Artigo sobre Diabetes Mellitus

Artigo sobre Diabetes Mellitus

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REF - ISSN 1808-0804 Vol. IV (1), 6-78, 2007

Analyze of glycemia in fasting on patients from Terezopolis city (Goiás-Brazil) associated with arterial hypertension, abdominal circumference and medicines uses

Rafael L. Pena de Sousa1,2; Hebert Humberto Dutra dos Santos1; Claudio Campos1; Tales Alexandre Aversi-Ferreira1*

1 Instituto de Ciências Biológicas – Laboratório de Bioquímica e Neurociências (LABINE) – Universidade Federal de Goiás, Campus I; 2 Faculdade do Instituto Brasil (FIBRA) – Anápolis - GO 74001-970 Goiânia-GO Brasil

Autor para correspondencia e-mail: aversiferreira@hotmail.com

Recebido em 28/04/2007 - Aceito em 01/07/2007

RESUMO: A hipertensão constitui uma das grandes complicações da síndrome do diabetes mellitus (DM) tipo 2, sendo as alterações microvasculares um dos resultados mais evidenciados devido ao alto nível glicêmico desses pacientes. O diabetes mellitus tipo 2 vem tomando proporções epidêmicas em razão do aumento da expectativa de vida associada a hábitos sedentários, sendo um dos fatores de risco, as complicações cardiovasculares que, através de estudos já realizados, tem demonstrado índices bastante elevados quando da coexistência de diabetes mellitus e hipertensão arterial sistêmica. Sabe-se que a mortalidade dos pacientes diabéticos é maior do que a da população em geral e decorre especialmente das doenças cardiovasculares. Visando avaliar retrospectivamente as variações nos níveis de glicose sanguínea de pacientes que fazem uso de hipoglicemiantes e/ou hipotensores, 65 pessoas, no período compreendido entre dezembro de 2005 e abril de 2006, residentes no município de Terezópolis de Goiás, foram distribuídos em quatro grupos diferentes, sendo pacientes sadios, hipertensos, hiperglicêmicos e hiperglicêmicos e hipertensos, submetidos a uma série de exames clínicos, que incluem medidas de glicemia capilar de jejum, verificação de pressão arterial e coleta de dados antropométricos. A avaliação do presente estudo permitiu constatar que nos pacientes com DM I diagnosticada apresentaram níveis de glicemia muito alto mesmo com uso de medicamentos hipoglicemiantes e que os pacientes que apresentaram concomitante hipertensão apresentaram os maiores valores para os índices glicêmicos, e que as mulheres com hiperglicemia e DM I diagnosticada apresentaram maior IMC que os homens. Tais dados são indicadores da necessidade de acompanhamento de pacientes com as doenças derivadas da síndrome metabólica, adequação de medicamentos para o controle das doenças e aumento de cuidados com obesos e pessoas idosas, principalmente portadoras de hipertensão, além de maior atenção para com mulheres obesas com hiperglicemia.

PALAVRAS-CHAVE: Diabetes Mellitus,. hipertensão, glicemia.

ABSTRACT: The hypertension is one important complication associated with diabetes mellitus (DM) type 2, and the micro vessel alterations a result that evidence the high glycemy of these patients. The DM I has taking epidemics proportions because the amplified aging of population associated to sedentary custom, and the cardiovascular complications one important risk factor, indeed is associated by specialized literature that hypertension and DM was associated. Is known that mortality of DM patients is larger than population in general, and this fact is consequence of cardiovascular diseases. With main of available retrospectively that glycemy alterations that use hypoglycemic medicines and/or hypotensor 65 persons, between 2005 december and 2006 april interview, residents on Terezópolis of Goiás city (Brazil) were distribute in 4 different groups (health,

Sousa, R.L.P. et al./Revista Eletrônica de Farmácia Vol IV (1), 65-78, 2007 67 hypertensions, hyperglycemis and hypertensions and hyperglycemics), all submitted to clinics examination that are capillary glycemy fasting, arterial pressure evaluation and anthropometrics data colleted. The evaluation of the this study permit verified that that DM I patients diagnosed present high glycemy levels same with concomitant hypoglycemic medicines use, and that the patients with booth DM and hypertension have larger glycemy level, and that women with DM present larger IMC than men. These data are indicators of need of more care with patients with diseases derivate of metabolic syndrome, better medicines adequate to treatment controls and more care with fatty persons and olds, mainly with hypertension, and more attention to fatty women with hyperglycemia.

KEYWORDS: Diabetes mellitus, hypertension, glicemy. INTRODUCAO

Diabetes mellitus (DM) é uma das mais importantes doenças do sistema endócrino, afligindo vários milhões de pessoas em todo mundo. O termo cobre um amplo espectro de mal-estar, desde o indivíduo mais idoso assintomático com discreta intolerância à glicose, até o paciente jovem dependente da insulina exógena. É uma síndrome geralmente crônica caracterizada por microangiopatia difusa comprometendo tecidos vitais e órgãos como os rins, além de gerar aterosclerose prematura dos grandes vasos (SODEMAN, 1986), derivadas das complicações vasculares decorrentes desta doença, o paciente pode apresentar retinopatia, impotência sexual, nefropatia, pé diabético que é uma das principais causas de amputação primária em membros inferiores no Brasil (CHACON, et al., 2005). A diabetes mellitus é um grupo de síndromes caracterizadas por alterações glicêmicas e no metabolismo das biomoléculas, cujo maior risco para a saúde do paciente são as doenças vasculares (Goodman & Gilman, 2003). O estilo de vida sedentário e a alimentação não balanceada, associados ao excesso de peso, são fatores de risco para o desenvolvimento da forma mais comum de diabetes mellitus, a tipo 2 (REIS & VELHO, 2002).

A cronicidade da diabetes mellitus provoca uma alteração na utilização da glicose, podendo resultar em hiperglicemia que é típica dessa doença; tendo ela uma origem idiopática, ou proveniente de efeitos secundários onde a hiperglicemia pode advir da destruição das ilhotas pancreáticas devido a inflamação, cirurgia ou tumores.

Nas últimas décadas tem-se dado muita ênfase para pacientes com cardiopatia, dentre elas destaca-se o estado mórbido denominado hipertensão arterial sistêmica, que é a principal causa de morte e incapacidade em adultos nos países desenvolvidos (CRUZ FILHO, et al., 2002).

A hipertensão arterial sistêmica é uma situação clínica de natureza multifatorial caracterizada por níveis de pressão arterial elevados, sendo que esse estado multiplica os riscos de danos cardiovasculares, contribuindo para aumentar a morbimortalidade dos indivíduos portadores desse mal (PELLIZZARO & PANCHENIAK, 2003), a hipertensão é uma enfermidade perigosa para o paciente, pois possui poucos ou nenhum sinal e/ou sintomas clínicos, são fundamentais triagens periódicas na população, além de esclarecimentos e informações aos pacientes e a comunidade (SCHEFFEL, et al., 2004).

Esse estado enfermiço tem um componente familiar, pois cerca de 50% dos hipertensos apresentam casos semelhantes na família com mortalidade em seus parentes de primeiro grau (IRIGOYEN, et al., 2003).

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a hipertensão é classificada com base nos valores da pressão arterial, onde a normotensão indica valores para pressão arterial sistólica (PAS) inferior a 130mmHg e pressão arterial diastólica (PAD) inferior a 85mmHg; pressão arterial limítrofe para PAS compreendido entre 130/139mmHg e PAD entre 85/89mmHg; caracterizando hipertensão com valores de PAS superior a 140mmHg e PAD superior a 90mmHg (PELLIZZARO & PANCHENIAK, 2003).

O tratamento da pressão arterial se faz com modificações do estilo de vida (realização de atividades físicas, redução da massa corporal e às vezes restrição de sal na dieta), associado ou não ao uso de medicamentos que podem também ser administrados isolados ou em associação (GOODMAN & GILMAN, 2003).

No escopo das ações do sistema de saúde, principalmente em paises pobres como o Brasil, as farmácias podem e devem ser responsáveis por avaliações periódicas de pacientes com doenças como a hipertensão e a diabetes mellitus. Essas doenças fazem parte da síndrome metabólica, grande responsável atual pelas doenças coronarianas.

A obesidade prejudica a ação da insulina, e é um fator de risco para este tipo de diabetes, onde a maior parte dos pacientes são de obesos. Além disso, na maioria dos pacientes com diabetes tipo I existe diminuição da liberação de insulina pelas células do pâncreas frente a um estímulo de aumento da glicemia (BANDEIRA, 2003).

Este trabalho teve como objetivo medir e associar os dados quantitativos da glicemia e pressão arterial de pacientes que já estavam devidamente diagnosticados, pacientes ainda não diagnosticados para a hipertensão e pacientes hiperglicêmicos após jejum de 12h, com os valores de circunferência abdominal, altura e peso para a determinação da massa corporal, glicemia e hipertensão aferidas pelos pesquisadores, e associá-los com o uso dos medicamentos utilizados pelos pacientes diagnosticados.

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Foram avaliadas 65 pessoas de ambos os gêneros, sendo 24 (37%) do gênero feminino e 41 (63%) do gênero masculino, selecionadas no município de Terezópolis de Goiás, freqüentadores do posto de medicamentos Mais Saúde. A proposta de estudo foi apresentada aos vários freqüentadores do posto de medicamentos (avaliação da glicemia capilar, avaliações antropométricas (peso, altura e circunferência abdominal) e aferição da pressão arterial), e os interessados em participar como voluntários do estudo, desde que mulheres não grávidas, foram devidamente informadas da necessidade de estarem em jejum de no mínimo de 12 horas para que a medida da glicemia fosse efetuada.

Esse estudo foi previamente aprovado pelo comitê de ética da Universidade Estadual de Goiás. Os voluntários foram enquadrados em um dos quatro grupos pré-estabelecidos: 1. Grupo Sadio (GS); 2. Grupo Hiperglicêmico (GHG); 3. Grupo Hipertenso (GH); 4. Grupo hiperglicêmico e hipertenso (GH2).

A verificação dos parâmetros do estudo, nos voluntários, foi realizada entre dezembro de 2005 e abril de 2006 e estão expostos abaixo.

Hipertensão

A pressão arterial foi aferida no braço direito de cada paciente na posição sentada, após pelo menos cinco minutos de descanso, sendo utilizado um aparelho esfigmomanômetro aneróide devidamente calibrado, da marca Wan Med® com estetoscópio. Pressão arterial sistólica ≥ 140 mmHg e/ou pressão arterial diastólica ≥ 90 mmHg foram consideradas apenas para fins comparativos, sendo relacionados para o GH apenas os pacientes que faziam uso de drogas anti-hipertensivas. Glicemia

A glicemia capilar de jejum (GCJ) foi dosada através de um aparelho da marca Advandage® (Roche

Diagnostics) calibrado com testes laboratoriais enzimáticos realizados no laboratório do Instituto Goiano de Hematologia (INGOH) de Anápolis-GO.

Para o teste de glicemia, foram utilizados o monitor do aparelho, a tira teste, o chip de codificação, um lancetador ACCU-CHEK Softclix profissional descartável e lancetas ACCU-CHEK Softclix.

No ato da análise, a tira teste era introduzida no aparelho, momento em que o monitor ligava-se automaticamente. Verificou-se o número de código apresentado no visor do monitor, o qual deveria corresponder ao número de código descrito no tubo de tiras teste. A partir de então, com um lancetador, obteve-se uma gota de sangue do IV dedo da mão esquerda do paciente e aplicava-a na curva lateral da tira teste. O resultado foi fornecido em 26 segundos aproximadamente.

O princípio do teste de glicose baseia-se na amperometria, onde na tira teste, a enzima glicose desidrogenase, na presença da coenzima (PQQ), converte a glicose da amostra de sangue em gliconolactona. Esta reação cria uma corrente elétrica inofensiva que o monitor interpreta como o valor de glicose no sangue (ROCHE DIAGNOSTICS, 2004).

Os valores adotados como padrões para a realização dos testes foram obtidos de acordo com a American

Diabetes Association Clinical Practice Recommendations (2007), que informa que o intervalo normal de valores de açúcar no sangue de um adulto sem diabetes, em jejum, situa-se entre 70 mg/dL e abaixo de 100 mg/dL, sendo que valores entre 100 e 125 mg/dL indicam um estado de pré-diabete.

Foram obtidas amostras de sangue de toda a população estudada após jejum mínimo de 12 horas para determinação dos exames de glicemia. Sadios

Os pacientes que não usavam drogas para controle da pressão arterial e cujos valores da pressão aferida esteve abaixo de 90/140 mmHg foram considerados sadios para fins deste trabalho. Valores de glicemia entre 70 e 100 mg/dL encontrados nos pacientes foram usados para enquadra-los como sadios neste trabalho.

Medidas da circunferência abdominal

A medida da circunferência abdominal foi feita na menor circunferência existente entre o rebordo costal inferior e as cristas ilíacas, utilizando-se uma fita métrica de 150 cm. O valor padrão adotado para o excesso de gordura localizada foi distinto para ambos os sexos, sendo considerado gordura extra na região abdominal os pacientes masculinos com circunferência abdominal maior ou igual a 100 cm, maior que 8 cm para pacientes femininos.

Verificou-se o peso corporal dos indivíduos descalços, vestindo roupas leves, utilizando-se uma balança digital da marca Toledo® com precisão de 0,1 Kg. A altura foi medida com os pacientes descalços, com os calcanhares juntos, e o crânio na horizontal, com o auxílio de um estadiômetro.

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O índice de massa corporal (IMC) foi calculado dividindo-se o valor do peso em quilos (kg), pelo quadrado da altura, medida em metros, (Kg/m2). Sendo levada a seguinte classificação baseada nos dados da Organização Mundial de Saúde (1998): Saudável: IMC ≥ 18,5 e ≤ 24,9 Kg/m2 Sobrepeso: IMC ≥ 25 e ≤ 29,9 Kg/m2 Obeso: IMC ≥ 30 Kg/m2.

Análise estatística

Na análise estatística, devido ao uso de valores de freqüência relativa porcentual na maioria das análises e comparação de médias em algumas, e os dados não se adequarem a uma curva normal típica, o parâmetro de comparação usado entre as médias foi o desvio padrão das mesmas, no entanto, para os dados em tabelas(1 e 2) foi utilizada a diferença mínima significativa entre as médias (DMS) pelo teste T-Student para p<0,05, para os dados da tabela 3, foi feita a correlação por odd ratio (OR), e para os gráficos, por mostrarem os dados associados, não foi realizado cálculos para as diferenças entre as médias.

Analisando-se os pacientes do GHG, pôde-se verificar, como mostra a figura 1, que 72% dos pacientes que fazem uso de hipoglicemiantes orais tinham seus valores glicêmicos acima do normal (hiperglicemia), sendo que apenas 28% apresentavam controle satisfatório do nível glicêmico.

glicemia normal hiperglicêmicos

Figura 1 – Relação das porcentagens de pacientes do GHG com hiperglicemia e glicemia normal usuários de hipoglicemiantes orais (s=±35,60; onde s é o desvio padrão da média).

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