BASES CONCEITUAIS E FILOSOFICAS DO CUIDAR

RESUMO:

A arte de cuidar vem despertando a consciência do ser enfermeiro para um redirecionamento de seu papel enquanto um ser cuidador que se envolve com outros seres. Este estudo tem por objetivo identificar a compreensão que os enfermeiros possuem do cuidar e a sua aplicabilidade prática, à luz dos teoristas Leonardo Boff e Vera Regina Waldow.  Estudo descritivo, qualitativo, realizado com enfermeiros de Unidades Básicas de Saúde, onde 94,1% são do sexo feminino, 58,8%, possuem entre 41 e 50 anos, a maioria (76,5%) dos sujeitos é especialista e 52,9% formaram-se na década de 80. Suscitaram três categorias: a categoria Assistência- “fazer algo por alguém”; a categoria Sentimento – “cuidado com valores humanísticos” e a categoria Educação –“promoção da qualidade de vida”. Observa-se um discurso pautado no fazer para ou por alguém, em detrimento do fazer “com” alguém. É perceptível uma grande dificuldade e certa confusão, quando se fala sobre o cuidado.

Introdução 

            A arte de cuidar vem despertando a consciência do ser enfermeiro para um redirecionamento de seu papel enquanto um ser cuidador que se envolve com outros seres.

O cuidado influencia e é influenciado pelo contexto social, cultural, político e econômico mais amplo. Esta dimensão do cuidado põe em relevo a possibilidade de “poder” daqueles que cuidam e dos que são cuidados, na transformação individual e coletiva, e da sociedade em geral1.

Na busca de uma compreensão maior para esse termo, decidimos no presente estudo abordar os conceitos e concepções do filósofo Leonardo Boff e da enfermeira Vera Regina Waldow, pela influência de ambos no que tem sido produzido na literatura nacional sobre o cuidado.

Para iniciar, pensamos ser necessário definir os termos cuidar e cuidado. Observa se que “o cuidar é mais que um ato, é uma atitude”,que pode ser expressa através de uma postura profissional diante de determinadas situações. Ter uma postura ética diante das atrocidades da violência do dia-a-dia praticadas contra a população, lutar contra a poluição, a degradação da natureza, as grandes filas dos serviços públicos de saúde e as injustiças acometidas contra os menos favorecidos, constitui atitudes de cuidado. Isso, portanto, é cuidar.

O autor ainda refere que o ser humano é um ser de cuidado em essência e, para ver projetada a imagem de sua solicitude, desvelo e atenção para com o semelhante, basta que coloque cuidado em tudo o que pensa e faz. Assim, abrindo-se ao sensível e ao exercício da empatia, o ser humano passa a ter mais preocupação e envolvimento com o que diz respeito a si e ao outro, momento em que se pode dizer que ele constrói uma espécie de responsabilidade, a qual inclui, às vezes, o eu e, às vezes, o outro, num equilíbrio que se faz de uma parte entre poder cuidar de si mesmo e, de outro, e assim poder cuidar dos demais.

Cuidar significa “zelar pelo bem-estar do outro ou pela saúde do outro, tratar da saúde, de sustentar, tratar da própria saúde ou zelar pelo próprio bem-estar”. E cuidado significa “desvelo, solicitude, pessoa ou coisa objeto de desvelo”.

Ser autêntico envolver-se, estar presente, confortar, preocupar-se, ter consideração, expressar sentimentos, fazer para e com o outro, tocar, amar, ser paciente, proteger, respeitar, compartilhar, ter habilidade técnica, demonstrar conhecimento, segurança, valorizar o outro, ser responsável, relacionar-se espiritualmente e ouvir atentamente. 

Neste contexto, cuidar parece deixar de ser um procedimento, uma intervenção, para ser uma relação, onde a ajuda é no sentido da qualidade do outro ser ou de vir a ser, respeitando-o, compreendendo-o, tocando-o de forma mais afetiva.

Diante do que foi exposto, percebe-se que o cuidadona Enfermagem tem a finalidade de permitir às pessoas desenvolverem suas capacidades e habilidades para a vida, pois o processo de cuidar/cuidado envolve não só as ações, como também uma reflexão sobre as necessidades dos sujeitos envolvidos no ato, visando à melhoria das condições físicas, psíquicas e sociais, fluentes na interação cuidador/cuidado. Trata-se, desta forma, não de uma relação de poder sobre o sujeito cuidado, mas de uma relação que tende à igualdade, na qual se levam em conta as necessidades de um (do cuidador) e de outro (sujeito cuidado), no processo dialógico de assistir alguém a interpretar sua história6.

As concepções sobre o cuidar são relativamente novas para a enfermagem. Até poucos anos a formação profissional era direcionada quase que exclusivamente para uma assistência, que quanto mais tecnicamente perfeita melhor seria. Essa “obsessão tecnicista” levou a enfermagem a se distanciar cada vez mais dos aspectos humanos da assistência, mecanizando e alienando as ações de enfermagem. Esse modelo assistencial historicamente construído não se constitui em exclusividade dos profissionais enfermeiros, ao contrário, é o modelo assistencial reproduzido pela maioria das categorias profissionais que compõem a área da saúde.

Refletindo sobre o cotidiano do trabalho de enfermagem, alguns autores concluem que muitas atividades são desenvolvidas tendo como foque principal o bem-estar e conforto do cliente e isto por sua vez, exige um esforço muito grande e constante por parte dos profissionais, uma vez que se torna necessário entender a complexidade e fragilidade desse ser humano sob sua responsabilidade, especialmente por que nem sempre o que se preconiza tradicionalmente para atendê-lo surte o resultado esperado.É, portanto, é no contexto do conjunto de demandas do cliente que se desenvolve o cuidado específico de enfermagem voltado para as necessidades e desejos de sua clientela.   

            Então, nos últimos anos, uma preocupação passou a fazer parte do universo assistencial da saúde: a deterioração da qualidade. Surgiu então, um movimento que busca resgatar os aspectos ontológicos do homem na construção da assistência de enfermagem e que introduziu o “cuidado” como o objeto da disciplina de enfermagem.

            Entretanto, a introdução de novos conceitos não é apreendida na mesma velocidade por todos, e, ainda, a prática nem sempre absorve as mudanças ou as absorve muito mais lentamente que a teoria.                       

Waldow também aponta uma forma de relação entre sujeito cuidador e sujeito a ser cuidado. No entanto, a forma como tal relação deve se dar é muito distinta daquela revelada nos discursos: “... ações, atitudes, comportamentos (...) para e com o ser cuidado (...) transformando o cuidador e o ser cuidado...” .

Desta forma, o cuidado é visto como um processo, que, abrange mais que um momento de atenção, de zelo e de desvelo, trata-se de um encontro entre dois seres que se beneficiam mutuamente, constroem uma relação de respeito e estabelecem um vínculo. Assim, a essência de cuidador e ser cuidado é respeitada, aumentando as possibilidades de sucesso nas mais simples intervenções.

A categoria Sentimento exprime uma tentativa de resgatar o cuidado dentro de valores mais humanísticos, o que demonstra que estamos em um processo de transição, de mudança de paradigma. Aparecem aqui, o acolher, o saber ouvir, refletir, compreender, zelar, a espiritualidade, a sensibilidade e a empatia.  Aqui também os discursos apontam para uma relação onde o cuidado é um ato de doação do cuidador em relação ao ser cuidado.

Esses discursos apontam para uma mudança nos conceitos de assistência que se capilarizam no cotidiano, influenciados pelo processo e pelo tempo de formação dos diferentes profissionais.

... significa se doar ao próximo, ajudar, auxiliar e prestar assistência.  

... assumir como um todo, pensar no processo de cuidar, fazer a promoção e prevenção da saúde, fazer educação permanente, acolher e encaminhar para quando não é de sua alçada, diminuir os temores, esse é o verdadeiro cuidado. Ser assistencialista... fazer a diferença efetivamente, resgatar o que aflige esse ser, ouvir e envolver afetivamente procurando compreender esse ser de uma maneira holística.

... compreensão, sensibilidade, amor, compaixão (...), conhecimento de suas fragilidades...

As falas nos mostram um claro processo de transição, no qual os sujeitos aparecem confusos. O conflito entre o prático e o teórico, entre o fazer por e o fazer com, entre a ação e a emoção.  Os conceitos teóricos do cuidar parecem estar presentes, mesmo que ainda não de forma dominante. É perceptível um anseio de mudança em relação aos conceitos já estabelecidos, mas fica claro o quão difícil é estabelecer esta mudança.

 As dificuldades de apreensão do cuidar são muitas, os conflitos se estabelecem a partir da decisão de mudança de atitude frente ao paciente, parece muito difícil para o enfermeiro, um “ser do fazer”, estabelecer uma nova relação com sua prática, e, muitas vezes ele não sabe como estabelecer essa mudança. Uma das dificuldades é que para mudar as atitudes em relação ao cuidar, este deve ser considerado como um valor, um modo de ser, ao invés de um modo de fazer9. É consenso que mudança de valores é um processo lento e delicado, os autores do cuidar, nos chamam a atenção todo o tempo para as questões individuais de cuidador e ser cuidado, portanto um cuidado verdadeiro só é estabelecido quando ambas as partes envolvidas comungam de um mesmo sentimento. 

Historicamente a profissão foi estabelecida nos pilares biológicos e técnicos, o bom profissional era o que desempenhava de forma mais eficiente e em menor tempo, as técnicas assistenciais tão necessárias ao restabelecimento do paciente. 

O paradigma dominante que ainda prevalece é valorizar o aspecto biológico, tecnologia e a produtividade. Por outro lado, parece que o novo paradigma que emerge, mais humanista, priorizando a expressão dos sentimentos, as ações simples e o sujeito, surge como uma tentativa para satisfazer uma nova necessidade, porem, por parte de alguns, conflitua-se, mostrando suas contradições .  

Com esta mudança de paradigma, o que se busca, é uma assistência mais humanizada. Não se trata aqui de excluírem-se as questões técnicas e científicas do processo de cuidar, ao contrário, elas são componentes indissolúveis do cuidado. Uma abordagem que não faça esta inclusão corre o risco de incorrer em outro extremo, repetindo a hegemonia do modelo biológico.

Parece bastante compreensível que haja tanta dificuldade em definir o cuidado, especialmente quando nos pautamos nos teóricos do cuidar, que nos ensinam muito sobre como “Ser” cuidado e muito pouco como fazer cuidado. Este parece ser justamente o nó crítico da questão, tudo o que se faz pode se fazer com ou sem o cuidado. “Cuidar representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro”.

A terceira categoria encontrada nos resultados é a Educação que expressa a promoção da qualidade de vida, a prevenção e recuperação da saúde, o aconselhamento, o ensino do autocuidado e a orientação. As ações de educação aparecem nas falas, principalmente quando os enfermeiros são questionados sobre os componentes do cuidar e de como é a prática do cuidar, o que nos leva a refletir sobre o quanto as ações educativa estão incorporadas às ações de enfermagem.

... proporcionando ao paciente que ele aprenda o autocuidado, sempre estimulando o mesmo a buscar formas de se cuidar.

... é orientar a pessoa ao autocuidado... Q14 

Os componente do cuidar são a observação, escuta ativa, grupos de orientação...  

A educação está muito ligada com o “fazer algo por alguém”, uma ação sobre o outro. Deter todo o processo educacional, desconsiderando o ser cuidado como protagonista de seu próprio aprendizado, parece ser uma atitude bastante pretensiosa, que denota o quanto ainda a enfermagem está condicionada a velhos padrões e presa a armadilhas criadas pela medicalização do cuidado.

Existe muito pouco na literatura de enfermagem sobre o cuidado humano na prática do ensino, ressalta que uma questão emergente é saber se é possível ensinar comportamentos de cuidados. Não existem receitas ou manuais para que se prescreva ou ensine o cuidado, pois este deve ser vivido. Essa autora vai buscar em Heidegger a noção de cuidado autêntico, entendido como o exercício do poder do ser, que necessita de cuidado, para cuidar de si mesmo. O filósofo do cuidar, nos ensina ainda, que o cuidado autêntico não é uma forma de ensinar autocuidado, mas uma forma em que o cuidador sutilmente possibilita ao outro conhecer e utilizar suas próprias capacidades.

Concordamos com os autores e observamos que as noções de cuidar que são referenciadas pelos sujeitos da pesquisa, parece se distanciar muito do conceito dos teoristas do cuidado. A enfermagem adotou o comportamento educativo, sem considerar o ser educado como protagonista de seu próprio processo de aprendizagem. Isto se reflete na pequena resolutividade que as ações educativas campanhistas têm colhido. Certamente a compreensão do cuidado autêntico seria de grande valia para nossa prática educativa, que é frequentemente unilateral e arbitrária, como se apenas os profissionais fossem os detentores do saber.

Essas questões nos ensinam que o cuidado é fenomenológico, neste sentido não se trata de pensar e falar sobre o cuidado como objeto independente de nós. “Mas de pensar e falar a partir do cuidado como é vivido e se estrutura em nós mesmos. Não temos cuidado. Somos cuidado”. O que significa que o cuidado entra na constituição do ser humano. Como é possível educar para o cuidado?

Os modelos teóricos na enfermagem têm contribuído para a formação de conceitos para a enfermagem, para a introdução de uma linguagem muito usada no campo profissional. Esse vocabulário é muitas vezes incorporado sem a reflexão de seu significado e passa a ser repetido por nós em nosso cotidiano. Palavras como autocuidado, holismo, promoção e prevenção estão se tornando verdadeiros chavões na enfermagem e sua utilização muitas vezes não passam de mero capricho sintático. Mas o que é realmente cuidar para nós? Como estamos cuidando? São questões que permanecem nebulosas e confusas.

Considerações Finais

Em nenhum momento os sujeitos se referem ao cuidar como um processo, uma relação que envolve e transforma cuidador e ser cuidado. Além disso, é perceptível uma grande dificuldade e inclusive uma certa confusão, por parte dos enfermeiros quando estes se manifestam sobre o cuidado.

São fortes nos discursos as questões relativas à produtividade profissional, refletindo o “modus operandi” do mercado de trabalho.

Por tratar-se de um tema ainda em apreensão, sugerimos reflexão intensa e discussão exaustiva, tanto no serviço quanto na graduação, a fim de contribuir para a construção individual do cuidar de cada ser cuidador e nos impulsionar em direção a maturidade da enfermagem ciência e arte.

Por fim, é mister que busquemos uma transformação de nossa prática, onde prevaleça uma abordagem mais humanística, sem, contudo rejeitar os aspectos científicos e técnicos, mas sim os incluindo, sob pena de se incorrer no mesmo erro que privilegiou exclusivamente a ciência e a técnica, fortalecendo uma hegemonia da abordagem biológica, que tanto nos afastou emocionalmente do objeto de nossa prática: o ser humano. 

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