Tendências futuras da biotecnologia perspectivas

Tendências futuras da biotecnologia perspectivas

(Parte 1 de 5)

Joaquim A. Machado

Campinas, SP

“...the biotechnology industry is becoming an information science, spurred on by the vast amount of data generated by genome projects.”

(Convergence: Ernst & Young’s Biotechnology Industry Report, Millenium Edition)

São Paulo, setembro de 2001

Sucesso da década de 80, o livro de Marshall Berman, Tudo que é sólido desmancha no ar (a aventura da modernidade), mostra-se mais e mais aplicável como norteador das mudanças disruptivas na biotecnologia, em anos recentes. Transcrito nesse livro, o texto de Karl Marx, datado de 1856, é paradigmático:

“De um lado, tiveram acesso à vida forças industriais e científicas de que nenhuma época anterior, na história da humanidade, chegara a suspeitar. De outro lado, estamos diante de sintomas de decadência que ultrapassam em muito os horrores dos últimos tempos do Império Romano. Em nossos dias, tudo parece estar impregnado do seu contrário”.

As recentíssimas tecnologias aplicáveis à Biologia: + pela sua capacidade de análise fina e de modificação de fenômenos biológicos

+ pelo seu potencial e velocidade de transformação da ciência básica em produtos e processos comercializáveis (“biology goes to business”) parecem de fato indicar que “tudo está impregnado de seu contrário”, dadas as perplexidades sócio-econômicas delas decorrentes, principalmente no que tange ao planejamento estratégico do investimento em Ciência e Tecnologia, em países em desenvolvimento.

A distribuição criteriosa de recursos, ou mesmo o “desequilíbrio planejado”, no investimento em ciência básica, bem como nas aplicações de potencial mercadológico, deve ser o princípio norteador em Biotecnologia. Se é verdade que “biology goes to business”, então o acompanhamento especialista da bolsa de operações em tecnologias e mercados, deve ser o referencial maior desse desequilíbrio planejado.

2. TECNOLOGIAS DISRUPTIVAS, DEMANDAS DE MERCADO PARA C & T, E ESTRATÉGIA CORPORATIVA.

Bower e Christensen, da Harvard Business School, afirmam que um dos padrões mais consistentes em negócios, é o fracasso de companhias líderes em permanecerem no topo de suas atividades, quando tecnologias e mercados evoluem de maneira razoavelmente abrupta.

Por que é que companhias bem estabelecidas investem agressivamente e com sucesso em tecnologias necessárias para manter seus clientes, e então falham ao não realizar investimentos em tecnologia que os clientes do futuro irão exigir? A razão fundamental é que essas companhias sucumbem a um dos mais populares e valiosos dogmas da administração: elas permanecem fiéis aos seus clientes atuais.

Clientes exercem um extraordinário poder em direcionar os investimentos de uma empresa. Mas, o que acontece, perguntam os autores, quando uma nova tecnologia emergente é rejeitada, porque não atende às suas necessidades, tão efetivamente quanto aquela produzida pela abordagem praticada atualmente pela companhia?

O fato é que a maioria das empresas que contam, está consistentemente à frente de suas linhas de produção atuais, no que tange em desenvolver novas tecnologias, na medida em que essas tecnologias atendam as necessidades de performance exigidas pela próxima geração de consumidores. Entretanto, os líderes empresariais raramente estão na linha de frente da comercialização de novas tecnologias que não atendam desde o início as demandas funcionais da tendência principal dos consumidores atuais, sendo atrativas apenas para mercados reduzidos e emergentes.

Para que permaneçam no topo de sua área de atividades, os administradores devem primeiramente ser capazes de identificar as tecnologias que se enquadram nessa categoria. É preciso envolver-se e persistir, protegendo-as dos processos e incentivos dirigidos aos clientes predominantes. A única maneira de obter isso, segundo os autores, é criando organizações que sejam completamente independentes do negócio ou atividade principal.

Muito recentemente, surgem tecnologias em Genética de fundamental importância para a Biotecnologia, as quais podem ser caracterizadas como “tecnologias definitivas”. Neste estudo, o termo “tecnologias definitivas” é definido como um pequeno grupo de novas tecnologias que atendem as aspirações fundamentais da indústria ligada à saúde humana e ao melhoramento genético agropecuário, quais sejam, os novos métodos de expressão de proteínas heterólogas, a evolução gênica direcionada (ou in vitro), e o contrôle da recombinação genética.

Às características da indústria biotecnológica (produtos efêmeros de alto valor agregado, e tecnologias-plataforma), acrescente-se agora a industrialização do genoma e as tecnologias definitivas em Genética, e obter-se-á um cenário onde muito dificilmente os mecanismos convencionais de financiamento e gestão estratégica de projetos será eficiente, pois que incapazes da flexibilidade, adaptabilidade, e velocidade de resposta adequadas a um meio de produção onde Genética e

Informática descobrem-se complementares e afins em natureza, além de multiplicadoras quando associadas tecnologicamente.

3. PARÂMETROS DA INDÚSTRIA BIOTECNOLÓGICA, IMPORTANTES PARA O INVESTIMENTO FINANCEIRO.

Conforme Trapunski, a indústria biotecnológica é composta basicamente por laboratórios ativamente testando novos produtos ou processos. Seu potencial reside em desenvolver algo notavelmente efetivo ou de sucesso, raramente comercializandoo diretamente, ou mais provavelmente, comercializando-o na forma de uma licença para uma empresa de porte muito maior.

Do ponto de vista do investidor, é importante analisar o tipo de alianças que uma nova empresa de biotecnologia está desenvolvendo. O tamanho e a qualidade do negócio envolvendo as alianças informam muito sobre o valor e o interesse pelo produto ou processo. Parâmetros adequados são: a garantia de um pagamento antecipado, tal como uma equidade de pelo menos US$ 10 milhões, financiamento de pesquisa e desenvolvimento, pagamento por metas atingidas e “royalties” por quaisquer vendas.

Da mesma forma que um projeto contingenciado por um número excessivo de metas não é promissor financeiramente, desenvolver um produto ou processo até uma determinada etapa, comercializando-o com uma companhia maior, pode representar uma excelente maneira de obter um aprendizado comercial em Biotecnologia, além de permitir a construção gradual de infraestrutura e de competência na indústria biotecnológica.

Em Biotecnologia, ao contrário da Informática, é pouco provável que a companhia detentora de uma invenção prossiga sozinha, com base apenas em sua estrutura de pesquisa original. Marketing é fundamental. No estágio de desenvolvimento do produto ou processo, a captação de investimento público ou privado, depende de uma constante divulgação incisiva sobre o potencial da companhia biotecnológica. Agências de investimento precisam ser constantemente lembradas de que há um período normalmente longo entre a divulgação para a mídia sobre uma nova idéia, e a comercialização do produto final.

A força real das empresas de sucesso em biotecnologia provém de uma estratégia comercial massiva e altamente sofisticada, e de uma rede de marketing eficiente em sensorear a inteligência do mercado. E, muito importante, a globalização. O custo de desenvolvimento de um produto biotecnológico que utilize as mais recentes tecnologias, é muito elevado, mesmo para mercados enormes, exigindo um esforço multilateral capaz de ressarcir os custos de produção.

De modo geral, alguns padrões do projeto industrial em biotecnologia podem ser analisados, com o intuito de orientar o investimento financeiro:

1. Conceito – qual é o produto? O que está sendo desenvolvido? 2. Estágio de desenvolvimento do produto ou processo

3. Eficácia comparada com aquilo que está no mercado atualmente 4. Mercado – existe um mercado? Qual é o produto ou processo competidor?

5. Gerenciamento - o gerenciamento do projeto é profissional, ou a empresa biotecnológica está sendo gerenciada por pesquisadores?

6. Estrutura financeira – permite que a empresa prossiga sozinha até a comercialização do produto ou processo, ou planeja-se uma associação ou venda a uma outra corporação?

7. Regulamentação – quais os estágios da legislação regulatória que devem ser observados? O projeto foi elaborado de modo a atender essas exigências?

8. Comercialização – como está ou será estruturada a equipe comercial?

9. Percepção dos investidores – há interesse dos investidores na área do

Projeto? Qual é o volume de transações de ativos financeiros nessa área? Mesmo com picos e vales, os valores demonstram uma tendência de alta?

10. Focalização – muitos produtos ou processos em desenvolvimento simultâneo, podem indicar dispersão de esforços e ineficiência da companhia. É importante completar com sucesso comercial pelo menos um produto.

4. ESTRATÉGIAS E PERSPECTIVAS PARA PESQUISA E DESENVOLVIMENTO EM COMPANHIAS PRIVADAS.

4.1. Agropecuária

Simultâneamente ao fato de que o investimento em Genética é fundamental em qualquer circunstância, a Genética agora deve ser observada como prioridade entre as ciências biológicas, porque o perfil negocial dela derivado é muito semelhante ao da mineração e exploração de petróleo, no que tange aos modelos de pesquisa, risco, consórcios etc. Porque homóloga, agrega também, mais do que qualquer outra ciência, todos os recursos de informática, confundindo-se ambas as ciências.

Decorre da recente consolidação do sequenciamento do genoma humano, a percepção de que os vários níveis de informação, bem como o processamento da mesma, demandam uma exegese, ou seja, exigem interpretação num espaço “n” dimensional de interação genótipo por ambiente. Esse cenário, sumariamente descrito como “proteoma” ou “genômica funcional”, apresenta características que demandam excelência em Genética. Descoberta de novos genes, e construção da arquitetura básica de cultivares vegetais, por exemplo, representam hoje um campo de imenso potencial econômico. E a farmacogenômica usufruirá da evolução direcionada e da recombinação gênica in vitro, na busca de novos medicamentos e nutricêuticos. Agropecuária e saúde humana já podem contar com dispositivos de análise massiva de genes em diferentes condições ambientais.

O tradicional argumento de que imunologia, microbiologia, fisiologia, fitotecnia etc, também são importantes, não deve confundir ou atenuar a decisão estratégica de se investir em Genética. Conquanto importantes, essas outras ciências não podem prover um conhecimento tão fundamental, e de tamanho potencial econômico, quanto a Genética. Uma vez mais, o conceito de “desequilíbrio planejado” deve ser aplicado.

São características da análise genética contemporânea, a industrialização, a automação e informatização . Um indicador concreto dessas características, é o investimento realizado pela FAPESP, com o intuito de equiparar a capacitação em Genômica, no estado de São Paulo, àquilo que se pratica em países mais desenvolvidos . Esse Projeto Genoma promoveu uma movimentação comercial de US$

12 milhões, especificamente relativos à venda de 150 sequenciadores de DNA no mercado brasileiro.

Essa deriva na aplicação de recursos financeiros em Genética Molecular, pode ser analisada por meio da abordagem conservadora, de que se trata apenas de um investimento desproporcional em uma área onde claramente o país encontra competidores muito mais capacitados. Entretanto, é fundamental evitar a intenção de promover uma distribuição ampla e equitativa de recursos para pesquisa em outras áreas, inclusive Genética Clássica. O “moderno” hoje será apenas o “clássico” amanhã.

A análise genética moderna possui características informacionais peculiares; uma verdadeira ciência da Informação.

Genômica é de fato uma tecnologia disruptiva, em termos de análise genética, rapidamente alterando todo o perfil de pesquisa em Genética, gerando um catálogo amplo de produtos e processos em Biologia. Dispensar ou conter esse investimento será imaginar que a indústria petrolífera brasileira pode obter sucesso sem a utilização de novos equipamentos específicos para prospecção submarina; que nossa produção industrial pode dispensar a robótica; e que nossa mineração pode dispensar as recentes tecnologias de geoprocessamento. Genes e vias metabólicas de organismos tropicais, e espécimes e cultivares dos trópicos, terão uma elevada cotação em um ambiente de aquecimento global confirmado.

A Genômica já afeta radicalmente a cadeia de conhecimento e de estratégias de

Pesquisa e Desenvolvimento. Até o final da década de 80, empresas de sementes orientavam seu programa de pesquisa de modo a selecionar os melhores genótipos para ambientes específicos, para isso utilizando procedimentos de Genética Quantitativa e Estatística Experimental. Entretanto, esses modelos possuem capacidade limitada de detecção de efeitos genéticos.

Os procedimentos atuais, baseados em : - análise massiva de expressão gênica em diversos ambientes,

- controle da recombinação genética por meio do uso de marcadores genéticos,

- possibilidade concreta de recombinação in vitro (evolução direcionada) de genes,

- impressionante poder de compreensão de fenômenos biológicos e de obtenção de novos produtos e processos, representam uma categoria de “tecnologias definitivas” em Genética, pois que diretamente baseadas na manipulação do DNA e seus produtos de expressão.

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