Guia de PSF 2

Guia de PSF 2

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68Guia Prático do PSF

ATENÇÃO!Existe um incentivo financeiro para que os municípios possam incluir Equipes de Saúde Bucal (ESB) no Programa Saúde da Família. (Veja informação mais detalhada na página 106).

O município interessado em organizar as ações de saúde bucal, por meio da estratégia Saúde da Família, deverá obedecer à proporção de uma Equipe de Saúde Bucal (ESB) para cada duas Equipes de Saúde da Família. Portanto, se o município tem seis ESF implantadas, poderá habilitar-se a criar três ESB. Mas se tem sete ESF e quer implantar uma quarta ESB, esse município deverá antes criar uma oitava Equipe de Saúde da Família (pela regulamentação vigente até novembro de 2001). A exceção é feita para municípios com até 6.900 habitantes, nos quais essa proporção poderá ser de uma ESB para uma ESF.

Os profissionais que compõem a ESB completa são 1 cirurgião-dentista (CD), 1 atendente de consultório dentário (ACD) e um técnico em higiene dental (THD). Essa equipe corresponde a uma das duas modalidades de

Do ponto de vista da Saúde da Família, também as ações de saúde bucal devem ser organizadas, para que passe a existir, também nesse campo, uma relação nova com a comunidade, baseada na atenção, na confiança, no respeito. Os dentistas e seus assistentes são vistos como profissionais que podem de fato desempenhar um papel decisivo nos bons resultados do Programa Saúde da Família. Naturalmente, com as devidas adaptações.

Devidas adaptações? Sim, porque também na odontologia predomina a cultura da especialização e do trabalho individualizado do dentista. É necessário, portanto, que os profissionais da odontologia conheçam, aceitem e pratiquem os conceitos e princípios da Saúde da Família e desenvolvam habilidades para o trabalho multiprofissional. Só assim eles poderão realizar, numa USF, o trabalho fundamental que deles se espera.

ATENÇÃO!A integração dos profissionais da Saúde Bucal, na USF, inclui a dedicação integral. Também eles têm que trabalhar 8 horas por dia, 40 horas por semana.

A Saúde Bucal faz parte da Saúde da Família? adesão ao programa. Se no município não há número suficiente de técnicos em higiene dental, possibilita-se a adoção da outra modalidade, com apenas 1 cirurgião-dentista e 1 atendente de consultório. Qualquer que seja a modalidade escolhida, todos os profissionais da ESB deverão cumprir uma jornada de trabalho semanal de 40 (quarenta) horas.

Como deve ser a atuação da ESB numa USF?

Quando uma ESB é implantada, passa a fazer parte de toda a família de profissionais que compõem a USF. Portanto, com eles deve compartilhar conhecimentos e participar ativamente das ações necessárias na atenção básica.

Veja alguns exemplos: • Participar do processo de planejamento, acompanha- mento e avaliação das ações desenvolvidas no território adstrito

• Identificar as necessidades e expectativas da população em relação à saúde bucal

• Estimular e executar medidas de promoção da saúde, atividades educativas e preventivas em saúde bucal

• Executar ações básicas de vigilância epidemiológica em sua área de abrangência

• Organizar o processo de trabalho de acordo com as diretrizes do PSF e do plano municipal de saúde

• Sensibilizar as famílias para a importância da saúde bucal na manutenção da saúde

• Realizar visitas domiciliares de acordo planejamento da USF

• Desenvolver ações intersetoriais para a promoção da saúde bucal

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Na maioria das cidades, de fato, a implantação do

PSF começa nas áreas de maior risco ou mais carentes de atenção básica à saúde. Essas áreas normalmente ficam na periferia, distantes do centro da cidade. Ali não costumam chegar os serviços de saúde. As pessoas dali costumam ser pouco informadas sobre cuidados básicos com a saúde. Por ali não costuma passar a rede de saneamento básico.

Por razões desse tipo é que a maioria das prefeituras escolhe a periferia para começar a implantação do PSF. Desde as primeiras decisões, é importante analisar bem a situação da área onde vai funcionar cada USF. Com isso, evita-se o problema da superlotação, por exemplo, que afeta diretamente a qualidade do atendimento.

ATENÇÃO!A Unidade de Saúde da Família faz parte da rede municipal de saúde. Não é um serviço paralelo, sepa- rado do restante. Pelo contrário, a USF integra o sistema local de saúde.

Municípios de médio e grande porte devem tomar o cuidado de não espalhar as equipes de Saúde da Família por várias regiões diferentes, distantes entre si. É melhor que comecem atuando em áreas próximas, num distrito ou numa regional do município, por exemplo. Essa estratégia facilita a reorganização do sistema de saúde do município, tornando viável e efetiva a mudança da atenção básica na região.

As primeiras semanas de implantação do PSF exigem, às vezes, estratégias de transição de um modelo para outro. Normalmente é um período de conflitos, quando entra em jogo uma série de interesses. Nesses casos, é possível manter a convivência das duas lógicas de atuação por um determinado período dentro do município. Mas essa possibilidade deve existir dentro do município em caráter provisório.

começar pela A implantação do PSF deve periferia?

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A demanda aumenta, no início da implantação?

IMPORTANTE!Não convém manter unidades tradicionais na mesma área das ESF, para evitar a duplicidade de serviços e a concorrência entre profissionais no atendimento a uma mesma população. As situações de duplicidade desorganizam o sistema, não incorporam racionalidade aos serviços e impossibilitam que realmente se estabeleça o vínculo necessário entre ESF e comunidade.

Outro ponto a considerar, nas semanas iniciais de implantação do PSF, é a exposição de problemas que até então eram ignorados ou não eram levados em consideração. São situações em que as pessoas estavam excluídas do serviço municipal de saúde, por diferentes razões: porque o serviço não existia naquela região; porque o serviço não estava organizado de forma a facilitar o acesso das pessoas; porque o serviço não era resolutivo (capaz de resolver os problemas de saúde mais freqüentes na comunidade); ou porque o serviço era desatento em relação às reais necessidades da população. Casos de tuberculose e hanseníase, por exemplo, que existiam, mas não eram sequer diagnosticados. Hipertensos e diabéticos que precisavam de hospitalização por falta de tratamento e acompanhamento regulares. A busca ativa, que o Programa Saúde da Família pratica, vai atrás desses casos, descobre, diagnostica — e, em seguida, dá tratamento, acompanha.

Por isso, costuma-se dizer que a implantação do PSF desencadeia várias “epidemias” no município. São casos de hanseníase, tuberculose e tantos outros que até então não apareciam nas estatísticas locais e que despontam, de um mês para outro.

Ao implantar o PSF, portanto, o Prefeito e seu Secretário de Saúde devem estar conscientes de que a demanda por atendimento vai crescer, no princípio.

Essa atitude, que salva vidas, representa uma demanda que não existia, e cria gastos adicionais que não constavam da atenção básica, mas que poderiam estar sobrecarregando os outros níveis do sistema – com exames e encaminhamentos desnecessários; com as pessoas que adoeceram por causas que poderiam ter sido evitadas; com as pessoas que tiveram seus problemas agravados porque não receberam assistência no tempo oportuno, ou porque não tiveram tratamento e acompanhamento regulares.

Na verdade, investir na organização da Atenção Básica significa otimizar gastos em saúde, ou seja, utilizar melhor o recurso disponível e produzir bons resultados para a saúde da população.

IMPORTANTE!Pessoas que nunca tinham recebido atendimento adequado, digno, vão se tornar exigentes, vão querer direitos iguais aos dos outros cidadãos. Dá trabalho, mas é assim que se firma na população o conceito de cidadania.

Passados os primeiros meses, porém, vem a compensação da melhora constante nos indicadores de saúde. Ao mesmo tempo, ocorre também significativa melhora nos cofres municipais, comparando-se o dinheiro que a Prefeitura gasta em três etapas:

1)antes do PSF, determinadas doenças simplesmente não eram tratadas e, por isso, a Prefeitura acreditava não gastar nada com elas, embora gastasse com atendimentos de urgência, internações e óbitos que tais doenças provocavam;

2) nos primeiros meses de implantação do PSF, com a busca ativa realizada pelas Equipes de Saúde da Família, aparecem doenças que até então estavam encobertas, existiam, mas eram ignoradas — como hipertensão, diabetes, tuberculose, hanseníase — e isso significa gastos com exames, medicamentos e, em alguns casos, encaminhamento para especialistas;

3) consolidada a implantação do PSF, vem a estabilização. As crianças, vacinadas e acompanhadas em seu crescimento, tornam-se mais saudáveis. As gestantes, com o pré-natal bem feito, chegam preparadas à hora do parto. Pessoas afetadas por hipertensão, diabetes, tuberculose, hanseníase passam a receber tratamento adequado e adquirem condição de trabalhar, de produzir.

Que instalações e equipamentos deve ter a USF?

Numa Unidade de Saúde da Família devem existir a tecnologia e os equipamentos que permitam a solução dos problemas de saúde mais comuns numa comunidade. Ou seja, a USF deve estar equipada para garantir atenção básica à população sob sua responsabilidade.

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A sala de vacina, a mesa ginecológica e o espéculo para coleta de material para exame, a caixa de sutura para curativos e pequenos procedimentos, o consultório do médico e o da enfermeira, a clínica odontológica — a Unidade de Saúde da Família tem que estar aparelhada para dar o atendimento que a população necessita receber. (Veja, na página 114, quadro com uma sugestão de lista de equipamentos básicos de uma Unidade de Saúde da Família).

Se a área de cobertura da USF for muito extensa, é necessário garantir, também, os meios para o transporte da equipe.

Igualmente importante, numa USF, é a atualização dos conhecimentos por parte da equipe. Todos os integrantes de ESF e ESB devem adotar uma revisão constante dos saberes e práticas relacionados com sua atividade. A capacitação dos profissionais é um dos pontos básicos numa Unidade de Saúde da Família. Trata-se de um processo de educação permanente, voltado para a atuação clínica, epidemiológica e de vigilância à saúde, tendo cada indivíduo e cada família da comunidade como bases da abordagem nova que a Saúde da Família pressupõe. (Veja mais sobre capacitação das ESF na página 79).

Além dos equipamentos essenciais à USF, deve-se lembrar que o Agente Comunitário de Saúde (ACS), de acordo com as circunstâncias de cada localidade, costuma usar bicicletas e até barcos e animais como meios de transporte. Nas visitas que faz regularmente às famílias da comunidade, o ACS precisa levar alguns equipamentos básicos, como balança, fita métrica, termômetro. O material de trabalho do ACS contém prancheta, lápis, caneta, caderno, além do uniforme (jaleco, camiseta e boné) para sua identificação na comunidade.

Em sua estrutura mínima, a USF deve ter:

2uma sala de recepção, com espaço adequado para receber e acolher as pessoas e, sempre que possível, um aparelho de TV com videocassete, para transmissão de filmes com informações sobre cuidados com a saúde;

2um local para os arquivos e registros;

2um local para cuidados básicos de enfermagem, como curativos e outros pequenos procedimentos;

2uma sala de vacinação, de acordo com as normas recomendadas pelo Programa Nacional de Imunização;

2um consultório médico; 2um consultório de enfermagem; 2 sanitários;

2sempre que possível, um espaço para atividades de grupo (por exemplo, de gestantes, de hipertensos) e para educação permanente da ESF;

2uma clínica odontológica com equipamentos, instrumentais e materiais necessários para o atendimento a saúde bucal, quando incorporado ao

Saúde da Família.

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Entender a Saúde da Família como estratégia de mudança significa repensar práticas, valores e conheci- mentos de todas as pessoas envolvidas no processo de produção social da saúde. Amplia-se a complexidade das ações a serem desenvolvidas pelos profissionais de saúde e aumentam os limites e suas possibilidades de atuação, requerendo desses profissionais novas habilidades. Além das atividades de assistência desenvolvidas pela ESF, igualmente importantes são as de planejamento como: identificar, conhecer e analisar a realidade local, e propor ações capazes de nela interferir.

A conquista da saúde como direito legítimo de cidadania é um fundamento básico da estratégia Saúde da Família. Os profissionais das ESF e ESB, convivendo com a comunidade em que atuam, podem desencadear mudanças significativas na sua área de abrangência, se observarem o cotidiado dessas pessoas com base nas teorias e conceitos do SUS. Sob esse aspecto, as atribuições fundamentais dos profissionais da USF são as seguintes:

I. Planejamento de ações I. Saúde, Promoção e Vigilância I. Trabalho interdisciplinar em equipe IV. Abordagem integral da família

A seguir, falaremos detalhadamente sobre cada uma dessas atribuições.

Bases das ações da ESF e ESB

I.Planejamento das ações

Capacidade para diagnosticar a realidade local. Esse é o primeiro ponto. Nesse diagnóstico, é importante estar atento também aos aspectos positivos da comunidade, ao potencial que as pessoas têm para resolver seus problemas, inclusive os de saúde. Em seguida, é preciso elaborar e avaliar planos de trabalho que produzam o impacto apropriado sobre as condições sanitárias da população, famílias e indivíduos da área abrangida pela USF.

A equipe deve:

– conhecer os fatores determinantes do processo saúdedoença do indivíduo, das famílias e da comunidade;

– estabelecer prioridades entre problemas detectados e traçar estratégias para sua superação;

– conhecer o perfil epidemiológico da população de sua área de abrangência;

– garantir estoque regular de todos os insumos para as estratégias e funcionamento da USF;

I.Saúde,Promoção e Vigilância à saúde

É fundamental, nesta atribuição, entender a saúde como produção social, como um processo construtivo que uma coletividade pode conquistar em seu dia-a-dia.

Busca-se, nesta atribuição, compreender o processo de responsabilidade compartilhada das ações em saúde, incluindo a sintonia entre os diferentes setores (intersetoria-

Espera-se,dos integrantes da Saúde da Família,que estejam preparados para dar solução aos principais problema de saúde da comunidade,organizando sua atividade em torno de Planejamento de ações,Saúde,Promoção e Vigilância,Trabalho interdisciplinar em equipe e Abordagem integral à família

74Guia Prático do PSF lidade) e a participação social. Essa é uma estratégia importante para que as pessoas adquiram consciência de que podem tomar a iniciativa, são sujeitos (e não apenas pacientes) capazes de elaborar projetos próprios de desenvolvimento, tanto individual como coletivamente.

Os profisionais devem:

– conhecer os fatores (sociais, políticos, econômicos, ambientais, culturais, individuais) que determinam a qualidade de vida da comunidade adstrita;

– entrar em articulação com outros setores da sociedade e movimentos sociais organizados, integrando ações para a qualidade de vida da comunidade;

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