Blocos de concreto para alvenaria em construções industrializadas

Blocos de concreto para alvenaria em construções industrializadas

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Essa realidade influencia o mercado imobiliário, fazendo com que os compradores adquiram habitações cujo valor se encaixa em seus orçamentos, porém, de menor qualidade e menores do que o necessário para o convívio familiar. Nos últimos 15 anos, os imóveis na cidade de São Paulo ficaram menores. Os apartamentos tiveram área reduzida em média 20%, e 90% dos lançamentos paulistas foram de apartamentos com no máximo 80 metros quadrados. (Jornal Nacional, 2003)

O projeto dessas habitações reflete diretamente as condições econômicas e sociais de seus moradores nos aspectos morfológico, funcional, produtivo e econômico, definindo também uma resistência às mudanças e intercâmbios sócio-culturais entre grupos sócioeconômicos distintos. A discrepância econômica e social extrema levou, portanto, à diferenciação tipológica e de localização do produto-habitação (Figura 1.2), identificando-se diretamente a classe econômica do usuário com a tipologia habitada e sua localização urbana numa dupla segregação. De certa forma, nota-se que o estabelecimento de padrões sociais

38 BLOCOS DE CONCRETO PARA ALVENARIA EM CONSTRUÇÕES INDUSTRIALIZADAS praticamente faz parte de nossa cultura, pois até então não há qualquer preocupação com o aspecto e padrão social da população (LUCINI, 2001).

Figura 1.2. Classes sociais evidenciadas pela tipologia das edificações.

1.2. Produtividade e inovação na construção civil

A produtividade do setor de construção residencial no Brasil representa apenas um terço da produtividade do mesmo setor nos EUA. Este dado foi constatado por uma pesquisa realizada pelo Instituto McKinsey (1999), e indica que esta diferença se deve, basicamente, ao projeto e à organização de funções e tarefas. No que se refere ao projeto, leva-se em consideração o planejamento da obra e utilização de materiais-padrão, módulos, materiais pré-fabricados economicamente viáveis, leiaute ótimo e diminuição da interferência entre diversas fases do processo; por exemplo, essa interferência ocorre quando é preciso quebrar paredes, já prontas, para a instalação elétrica.

Segundo McKinsey (1999) há vários sinais de que este é um setor que não enfrenta competição, comprovados pelo seu histórico. De fato, empresas estrangeiras não tentaram

CONTEXTUALIZAÇÃO DA CONSTRUÇÃO HABITACIONAL BRASILEIRA 39 entrar aqui no passado por várias razões. A maior delas foi a instabilidade macroeconômica, mas ainda atuaram como barreira à entrada a necessidade de conhecimento do mercado local e de relacionamentos com empreiteiras. Além disso, o modelo de contratação mais comum entre os empreiteiros ligados à construção habitacional no Brasil é o cost plus, ou “custe o que custar”. Os contratos do tipo cost-plus sofrem da deficiência de repassar para o comprador todas as alterações nos custos de produção. Dessa forma, um fornecedor ineficiente não terá incentivos para melhorar sua produtividade e minimizar custos. Nesse modelo, o risco de mudanças no ambiente de negócios concentra-se no comprador. Ou seja, o empreiteiro não tem incentivo para acelerar a construção, pois seu ganho está garantido, o preço será pago pelo comprador e financiado pelo banco público. Desta maneira, quando o custo do imóvel ou do financiamento se torna proibitivo, a despesa é paga pelos mutuários ou é deslocada para o déficit público, como a do Fundo de Compensação de Variações Salariais (FCVS) 1.

Fatos como atrasos de subempreiteiros, falta de material na hora certa no canteiro de obras, processos complicados e antieconômicos são freqüentes em obras residenciais no Brasil. Sem a pressa imposta por contratos de preço fixo, as construtoras brasileiras não se preocupam em mecanizar, planejar, adotar os chamados Projetos Para Fabricação (PPF). Pode não ser surpreendente que os construtores normalmente não considerem a habitação como um sistema porque, em geral, os engenheiros, arquitetos e projetistas normalmente projetam casas que são esteticamente atrativas e funcionais, mas raramente estão vinculados aos processos de construção, ao contrário dos fabricantes de outras indústrias que trabalham em sinergia com seus projetistas e produtores.

1 O Fundo de Compensação de Variações Salariais (FCVS) foi criado por intermédio da Resolução nº 25, de 16.6.67, do Conselho de Administração do extinto Banco Nacional da Habitação (BNH), com a finalidade de garantir, a quitação, junto aos agentes financeiros dos saldos devedores remanescentes de contrato de financiamento habitacional, firmado com mutuários finais do Sistema Financeiro da Habitação (SFH). O FCVS tinha também como objetivo garantir o equilíbrio do Seguro Habitacional do SFH permanentemente e em nível nacional, e liquidar as obrigações remanescentes do extinto Seguro de Crédito do SFH. O FCVS acumula um déficit técnico de R$ 62.604.489.894,67. (RECEITA FEDERAL, 2005).

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O processo de produção de edifícios é uma atividade que envolve a participação de diferentes agentes; portanto, é uma atividade que deve ser tipicamente desenvolvida por equipes interfuncionais e multidisciplinares, o que denota a necessidade de maior integração entre as diversas disciplinas de projeto (arquitetura, estrutura, instalações, impermeabilização, etc.), bem como, entre estas disciplinas e as atividades da produção.

Numa economia competitiva, como a que atualmente está se configurando, a redução dos custos de produção dos empreendimentos é um fator decisivo para a sobrevivência das empresas (BARROS e SABBATINI, 2003). A competitividade estabelecida é um grande estímulo para que as empresas invistam na modernização de suas formas de produção, de maneira a obterem o aumento da produtividade dos serviços, a diminuição da rotatividade da mão-de-obra, a redução do retrabalho, a eliminação de falhas pós-entrega e, por conseqüência, a redução dos custos de produção.

Barros e Sabbatini (2003) afirmam, ainda, que para o projeto incentivar a utilização de novas tecnologias na construção civil, cumprindo seu papel fundamental de indutor da modernização do setor, deverá ocorrer mudanças expressivas nas particularidades atuais do processo de projeto. É preciso que realmente existam as equipes multidisciplinares, objetivando atender sempre às necessidades de todos os envolvidos no processo de produção, representados, sobretudo, pelo empreendedor, projetista, construtor e usuário.

1.3. Necessidade de soluções inovadoras

A inovação tecnológica é fundamental para diminuir o déficit habitacional brasileiro de 3,4 milhões de moradias referentes aos domicílios improvisados e à coabitação familiar; uma parcela de 2,6 milhões está na faixa de até três salários-mínimos de renda familiar mensal, o que representa 76,1% do total, segundo dados da Fundação João Pinheiro

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(2005). A CEF considera oportuno o desenvolvimento de novas tecnologias para aumentar o acesso da população de baixa renda (MCT-FINEP, 2000).

Entretanto, no setor da construção civil no Brasil, assim como em outros países de tradição latina, a “tradição” sempre leva a uma imagem notória de qualidade, robustez, durabilidade e economia. Por isso, é sempre de encontro à tradição que a inovação deve se definir e demonstrar superioridade; o desafio da inovação na construção civil é o de permitir construir melhores construções em termos econômicos, produtivos e de qualidade.

A comparação direta de valores de componentes inovadores com tradicionais pode acarretar em custos mais elevados. De fato, os preços de alguns produtos industrializados podem ser mais elevados, entretanto, a comparação de custos deve levar em conta a economia nos custos indiretos, pois quando produtos industrializados são especificados no projeto, o efeito redutor no custo final da obra é considerável.

Além disso, alguns construtores desconhecem ou não sabem identificar as vantagens dos materiais e sistemas inovadores da construção civil. É fato que alguns destes sistemas são desenvolvidos sem critérios e nem a devida certificação. Desta maneira, deve-se estabelecer meios para que o consumidor tenha a certeza de que, ao adquirirem os produtos inovadores, não estão fazendo experiências em suas obras, e que há estudos sérios e precisos como suporte.

No Brasil, o processo de produção de edificações é bastante peculiar, de maneira que as etapas de projeto, planejamento, organização e gestão da produção diferem muito daquelas aplicadas em países desenvolvidos. Dessa maneira, para que uma nova tecnologia venha a ter sucesso, agregando real valor ao produto-habitação, deve corresponder à cultura construtiva local, respeitando as suas particularidades e limitações, ou deve possibilitar a alteração de tal cultura para que possa incorporar as exigências da nova tecnologia.

A introdução de tecnologias, que se caracterizam como processos construtivos inovadores, deve necessariamente ser precedida de uma adaptação às condições culturais,

42 BLOCOS DE CONCRETO PARA ALVENARIA EM CONSTRUÇÕES INDUSTRIALIZADAS técnicas, sociais, econômicas e políticas do país, principalmente, porque a inovação insere-se num processo de produção complexo, com o qual os novos métodos construtivos deverão interagir coerentemente para representarem uma solução construtiva eficiente e eficaz. Ainda que atualmente seja possível encontrar uma grande diversidade de componentes inovadores para construção residencial, a tecnologia construtiva deve ser de domínio do setor, para que seja corretamente utilizada e traga ganhos efetivos para a construção civil brasileira e para o mercado consumidor.

A inovação tecnológica, seja em métodos construtivos ou produtos, é um elemento estratégico não só para o desenvolvimento do setor como do próprio país. Dentro desse contexto, é possível realizar construções com boa arquitetura e bons materiais a baixo custo, sem considerar os velhos jargões, tais como: “construções de interesse social” pejorativamente comparada a pessoas excluídas da sociedade; “construção de baixo custo”, inclusive sem qualidade, aplicadas à mesma classe social. Essa qualidade é possível ser atingida produzindo-se materiais dentro de uma concepção da industrialização, tanto do material quanto do produto-habitação. Dessa forma, se produziria habitações pequenas, médias ou grandes, dependendo do poder aquisitivo de cada um, porém, com material de altíssima qualidade (Figura 1.3).

Figura 1.3. Habitações de alto padrão e baixo custo na Alemanha (i) e no Guarujá - SP (i).

Algumas empresas estão desenvolvendo blocos para alvenaria, coloridos, estruturais, de alto desempenho no que se refere à durabilidade e resistência mecânica, cujas

CONTEXTUALIZAÇÃO DA CONSTRUÇÃO HABITACIONAL BRASILEIRA 43 alvenarias dispensam aplicação de chapiscos, emboços, rebocos, pinturas, etc, com “shafts” para tubulações de telefonia, hidráulica, elétrica, gás, etc., permitindo a construção mediante colagem dos componentes que compõem a alvenaria, porém fabricados a partir de polímeros. Nesta pesquisa, este tipo de componente para alvenarias de alto-padrão é desenvolvido em concreto especial, de alto desempenho, com baixa porosidade e permeabilidade, de alta resistência e estrutural, atendendo as diversas exigências dos usuários.

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Capítulo 2 ALVENARIA DE BLOCOS DE CONCRETO

Discutir sistemas construtivos modulares como a alvenaria estrutural de blocos de concreto significa confrontar um vasto assunto, especialmente porque sua concepção básica, o módulo, é um tema complexo e consideravelmente ligado às primeiras etapas do projeto. Strati (2003), afirma que modular é a essência das primeiras operações do projeto, originando as mais complexas elaborações a partir da repetição de um único componente que, pela associação do módulo à regularidade geométrica, desenvolve-se a ponto de criar conjuntos harmoniosamente concebidos, dos quais cada componente é perfeitamente relacionado ao todo. Mas se por um lado a modulação tem um valor perfeitamente lógico e está ligado a um conceito técnico do projeto, por outro não pode ser esquecido que a modulação também é um conceito profundamente inerente à técnica construtiva e à estrutura. Desta forma, a simples repetição de um bloco, componente fundamental da alvenaria, é uma operação que deu origem a estruturas grandiosas, tais como os trabalhos majestosos da arquitetura romana (Figura 2.1) e os projetos de alvenaria conjugada com grandes balanços de Frank Lloyd Wright (Figura 2.2).

Figura 2.1. Aqueduto "Pont du Gard", construção romana em Nimes, sul da França.

(fonte:_http://w.nationalgeographic.com/photography/galleries/provence/images/ popup/NGM1995_09p67.jpg)

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Figura 2.2. Fallingwater, residência projetada por Frank Lloyd Write. (fonte: http://www.wam.umd.edu/~stwright/frank-lloyd-wright/fallingwater-pictures/fallingwater-1.jpg)

O surgimento da produção industrial marcou um momento decisivo na transformação do conceito de modulação, relacionando-o fortemente à natureza técnica, aproximando-o à idéia de “sistema”. A partir de então, a construção passou a se estabelecer como um complexo formado de várias partes, subsistemas e sistemas parciais unidos por uma grande quantidade de variáveis. Em paralelo, vislumbrou-se a possibilidade de administrar a construção com a contribuição oferecida pela produção industrial e pelo emprego de componentes construtivos pré-fabricados. Indubitavelmente, um dos temas ligados ao conceito de sistema é a viabilidade em aplicar as vantagens da pré-fabricação para a criação de espaços habitáveis, fáceis de construir e administrar, a partir da combinação de componentes já prontos que podem ser agrupados e desagrupados em curtos intervalos de tempo, e podem garantir uma redução consistente de custos de construção e manutenção. A alvenaria estrutural, devido à modulação de seus componentes, é capaz de incorporar seu caráter coordenado e racionalizado às obras, o que contribui sobremaneira para o processo de industrialização da construção civil no Brasil.

Os blocos projetados neste trabalho formam parte de um desdobramento da alvenaria de blocos de concreto, de modo que os fatores estudados neste Capítulo são essenciais para o entendimento do sistema como um todo e servirão de base teórica para definição dos parâmetros utilizados no desenvolvimento da pesquisa. São aqui apresentados os fatores mais importantes relativos à alvenaria de blocos de concreto, divididos em duas

ALVENARIA DE BLOCOS DE CONCETO 47 partes: a primeira analisa a produção do componente de alvenaria, na qual são comentados os materiais e componentes constituintes, o seu processo de dosagem e fabricação; a segunda se refere ao sistema construtivo, na qual se discute a respeito da normalização, parâmetros de projeto, execução das alvenarias, e patologias que podem vir a ocorrer.

2.1. Blocos de concreto

A utilização de blocos de concreto na alvenaria teve início logo após o surgimento do cimento Portland, quando se começou a produzir unidades grandes e maciças de concreto. A partir de então surgiram diversos esforços para a modernização da fabricação de blocos de concreto, assim como da sua utilização na alvenaria. Entretanto, os materiais utilizados, procedimentos de dosagem e o esquema do processo produtivo são ainda basicamente os mesmos.

2.1.1 Materiais constituintes

Os materiais utilizados na fabricação de blocos de concreto são basicamente: cimento Portland, agregados graúdo e miúdo, e água. Dependendo de requisitos específicos, a dosagem do concreto poderá também empregar outros componentes, tais como adições minerais, pigmentos, aditivos etc. Os materiais constituintes do bloco de concreto devem ser especificados e utilizados de acordo com suas propriedades, para que o produto final esteja em conformidade com as metas projetadas.

Cada material constituinte do processo de fabricação do bloco de concreto está descrito com suas propriedades pertinentes ao processo nas próximas seções.

48 BLOCOS DE CONCRETO PARA ALVENARIA EM CONSTRUÇÕES INDUSTRIALIZADAS a. Agregados Entende-se por agregado o material granular, sem forma e volume definidos, de dimensões e propriedades adequadas para o uso em obras de engenharia. As propriedades dos agregados são fundamentais na produção de blocos de concreto, pois interferem na aderência com a pasta de cimento, alterando a homogeneidade e a resistência do concreto.

Podem-se classificar os agregados quanto à origem, à massa unitária e às dimensões de suas partículas. Quanto à origem, os agregados se dividem em naturais e artificiais. Com relação à massa unitária, os agregados podem se classificar como leves, normais e pesados.

Quanto ao tamanho de partícula dos agregados, estes recebem denominações especiais:

• fíler: material com dimensão de partícula inferior à malha de 75μm; • areia: é o material encontrado em estado natural que passa na peneira 4,8mm;

• pó de pedra: também denominado areia de brita ou areia artificial, é o material obtido por fragmentação de rocha que atravessa a peneira de 4,8mm;

• seixo rolado: é o material encontrado fragmentado na natureza, quer no fundo do leito dos rios, quer em jazidas, retido na malha de 4,8mm;

• brita: é o material obtido por trituração de rocha e retido na peneira 4,8mm.

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