalho (SILVA, 1996).

Os novos modelos de gerência, de acordo com Campos (1998) sugerem modificações na estrutura da organização, extinguindo a departamentalização e criando unidades de produção conforme a lógica de cada processo de trabalho. Desta forma todos os profissionais envolvidos com um determinado produto constituirão uma unidade de produção, ou seja, as equipes serão multiprofissionais. Esta nova lógica de organização rompe com a dicotomia estabelecida na atenção ao paciente em que "cada profissional faz a sua parte", possibilitando uma visão integral da assistência e a participação de todos os profissionais no novo desenho organizacional (GUIMARÃES, 2004). O mesmo autor diz que os modelos contemporâneos de administração, conduzidos por estratégias que permitem a flexibilização nos processos de produção, propiciam uma análise e um diagnóstico do ambiente, dando aos gerentes condições para antecipar o futuro e reduzir riscos e incertezas na tomada de decisão. As empresas deverão ser capazes de atender às demandas do mercado em tempo hábil, respondendo à clientela e ao avanço tecnológico, tornando suas empresas cada vez mais competitivas e garantindo, desta forma, o desenvolvimento institucional. Em conseqüência, a gerência praticada nas organizações se volta para a valorização da descentralização administrativa, da comunicação informal, da flexibilidade nos processos de produção, assim como para o estímulo à iniciativa e criatividade dos indivíduos e grupos.

Atualmente os modelos administrativos tradicionais não respondem às exigências impostas por um mercado extremamente competitivo e susceptível às mudanças decorrentes do aumento da complexidade das sociedades e das organizações. Assim, a transformação nos paradigmas gerenciais passa a ser considerada necessária à sobrevivência das organizações, uma vez que os processos produtivos e as idéias se modificam em ritmo acelerado (BRITO, 2003).

Segundo Gomes (1997), o trabalho do enfermeiro organizou-se em três direções: no sentido de organizar o cuidado do doente, o que se deu pela sistematização das técnicas de enfermagem; no sentido de organizar o ambiente terapêutico, por meio de mecanismos de purificação do ar, limpeza, higiene e outros; e no sentido de organizar os agentes de enfermagem, por meio do treinamento, utilizando as técnicas e mecanismos disciplinares.

Diante disso, a enfermagem moderna surge exercendo o gerenciamento, pois assume tanto a organização do ambiente quanto a organização e capacitação dos agentes de enfermagem.

Assim, não se pode reduzir a importância do trabalho administrativo do enfermeiro já que, historicamente, como analisa Ferraz (2000), está inserido em sua prática profissional e vem sendo entendido há varias décadas como uma forma de assegurar o encadeamento do trabalho assistencial uma vez que junta as partes do todo fragmentado.

Conforme Felli e Peduzzi (2005), a gerência tomada enquanto processo de trabalho de enfermagem pode ser apreendida por dois grandes modelos: o primeiro com foco no indivíduo e nas organizações, denominado modelo racional; e o segundo centrado na abordagem das práticas sociais e sua historicidade, ou seja, o modelo histórico-social.

No modelo racional a tarefa atual da administração é interpretar os objetivos propostos pela organização, e transformá-los em ação organizacional através do planejamento, organização, direção e controle de todos os esforços realizados em todas as áreas e em todos os níveis da organização, a fim de alcançar tais objetivos da maneira mais adequada à situação (CHIAVENATO, 1985).

No entanto, Motta (1998), afirma que o gerenciamento não é um processo apenas científico e racional, mas também um processo de interação humana que lhe confere, portanto, uma dimensão psicológica, emocional e intuitiva.

A atividade gerencial é extremamente dinâmica, dialética, onde as dimensões técnica, política e comunicativa estão em permanente articulação exigindo constante reflexão e tomada de decisão por parte do enfermeiro.

Assim, o gerenciamento avança da racionalidade para a flexibilidade, ao responder aos modelos e às finalidades do capitalismo avançado, inaugurados com a globalização e direcionados pelas políticas de recorte neoliberal (FELLI, 2002).

No modelo histórico-social, Felli e Peduzzi et al. (2005) afirmam que o gerenciamento é apreendido a partir de uma perspectiva das práticas da saúde, historicamente estruturadas e socialmente articuladas, buscando responder às contradições e tensões presentes no cotidiano dos serviços. Assim, a gerência não está voltada apenas para a organização e controle dos processos de trabalho, mas também para a apreensão e satisfação das necessidades de saúde da população, o que requer tomar em consideração a democratização das instituições de saúde e a ampliação da autonomia dos sujeitos envolvidos nos processos de cuidado – usuários e trabalhadores.

A enfermagem nasce várias vezes, de modos diferentes, subsistindo através de transformações da sociedade, correspondendo às necessidades que estas transformações requerem, assimilando mudanças que não a tornaram somente um ato de cuidar moral, mas a transformaram numa atividade profissional e seus exercentes em trabalhadores que, vendendo sua força de trabalho, submetem-se às condições gerais do mercado de trabalho (LEOPARDI, 1991).

2.3 Conceituando gerenciamento em enfermagem

Para que uma organização possa apresentar padrões satisfatórios de trabalho é fundamental que exista um serviço bem estruturado e fundamentado numa administração eficiente. O enfermeiro, inserido na complexidade organizativa das instituições hospitalares, se depara com um grande contingente de atividades administrativas e assistenciais a serem desenvolvidas. Surge então a necessidade de entender o significado dessa administração e a relação dela com a assistência de enfermagem (BERNARDES, NAKAO E ÉVORA, 2003).

O enfermeiro toma a posição de gerente e líder da assistência de enfermagem e, conhecendo a essência do trabalho dessa equipe, delega funções aos hierarquicamente subordinados. Ao enfermeiro não cabe apenas competência técnica, é necessária competência administrativa, para que lhe seja possível o gerenciamento da sua unidade e a organização da assistência de enfermagem prestada aos pacientes sob seus cuidados (BERNARDES, NAKAO E ÉVORA, 2003, p. 31)

Formas assistemáticas de gerenciar geralmente negligenciam problemas para os quais não são oferecidas soluções adequadas tanto para bem atender os clientes quanto para satisfazer a própria organização e os trabalhadores em suas necessidades. Para isso é necessário buscar um perfil ou estilo gerencial adequado e sistemático.

Para Marx e Morita (2000), gerenciar na enfermagem é saber atuar em áreas distintas, mas interligadas, na da assistência ao paciente e na administrativa. É preciso buscar um perfil estrategista, buscando uma abordagem coordenada, promovendo a prática da colaboração, estimular uma parceria com a equipe multiprofissional, que é indispensável para futuras negociações entre as partes.

Segundo a autora, o gerente de enfermagem tem de ter segurança nas tomadas de decisões, ser um pensador estratégico para poder antecipar mudanças rápidas na assistência ao paciente ou em assuntos concernentes à administração do serviço. Para isso, muitas vezes, necessitará de habilidades de negociação e afirmação. Deverá ser experiente em comunicação, quer verbal, escrita ou corporal, pois a chave do sucesso está numa boa comunicação.

Todo gerente deve ter a humildade para aprender com quem sabe fazer melhor, possuir espírito de equipe, contribuindo com seu conhecimento e equilibrando com bom senso o desempenho dos membros da equipe. É preciso ter flexibilidade, ser líder, saber resolver os problemas sem gerar ansiedades e desconfortos, saber motivar as pessoas sem criar expectativas inatingíveis. É preciso ter habilidades de relacionamento e possuir uma das artes mais difíceis, que é saber ouvir (MARX E MORITA, 2000).

2.4 Gerenciamento e liderança

Conhecer a relação entre liderança e administração é de grande importância para os enfermeiros no gerenciamento. É imprescindível ao profissional de enfermagem possuir habilidades de liderança, pois ela compõe um dos requisitos necessários a uma gerência de sucesso.

Para Marx e Morita (2000), o gerente de enfermagem deve conhecer a diferença entre gerenciamento e liderança, deve ser capaz de promover o desenvolvimento de outras pessoas para substituí-lo, sem ter medo da concorrência, pois os talentos somente serão descobertos se tiverem a chance de se mostrar.

Conforme a mesma autora, gerente de enfermagem deve ser líder de ações positivas, empenhar-se ao máximo para que seu planejamento seja colocado em prática de forma a obter os melhores resultados para a organização, e para aqueles que convivem ou dependem dela. Para isso é necessário assumir riscos e estar constantemente atualizado.

(Parte 1 de 4)

Comentários