Livro apostila metodologia cientifica ana elisa

Livro apostila metodologia cientifica ana elisa

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Gestão de Redes com Software Livre Pós-graduação lato sensu

METODOLOGIA CIENTÍFICA [ana elisa ribeiro]

2008 belo horizonte

PROFESSORA Ana Elisa Ribeiro - anadigital@gmail.com CARGA HORÁRIA 30 horas – 100 pontos

1. Identificar aspectos da ciência e da pesquisa científica. 2. Identificar tipos de pesquisa científica. 3. Identificar métodos e instrumentos de coleta de dados. 4. Identificar técnicas de redação acadêmica e científica. 5. Prática de produção de texto científico: resumo, fichamento, citação direta e indireta.

Seminários, atividades individuais e em grupo.

aulas março tema bibliografia

1,2,3,4 DATASHOW 13 O que é ciência; o que caracteriza a pesquisa científica; gêneros textuais acadêmicos; idéias para TCCs.

5,6,7,8 XEROX 20 Reconhecimento de etapas da pesquisa. Citações. Tarefa com resumos acadêmicos (30 pontos) FREIRE, 2006; MOREIRA; OSTERMANN, 1993.

9,10,1,12 LABORATÓRIO DE INFORMÁTICA

27 Revisão bibliográfica; Ferramentas: Google acadêmico e Google docs. Tarefa pesquisa (20 pontos) aulas maio tema de atividade bibliografia

DATASHOW 27 Seminário de métodos de pesquisa Bibliografia distribuída por trios de alunos (20 pontos)

17,18,19,20 29 Desenho de pesquisa: temas, bibliografia, método ajustado. Internet aulas junho tema de atividade bibliografia

DATASHOW 5 Seminário de métodos de pesquisa Bibliografia distribuída por trios de alunos (20 pontos)

BARROS, Aidil de J P; LEHFELD, Neide Aparecida S. Projeto de pesquisa: propostas metodológicas. 17 ed. Petrópolis: Vozes, 1990.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler — em três artigos que se completam. 45 ed. São Paulo: Cortez, 2006.

MACHADO, Anna Rachel; LOUSADA, Eliane; ABREU-TARDELLI, Lília Santos. Planejar gêneros acadêmicos. Sâo Paulo: Parábola, 2005.

MACHADO, Anna Rachel; LOUSADA, Eliane; ABREU-TARDELLI, Lília Santos. Trabalhos de pesquisa – Diários de leitura para a revisão bibliográfica. Sâo Paulo: Parábola, 2007.

MEDEIROS, João Bosco. Redação científica. A prática de fichamentos, resumos e resenhas. 6 ed. Sâo Paulo: Atlas, 2004.

O ato de estudar Paulo Freire

Tinha chovido muito toda a noite. Havia enormes poças de água nas partes mais baixas do terreno. Em certos lugares, a terra, de tão molhada, tinha virado lama. Às vezes, os pés apenas escorregavam nela. Às vezes, mais do que escorregar, os pés se atolavam na lama até acima dos tornozelos. Era difícil andar.

Pedro e Antônio estavam transportando numa camioneta cestos cheios de cacau para o sítio onde deveriam secar. Em certa altura, perceberam que a camioneta não atravessaria o atoleiro que tinham pela frente. Pararam. Desceram da camioneta. Olharam o atoleiro, que era um problema para eles. Atravessaram os dois metros de lama, defendidos por suas botas de cano longo. Sentiram a espessura do lamaçal. Pensaram. Discutiram como resolver o problema. Depois, com a ajuda de algumas pedras e de galhos secos de árvores deram ao terreno a consistência mínima para que as rodas da camioneta passassem sem se atolar. Pedro e Antônio estudaram. Procuraram compreender o problema que tinham a resolver e, em seguida, encontraram uma resposta precisa.

Não se estuda apenas na escola. Pedro e Antônio estudaram enquanto trabalhavam. Estudar é assumir uma atitude séria e curiosa diante de um problema.

Esta atitude séria e curiosa na procura de compreender as coisas e os fatos caracteriza o ato de estudar. Não importa que o estudo seja feito no momento a no lugar do nosso trabalho, como no caso de Pedro e Antônio, que acabamos de ver. Não importa que o estudo seja feito noutro local e noutro momento, como o estudo que fazemos no Círculo de Cultura. Em qualquer caso, o estudo exige sempre esta atitude séria e curiosa na procura de compreender as coisas e os fatos que observamos.

Um texto para ser lido é um texto para ser estudado. Um texto para ser estudado é um texto para ser interpretado. Não podemos interpretar um texto se o lemos sem atenção, sem curiosidade; se desistimos da leitura quando encontramos a primeira dificuldade. Que seria da produção de cacau naquela roça se Pedro e Antônio tivessem desistido de prosseguir o trabalho por causa do lamaçal?

Se um texto às vezes é difícil, insiste em compreendê-lo. Trabalha sobre ele como Antônio e Pedro trabalharam em relação ao problema do lamaçal.

Estudar exige disciplina. Estudar não é fácil porque estudar é criar e recriar e não repetir o que os outros dizem.

A importância do ato de ler — em três artigos que se completam. 45 ed. São Paulo: Cortez, 2006. p. 57-59.

Sobre Saber Ler na Sociedade do Conhecimento Jayme Teixeira Filho

Qual a importância do ato de ler nos dias atuais? Mais ainda, qual o valor que saber ler agrega na nossa vida pessoal e profissional? Numa "sociedade do conhecimento", o que é "saber ler"? Seremos ainda capazes de "ler" , quando textos são cada vez mais "hipertextos" e os contextos cada vez mais globalizados? Que "vantagens competitivas" saber ler pode trazer? Enfim, numa era cada vez mais de imagens, ainda faz sentido ler?

Essas questões fundamentais estão presentes por trás da idéia de "sociedade do conhecimento". As perguntas, talvez mais do que as respostas, têm o poder de criar futuros alternativos. Elisabeth Arnold e Rod Beckström (Brainticklers : Beyond Y2K - Questions for the New Millennium and the Year 3000, San Francisco: Intraware, 1999) argumentam que, só por fazer perguntas instigantes, já estamos alterando nosso futuro. Assim, a qualidade das questões colocadas por uma sociedade condicionam a qualidade de vida da comunidade global.

A ONU usa uma definição de "analfabetismo" que vem bem ao encontro dessas questões. Para a ONU, o "iletrado" (ou analfabeto) não é aquele que simplesmente não sabe ler e escrever. O iletrado é aquele que não domina a sua linguagem, o seu idioma, o suficiente para: i. entender as instruções de funcionamento das ferramentas de seu ofício, e assim poder atuar como trabalhador produtivo, e i. entender seus direitos e deveres na sociedade em que vive, e assim poder viver plenamente como cidadão.

Nessa perspectiva, o "saber ler", na sociedade do conhecimento em que estamos entrando, é poder se posicionar no mercado de "trabalhadores do conhecimento" e garantir conscientemente seus direitos políticos numa sociedade interconectada. O acesso a esse mercado de trabalho e a essa rede de relações já é em si um problema, principalmente nos países periféricos. Mas a decifração dos conteúdos que fluem nessa rede global passa pelo domínio de uma nova linguagem (não apenas o portugês ou o inglês), instrumentada por novas ferramentas (que não mais só a do lápis e papel) e construída com novas técnicas (já de hipertexto, e não mais apenas do fraseado linear).

Adilson Citelli (O Texto Argumentativo, São Paulo: Editora Scipione, 1994) defende que as palavras se tornam ações com objetivos práticos. A linguagem assim seria uma forma de ação. Para Cittelli, em sociedades abertas , em regimes não-ditatoriais, a luta entre interesses de diferentes indivíduos, grupos e classes se dá também pelo uso da linguagem argumentativa. Daí podemos depreender que saber perguntar e saber argumentar ajudam, em certo nível, a defender os próprios interesses, a própria cidadania. Os discursos, os argumentos e as respostas podem igualmente esclarecer ou confundir, explicar ou mascarar, libertar ou oprimir. Será ainda verdade que dominar a linguagem é dominar o mundo?

Num artigo apresentado no Congresso Brasileiro de Leitura, em 1981, Paulo Freire defendia a importância da compreensão crítica do ato de ler, que para ele não se esgota na decodificação pura da palavra escrita, "mas que se antecipa e se alonga na inteligência do mundo" (A Importância do Ato de Ler, São Paulo: Editora Cortez, 1999, 38a. edição). Para Freire, a leitura do mundo precede a leitura da palavra, e por isso a leitura da palavra não pode prescindir da contínua leitura do mundo. Para "saber ler" é preciso então perceber as relações entre texto e contexto.

Mas quando é mesmo que desenvolvemos esse "saber ler"? Em "O Desaparecimento da Infância" (Rio de Janeiro: Graphia, 1999), Neil Postman mostra que a infância, da forma como a conhecemos, não existiu sempre e talvez esteja desaparecendo. O lugar no tempo de vida reservado ao aprendizado da complexa simbologia necessária ao entendimento do mundo - a infância - está sendo substituído, reduzido, tornado obsoleto.

A cada geração, ou menos, as crianças dominam mais cedo os códigos dos adultos. Se antes eram necessários vários anos de "educação" para dar acesso a uma pessoa ao acervo cultural da sociedade, hoje esse acervo é cada vez mais acessível - em várias formas simplificadas, mediadas, "hiperlinkadas" - às pessoas em idades cada vez mais precoces.

Postman não está sozinho em chamar a atenção para os impactos da mídia na educação e das transformações sociais que vem provocando. Giovanni Sartori (Homo Videns: Televisão e Póspensamento, Lisboa: Terramar, 1999) argumenta que estamos imersos em um universo multimídia - televisão, Internet, etc. - caracterizado pelo "telever" e pelo "videoviver". Para Sartori, estamos nos transformando de Homo Sapiens, produto da cultura escrita, em Homo Videns, num mundo em que a palavra é destronada pela imagem. E mais: a "videocriança" está sendo criada pelo telever, à frente da TV ou do PC, ainda antes de saber ler e escrever.

Postman argumenta que a infância é talvez a invenção mais humanitária da Renascença. Junto com o estado-nação, a ciência e a liberdade de religião, a idéia de infância nasceu por volta do século XVI. Mas nada impede que seja contestada pelos costumes sociais atuais, como contestada vem sendo a ciência, deusa maior do modernismo. E como Milan Kundera bem observa (Ilustrada, Folha de SP, 5/8/2001), hoje o único modernismo digno do termo é o modernismo antimoderno.

Ler é uma atividade adulta. Ou pelo menos era. É um "trabalho" complexo, um esforço, uma luta, mas também um prazer, uma integração, uma superação. Toda essa complexidade se desmancha na cadeia de links num website, que se abre na seqüência dos clicks de um mouse, que - acredita-se hoje - qualquer criança pode dar. Mas e a traição do sentido? E a sabedoria da interpretação que - acreditava-se até então - só o treino, a prática, a erudição e a educação podiam dar? Kundera atribui uma importância grande as palavras, como todo escritor que por ofício sabe como o sentido das coisas pode ser mudado pela troca de posição de uma simples palavra, ou por sua omissão. Onde fica todo esse aprendizado, que desenvolvemos através dos séculos coletivamente, desde a invenção da escrita? O que pode a interpretação de uma criança exposta ao universo de (des)informação da TV ou da Internet?

Naturalmente, o "saber ler" não afeta apenas as crianças. Ler e escrever estão entremeados, por assim dizer, no próprio tecido cultural. Como a Matrix do filme (The Matrix, EUA, 1999), o ato de ler e escrever, de perguntar e responder, está em todo lugar. A descrição do mundo construída pelas sucessivas camadas de redação - livros, jornais, artigos, anúncios, discursos, etc. - se interpõe entre o individuo que lê e o mundo descrito. E mais recentemente, com o cinema, a TV e a Internet, a representação digital do mundo, para cada vez mais pessoas, cotidianamente é o próprio mundo, para a maioria dos efeitos práticos. Vivemos numa sociedade de intermediação, onde tudo que acontece nos é narrado e descrito, nas diversas mídias, e onde somos cada vez menos testemunhas dos fatos em primeira mão.

Marshall McLuhan (The Gutemberg Galaxy: The Making of the Typographic Man, EUA, 1962) já alertava para os impactos da escrita e da imprensa. De um lado, Gutemberg propiciou o fim da cultura manuscrita, pela mecanização da escrita, o que levou à promoção do nacionalismo e das línguas nacionais. Levou também à intensificação de alguns efeitos da escrita. Por exemplo, a complexidade e a riqueza da imersão necessária para a comunicação oral foram substituídas e reduzidas pelo alfabeto à um código visual abstrato. "Saber ler" no universo da palavra falada era saber navegar pelo universo acústico, sem fronteiras, sem direções estritas e carregado de emoção. Já o "saber ler" no espaço da escrita é saber se orientar numa estrutura organizada, limitada, linear e racional.

Para McLuhan, a visão linear da escrita (e da leitura da palavra escrita) condicionou o cartesianismo, a Física de Newton, a perspectiva na arte, a narrativa cronológica na literatura e mesmo a linha de montagem e a sociedade industrial. Para o polêmico professor canadense, a Humanidade atravessou três fases. Na era tribal pré-literaria, a palavra falada dominou e ouvir era o mais importante. Na era de Gutemberg, a palavra impressa dominou e ver era o mais enfatizado. A terceira era seria da eletrônica, que de um certo modo nos re-tribaliza, onde há envolvimento sensorial completo, especialmente pelo toque, mas onde nenhum sentido prevalece.

Quer concordemos ou não com a posição de McLuhan, podemos perceber que o ato de ler hoje não é mais como antigamente. Quer pela quantidade de informações que nos chegam diariamente, a multiplicidade de meios, a diversidade de fontes e a velocidade da comunicação, aquilo que nos habilitava a "ler o mundo" até há alguns anos, já não nos serve tão bem hoje. Isso pode ser sentido na comparação entre uma grande biblioteca e a World Wide Web, na analogia entre uma pessoa erudita e um software de search engine num website de busca, ou mesmo cotidianamente na dificuldade que muitos encontram em ler as últimas notícias, num jornal eletrônico, na tela de seu desktop, laptop ou mesmo palmtop.

A tecnologia - principalmente nas áreas de Informação e de Comunicação – representa um papel de apoio essencial hoje nessa leitura do mundo. Por um lado, a tecnologia nos dá novas formas e novos meios de criar, usar, armazenar e transmitir dados, textos, sons e imagens, cada vez mais barato, mais rápido e com maior sofisticação. Philippe Breton e Serge Proulx argumentam, no entanto, que a tão falada "sociedade da informação" é uma utopia tecnicista, na qual são previstas profundas transformações sociais exclusivamente baseadas na inovação tecnológica (A Explosão da Comunicação, Lisboa: Editorial Bizâncio, 2000). Breton e Proulx alertam para o risco do aparecimento de uma nova imbricação consumo-comunicação. Nesse cenário, a tendência é que o comportamento de compra não seja apenas um gesto econômico num contexto comercial, mas também, simultaneamente, um gesto de comunicação: o retorno, pelo próprio consumidor, de informações a respeito de seus hábitos e seu modo de vida. Isto significa, que nas redes sustentadas na tecnologia, das práticas de gestão de relacionamento com clientes e do e-commerce, não só estamos sendo condicionados pela publicidade e pelo marketing em nossa leitura do mundo, como estamos sendo "lidos" permanentemente, na condição de consumidores, pelos grandes fornecedores de bens e serviços. Dessa leitura que é feita de nós deriva a atitude dessas organizações em relação a nós, e a outros consumidores parecidos conosco. Ou seja, somos "lidos" na "sociedade do conhecimento" (que não deixou de ser "sociedade de consumo") pelo que consumimos e pela forma como nos posicionamos em relação ao que nos é oferecido.

Um outro aspecto da transformação da tecnologia sobre a leitura é destacado por André Parente, professor da Escola de Comunicação da UFRJ (O Virtual e o Hipertextual, Rio de Janeiro: Editora Pazulin, 1999). Parente ressalta o projeto de "livro infinito", ou de "biblioteca universal", que atravessa a História desde a Biblioteca de Alexandria, a Enciclopédia Francesa e até a World Wide Web hoje. O texto eletrônico é a encarnação atual desse sonho. A velocidade e a ubiqüidade são os principais fatores acrescentados ao livro pelo texto eletrônico: acesso muito mais rápido ao conteúdo e independência em relação à localização física do texto e do leitor. Esses fatores estão induzindo mudanças profundas na forma com que lemos, escrevemos, simulamos e reproduzimos o mundo.

Por outro lado, como alerta Paul Virilio (A Bomba Informática, São Paulo: Estação Liberdade, 1999), as mudanças acontecem num ritmo mais acelerado do que a nossa capacidade de refletir sobre elas. É como se fossemos capazes de ler o mundo cada vez mais rápido, mas sem entender direito o que está escrito. A reação geral têm sido, para Virilio, comemorar o avanço técnico-científico, o desenvolvimento material, o encurtamento das distâncias e a otimização do tempo. De uma forma geral, parece que só há versões positivas dessa leitura do mundo. Talvez porque os agentes políticos e econômicos que criam essas mudanças são os seus próprios beneficiários.

Mas há uma "versão dos perdedores", como ressalta Virilio, um filósofo italiano cético com as vantagens pretendidas da sociedade informatizada. Há uma leitura do mundo cada vez mais ameaçado pela divisão social, pela polarização entre extremos de pobreza e riqueza, entre profissionais altamente qualificados e massas de desempregados, imigrantes indesejáveis e famintos sem saída. Um mundo a mercê do narcotráfico informatizado, do militarismo sofisticado da última e única grande potência, do terrorismo desesperado dos que não comungam da "linguagem dominante". No mínimo temos que reconhecer a pluralidade das leituras possíveis.

Não podemos deixar de pensar também a influência da ideologia no ato de ler numa "sociedade do conhecimento". Lembremos de Milton Santos, geógrafo brasileiro que dispensa apresentações, que em suas muitas entrevistas não cansava de chamar a atenção para a produção de um "apartheid à brasileira", pela fragmentação do território e da sociedade, pela substituição do objetivo civilizatório pela selvageria da desordem social. Como outros inconformados com a descrição do mundo que o discurso oficial parece querer impor, ele também buscava reler o mundo sob outra ótica. Alguns anos antes, Paulo Freire (Pedagogia da Autonomia, São Paulo: Paz e Terra, 1996) ao argumentar que "ensinar exige reconhecer que a educação é ideológica", indicava a "miopia" que a ideologia induz no ato de ler o mundo. Antecipando e reforçando, sem querer, os protestos de Milton Santos, Freire argumentava que era essa miopia induzida que faz com que muitos aceitem docilmente o discurso fatalista de que o desemprego é uma desgraça do fim do século, de que a globalização da economia foi inventada por ela mesma, como um destino que não se pode evitar e não como uma construção política dos que detêm o poder.

Esse aspecto da leitura neo-liberal do mundo é também abordado por Anthony Giddens (Mundo em Descontrole, Rio de Janeiro: Record, 2000), sociólogo inglês que muita influência vem exercendo no governo trabalhista da Inglaterra. Defensor de uma "terceira via" - nem pelo Estado, nem pelo mercado - como saída para o desenvolvimento de uma ordem social mais justa, Guiddens proveu uma a leitura do mundo que encaixou bem nos discursos de muitos líderes democratas, como Bill Clinton, Tony Blair e, talvez por conseqüência, Fernando Henrique Cardoso. Guiddens aceita como inevitável o processo de globalização econômica, mas defende formas de "organizações não-governamentais" para equilibrar a balança social. Ao discutir diferentes aspectos do texto e do contexto que estão colocados hoje no mundo – como tradição, família, democracia, etc. - Guiddens procura encontrar novos significados nas mudanças por que passam as culturas tradicionais, a busca de integração global, o fundamentalismo religioso que renasce, o contraste de uma homogeneização das mensagens (pela publicidade, por exemplo) com a retomada das identidades étnicas, bem como todas as incertezas inerentes a esse processo.

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