O ensino de graduação na universidade ? a aula universitária

O ensino de graduação na universidade ? a aula universitária

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Prof. José Carlos Libâneo

O objetivo deste texto é apresentar considerações e reflexões sobre parâmetros de qualidade do ensino e da gestão de unidades de ensino superior diante das mudanças que vem ocorrendo na sociedade e no mundo conhecimento e da formação profissional. Sugere, inicialmente, as relações entre a qualidade de ensino e o trabalho docente em sala de aula. Após apresentar dados sobre a situação do ensino universitário, aponta formas alternativas de aula universitária e de organização escolar.

Há estreita relação entre a qualidade de ensino na universidade e o trabalho docente realizado em sala de aula. A premissa é muito simples: o núcleo de uma instituição universitária é a qualidade e eficácia dos processos de ensino e aprendizagem que, alimentados pela pesquisa, promovem melhores resultados de aprendizagem dos alunos. Ou seja, a universidade existe para que os alunos aprendam conceitos, teorias; desenvolvam capacidade e habilidades; formem atitudes e valores e se realizem como profissionais-cidadãos. É para isso que são formulados os projetos pedagógicos, os planos de ensino, os currículos, os processos de avaliação.

Com efeito, os objetivos da instituição e dos cursos concretizam-se no currículo que, por sua vez, é efetivado por meio das atividades de ensino, visando atingir resultados em termos de qualidade cognitiva, operativa e social das aprendizagens. O conjunto currículo-ensino constitui, pois, os meios mais diretos para se atingir o que é nuclear na escola, a aprendizagem dos alunos, com base nos objetivos.

Precisamente para tornar esse núcleo mais eficaz, existe outro conjunto de meios que são as atividades de planejamento (incluindo o projeto pedagógico-curricular e os planos de ensino), de organização e gestão, e de avaliação, sendo que as práticas de organização e gestão põem em prática o planejado.

Em resumo, nosso entendimento é de que a qualidade de ensino se mostra, em primeiro lugar, na sala de aula, muito mais do que nas campanhas publicitárias e nos procedimentos de gerenciamento. Por quê?

- A função específica da universidade, enquanto produtora de conhecimento e prestadora de serviço, é o ensino. E não existe ensino em geral, existe ensino nas salas de aula.

- É elementar entender que esses aspectos da organização pedagógica do curso convergem nas aulas, ou seja, o aluno aprende a ser profissional e cidadão na sala de aula. Para isso, é preciso saber se os alunos estão aprendendo, se estão modificando comportamentos, se incorporam habilidades, atitudes, valores com base no projeto pedagógico-curricular do curso e nos programas de cada disciplina.

- É na sala de aula que os professores exercem sua influência direta sobre a formação e o comportamento dos alunos: sua postura em relação ao conhecimento específico de sua matéria, aspectos do relacionamento professor-aluno, sua atitude em relação à instituição, seu planejamento, sua metodologia de ensino, seus valores, seu relacionamento com colegas de outras disciplinas. Na relação social que se estabelece em sala de aula, o profissional liberal que ministra aulas – o engenheiro, advogado, arquiteto, físico, economista, veterinário, biólogo, – passa a seus alunos uma visão de mundo, uma visão das relações sociais, uma visão da profissão, ou seja, passam uma intencionalidade em relação à formação dos futuros profissionais que é, eminentemente, pedagógica.

Reforçando a idéia da aula universitária como referência básica para o ensino superior, escreve Cunha:

É nela que, principalmente, se traduzem as ambigüidades e os desafios do ensino superior. (...) Nela é que se materializam os conflitos entre expectativas sociais e projeto de cada universidade, sonhos individuais e compromissos coletivos, transmissão e produção do conhecimento, ser e

Cumpre, todavia, destacar algumas observações.

Primeira, não nos passa despercebido, evidentemente, que o ensino é uma das facetas da universidade, é preciso considerar o tripé que dá sustentação à universidade: ensino, pesquisa, extensão. Mas entendemos que essas funções convergem para o ensino. Conforme Cunha:

Ensino superior de qualidade tem como pressuposto que a produção do conhecimento se faz também pelo ensino. (...) Se a pesquisa dá enorme contribuição à formulação de novos parâmetros científicos, a produção do conhecimento pelo ensino, antes de produtos científicos, alcança a produção do pensamento, a capacidade cognitiva e estética do aprendiz (Cunha, 1997, p. 91).

Segunda: é bom esclarecer que essa insistência em considerar os aspectos pedagógicos e didáticos não significa que queremos normalizar as situações de ensino, adotar formalidades e controles ou enquadrar os professores em receitas didáticas. Sabemos que cada área de conhecimento tem suas especificidades epistemológicas e metodológicas. O que a VA deseja é adotar medidas e desencadear ações para conhecer mais de perto o que está acontecendo nas salas de aula e prover as condições necessárias para se obter mais qualidade de ensino, dentro de práticas participativas e colaborativas em que os docentes sejam protagonistas dos processos de mudança. A idéia é introduzir nos cursos espaços de reflexão conjunta, trocas de experiência, formas de negociação e tomada de decisões coletivas.

Terceira: sabemos que a formação do docente universitário é um campo de tensões. De um lado, estão os pedagogos que insistem na necessidade de aquisição de saberes pedagógicos e competências metodológicas e de mudanças de atitudes em relação à tarefa de ensinar. De outro, estão os docentes que recusam essa necessidade de formação pedagógica específica. A despeito disso, a condução pedagógica da universidade supõe uma dupla convicção: a) de que o professor universitário possui duas especialidades profissionais: a ser especialista na matéria e especialista no ensino dessa matéria. b) de que, se houver algum lugar mais propício para promover mudanças e inovações em vista da melhoria da qualidade de ensino, esse lugar é o curso, com seus professores e alunos, e a forma, a gestão participativa.

Os diagnósticos e análises obtidos das pesquisas sobre problemas da docência universitária em várias instituições do país mostram insatisfações dos alunos em relação ao currículo, às práticas de ensino, ao corpo docente.

A título de exemplo, apresentamos na Figura 1, depoimentos de alunos de um curso superior de Direito, a respeito do desempenho de seus professores, extraídos de uma dissertação de mestrado. (Nunes,

Figura 1 – DEPOIMENTOS DE ALUNOS q Bom professor é aquele que tem conhecimento e domínio da matéria.

q Os professores do meu curso são profissionais que têm pouco conhecimento de didática, são competentes na sua área específica, mas não na área do magistério (80% das respostas).

q Muitos professores conhecem muito bem sua matéria, mas não são educadores, não ligam para o aluno.

q Bons professores são os que se empolgam com a matéria, mas não são donos da verdade.

q A formação fica prejudicada porque as aulas práticas se resumem ao estágio já no final do curso, não há interdisciplinaridade e não há didática e metodologia adequadas.

exibir, fala uma linguagem que ninguém entende

q Na minha faculdade, há professor que parece que gosta de se q Vejo avaliação como uma corda no pescoço pronta para ser puxada pelo professor e enforcar o aluno.

q Vejo avaliação como uma oportunidade de vingança do professor para com o aluno

Na Figura 2, são apresentados depoimentos de alunos de uma

Universidade do sul do país, em que declaram sua opinião sobre o bom professor (Cunha, 1989).

Figura 2 – DEPOIMENTOS DE ALUNOS DE UNIVERSIDADE DO SUL DO PAÍS q O professor Pedro é o melhor porque ele transmite para a gente o gosto que ele tem pela Matemática, ele nos mostra o prazer de

aprender

q Bom professor é aquele que domina o conteúdo, escolhe formas adequadas de aprender a matéria e tem bom relacionamento com os alunos.

q O melhor professor é aquele que aborda os assuntos relacionando- os com nossa experiência prática e incentiva os alunos a pesquisarem os assuntos da aula, sem obrigar o “decoreba” das aulas teóricas.

q Gosto de professor que descomplica o complicado, fala em linguagem simples, é objetivo, ele se esforça para que os alunos

compreendam o que está dizendo

q Os professores que mais me marcaram, até agora, foram aqueles que interferiram na minha forma de ver o mundo, nas relações. Isto foi fundamental para mim.

A figura 3 mostra um inventário de restrições que alunos de um curso superior de Química disseram encontrar em seus professores (Vasconcelos, 2000).

Figura 3 – RESTRIÇÕES DE ALUNOS EM RELAÇÃO A PROFESSORES q Não ter domínio do conteúdo q Não explicar o conteúdo ou fazê-lo de forma inadequada q Usar inadequadamente os recursos ou usar somente um recurso q Não ser capaz de motivar os alunos – tornar a aula monótona q Não se preocupar em verificar o que o aluno já sabe ou se ele está aprendendo q Não ter didática - apresentar limitações técnicas q Assumir atitude de superioridade ou ser autoritário q Não usar exercícios e exemplos ou fazê-lo de forma inadequada q Não promover a interação com os alunos q Não variar a metodologia - Incentivar somente a memorização q Selecionar e sequenciar os conteúdos de forma inadequada q Não mostrar interesse na aula que está dando q Ser inseguro em sala de aula ou gerar insegurança q Comunicar-se mal com os alunos q Falta de clareza - Dificultar a compreensão dos alunos q Não ter domínio de classe q Não responder às perguntas dos alunos q Não obedecer ao horário da aula - usar inadequadamente o tempo q Não ter critérios coerentes de avaliação

Como podemos observar, os problemas do ponto de vista pedagógico-didático em várias instituições de ensino superior são muito parecidos. Os depoimentos nos mostram o que já é do nosso conhecimento. O que os alunos criticam é o ensino tradicional, isto é, um sistema de relações centrado apenas na didática da transmissão de informação que reduz o estudante a um sujeito que recebe passivamente essa informação.

Na prática, o que mostram as pesquisas e a própria experiência é que a maioria dos professores universitários:

- ensina sem qualquer formação pedagógica; consideram o magistério como atividade secundária (Vasconcelos, 2000, p.

- aprende a dar aulas por ensaio e erro;

- desconsidera o mundo do aluno, a prática do aluno, as diferenças entre os alunos. Quanto mais distância do aluno, melhor;

- seu método de dar aula é principalmente a aula expositiva, o papel do professor é transferir conhecimento;

- acha que a habilidade intelectual mais importante do aluno é a de memorização. Basta expor a matéria, porque o bom aluno é o que memoriza o que foi falado e depois repete nas provas. Ou seja, a cabeça do aluno seria como uma esponja; ensino e para instrumentalizar os alunos a gerarem novos conhecimentos; usada como instrumento de controle do comportamento do aluno, isto é, meio de estabelecer autoridade em relação ao aluno, de fazer pressão sobre o aluno;

- bom professor é o que dá nota baixa e que reprova.

Sabemos, também, que na nossa Universidade convivem dois extremos de professor, cuja atitude é muito bem intencionada, mas a nosso ver não corresponde a uma visão adequada do processo de ensino e aprendizagem. De um lado, temos aquele professor intransigente cujo aluno precisa reproduzir integralmente o que é ensinado ou o que é pedido do livro didático, sem o que o destino é a repetência. De outro, temos o professor condescendente, que transige, que cede muito facilmente à vontade do aluno. Aceita qualquer produto de trabalho, exige pouco, prefere agradar do que ser exigente. Às vezes confunde práticas democráticas com atitudes de tolerância e complacência.

São duas formas inadequadas de ser professor, porque, principalmente, não considera o aspecto mais relevante do ensinar: ajudar o aluno a conquistar, com seus próprios recursos intelectuais e afetivos, uma sólida aprendizagem de conhecimentos, habilidades, valores.

A professora Maria Isabel Cunha, uma das mais notáveis pesquisadoras sobre didática universitária, resume em um relato de observação de aulas, o que parece ser o perfil de um professor universitário brasileiro:

A exposição oral foi a técnica a que mais assistiO ritual escolar está
basicamente organizado em cima da fala do professoro professor é a
maior fonte da informação sistematizadaA grande inspiração dos

docentes é a sua própria prática escolar e eles tendem a repetir comportamentos que considerou positivos nos seus ex-professores. Há

experiências de discussões em classe, com professores quetentassem

pouca possibilidade de que nossos interlocutores tivessem tido construir o conhecimento de forma coletiva. Tenho a impressão até de que os professores criam um certo sentimento de culpa se não são eles que estão “em ação”, isto é, ocupando espaço com a palavra na sala de aula. Tudo indica que foi assim que aprenderam a ensinar.

Os estudantesestão condicionados a ter um tipo de expectativa em

7 relação ao professor. Em geral, ela se encaminha para que o professor fale, “dê aula”, enquanto ele, aluno, escuta e intervém quando acha

alunoEste comportamento ratifica a tendência de que o ritual escolar

necessário. O fato de se achar na condição de ouvinte é confortável ao se dê em cima da aula expositiva. É provável que professores e alunos assim se comportem por falta de vivência em outro tipo de abordagem metodológica (Cunha, 1989).

Conforme mencionamos no início desta exposição, a VA está apresentando uma proposta de trabalho focando a qualidade de ensino com base no que ocorre na sala de aula. Obviamente, as ações a serem implementadas, em termos de coordenação pedagógica, baseiam-se numa concepção de docência universitária e do processo de aprendizagem. Essa concepção se resume nos seguintes pontos:

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