Gilles Lipovetsky - Os tempos hipermodernos

Gilles Lipovetsky - Os tempos hipermodernos

(Parte 1 de 3)

TEMPO CONTRA TEMPO, OU A SOCIEDADE HIPERMODERNA Gilles Lipovetsky

A partir do final dos anos 70, a noção de pós-modernidade fez sua entrada no palco intelectual com o fim de qualificar o novo estado cultural das sociedades desenvolvidas. Tendo surgido inicialmente no discurso arquitetônico (em reação ao estilo internacional), ela bem depressa foi mobilizada para designar ora o abalo dos alicerces absolutos da racionalidade e o fracasso das grandes ideologias da história, ora a poderosa dinâmica de individualização e de pluralização de nossas sociedades, Para além das diversas interpretações propostas, impôs-se a idéia de que estávamos diante de uma sociedade mais diversa, mais facultativa, menos carregada de expectativas em relação ao futuro. Às visões entusiásticas do progresso histórico sucediam-se horizontes mais curtos, uma temporalidade dominada pelo precário e pelo efêmero. Confundindo-se com a derrocada das construções voluntaristas do futuro e o concomitante triunfo das normas consumistas centradas na vida presente, o período pós-moderno indicava o advento de uma temporalidade social Inédita, marcada pela primazia do aqui-agora.

O neologismo pós-moderno tinha um mérito: salientar uma mudança de direção, uma reorganização em profundidade do modo de funcionamento social e cultural das sociedades democráticas avançadas. Rápida expansão do consumo e da comunicação de massa; enfraquecimento das normas autoritárias e disciplinares; surto de individualização; consagração do hedonismo e do psicologismo; perda da fé no futuro revolucionário; descontentamento com as paixões políticas e as militâncias era mesmo preciso dar um nome à enorme transformação que se desenrolava no palco das sociedades abastadas, livres do peso das grandes utopias futuristas da primeira modernidade.

Ao mesmo tempo, porém, a expressão pós-moderno era ambígua, desajeitada, para não dizer vaga. Isso porque era evidentemente uma modernidade de novo gênero a que tomava corpo, e não uma simples superação daquela anterior. Donde as reticências legítimas que se manifestaram a respeito do prefixo pós. E acrescente-se isto! Há vinte anos, o conceito de pós-moderno dava oxigênio, sugeria o novo, uma bifurcação maior; hoje, entretanto, está um tanto desusado. O ciclo pós-moderno se deu sob o signo da descompressão cool do social; agora, porém, temos a sensação de que os tempos voltam a endurecer-se, cobertos que estão de nuvens escuras. Tendo-se vivido um breve momento de redução das pressões e imposições sociais, eis que elas reaparecem em primeiro plano, nem que seja com novos traços. No momento em que triunfam a tecnologia genética, a globalização liberal e os direitos humanos, o rótulo pós-moderno j á ganhou rugas, tendo esgotado sua capacidade de exprimir o mundo que se anuncia.

O pós de pós-moderno ainda dirigia o olhar para um passado que se decretara morto; fazia pensar numa extinção sem determinar o que nos tornávamos, como se se tratasse de preservar uma liberdade nova, conquistada no rastro da dissolução dos enquadramentos sociais, políticos e ideológicos. Donde seu sucesso. Essa época terminou. Hipercapitalismo, hiperclasse, hiperpotência, hiperterrorismo, hiperindividualismo, hipermercado, hipertexto - o que mais não é hiper? O que mais não expõe uma modernidade elevada à potência superlativa? Ao clima de epílogo segue-se uma sensação de fuga para adiante, de modernização desenfreada, feita de mercantilização proliferativa, de desregulamentação econômica, de ímpeto técnico-científico, cujos efeitos são tão carregados de perigos quanto de promessas. Tudo foi muito rápido: a coruja de Minerva anunciava o nascimento do pósmoderno no momento mesmo em que se esboçava a hipermodernização do mundo.

Longe de decretar-se o óbito da modernidade, assiste-se a seu remate, concretizando-se no liberalismo globalizado, na mercantilização quase generalizada dos modos de vida, na exploração da razão instrumental até a "morte" desta, numa individualização galopante. Até então, a modernidade funcionava enquadrada ou entravada por todo um conjunto de contrapesos, contra-modelos e contra-valores. O espírito de tradição perdurava em diversos grupos sociais: a divisão dos papéis sexuais permanecia estruturalmente desigual; a Igreja conservava forte ascendência sobre as consciências; os partidos revolucionários prometiam outra sociedade, liberta do capitalismo e da luta de classes; o ideal de Nação legitimava o sacrifício supremo dos indivíduos; o Estado administrava numerosas atividades da vida econômica. Não estamos mais naquele mundo.

A sociedade que se apresenta é aquela na qual as forças de oposição à modernidade democrática, liberal e individualista não são mais estruturantes; na qual periclitaram os grandes objetivos alternativos; na qual a-modernização não mais encontra resistências organizacionais e ideológicas de fundo. Nem todos os elementos pré-modernos se volatizaram, mas mesmo eles funcionam segundo uma lógica moderna, desinstitucionalizada, sem regulação. Até as classes e as culturas de classes se toldam em benefício do princípio da individualidade autônoma. O Estado recua, a religião e a família se privatizam, a sociedade de mercado se impõe: para disputa, resta apenas o culto à concorrência econômica e democrática, a ambição técnica, os direitos do indivíduo. Eleva-se uma segunda modernidade, desregulamentadora e globalizada, sem contrários, absolutamente moderna, alicerçando-se essencialmente em três axiomas constitutivos da própria modernidade anterior! o mercado, a eficiência técnica, o indivíduo. Tínhamos uma modernidade limitada; agora, é chegado o tempo da modernidade consumada.

Nesse contexto, as esferas mais diversas são o toais de uma escalada aos extremos, entregues a uma dinâmica ilimitada, a uma espiral hiperbólica. Assim, testemunha-se um enorme inchaço das atividades nas finanças e nas Bolsas; uma aceleração do ritmo das operações econômicas, doravante funcionando em tempo real; uma explosão fenomenal dos volumes de capital em circulação no planeta. Já faz tempo que a sociedade de consumo se exibe sob o signo do excesso, da profusão de mercadorias; pois agora isso se exacerbou com os hipermercados e shopping centers, cada vez mais gigantescos, que oferecem uma pletora de produtos, marcas e serviços. Cada domínio apresenta uma vertente excrescente, desmesurada, "sem limites". Prova disso é a tecnologia e suas transformações vertiginosas nos referenciais sobre a morte, a alimentação ou a procriação. Mostram-no também as imagens do corpo no hiper-realismo pornô; a televisão e seus espetáculos que encenam a transparência total; a galáxia Internet e seu dilúvio de fluxos numéricos (milhões de sites, bilhões de páginas, trilhões de caracteres, que dobram a cada ano); o turismo e suas multidões em férias; as aglomerações urbanas e suas megalópoles superpovoadas, asfixiadas, tentaculares. Para lutar contra o terrorismo e a criminalidade, nas ruas, nos shopping centers, nos transportes coletivos, nas empresas, já se instalam milhões de câmeras, meios eletrônicos de vigilância e identificação dos cidadãos: substituindo-se à antiga sociedade disciplinar-totalitária, a sociedade da hiper-vigilância está a postos. A escalada paroxística do "sempre mais" se imiscui em todas as esferas do conjunto coletivo.

Até os comportamentos individuais são pegos na engrenagem do extremo, do que são prova o frenesi consumista, o doping, os esportes radicais, os assassinos em série, as bulimias e anorexias, a obesidade, as compulsões e vícios. Delineiam-se duas tendências contraditórias. De um lado, os indivíduos, mais do que nunca, cuidam do corpo, são fanáticos por higiene e saúde, obedecem às determinações médicas e sanitárias. De outro lado, proliferam as patologias individuais, o consumo anômico, a anarquia comportamental. O hipercapitalismo se faz acompanhar de um hiperindividualismo distanciado, regulador de si mesmo, mas ora prudente e calculista, ora desregrado, desequilibrado e caótico. No universo funcional da técnica, acumulam-se os comportamentos disfuncionais. O hiperindividualismo coincide não apenas com a internalização do modelo do homo oeconomicus que persegue a maximização de seus ganhos na maioria das esferas da vida (escola, sexualidade, procriação, religião, política, sindicalismo), mas também com a desestruturação de antigas formas de regulação social dos comportamentos, junto a uma maré montante de patologias, distúrbios e excessos comportamentais. Por meio de suas operações de normatização técnica e desligação social, a era hiper-moderna produz num só movimento a ordem e a desordem, a independência e a dependência subjetiva, a moderação e a imoderação.

A primeira modernidade era extrema por causa do ideológico-político; a que chega o é aquém do político, pela via da tecnologia, da mídia, da economia, do urbanismo, do consumo, das patologias individuais. Um pouco por toda a parte, os processos hiperbólicos e subpolíticos compõem a nova psicologia das democracias liberais. Nem tudo funciona na medida do excesso, mas, de uma maneira de ou outra, nada é poupado pelas lógicas do extremo.

Tudo se passa como se tivéssemos ido da era do pós para a era do hiper. Nasce uma nova sociedade moderna. Trata-se não mais de sair do mundo da tradição para aceder à racionalidade moderna, e sim de modernizar a própria modernidade, racionalizar a racionalização - ou seja, na realidade destruir os "arcaísmos" e as rotinas burocráticas, pôr fim à rigidez institucional e aos entraves protecionistas, rebocar, privatizar, estimular a concorrência. O voluntarismo do "futuro radiante" foi sucedido pelo ativismo gerencial, uma exaltação da mudança, da reforma, da adaptação, desprovida tanto de um horizonte de esperanças quanto de uma visão grandiosa da história. Por toda parte, a ênfase é na obrigação do movimento, a hiper-mudança sem o peso de qualquer visão utópica, ditada pelo imperativo da eficiência e pela necessidade da sobrevivência. Na hipermodernidade, não há escolha, não há alternativa, senão evoluir, acelerar para não ser ultrapassado pela "evolução": o culto da modernização técnica prevaleceu sobre a glorificação dos fins e dos ideais. Quanto menos o futuro é previsível, mais ele precisa ser mutável, flexível, reativo, permanentemente pronto a mudar, supermoderno, mais moderno que os modernos dos tempos heróicos. A mitologia da ruptura radical foi substituída pela cultura do mais rápido e do sempre mais: mais rentabilidade, mais desempenho, mais flexibilidade, mais inovação. Resta saber se, na realidade, isso não significa modernização cega, niilismo técnico-mercantil, processo que transforma a vida em algo sem propósito e sem sentido.

A modernidade do segundo tipo é aquela que, reconciliada com seus princípios de base (a democracia, os direitos humanos, o mercado), não mais tem contra-modelo crível e não pára de reciclar em sua ordem os elementos pré-modernos que outrora eram algo a erradicar. A modernidade da qual estamos saindo era negadora; a super-modernidade é integradora. Não mais a destruição do passado, e sim sua reintegração, sua reformulação no quadro das lógicas modernas do mercado, do consumo e da individualidade. Quando até o não-moderno revela a primazia do eu e funciona segundo um processo pós-tradicional, quando a cultura do passado não é mais obstáculo à modernização individualista e mercantil, surge uma fase nova da modernidade. Do pós ao hiper: a pós-modernidade não terá sido mais que um estágio de transição, um momento de curta duração. E esteja não é mais o nosso.

Tantas convulsões nos convidam a examinar um pouco mais de perto o regime do tempo social que governa nossa época. O passado ressurge. As inquietações com o futuro substituem a mística do progresso. Sob efeito do desenvolvimento dos mercados financeiros, das técnicas eletrônicas de informação, dos costumes individualistas e do tempo livre, o presente assume importância crescente. Por toda a parte, as operações e os intercâmbios se aceleram; o tempo é escasso e se torna um problema, o qual se impõe no centro de novos conflitos sociais. Horário flexível, tempo livre, tempo dos jovens, tempo da terceira e da quarta idade: a hipermodernidade multiplicou as temporalidades divergentes. Às desregulamentações do neocapitalismo corresponde uma imensa desregulação e individualização do tempo. O culto ao presente se manifesta com força aumentada, mas quais são seus contornos exatos e que vínculos ele mantém com os outros eixos temporais? De que maneira se articula nesse contexto a relação com o futuro e com o passado? Convém reabrir a questão do tempo social, pois este merece mais do que nunca uma inquirição. Superar a temática pós-moderna, reconceitualizar a organização temporal que se apresenta - eis o propósito deste texto.

As duas eras do presente

Jean-François Lyotard foi um dos primeiros a notar o vínculo entre a condição pósmoderna e a temporalidade presentista. Perda de credibilidade dos sistemas progressistas; primazia das normas da eficiência; mercantilização do saber; multiplicação dos contratos temporários no cotidiano - o que significa tudo isso senão que o centro de gravidade temporal de nossas sociedades se deslocou do futuro para o presente? A época dita pós-moderna, definida pelo esgotamento das doutrinas emancipa-tórias e pela ascensão de um tipo de legitimação centrada na eficiência, faz-se acompanhar cio predomínio do aqui-agora. Perguntemos: quais as forças socioistóricas que provocaram a agonia das visões triunfalistas acerca do futuro? Sejamos claros: os insucessos ou as catástrofes da modernidade políticoeconômica (as duas guerras mundiais, os totalitarismos, o Gulag, o Holocausto, as crises do capitalismo, o abismo entre Primeiro e Terceiro Mundo) jamais teriam, por si sós, causado a ruína das "metanarrativas" se novos referenciais não houvessem alcançado êxito maciço em remodelar as mentalidades, em oferecer novas perspectivas para as existências. As desilusões, as decepções políticas, não explicam tudo: houve simultaneamente novas paixões, novos sonhos, novas seduções que se manifestaram dia após dia, sem grandiloqüência, é verdade, mas onipresentes e afetando o maior número de pessoas. Eis o fenômeno que nos modificou: é com a revolução do cotidiano, com as profundas convulsões nas aspirações e nos modos de vida estimuladas pelo último meio século, que surge a consagração do presente.

No cerne do novo arranjo do regime do tempo social, temos: (I) a passagem do capitalismo de produção para uma economia de consumo e de comunicação de massa; e (2) a substituição de uma sociedade rigorístico-disciplinar por uma “sociedade-moda” completamente reestruturada pelas técnicas do efêmero, da renovação e da sedução permanentes. Dos objetos industriais ao ócio, dos esportes aos passatempos, da publicidade à informação, da higiene à educação, da beleza à alimentação, em toda a parte se exibem tanto a obsolescência acelerada dos modelos e produtos ofertados quanto os mecanismos multiformes da sedução (novidade, hiperescolha, self-service, mais bem-estar, humor, entretenimento, desvelo, erotismo, viagens, lazeres). O universo do consumo e da comunicação de massa aparece como um sonho jubiloso. Um mundo de sedução e de movimento incessante cujo modelo não é outro senão o sistema da moda. Tem-se não mais a repetição dos modelos do passado (como nas sociedades tradicionais) , e sim o exato oposto, a novidade e a tentação sistemáticas como regra e como organização do presente. Ao permear setores cada vez mais amplos da vida coletiva, a forma-moda generalizada instituiu o eixo do presente como temporalidade socialmente prevalecente.

Enquanto o princípio-moda "Tudo o que é novo apraz" se impõe como rei, a neofilia se afirma como paixão cotidiana e geral. Instalaram-se sociedades reestruturadas pela lógica e pela própria temporalidade da moda; em outras palavras, um presente que substitui a ação coletiva pelas felicidades privadas, a tradição pelo movimento, as esperanças do futuro pelo êxtase do presente sempre novo. Nasce toda uma cultura hedonista e psicologista que incita à satisfação imediata das necessidades, estimula a urgência dos prazeres, enaltece o florescimento pessoal, coloca no pedestal o paraíso do bem-estar, do conforto e do lazer. Consumir sem esperar; viajar; divertir-se; não rertunciar a nada: as políticas do futuro radiante foram sucedidas pelo consumo como promessa de um futuro eufórico.

A primazia do presente se instalou menos pela ausência (de sentido, de valor, de projeto histórico) que pelo excesso (de bens, de imagens, de solicitações hedonistas). Foi o poder dos dispositivos sub-políticos do consumismo e da moda generalizada o que provocou a derrota do heroísmo ideológico-político da modernidade. O coroamento do presente se iniciou muito antes que se houvessem enfraquecido as razões para ter esperança num futuro melhor; esse coroamento precedeu em várias décadas a queda do Muro de Berlim, o universo acelerado do ciberespaço e o liberalismo globalizado.

A consagração social do presente consumista se fez acompanhar de uma pletora de acusações lançadas contra a atomização social e a despolitização; contra a fabricação de falsas necessidades; contra o conformismo e a passividade consumistas; contra a adoção de engenhocas em todas as esferas da vida, num processo sem propósito e sem sentido. Ademais, desde os anos 70, a temática dos "estragos do progresso" tem repercussão significativa. Todas essas críticas, porém, não impediram de modo algum o ímpeto daquilo que poderíamos muito bem denominar um otimismo pessoal. No momento em que ressoavam as derradeiras encantações revolucionárias carregadas de esperanças futuristas, emergia a absolutização do presente imediato, glorificando a autenticidade subjetiva e a espontaneidade dos desejos, a cultura do "tudo já", que sacraliza o gozo sem proibições, sem preocupações com o amanhã. Enquanto o maio de 68 surgiu como uma revolta sem objetivo futuro, anti-autoritária e libertária, os anos da liberação dos costumes substituíram o engajamento pela festa, a história heróica pelas "máquinas desejantes", tudo se passando como se o presente houvesse conseguido canalizar todas as paixões e sonhos. O desemprego ainda era suportável, as inquietações com o futuro tinham então menos peso que os desejos de liberar e hedonizar o presente. Os "trinta anos gloriosos",1 o Estado do bem-estar social, a mitologia do consumo, a contracultura, a emancipação dos costumes, a revolução sexual, todos esses fenômenos conseguiram remover o sentido do trágico histórico ao instaurarem uma consciência mais otimista que pessimista, um Zeitgeist dominado pela despreocupação com o futuro, compondo um carpediem simultaneamente contestador e consumista.

Mas isso já é página virada. A partir dos anos 80 e (sobretudo) 90, instalou-se um presentismo de segunda geração, subjacente à globalização neoliberal e à revolução informática. Essas duas séries de fenômenos se conjugam para comprimir o espaço-tempo, elevando a voltagem da lógica da brevidade. De um lado, a mídia eletrônica e informática possibilita a informação e os intercâmbios em 'tempo real, criando uma sensação de simultaneidade e de imediatez que desvaloriza sempre mais as formas de espera e de lentidão. De outro lado, a ascendência crescente do mercado e do capitalismo financeiro pôs em xeque

1 Os anos de 1945 a 1973, ou lês Trente Glorieuses, assim chamados porque, na França e nos outros países desenvolvidos, corresponderam a um período de expansão inédita da renda e da qualidade de vida. (N.T.) as visões estatais de longo prazo em favor do desempenho a curto prazo, da circulação acelerada dos capitais em escala global, das transações econômicas em ciclos cada vez mais rápidos. Por toda a parte, as palavras-chaves das organizações são flexibilidade, rentabilidade, justin time, "concorrência temporal", atraso-zero - tantas orientações que são testemunho de uma modernização exacerbada que contrai o tempo numa lógica urgentista. Se a sociedade neoliberal e informatizada não criou a mania do presente, não há dúvida de que ela contribuiu para a culminância disso ao interferir nas escalas de tempo, intensificando nossa vontade de libertar-nos das limitações do espaço-tempo.

Mais: tal reorganização da vida econômica não deixou de ter conseqüências dramáticas para categorias inteiras da população, com o "turbo-capitalismo" e a prioridade dada à rentabilidade imediata acarretando as reduções maciças de quadros funcionais, o emprego precário, a ameaça maior de desemprego. O Zeitgeist predominantemente frívolo foi substituído pelo tempo do risco e da incerteza. Viveu-se certa despreocupação com o futuro - mas agora é na insegurança que, cada vez mais, vive-se o presente.

O ambiente da civilização do efêmero fez mudar o tom emocional. A sensação de insegurança invadiu os espíritos; a saúde se impõe como obsessão das massas; o terrorismo, as catástrofes, as epidemias são regularmente notícia de primeira página. As lutas sociais e os discursos críticos não mais oferecem a perspectiva de construir utopias e superar a dominação. Só se fala de proteção, segurança, defesa das “conquistas sociais”, urgência humanitária, preservação do planeta. Em resumo, de limitar os estragos. O clima do primeiro presentismo liberacionista e otimista, marcado pela frivolidade, desapareceu em favor de uma exigência generalizada de proteção.

O momento denominado pós-moderno coincidiu com o movimento de emancipação dos indivíduos em face dos papéis sociais e das autoridades institucionais tradicionais, em face das limitações impostas pela filiação a este ou aquele grupo e em face dos objetivos distantes; aquele momento é indissociável do estabelecimento de normas sociais mais flexíveis, mais diversas, e da ampliação da gama de opções pessoais. Disso resultou um sentimento de "descontração", de autonomia e de abertura para as existências individuais. Sinônimo de desencantamento com os grandes projetos coletivos, o parêntese pós-moderno ficou todavia envolto numa nova forma de sedução, ligada à individualização das condições de vida, ao culto do eu e das felicidades privadas. Já não estamos mais nessa fase: eis agora o tempo do desencanto com a própria pós-modernidade, da desmistificação da vida no presente, confrontada que está com a escalada das inseguranças. O alívio é substituído pelo fardo, o hedonismo recua ante os temores, as sujeições do presente se mostram mais fortes que a abertura de possibilidades acarretada pela individualização da sociedade. De um lado, a sociedade-moda não pára de instigar aos gozos já reduzidos do consumo, do lazer e do bemestar. De outro, a vida fica menos frívola, mais estressante, mais apreensiva. A tomada das existências pela insegurança suplanta a despreocupação "pós-moderna". E com os traços de um composto paradoxal de frivolidade e ansiedade, de euforia e vulnerabilidade, que se desenha a modernidade do segundo tipo. Nesse contexto, o rótulo pós-moderno, que antes anunciava um nascimento, tornou-se um vestígio do passado, um “lugar da memória”.

Os novos hábitos do futuro

Será que o eixo do presente tem excessivo poder na economia temporal de uma época?

Disso há pouca dúvida, na era do capitalismo financeiro e da precariedade salarial, da democracia de opinião, da Internet e do "Tudo é descartável". Mas como encarar o fato? Será que, conforme sugerem alguns, o sistema temporal prevalecente equivale a um "presente absoluto", fechado, encerrado em si mesmo, separado do passado e do futuro? Será que o indivíduo contemporâneo vive realmente num estado de "imponderabilidade temporal", confinado numa imediatez esvaziada de qualquer projeto e herança? Será que ele se confunde com o homem presente, transformado em estrangeiro no tempo, mergulhado apenas no tempo da urgência e da instantaneidade? Será que a aceleração generalizada, o frenesi do consumo, o retraimento das tradições e utopias teriam conseguido criar a civilização do "presente perpétuo", sem passado e sem futuro, do qual falava George Orwell? Essas idéias expressam uma verdade apenas parcial. Os fluxos econômicos de curto prazo, o insucesso das certezas progressistas, a derrocada do poder regulador das tradições - todos esses fenômenos presentistas são indiscutíveis. Parece-me, porém, que eles não nos autorizam a diagnosticar a irrupção de uma cultura do "presente eterno" ou "auto-suficiente". Tal conceitualização deixa passar excessivamente em branco as tensões paradoxais que animam o regime do tempo na hipermodernidade. Na verdade, não ficamos órfãos nem do passado nem do futuro, pois as relações com essas coordenadas adquirem nova relevância à medida que o presente amplia seu domínio. Nada de grau zero da temporalidade, de um presente "auto-referente" feito de indiferença radical tanto ao antes quanto ao depois: o presentismo de segundo tipo que nos rege não é mais pós-moderno nem autárcico; ele não pára de abrir-se a outras coisas além de si mesmo.

Confiança e futuro

Ninguém duvida de que a época marcada pelos temores da tecno-ciência e pela decomposição das utopias políticas é aquela da "crise do futuro". Nada mais de fé num futuro necessariamente melhor que o presente; nada mais de espera pelo combate final e pela Cidade Radiosa: a absolutização do porvir histórico foi sucedida pela inquietação, pela pane das representações do futuro, pelo eclipse da idéia de progresso. Mas, apesar disso, a página do progresso está muito longe de ter sido virada de vez. Se a mitologia do progresso contínuo e necessário está caduca, nem por isso se parou de esperar e acreditar nos "milagres da ciência" - a idéia de aprimoramento da condição humana pelas aplicações do saber científico continua a fazer sentido. Simplesmente, tornou-se incerta e ambivalente a relação com o progresso, esse último estando associado tanto à promessa de um mundo melhor quanto à ameaça de catástrofes em cadeia. Assistimos não ao fim de toda crença no progresso, mas ao surgimento de uma idéia pós-religiosa do progresso, ou seja, de um porvir indeterminado e problemático - um futuro hiper-moderno.

As sociedades modernas se constituíram mediante uma imensa "inversão do tempo" que instituiu a supremacia do futuro sobre o passado. Mas essa temporalidade dominante nem por isso deixou de prolongar em forma laicizada crenças e esquemas mentais herdados do espírito religioso (avanço inevitável rumo à felicidade e à paz, utopia do homem novo, classe redentora, sociedade sem divisão, espírito sacrificial). Hoje, contudo, todas essas "religiões seculares" portadoras de esperanças escatológicas estão mortas. Nesse sentido, a "ausência de futuro" , ou o estreitamento do horizonte temporal que subjaz à sociedade hipermoderna, deve ser considerada uma laicização das representações modernas do tempo, um processo de desencantamento ou modernização da própria consciência temporal moderna. A decadência do culto mecânico ao progresso confunde-se não com o "presente absoluto", mas com o faturo puro, a construir-se sem garantias, sem caminhos traçados de antemão, sem nenhuma lei implacável acerca do porvir. Alcançou-se uma etapa nova na emancipação em face da tutela do elemento religioso: ápice da modernidade, essa etapa é sinônimo de hipermodernização da relação com o tempo histórico. Nada de ruína da força do futuro: essa última simplesmente não é mais ideológico-política, estando agora contida na dinâmica técnica e científica. Quanto mais a época se organiza no culto democrático erigido num absoluto de novo tipo, mais os laboratórios concebem um futuro dessemelhante e trabalham para produzir um universo de ficção científica, até mais inacreditável que esta. Quanto menos se tem uma visão teleológica do futuro, mais ele se presta à invenção hiper-realista, com o binômio ciência-técnica ambicionando explorar o infinitamente grande e o infinitamente pequeno, remodelar a vida, gerar mutantes, oferecer um simulacro de imortalidade, ressuscitar espécies desaparecidas, programar o futuro genético. Nunca antes a humanidade lançou tão grande desafio ao homem e ao espaço-tempo. Embora triunfe o tempo breve da economia e da mídia, o fato é que nossas sociedades continuam voltadas para o futuro, menos romântico e paradoxalmente mais revolucionário, pois se dedica a tornar tecnicamente possível o impossível. A impotência para imaginar o futuro só aumenta em conjunto com a sobre-potência técnico-científica para transformar radicalmente o porvir: a febre da brevidade é apenas uma das facetas da civilização futurista hipermoderna. Enquanto o mercado estende sua "ditadura" do curto prazo, as preocupações relativas ao porvir planetário e aos riscos ambientais assumem posição primordial no debate coletivo. Ante as ameaças da poluição atmosférica, da mudança climática, da erosão da biodiversidade, da contaminação dos solos, afirmam-se as idéias de "desenvolvimento sustentável" e de ecologia industrial, com o encargo de transmitir um ambiente viável às gerações que nos sucederem. Multiplicam-se igualmente os modelos de simulação de cataclismos, as análises de risco em escala nacional e planetária, os cálculos probabilísticos destinados a discernir, avaliar e controlar os perigos. Morrem as utopias coletivas, mas intensificam-se as atitudes pragmáticas de previsão e prevenção técnicocientíficas. Se o eixo do presente é dominante, ele não é absoluto: a cultura de prevenção e a "ética do futuro" dão nova vida aos imperativos da posteridade menos ou mais distante.

Sem dúvida, os interesses econômicos imediatos têm precedência sobre a atenção para com as gerações futuras. Durante esse espetáculo de protestos e de chamamentos virtuosos, a destruição do meio ambiente continua: o máximo de apelos à responsabilidade de todos, o mínimo de ações públicas. Mas o fato é que as preocupações referentes ao futuro planetário estão bem vivas; elas habitam e alertam permanentemente a consciência do presente, alimentando as controvérsias públicas, solicitando medidas de proteção para o patrimônio natural. O presente total da rentabilidade imediata pode dominar, mas não continuará assim indefinidamente. Mesmo que o eco-desenvolvimento ainda esteja longe de dispor dos meios técnicos e sistemas reguladores dos quais necessita, eleja começa, aqui e ali, a alterar certas práticas. No amanhã, essa dinâmica deve ampliar-se. E pouco provável que a consciência e as limitações de longo prazo não produzam efeito; elas transformarão tanto as práticas presentistas quanto os modos de vida e de desenvolvimento. Prepara-se um neofuturismo que não se assemelhará ao futurismo revolucionário imbuído de espírito sacrificial: é sob os auspícios da reconciliação com as normas do presente (emprego, rentabilidade econômica, consumo, bem-estar) que se procura a nova orientação para o futuro.

A própria dinâmica econômica não se esgota no presente puro. Ela não pára de acarretar uma relação fundamental com o futuro, na medida em que se baseia na rápida expansão do consumo e do investimento, os quais têm necessidade de que haja confiança no porvir. O otimismo progressista não mais é admissível, mas isso não significa o desaparecimento de expectativas positivas em relação ao amanhã. A. Giddens salientou como a modernidade estava ligada à confiança nos sistemas abstratos, ou "sistemas peritos"; acrescentemos que ela requer a confiança dos agentes econômicos no futuro como condição para o desenvolvimento da atividade produtiva. Essa confiança dos consumidores, dos investidores, dos empresários, sabe-se, é volátil e agora regularmente medida pelas pesquisas de opinião. Na hipermodernidade, a fé no progresso foi substituída não pela desesperança nem pelo niilismo, mas por uma confiança instável, oscilante, variável em função dos acontecimentos e das circunstâncias. Motor da dinâmica dos investimentos e do consumo, o otimismo em face do futuro se reduziu - mas não está morto. Assim como o resto, a sensação de confiança se desinstitucionalizou, desregulamentou-se, só manifestando-se na forma de variações extremas.

O declínio do carpe diem

Este ponto já foi evocado mais acima: instalou-se um novo clima social e cultural, a cada dia distanciando-se um pouco mais da tranqüilidade descontraída dos anos pósmodernos. Com a precarização do emprego e o desemprego persistente, crescem os sentimentos de vulnerabilidade, a insegurança profissional e material, o medo da desvalorização dos diplomas, as atividades subqualificadas, a degradação da vida social. Os mais jovens temem não achar lugar no universo do trabalho; os mais velhos, perder definitivamente o deles. Donde a necessidade de nuançar muito perceptivelmente os diagnósticos que se fazem de uma cultura neodionisíaca que se basearia na preocupação exclusivamente presentista e no desejo de gozar o aqui-agora. Na realidade, o que caracteriza o Zeitgeist é menos um carpe diem que a inquietação diante de um futuro dominado por incertezas e riscos. Nesse contexto, viver sem olhar para o futuro significa não tanto conquistar uma vida independente, livre dos grilhões coletivos, quanto sofrer as restrições impostas pela desestruturação do mercado de trabalho. E bem verdade que a febre consumista das satisfações imediatas e as aspirações lúdico-hedonistas não desapareceram de modo algum, pois elas se desencadeiam mais do que nunca; estão, contudo, envoltas por um halo de temores e inquietações. A despreocupação otimista que acompanhou os anos do período 1945- 73 e do ciclo da liberação do corpo é mera lembrança: a hipermodernidade indica menos o foco no instante que o declínio do presentismo em face de um futuro que se tornou incerto e precário.

Hoje, os jovens muito cedo se mostram apreensivos com a escolha da instrução e das carreiras que ela oferece. A espada de Dâmocles do desemprego impele os estudantes a optar pelas formações prolongadas e escolher cursos cujos diplomas sejam considerados uma garantia de futuro. Do mesmo modo, os pais assimilaram as ameaças ligadas às desregulamentações hipermodernas. Raros são os que acham que a escola tenha por objetivo central a satisfação imediata dos desejos do filho: o prioritário é a formação com vistas ao futuro; donde a rápida expansão, em especial, do consumismo escolar, das aulas particulares, das atividades extracurriculares. Preparar a juventude para a vida adulta, mas também, no outro extremo da cadeia, achar soluções para financiar as aposentadorias a longo prazo. No presente momento, a reforma do sistema de aposentadorias e o prolongamento do período de contribuição previdenciária figuram entre as grandes dificuldades dos governos democráticos e levam às ruas centenas de milhares de manifestantes. Onde se vê que nossa cultura disse adeus ao futuro? Ao contrário, ei-lo aqui, no centro das inquietações e debates contemporâneos, cada vez mais como algo a prever e reorganizar. O que declina não é a importância do futuro, mas o etos pós-moderno do hic et nunc.

As novas atitudes para com a saúde ilustram de maneira notável a desforra do futuro.

Numa época em que a normatização médica invade cada vez mais os territórios do campo social, a saúde se torna preocupação onipresente para um número crescente de indivíduos de todas as idades. Assim, os ideais hedonistas foram suplantados pela ideologia da saúde e da longevidade. Em nome destas, os indivíduos renunciam maciçamente às satisfações imediatas, corrigindo e reorientando seus comportamentos cotidianos. A medicina não mais se contenta em tratar os doentes! ela intervém antes do aparecimento dos sintomas, informa sobre os riscos em que se incorre, estimula o monitoramento da saúde, os exames clínicos, a vigilância higienista, a modificação dos estilos de vida. Encerrou-se um capítulo: a moral do aqui-agora cedeu lugar ao culto da saúde, à ideologia da prevenção, à medicalização da existência. Prever, projetar, prevenir: o que se apossa de nossas vidas individualizadas é uma consciência que permanentemente lança pontes para o amanhã e o depois-de-amanhã.

Cada vez mais vigilância, monitoramento e prevenção: alimentação saudável, perda de peso, controle do colesterol, repulsa ao fumo, atividade física — a obsessão narcísica com a saúde e a longevidade segue de mãos dadas com a prioridade dada ao depois sobre o aquiagora. O que nos leva a corrigir aquela proposição freqüentemente citada de Tocqueville: Parece que, a partir do momento em que [os homens das democracias] se desesperam de viver pela eternidade, eles se dispõem a agir como se fossem existir por não mais que um dia. Em vista da importância assumida pelos problemas da saúde e do envelhecimento, é forçoso observar que estamos longe daquele etos: o hiperindividualismo é menos instantaneísta que projetivo, menos festivo que higienista, menos desfrutador que preventivo, pois a relação com o presente integra cada vez mais a dimensão do porvir. O retraimento dos horizontes longínquos levou menos a uma ética do instante absoluto do que a um pseudo-presentismo minado pela obsessão com o que está por vir. Declina a cultura do carpe díem:. sob a pressão exercida pelas normas de prevenção e de saúde, o que predomina é não tanto a plenitude do instante quanto um presente dividido, apreensivo, assombrado pelos vírus e pelos estragos da passagem do tempo. Nenhuma "destemporalização" do homem: o indivíduo hipermoderno continua sendo um indivíduo para o futuro, um futuro conjugado na primeira pessoa. Outros fenômenos revelam os limites da cultura presentista. Ao mesmo tempo que a cultura liberacionista está fora de moda, manifestam-se numerosas formas de valorização do duradouro. Ainda que as uniões sejam mais frágeis e mais precárias, nossa época, apesar de tudo, testemunha a persistência da instituição do matrimônio, a revalorização da fidelidade, a vontade de contar com relações estáveis na vida amorosa. Observam-se mais insatisfações ou frustrações referentes às experiências sem futuro do que odes aos amores casuais. Por que o amor permaneceria um ideal, uma aspiração de massa, se não, ao menos em parte, por causa do valor conferido à duração que associam a ele? E como compreender a vontade de ter filhos, tudo menos caduca, sem supor o investimento emocional de longo prazo? Fica evidente que o instante puro está longe de ter colonizado por completo as existências privadas, pois a sociedade hipermoderna dá nova vida à exigência de permanência como contrapeso ao reinado do efêmero, tão causador de ansiedades.

Conflitos de tempo e crono-reflexividade

Marx mostrou isto em análises magistrais: a economia de tempo é o princípio de funcionamento do capitalismo moderno. Dedicando-se a reduzir ao máximo o tempo de trabalho e, ainda assim, fazendo deste a fonte da riqueza, o capitalismo é um sistema que se baseia numa grande contradição temporal que exclui o homem de seu próprio labor. Tal tipo de contradição, sabe-se, só faz exacerbar-se. Simultaneamente, de um mundo centrado na organização do tempo de trabalho, passou-se a um universo marcado pela redução do tempo social, pelo desenvolvimento de temporalidades heterogêneas (tempo livre, consumo, férias, saúde, educação, horários de trabalho variáveis, aposentadoria), acompanhando-se de tensões inéditas.16 Donde o acúmulo de problemas de organização e gestão do tempo social, assim como as novas exigências de administração, de reorganização, de flexibilização pelo viés de dispositivos personalizados, com vistas à promoção do tempo ajustado às necessidades individuais. A obsessão moderna com o tempo não mais se concretiza apenas na esfera do trabalho que está submetida aos critérios de produtividade - ela se apossou de todos os aspectos da vida. A sociedade hipermoderna se apresenta como a sociedade em que o tempo é cada vez mais vivido como preocupação maior; a sociedade em que se exerce e se generaliza uma pressão temporal crescente.

Essas contradições temporais repercutem no cotidiano e não se explicam exclusivamente pelo princípio de economia e rentabilidade transposto da produção para as outras esferas da vida social. Quando se privilegia o futuro, tem-se a sensação de passar ao largo da "verdadeira" vida. Desfrutar os prazeres tal qual se apresentam? Ou assegurar a vitalidade nos anos vindouros (saúde, boa forma, beleza)? Tempo para os filhos? Ou tempo para a carreira? Não há apenas a aceleração dos ritmos de vida; há também uma conflitualização objetiva da relação com o tempo. Os antagonismos de classe se enfraquecem, e as tensões temporais pessoais se generalizam e se acirram. Não mais classe contra classe, e sim tempo contra tempo, futuro contra presente, presente contra futuro, presente contra presente, presente contra passado. O que privilegiar? E como não lamentar esta ou aquela opção quando o tempo é destradicionalizado, entregue à escolha dos indivíduos? A redução do tempo de trabalho, o tempo livre e o processo de individualização levaram à multiplicação dos temas e conflitos ligados ao tempo. E uma época de guerras do tempo singularizadas que se relacionam ao viver subjetivo. As contradições objetivas da sociedade produtivista se justapõe agora a espiral das contradições existenciais.

O estado de guerra contra o tempo implica que os indivíduos estão cada vez menos encerrados só no presente, com a dinâmica de individualização e os meios de informação funcionando como instrumentos de distanciamento, de introspecção, de retorno ao eu. A hipermodernidade não se confunde com um "processo sem sujeito": ela segue de mãos dadas com a "tomada de palavra", a auto-reflexividade, a crescente conscientização dos indivíduos, esta paradoxalmente acentuada pela ação efêmera da mídia. De um lado, sofrem-se cada vez mais as limitações do tempo desabalado; de outro, avançam a independência individual, a subjetivação das orientações, a introspecção. Nas sociedades individualistas, libertas da tradição, nada mais está óbvio e evidente: a organização da existência e dos usos do tempo exige arbitragens e retificações, previsões e informações. E preciso representar a hipermodernidade como uma meta-modernidade à qual subjaz uma crono-reflexividade.

Tempo acelerado e tempo redescoberto

Uma das conseqüências mais perceptíveis do poder do regime presentista é o clima de pressão que ele faz pesar sobre a vida das organizações e das pessoas. Grande número de quadros funcionais menciona o ritmo frenético que domina a cadeia vital das empresas nesta época de concorrência globalizada e ditames financeiros. Sempre mais exigências de resultados a curto prazo, fazer mais no menor tempo possível, agir sem demora: a corrida da competição faz priorizar o urgente à custa do importante, a ação imediata à custa da reflexão, o acessório à custa do essencial. Leva também a criar uma atmosfera de dramatização, de estresse permanente, assim como todo um conjunto de distúrbios psicossomáticos. Donde a idéia de que a hipermodernidade se distingue pela ideologização e pela generalização do reinado da urgência.

Os efeitos induzidos pela nova ordem do tempo extrapolam em muito o universo do trabalho; eles se concretizam na relação com o cotidiano, com o eu e com os outros. Assim, um número crescente de pessoas (as mulheres mais que os homens, em razão das limitações da jornada dupla, dentro e fora do lar) reclama de estar sobrecarregadas, de correr contra o tempo , de ficar estafadas. E nenhuma faixa etária parece escapar a essa corrida para adiante, pois mesmo os aposentados e as crianças têm hoje uma agenda lotada. Quanto mais depressa se vai, menos tempo se tem. A modernidade se construiu em torno da crítica à exploração do tempo de trabalhosa a época hipermoderna é contemporânea da sensação de que o tempo se rarefaz. Neste momento, somos mais sensíveis à escassez de tempo que à ampliação do campo das possibilidades ocasionada pelo ímpeto da individualização; a falta de dinheiro ou de liberdade motiva menos queixas que a falta de tempo.

Contudo, se uns nunca dispõem de tempo suficiente, outros (desempregados, jovens de rua) o têm de sobra. De um lado, o indivíduo empreendedor, hiperativo, desfrutando a velocidade e a intensidade do tempo; de outro, o indivíduo esmagado "à revelia pela ociosidade. Sobre essa dualização das maneiras de viver o tempo, há pouca dúvida: assiste-se mesmo à intensificação de novas formas de desigualdade social em face dele. Entretanto, não se deve deixar que estas ocultem a dinâmica global que, para além das classes ou dos grupos específicos, transformou profundamente a relação dos indivíduos no tempo social. Ao criar o hipermercado dos modos de vida, o universo do consumo, do lazer e agora das novas tecnologias possibilitou uma autonomização crescente no que se refere às limitações temporais coletivas; disso resulta uma dessincronização das atividades, dos ritmos e das trajetórias individuais. Vetor de individualização das aspirações e comportamentos, o reinado do presente social se faz acompanhar de ritmos em defasagem, de construções mais personalizadas dos usos do tempo. A bipolarização do individualismo (por excesso ou por escassez) só se afirma tendo como fundo essa pluralização e essa individualização generalizadas das maneiras de gerir o tempo. Nesse sentido, a hipermodernidade é indissociável da destradicionalização-desinstitucionalização-individualização da relação com o tempo, fenômeno geral que, transcendendo as diferenças de classes ou de grupos, extrapola em muito o mundo dos vencedores". A nova sensação de sujeição ao tempo acelerado só se apresenta paralelamente a um poder maior de organização individual da vida.

Nova relação com o tempo que é igualmente exemplificada pelas paixões consumistas.

Ninguém duvida de que, em muitos casos, a febre de compras seja uma compensação, uma maneira de consolar-se das desventuras da existência, de preencher a vacuidade do presente e do futuro. A compulsão pré-sentista do consumo mais o retraimento do horizonte temporal de nossas sociedades até constituem um sistema. Mas será que essa febre não é apenas escapista, diversão pascaliana, fuga em face de um mundo desprovido de futuro imaginável e transformado em algo caótico e incerto? Na verdade, o que nutre a escala consumista é indubitavelmente tanto a angústia existencial quanto o prazer associado às mudanças, o desejo de intensificar e reintensificar o cotidiano. Talvez esteja aí o desejo fundamental do consumidor hipermoderno: renovar sua vivência do tempo, revivificá-la por meio das novidades que se oferecem como simulacros de aventura. E preciso ver o hiper-consumo como uma cura de rejuvenescimento que se reinicia eternamente. Dessa maneira, o que nos define não é bem o "presente perpétuo" de que falava Orwell, mas antes um desejo de perpétua renovação do eu e do presente. Na fúria consumista, exprime-se a recusa ao tempo exaurido e repetitivo, um combate contra esse envelhecimento das sensações que acompanha a rotina diária. E menos a negação da morte e da finitude do que a angústia de fossilizar-se, de repetir, de não mais sentir. À pergunta "O que é a modernidade?", Kant respondia: superar a minoridade, tornar-se adulto. Na hipermodernidade, tudo se passa como se surgisse uma nova prioridade: ficar eternamente voltando à "juventude". Nossa pulsão neofílica é, em primeiro lugar, um exorcismo do envelhecimento do viver subjetivo: o indivíduo desinstitucionalizado, volátil, hiperconsumista, é aquele que sonha assemelhar-se a uma fênix emocional.

Sensualismo e desempenho

A cultura da imediatez foi objeto de incontáveis críticas, que nem sempre escaparam à comodidade das conclusões apocalípticas. No universo da pressa, dizem, o vínculo humano é substituído pela rapidez; a qualidade de vida, pela eficiência; a fruição livre de normas e de cobranças, pelo frenesi. Foram-se a ociosidade, a contemplação, o relaxamento voluptuoso: o que importa é a auto-superação, a vida em fluxo nervoso, os prazeres abstratos da onipotência proporcionados pelas intensidades aceleradas. Enquanto as relações reais de proximidade cedem lugar aos intercâmbios virtuais, organiza-se uma cultura de hiperatividade caracterizada pela busca de mais desempenho, sem concretude e sem sensorialidade, pouco a pouco dando cabo dos fins hedonistas.

(Parte 1 de 3)

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