behaviorismo

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Parte I. Princípios e Procedimentos Comportamentais Básicos

“Você quer se sentar aqui, Mamãe?”

REFORÇANDO O COMPORTAMENTO COOPERATIVO DE MAURO1

Mauro, de seis anos, era extremamente não-cooperativo com seus pais. Na esperança de aprender a lidar mais efetivamente com seu comportamento excessivamente dominador, os pais de Mauro o levaram à Gatzert Child Developmental Clinic, na Universidade de Washington. Conforme o relato dos seus pais, Mauro virtualmente “comandava o espetáculo”, decidindo quando iria para a cama, que alimentos comeria, quando seus pais deviam brincar com ele etc. A fim de obter observações diretas do comportamento (tanto cooperativo como não-cooperativo) de Mauro, o Dr. Robert Wahler pediu à mãe do menino que passasse algum tempo com ele numa sala de brinquedos na clínica. A sala de brinquedos podia ser totalmente vista das salas de observação adjacentes, de onde se podia fazer registro de dados. Durante as duas primeiras sessões de 20 minutos (chamadas de fase de linha de base2), a mãe de Mauro recebeu a seguinte instrução: “Apenas brinque com Mauro como se estivessem em casa.” O comportamento dominador de Mauro foi definido como quaisquer instruções verbais ou não-verbais dadas à mãe, tais como empurrá-la para sentar-se numa cadeira ou dizer coisas como: “Você vai até lá e eu fico aqui,” ou “Não; está errado. Faça assim.” O comportamento cooperativo foi definido como quaisquer afirmações, ações ou comentários não-imperativos, como: “Você quer sentar-se aqui?”, apontando para uma cadeira. Como ilustração da consistência do comportamento de Mauro, a Figura 3-1 apresenta um gráfico de dados coletados em intervalos consecutivos de 10 minutos. Como se pode ver, Mauro apresentou uma taxa muito baixa de comportamento cooperativo durante as sessões de linha de base. Seu comportamento dominador (não mostrado na Figura), por outro lado, ocorreu com uma freqüência extremamente alta. Depois das sessões de linha de base, foi pedido à mãe de Mauro que fosse muito positiva e aprovadora diante de quaisquer exemplos de comportamento cooperativo apresentados por Mauro. Ao mesmo tempo, ela foi instruída a ignorar completamente o seu comportamento dominador. Durante as duas sessões seguintes, o comportamento cooperativo de Mauro aumentou consistentemente. (Durante o mesmo período, seu comportamento dominador decresceu a quase zero.) Mais sessões experimentais foram conduzidas pelo Dr. Wahler e seus colegas para demonstrar que a melhora de Mauro era resultante das conseqüências positivas fornecidas por sua mãe, imediatamente após os exemplos de comportamento cooperativo de Mauro (em conjunto com o fato de ignorar o comportamento dominador).

Um reforço positivo é um evento que, quando apresentado imediatamente após um comportamento, faz com que o comportamento aumente em freqüência (ou probabilidade de ocorrer). O termo reforço positivo é um sinônimo aproximado da

1 Este exemplo se baseia num artigo de Wahler, Winkel, Peterson e Morrison (1965). 2 Uma fase de linha de base (discutida melhor nos Capítulos 18 e 21) é uma avaliação do comportamento na ausência de um programa de tratamento.

palavra recompensa. Uma vez que se determinou que um evento funciona como reforço positivo para um determinado indivíduo numa determinada situação, esse evento pode ser usado para fortalecer outros comportamentos desse indivíduo em outras situações. Em conjunto com o conceito de reforço positivo, o princípio chamado reforçamento positivo afirma que se, numa determinada situação, alguém faz alguma coisa que é imediatamente seguida por um reforço positivo, então essa pessoa tem maior probabilidade de fazer a mesma coisa novamente quando encontrar uma situação semelhante.

Embora todas as pessoas tenham uma noção geral sobre recompensas, muito poucas pessoas têm consciência da freqüência com que são influenciadas por reforçamento positivo durante cada dia de suas vidas. Alguns exemplos de reforçamento positivo são apresentados na Tabela 3-1. (Os termos reforçamento positivo e reforçamento muitas vezes são usados de maneira intercambiável.)

Ocorrências de Comportamento Cooperativo

Linha de Base Reforçamento

Figura 3-1 Comportamento cooperativo de Mauro. Cada ponto de dados representa o total de ocorrências de comportamento cooperativo de Mauro, durante um intervalo de 10 minutos, dentro de uma sessão. Linha de base se refere à fase de observação anterior ao programa de reforçamento. (Nota: Retirado do artigo “Mothers as Behavior Therapists for their own Children,” de R. G. Wahler, G. H. Winkel, R. F. Peterson e D. C. Morrison, 1965, Behavior Research and Therapy, 3, Figura 1, p.117.)

Os indivíduos de cada um dos exemplos da Tabela 3-1 não estavam usando conscientemente o princípio de reforçamento; estavam apenas “fazendo o que vem naturalmente”. Em cada exemplo, talvez sejam necessárias várias repetições, antes que haja algum aumento realmente óbvio da resposta reforçada (ou seja, um aumento que fosse perceptível a um observador casual). Apesar disso, o efeito está ali. Toda vez que fazemos alguma coisa, não importa o que seja, há conseqüências que nos “animam” ou que nos “desanimam” ou que não nos afetam de nenhuma forma. Pense em alguns de seus comportamentos durante os últimos 60 minutos. Algum desses comportamentos foi seguido imediatamente por conseqüências reforçadoras?

Comportamentos que operam no ambiente para gerar conseqüências e são, por sua vez, influenciados por essas conseqüências, são chamados de comportamentos operantes (ou respostas operantes). Cada uma das respostas listadas na Tabela 3-1 é um exemplo de comportamento operante. Comportamentos operantes que são seguidos por reforços são fortalecidos, enquanto comportamentos operantes que são seguidos por punições (ver Capítulo 13) são enfraquecidos. Um tipo diferente de comportamento — o comportamento reflexo — é discutido no Capítulo 15.

Tabela 3-1 EXEMPLOS DE REFORÇAMENTO DE COMPORTAMENTOS DESEJÁVEIS

Situação

Resposta Conseqüências imediatas

Efeitos a longo prazo

Mãe ocupada, passando roupa na cozinha. A filha, de três anos, começa a brincar com o irmãozinho.

Mãe termina de passar a roupa e senta-se para brincar com a filha e o bebê, por um breve período.

No futuro, a filha tem maior probabilidade de brincar com o irmão quando a mãe estiver passando roupa, devido à atenção que lhe foi dada quando começou a brincar com o bebê.

Enquanto você espera que o sinal mude, numa longa fila de carros num cruzamento movimentado, um carro pára na faixa à sua direita.

Você faz sinal para o motorista ao lado para entrar na fila à sua frente.

O motorista acena, agradecendo, e se coloca à sua frente na fila.

A resposta agradável do motorista aumenta a probabilidade de você ser cortês em situações semelhantes, no futuro.

Os alunos de uma classe de terceira série receberam uma tarefa para fazer.

Susana, que muitas vezes é irrequieta, está sentada quieta em sua carteira, fazendo a tarefa.

A professora caminha até Susana e dá um tapinha gentil no seu ombro.

No futuro, haverá maior probabilidade de Susana trabalhar nas tarefas que lhe são dadas em classe.

Pai e filho fazem compras numa loja de departamentos, numa tarde quente, e logo ambos estão muito cansados.

O filho (o que é pouco usual) segue o pai pela loja, quieto, sem reclamar.

O pai vira-se para o filho e diz: “Vamos sentar um pouco e tomar um sorvete.”

Em futuros dias de compras, é mais provável que o filho siga o pai sem reclamar.

Uma mulher acabou de experimentar a sopa que preparou e achou-a muito sem gosto.

Ela coloca algumas gotas de molho inglês. “Ficou com um gosto picante; parece minestrone,” diz ela consigo mesma.

Há uma probabilidade ampliada de que, em situações semelhantes, ela coloque molho inglês na sopa.

Marido e mulher estão se trocando e se preparando para dormir.

O marido recolhe as roupas de sua mulher e as coloca no cesto de roupa suja.

Sua mulher lhe faz um carinho e murmura um agradecimento. Em noites futuras, há maior probabilidade de o marido colocar a roupa suja no cesto.

Um dos autores deste livro está tentando ditar material para um gravador, mas este não está funcionando.

O autor sacode um dos fios ligados ao microfone.

O gravador começa a funcionar. A probabilidade de sacudir fios no futuro, em situações semelhantes, aumenta.

É útil pensar sobre o comportamento da mesma maneira que pensamos sobre outros aspectos da natureza. O que acontece quando você derruba um sapato? Ele cai em direção ao solo. O que acontece com um lago quando a temperatura cai abaixo de 0º C? A água congela. Essas são coisas que todos nós sabemos e que os físicos estudaram intensamente, formulando leis, como a lei da gravidade. O princípio do reforçamento positivo também está se aproximando rapidamente do status de lei. A psicologia científica tem estudado esse princípio em grande detalhe desde os anos 30, e nós sabemos que ele é uma parte extremamente importante do processo de aprendizagem. Também conhecemos uma série de fatores que determinam o grau de influência que o princípio de reforçamento tem sobre o comportamento. Tais fatores foram transformados em diretrizes que devem ser seguidas ao utilizar o reforçamento positivo para fortalecer um comportamento desejável.

1. Selecionando o Comportamento a Ser Intensificado

Os comportamentos que se quer reforçar devem, em primeiro lugar, ser especificamente identificados. Caso você comece com uma classe geral de comportamento (por exemplo: ser mais amigável), você deve então especificar comportamentos específicos (sorrir, por exemplo) que caracterizem tal classe. Sendo específico dessa maneira, você (a) melhora a confiabilidade para detectar exemplos do comportamento e de mudanças em sua freqüência, que é o padrão pelo qual se julga a eficácia do reforço; e (b) aumenta a probabilidade de que o programa de reforçamento seja aplicado consistentemente. 2. Escolhendo Reforçadores

Alguns estímulos são reforçadores positivos para virtualmente todas as pessoas. Comida é um reforçador positivo para quase qualquer pessoa que não come nada a várias horas. Balas são um reforçador para a maioria das crianças.

Por outro lado, indivíduos diferentes muitas vezes são estimulados por coisas diferentes.

Considere o caso de Diana, uma menina de seis anos, com déficit de desenvolvimento, que participou de um projeto coordenado por um dos autores. Ela era capaz de imitar o som de uma série de palavras e estávamos tentando ensinar-lhe a dar nomes a figuras. Dois reforçadores comumente usados no projeto eram balas e bocados do jantar da criança, mas nenhum deles se mostrou eficaz com Diana. Ela os cuspia quase que com a mesma freqüência com que os experimentava. Após experimentar muitos outros reforçadores em potencial, descobrimos finalmente que a permissão para brincar com uma bolsa de brinquedo, por 15 segundos, era muito reforçadora. Como resultado, após muitas horas de treino, a menina atualmente fala usando frases e sentenças completas. Para outra criança, escutar uma caixinha de música por alguns segundos veio a ser um reforçador eficaz, depois que outros falharam. Tais estímulos talvez não sejam reforçadores para todos, mas isso não é importante. O importante é usar um reforçador que seja eficaz para o indivíduo com quem se está trabalhando.

É importante manter em mente que reforços positivos são eventos que fortalecem uma resposta, quando são introduzidos ou adicionados após a resposta. A remoção de um evento depois de uma resposta também pode fortalecer essa resposta, mas não é reforçamento positivo. Por exemplo: um pai pode insistir com um adolescente para que lave a louça. Quando o jovem o faz, a insistência pára. Embora o cessar da insistência do pai, quando ocorre a lavagem da louça, possa fortalecer a resposta de lavar a louça, foi a remoção (e não a introdução) dessa insistência depois da resposta que a fortaleceu. (Esse processo, ao qual nos referimos como reforçamento negativo ou condicionamento por esquiva, é discutido em mais detalhes no Capítulo 14).

A maioria dos reforçadores positivos pode ser classificada sob cinco títulos que , de certa forma, se sobrepõem: consumíveis, atividades, manipuláveis, privilégios e sociais. Reforçadores consumíveis são itens que se pode comer ou beber (isto é, consumir), como balas, biscoitos, frutas ou refrigerantes. Exemplos de atividades reforçadoras são as oportunidades de assistir à televisão, ver um livro de figuras ou até olhar por uma janela. Reforçadores manipuláveis incluem as oportunidades de brincar com um brinquedo favorito, colorir ou pintar, andar de bicicleta, navegar na Internet ou brincar com um gravador. Privilégios como reforçadores se referem à oportunidade de se sentar em sua cadeira favorita, usar uma camisa ou um vestido prediletos, ter um quarto só para si ou desfrutar de algum outro item que se possa possuir (ao menos temporariamente). O reforçamento social inclui tapinhas nas costas e abraços, elogios, acenos, sorrisos e até mesmo um simples olhar ou outra indicação de atenção social. Atenção por parte dos outros é um reforçador muito forte para quase todas as pessoas (ver Figura 3-1).

Ao escolher reforçadores eficazes para um indivíduo, muitas vezes é útil examinar uma lista de reforçadores usados por outros (ver Tabela 3-2) ou preparar um levantamento de reforçadores. Um exemplo de tal levantamento é apresentado na Figura 3-3.

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