Levantamento de solo e declividade da microbacia hidrográfica Timbaúba no Brejo do Paraibano, através de técnicas de fotointerpretação e Sistema de I

Levantamento de solo e declividade da microbacia hidrográfica Timbaúba no Brejo do...

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REVISTA DE BIOLOGIA E CIÊNCIAS DA TERRA ISSN 1519-5228 Volume 4 - Número 2 - 2º Semestre 2004

Levantamento de solo e declividade da microbacia hidrográfica

Timbaúba no Brejo do Paraibano, através de técnicas de fotointerpretação e Sistema de Informações Geográficas

Simone Mirtes A. Duarte[1], Ivandro de França da Silva[2], Bartolomeu Garcia de Souza Medeiros[3],Maria Leide Silva de Alencar [3]

O presente trabalho tem como objetivo principal avaliar o potencial produtivo das terras da microbacia hidrográfica Timbaúba localizada no Brejo paraibano, município de Remígio e identificar as classes de solos juntamente com a declividade da área visando à definição de estados diagnósticos para a realização do Planejamento Ambiental. A partir do uso de um sistema de Informação Geográfica (SIG) foram obtidas as classes de ocupação do meio físico (área por classe de solo e declividade) e, em paralelo, foram feitas considerações sobre o seu planejamento. Para obtenção de mapas temáticos, foram utilizadas fotografias aéreas e malhas cartográficas georreferenciadas. Os resultados mostraram que a área com 262,25 ha, é constituída por solos classificados como ARGISSOLO VERMELHO AMARELO Distrófico com 9,97 ha da área e ARGISSOLO VERMELHO Distrófico com 89,84 ha da área. A declividade se apresenta com relevo predominantemente ondulado, onde é possível a exploração agropecuária mediante utilização de práticas conservacionistas, havendo a necessidade de cuidados especiais com relação ao uso e manejo.

Palavras-chave: Planejamento ambiental, manejo, solo, declividade

The present work has as main objective to evaluate the productive potential and of degradation of the lands of the microbacia hidrográfica located Timbaúba in the Swamp paraibano, municipal district of Remígio. To identify areas of use and handling, seeking the definition of states diagnoses for the accomplishment of the Environmental Planning. Starting from the use of a system of Geographical Information (SIG) the classes of occupation were obtained of the place físico (area by soil class, Steepness and current use of the lands) and, in parallel, were made considerations about its planning. For obtaining of thematic maps, aerial pictures and meshes cartographic georreferenciadas were used. The results showed that the area with 262,25ha is constituted by soils classified as ARGISSOLO VERMELHO AMARELO Distrófico with 9,97 haof the area and ARGISSOLO VERMELHO Distrófico with 89,84 ha of the area. The steepness apresented with predominantly wavy relief, having the needs special cares regarding the use and handling.

Key words: Environmental Planning, handling, soil, steepness

1 - INTRODUÇAO

O planejamento agrícola orientado por preceitos da política ambiental constitui um instrumento fundamental no processo de gestão do espaço rural e da atividade agropecuária. Este quando bem realizado racionaliza as ações, tornando-se instrumento de sistematização de informações, reflexão sobre os problemas e especulação de cenários potenciais para o aproveitamento dos recursos naturais.

O crescimento econômico e a exploração do meio rural têm sido constantemente prejudicados pela falta de um planejamento real, que tenha como base o conhecimento dos recursos naturais.

Com relação às vantagens de sua utilização, assistimos atualmente em nosso país, a ocupação do solo conduzida por pressões populacionais ou econômicas, em total desrespeito a aptidão agrícola das terras. A não adoção de critérios técnicos no planejamento,tem agravado problemas ambientais. Lamentavelmente, o homem ao realizar a adaptação das terras para as explorações agrícolas, modifica as características dos solos e não absorve os fatores limitantes, favorecendo a agressão das mais variadas formas, tornando-os deteriorados.

O mais impressionante ainda é constatar que o agricultor, aquele que depende basicamente do solo agrícola para sobreviver concorra para facilitar a sua destruição (Silva et, al. 1999). Nas últimas décadas, o aumento da produção agrícola e da produtividade e, as conseqüentes intensificações do uso do solo, trouxeram preocupações relacionadas aos impactos ambientais e à conservação dos recursos naturais a curto, médio, e longo prazo.

Para reverter essa situação é importante que sejam levantadas às características e propriedades dos recursos naturais, bem como sua disposição na paisagem geral, o que possibilitará uma avaliação do seu potencial e de suas limitações. Para acompanhar a dinâmica da ocupação e utilização do solo é preciso dispor de técnica que facilitem a ordenação dessa ocupação e que sejam passíveis de tratamentos automatizados. Entre as técnicas estão os sistemas de informações geográficas (SIGs), os quais possibilitam combinações de informações provenientes de diferentes procedimentos tecnológicos, para a produção de novas informações em tomadas de decisões de contextos os mais diversificados.

O Brejo Paraibano é hoje caracterizado por condições sociais e ambientais bastante vulneráveis. A intervenção das atividades humanas nesse cenário tem propiciado a degradação acentuada dos recursos naturais, originando em algumas áreas os denominados “núcleos de desertificação”, onde a degradação é muito mais intensa.

O uso e o manejo das terras inadequadamente vem comprometendo a qualidade e a quantidade da água além de causar, em menor intensidade, o assoreamento da área da microbacia hidrográfica Timbaúba, situada no município de Remígio-PB, ocasionado pela ação antrópica.

A avaliação do potencial produtivo das terras será um instrumento indispensável para a discurssão de um planejamento racional dos recursos naturais renováveis, particularmente os solos, maximizando a produção agrícola, contudo compreender um equilíbrio harmonioso entre as atividades humanas e o ambiente.

Sendo assim, este trabalho teve como objetivo geral elaborar um Diagnóstico de Solo da microbacia hidrográfica Timbaúba, visando apresentar prognósticos para área em estudo e fornecer subsídios ao planejamento de alternativas de exploração dos recursos naturais.

2 - MATERIAL E MÉTODOS

A microbacia hidrográfica Timbaúba com 262,25 ha, localiza-se na região fisiográfica do Brejo Paraibano, no município de Remígio-PB, situada nos contrafortes orientais do planalto da Borborema. As coordenadas geográficas planas da sub-bacia encontram-se

Latitudes. 6o 59’ 2930” e 6o 58’ 1722” S, pelo sistema UTM e Meridiano central de 33o 0’ 0”. Localizado nos contrafortes orientais do planalto da Borborema, o efeito orográfico propicia chuvas abundantes (1400 m.ano-1) e bem distribuídas (de março a agosto) possibilitando o estabelecimento de uma mata latifoliada atualmente em grande parte degradada e substituída pelo uso agrícola (Carvalho & Carvalho, 1995).

O clima predominante, segundo a classificação de Koppen, é do tipo Asi: áreas com clima tropical úmido apresentando verão seco, sendo a variação de temperatura média mensal do ar ao longo do ano praticamente desprezível, período seco entre setembro e fevereiro.

O suporte econômico de Remígio é a lavoura em que são destacados as produções de cana-de-açúcar, mandioca, feijão, milho, algodão, banana, laranja e outros, onde a cidade de Campina Grande-PB, absorve todos os seus excedentes.

A atividade pecuária desenvolvida na área é de médio porte, com o rebanho bovino tendo maior destaque, participando efetivamente da receita do produtor com a comercialização de carne e de leite e seus derivados.

A vegetação é composta pela floresta latifoliada de altitude onde são freqüentes as trepadeiras (lianas) e nas partes altas é grande o número de epífitas, principalmente a bromélia. Entre as espécies encontram-se o pau d’arco amarelo, jatobá, cupiúbas, sucupiras, muricis, sambaquis, louro, etc.

Para atender aos objetivos deste trabalho, escolhera-se como plano de informação para entrada no SIG os mapas de solo e declividade (confeccionado a partir de mapa planialtimétrica com espaçamento de 5,0 m entre as curvas de nível), na escala de 1:12:0 (proveniente da ampliação de material básico original na escala 1:37.0). Utilizando-se fotografias aéreas e observações de campo o levantamento de solos foi feito em cada unidade de paisagem separada e cartografada como unidade de mapeamento foram inventariadas as suas características diagnósticas conforme procedimento do Manual para Levantamento Utilitário do Meio Físico (Lepsch et al., 1991), com algumas modificações (Brasil Neto, 2000).

A declividade foi determinada em cada unidade de paisagem pelo mapeamento representativo, utilizando-se uma Estação Total. Foram adotados as seguintes classes de declive e seus respectivos limites: 0 – 3% (relevo plano); 3 – 6 %(relevo suave ondulado); 3 – 12 % (relevo ondulado); 12 – 20% (relevo forte ondulado); 20 – 40 (relevo forte ondulado mais montanhoso); 40 – 60% (relevo montanhoso); > 60% (fortemente montanhoso).

Com referencia ao uso atual das terras utilizou-se à visualização direta das imagens, em face da alta resolução e boa qualidade das fotografias. O SIG utilizado foi módulo SPRING v.3.4, em todo o processamento dos dados digitalizados no SIG-340, e da mesa digitalizadora Summagraphics construídos assim, os mapas onde permitiu a edição de todos os planos de informação definidos no projeto, enquanto no ambiente do módulo SCARTA, foram criadas e editadas as cartas temáticas, com o conteúdo de um plano de informação ou com a integração de mais de um plano de informação. As cartas temáticas editadas foram convertidas para um formato de plotagem no ambiente IPLOT do sistema SPRING. Os mapas assim foram confeccionados com seus respectivos dados para analise final.

3 - RESULTADOS E DISCUSSÃO

Com base na interpretação visual das fotografias aéreas e trabalho de campo, obtevese o mapa de Reconhecimento dos Solos (Figura 1) na escala de 1:12.0. Após o levantamento de campo, foram identificadas 5 classes de solos: Dentre as classes definidas, verificou-se a predominância dos solos ARGISSOLO VERMELHO AMARELO Distrófico com 9,97 ha, correspondente a 38,12% da área estudada (Quadro 1).

Quadro 1 – Classes de Solos da microbacia Timbaúba com, respectivas áreas de ocupação espacial Unidade de Mapeamento Área (ha) Área (%)

ARGISSOLO VERMELHO AMARELO Distrófico - PVAd 9,97 38,12 ARGISSOLO VERMELHO Distrófico típico - PVd 89,84 34,25 NEOSSOLO REGOLITICO Distrófico típico - RRd 17,39 6,63 NEOSSOLOS FLÚVICOS Tb distrófico - RUbd 47,23 18,01 CAMBISSOLO HAPLICO Tb distrófico Argissolo - CXbd 7,82 2,98

Figura 1 - Mapa de Solo, da microbacia hidrográfica Timbaúba (desenvolvido no Laboratório de Sensoriamento Remoto do DEAg/CCT/UFCG – PB)

entre outros

As classes de solos identificadas neste levantamento,caracterizam-se por: - ARGISSOLO VERMELHO AMARELO Distrófico – PVAd - Classe de solo que ocupa a maior parte da área (38,12%), sendo também verificada por Santos (2001), na comunidade de Mata Redonda, município de Remígio-PB. Compreende solos com horizonte B textural de matiz 5YR ou mais vermelho e mais amarelo que 2,5YR na maior parte dos primeiros 100 cm do horizonte B, não hidromórfico, com saturação de bases média a alta, geralmente apresenta baixa saturação com alumínio. O horizonte A mais freqüente é o moderado. Apresenta perfis profundos, bem diferenciados e moderadamente drenados. São solos na sua maioria de fertilidade natural baixa ou por vezes média (distrófico), com textura que vai de média a argilosa. Recomenda-se para essa unidade, medidas intensivas de controle da erosão, face o relevo ondulado e forte ondulado.O relevo suave ondulado e ondulado merece práticas simples de conservação de solos, como incorporação de restos de culturas, preparo do solo, rotação de culturas,

A vegetação é representada pela floresta subcaducifólia e caducifólia. Encontrando-se as áreas que compõem a microbacia Timbaúba no momento, com cana-de-açúcar e culturas de subsistência. Boa parte dessa área deve ser reservada para preservação da fauna e da flora. A manutenção do solo coberto contribuirá para reduzir o impacto direto das gotas de chuva com o solo e, conseqüentemente, diminuir o processo erosivo que nessas áreas é favorecido pelo relevo que varia de ondulado a forte ondulado.

ARGISSOLO VERMELHO Distrófico típico-PVd – classe de solo caracterizada com cores mais vermelhas, matiz no horizonte B textural superior a 7,5YR. Em ocupação espacial é a segunda maior encontrada na microbacia estudada com 89,84 ha, correspondente a 34,25% da área de estudo (Quadro 1). Tem sua maior ocorrência nas posições do relevo suave ondulado a ondulado.

NEOSSOLO REGOLITICO Distrófico típico – RRd - Esses solos ocupam 17,39 ha da área de estudo correspondendo a 6,63% (Quadro 1). É importante observar que estes solos estão na sua área natural de ocorrência, Microrregião de Esperança, no Agreste da Borborema (Moreira, 1989 e BRASIL, 1972). Apresentam saturação por bases (V%) baixa em decorrência, principalmente, do clima úmido, permitindo maior lixiviação destas. São desenvolvidos a partir de granito e gnaisse. A vegetação desta área encontra-se quase totalmente devastada.

São solos intensamente cultivados, destacando-se como principais culturas: batatinha, mandioca, feijão e milho. As principais limitações estão relacionadas com: baixa fertilidade natural, deficiência de água e, em algumas áreas, impedimentos agrícolas determinados pela rochosidade.

Segundo Silva et al. (1999), esses solos apresentam profundidades variáveis e uma camada de fragipã, que é definida por Oliveira et al, (1992) como uma camada compactada, surgida naturalmente pouco permeável, muito dura e com aparência de sedimentos quando seca. Como os Neossolos são solos pouco evoluídos, muito arenosos, medianamente profundos a profundos (Vieira, 1983), a água das chuvas é armazenada no perfil face à presença da camada representada pelo fragipã e retida pelo próprio fragipã ficando disponível ás raízes, limitando o enraizamento pela baixa disponibilidade de oxigênio.

Esse ambiente torna-se potencialmente favorável ao uso agrícola (culturas anuais) quando o relevo suave ondulado a ondulado está aliado à presença do fragipã. As práticas simples de conservação de solo proposta para o PVAd são também indicadas para o solo em estudo. NEOSSOLOS FLÚVICOS Tb distrófico – Rubd – Essa classe contempla solos Flúvicos Tb distrófico são solos com argila de atividade baixa (T< 27 cmolc kg-1 de argila) e saturação por bases baixa (V< 50%) na maior parte dos primeiros 120 cm da superfície do solo. A área destes solos na microbacia é de 47,23 ha, correspondentes a 18,01% da área total (Quadro 1).

Compreende solos minerais sedimentares, pouco desenvolvidos, não hidromórficos, formados em depósitos aluvionais recentes, de tal ordem que apresentam como horizonte diagnósticos apenas o A, seguindo de uma sucessão de camadas estratificadas sem relação pedregosa entre si (Oliveira et al., 1992).

Encontra-se ao longo dos rios, em várzeas ou terraços formados por sedimentos recentes e incluem somente os solos que venham sofrendo inundações periódicas ou que estiverem até recentemente sujeitos a inundações (Vieira, 1983).

Esses solos são considerados de grande potencialidade agrícola devido à posição que ocupa na paisagem, áreas de várzeas pouco ou não sujeitas à erosão, com declividade variando de 3 a 12%, onde a mecanização agrícola pode ser praticada de maneira intensiva. Pelo fato de oferecerem melhores condições de retenção de umidade, eles são importantes para os pequenos agricultores da microbacia, devendo aproveitá-los para o cultivo de hortaliças, já que pelo local passa um pequeno riacho. CAMBISSOLO HAPLICO Tb distrófico Argissolo – CXbd - Essa unidade compreende solos minerais não hidromórficos bem drenados com relevo suave ondulado originado de rochas précambrianas, horizonte A seguindo de B incipiente, não plíntico, de textura franco argilo arenosa, em associação com Argissolo. Também foi observada pequena mancha desse solo por Brasil Neto (2001) na sub-bacia hidrográfica Jardim e Olho D’água. Esta classe apresenta solos ácidos (pH = 4,95), baixa saturação por bases (V< 50%), com argila de atividade baixa (T<27 cmolc.kg-1 de argila), apresentando coloração bruno acinzentado muito escuro (10YR 3/4 úmido), como mostra a Figura 1.

A vegetação é representada por floresta subcaducifólia e caducifólia, com existência de apenas escasso remanescente. Encontra-se cultivados com pastagem e culturas de subsistência (Figura 4.8). Não apresenta pedregosidade, possibilitando o uso de maquina agrícolas. A área ocupada por estes solos é de 7,82 ha, correspondentes a 2,98 %, representando uma pequena mancha de solo encontrada na microbacia (Figura 1).

Com relação às características físicas, esse solo apresenta um aumento acentuado do teor de argila entre o horizonte A e B. Essa mudança textural proporciona uma descontinuidade pronunciada no sistema poroso. A água penetra com mais facilidade no horizonte superficial arenoso. Entre outros aspectos, isso facilita a erosão, particularmente quando se verifica que a maior parte desses solos se encontra em relevo suave ondulado, Quadro 2.

Quadro 2 – Distribuição das áreas por classe de declive na microbacia hidrográfica Timbaúba

A 0 – 3 - - B 3 – 6 62,12 23,68

C 6 – 12 96,08 36,64 D 12 – 20 48,89 18,64 E 20 – 40 46,83 17,86 F 40 – 60 8,3 3,18

A magnitude dos picos de enchentes e a infiltração da água trazem como conseqüência, maior ou menor grau de erosão, dependendo da declividade da microbacia (que determina maior ou menor velocidade de escoamento da água superficial), associada à cobertura vegetal, tipo de solo e uso da terra.

Observa-se que a declividade é o principal fator do relevo condicionante da erosão. Sua variação determina formas e feições da paisagem, ditando também as potencialidades de uso e restrição ao aproveitamento das terras. O mapa de declive obtido de acordo com as observações visuais feitas durante o trabalho de campo, apresentou uma boa correlação com os elementos da geomorfologia, possibilitando, desta forma, o seu uso na avaliação da erodibilidade, constituindo-se um importante meio de apoio a estudos relativos ao uso agrícola das terras.

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