Cotidianos culturais e outras histórias

Cotidianos culturais e outras histórias

(Parte 1 de 5)

Andr Azevedo da Fonseca

Cotidianos culturais e outras hist rias A cidade sob novos olhares

Copyright by Andr Azevedo da Fonseca, Uberaba, 2004.

Copyleft by Andr Azevedo da Fonseca, Uberaba, 2004.

Permitida a reprodu o parcial ou total da obra e sua difus o por Internet para uso pessoal dos leitores, sob condi o de que n o seja com fins comerciais.

Capa, fotos (exceto quando identificado) e projeto gr fico: Andr Azevedo da Fonseca

Fale com o autor: andre.azevedo@uniube.br http://azevedodafonseca.sites.uol.com.br (34) 3319 8953 / (34) 3319 8952 (curso de Comunica o Social)

Fonseca, AndrŽ Azevedo da
F733cCotidianos culturais e outras hist—rias : a cidade sob novos
188 p. : il.
1. Reportagens e rep—rteres. 2. Cr™nicas brasileiras. 3.

Ficha Catalogr fica olhares / Andr Azevedo da Fonseca. Ñ Uberaba : Editora Universidade de Uberaba, 2004

Patrim nio cultural. 4. Cultura popular - Brasil. 5. Jornalismo. I.T tulo.

CDD 070.43

Bibliotec ria respons vel: Patr cia de Oliveira Portela CRB 6/ 837

Editora da Universidade de Uberaba Av. Nen Sabino, 1801 - Bloco A Uberaba - MG - 38055-500 Tel: 3319 80 http://www.uniube.br

Cotidianos culturais e outras hist rias A cidade sob novos olhares

Andr Azevedo da Fonseca

André Azevedo da Fonseca - Cotidianos culturais e outras histórias

Agradecimentos

A todos os amigos, professores e colegas que, direta ou indiretamente, através de sugestões, revisões, orientações, críticas, palpites, incentivos e apoio técnico contribuíram para estimular, encorajar, inspirar e melhorar esse e outros trabalhos para jornal, rádio e TV, agradeço pela generosidade, pela paciência e pela confiança. Vamos lá: Ana Vera Palmério, Adrián Padilla, Alzira Borges Silva, Cássia Cristina, Celi Camargo, Cíntia Cunha, Décio Bragança Silva, Edvaldo Pereira Lima, Eliane Marquez Mendonça, Érika Galvão Hinkle, Fernando Queiroz, Francisco Marcos Reis, Gildo Firmino, Guido Bilharinho, Gustavo Vitor Pena, Irene de Lima Freitas, Janete Tranqüila Graciole, Juquita Machado, Karla Borges, Luiz Flávio Assis Moura, Marcos Vinícius Zani, Lungas Ferreira Neto, Manoel Fernandes Neto, Marcelo Palmério, Maria Beatriz Russo, Maria Helena Krüger, Mariana Costa, Marlei Mateus, Neuza das Graças, Norah Shallyamar Gamboa Vella, Olga Frange, Patrícia de Oliveira Portela, Renê Vieira, Raul Osório Vargas, Ricardo Aidar, Sérgio Vilas Boas, Sonia Fontoura, Tatiane Oliveira Alves, Ulisses Custódio, Valquíria Pires, Vera Palmério, Vicente de Paulo Silva, Wilson Oliveira. Agradeço também aos colegas de faculdade, sobretudo os companheiros sala e de reportagens no jornal da faculdade: Ana Marcia Dorça, Antônio Marcos Ferreira, César Henrique Fonseca, Davi Marques, Élida Rodrigues, Denise Nakamura, Felipe Augusto Santos, Gelza Lima, Gisele Aparecida, Karine Rogério, Luís Felipe Silva, Luana Neri, Mariana Marajó, Micheli Bernardeli, Raika Julie Moisés, Rogério Simões e Soraya Higino. Se por uma infeliz distração, coisa comum de acontecer comigo, esqueci de alguém, prometo que incluo da segunda edição (sonhar não custa nada...)

Este livro é dedicado aos meus pais, Leny e Roberto, e especialmente à Cristiane Ferreira, meu amor, que me suporta, me corrige, me orienta, e por quem sou profundamente apaixonado.

Introdução8

André Azevedo da Fonseca - Cotidianos culturais e outras histórias

Arquitetura do desprezo12
O enigma da conservação34
Casa da esquina assombrou imaginário popular40

Escombros da memória coletiva

Uma cidade sobrenatural68
As aventuras de Eloy Padilla84
Saudades de seu Nestor, o orador90
A delícia do chorinho e a vergonha de ser brasileiro94
Folia no assentamento98
Beethoven contra a barbárie106
Arte intestinal112
Feira da Abadia: a rua é do povo!119
Shopping center: the book is on the table126
Adeus amigos, hoje eu vou para a Irlanda132
Salada lingüística144
“Serviço de preto”149
Está certo porque sou doutor152
O respeitável chefe de setor156
As garras da fêmea160
O taxímetro do prazer164
Elogio ao homicídio169
A última valsa de Roberto Furacão174
Entrevista com Roberto Drummond180

Cotidianos culturais Sum rio

8 André Azevedo da Fonseca - Cotidianos culturais e outras histórias

André Azevedo da Fonseca - Cotidianos culturais e outras histórias

Cotidianos culturais e outras hist rias uma sele o de reportagens, cr nicas, artigos e entrevistas que publiquei entre 2002 e 2003 no Revela o, o jornal-laborat rio do curso de Comunica o Social da Universidade de Uberaba (Uniube), na revista NovaE e no Observat rio da Imprensa*. Na verdade, confesso que morri de vontade de incluir todos os textos que escrevi nesse per odo, porque tudo que fiz foi com a maior paix o, e a gente n o descarta nossas paix es assim, sem mais nem menos. Mas preferi poupar os leitores, economizar p ginas e cortar na carne. Ficou s o fil !

Meus crit rios foram os seguintes: para come ar, inclu textos que conquistaram pr mios universit rios nacionais. Fica mais f cil assim. uma boa forma de avaliar o pr prio trabalho sem precisar de constrangedores auto-elogios. Em seguida, exclu as mat rias que se restringiram a noticiar fatos, ou seja, que ficaram circunscritas ao instante de seu contexto. Deixei de lado tamb m os artigos acad micos e as an lises mais carrancudas, pois pareciam destoar da atmosfera aconchegante do livro. Dessa forma, privilegiei os textos que falam de cotidianos culturais, registram momentos preciosos da mem ria afetiva da cidade e, enfim, contam boas hist rias. Al m disso, claro, fiz quest o de selecionar trabalhos inquietos, debochados, feitos especialmente para desmascarar estrat gias de poder e contribuir na necess ria cr tica de

* Disponíveis em: w.novae.inf.br, w.observatoriodaimprensa.com.br

André Azevedo da Fonseca - Cotidianos culturais e outras histórias nossa cultura brasileira.

Quase sem querer, nas encruzilhadas das esquinas de v rgulas, os textos vizinhos se auto-organizaram em condom nios coloridos, quarteir es entrecruzados e bairros labir nticos rascunhados em um mapa imagin rio. Surgiu assim, atrav s de uma displic ncia de crit rio absolutamente pessoal, uma cidade nova, descoberta por um estrangeiro em sua pr pria terra natal, por um conterr neo encantado por enxergar verdadeiros tesouros da superf cie de seu cotidiano, por um estudante boquiaberto perante a cultura esfuziante das pessoas que se esbarram e se esfregam na orquestra de sonhos, vozes, motores e buzinas nas ruas.

Todos os textos foram novamente revisados, e muitos trechos foram praticamente reescritos. Mas me segurei para n o reescrever tudo, ou provavelmente ficaria fazendo isso pelo resto da vida. Procurei consertar informa es desatualizadas, consultei fitas e anota es para confirmar detalhes, acrescentei par grafos que havia descartado devido as restri es de tamanho no jornal, adaptei uma coisa ou outra para o clima de perenidade de um livro e pronto!

As que mais me angustiaram foram as reportagens sobre edifica es do patrim nio cultural de Uberaba, minha cidade natal, pois desde aquela poca casas foram derrubadas, contextos ficaram diferentes, mas sobretudo porque aprendi muito sobre o tema nos ltimos dois anos. Mesmo assim, preferi deixar mais ou menos como foram originalmente publicadas. Minha id ia dedicar um livro inteiro s pra isso, com abordagens aprofundadas, pesquisas minunciosas e tudo mais. Publiquei muitas coisas nesses primeiros meses de 2004, mas tamb m tenho outros planos para esses textos. Mas de qualquer maneira, este livro estava pronto desde fevereiro deste ano.

Acredito que o jornalismo cultural tem um papel fundamental na sociedade. Voc j se flagrou lamentando-se que no cotidiano local n o acontece nada de importante, que a hist ria da cidade uma bobagem desprez vel e que s os outros — sobretudo estrangeiros — t m uma vida interessante e plena de sentido? J se viu constrangido ou envergonhado depois de manifestar o seu carinho por viv ncias corriqueiras de seu pr prio cotidiano? J se sentiu socialmente pressionado a menosprezar em p blico a pr pria cultura? Esses s o sintomas evidentes de uma doen a relacionada a um estrat gico discurso de ridiculariza o de nossa identidade cultural, promovido por diversos agentes interessados em

André Azevedo da Fonseca - Cotidianos culturais e outras histórias valorizar e vender seus pr prios s mbolos culturais. Essas opera es sistem ticas de deteriora o de nossa auto-estima nos levam a crer que somos uns idiotas e que a produ o hist rica e cultural de nossa comunidade mesmo insignificante e vergonhosa — como se fosse poss vel que 260 mil pessoas convivendo juntas, como o caso de Uberaba e dezenas de outras cidades do interior do Brasil, n o produzissem hist ria e cultura.

Percebe-se portanto o importante trabalho que o jornalismo cultural deve assumir. E um dos mais essenciais justamente contribuir na interpreta o dos s mbolos, na produ o de sentido e na incessante reinven o da identidade nas cidades. Mas para isso precisamos de novas leituras do cotidiano. Precisamos, como ensinava Paulo Freire, aprender a ler o mundo, o pa s, as ruas, as pessoas. E n o apenas atrav s de uma perspectiva anal tica e racional, mas por meio de olhares afetivos, carinhosos e amorosos, capazes de, entre piscadelas c mplices, tecer um texto vivo e caloroso que n o tem medo de se emaranhar nas teias dos contatos humanos.

Espero que voc , leitor, se delicie na leitura do livro com o mesmo prazer que eu tive ao escrev -lo.

Afetuosos abra os,

Andr Azevedo da Fonseca 24/05/2004

André Azevedo da Fonseca - Cotidianos culturais e outras histórias

Escombros da mem ria coletiva

André Azevedo da Fonseca - Cotidianos culturais e outras histórias

A série “Escombros da memória coletiva” reúne três reportagens publicadas no Revelação, jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Uniube, em 2002: “Arquitetura do desprezo”, “O enigma da conservação” e “Casa da esquina assombrou o imaginário popular”.

As reportagens são um passeio a pé no centro de Uberaba, minha cidade de 184 anos, localizada no Triângulo Mineiro. Mas não é um passeio comum. As casas históricas abandonadas que apodrecem no caminho evocam reminiscências, despertam lembranças adormecidas e libertam fantasmas condenados ao esquecimento.

Na primeira parte, o passeio se dá na Praça Rui Barbosa e nas ruas de seu entorno. Descobrem-se, soterradas nos escombros da memória coletiva, histórias deliciosas do cotidiano da cidade – muitas até então perdidas. A segunda parte é uma parada para a reflexão sobre o sentido da preservação do patrimônio cultural de uma cidade. Na terceira parte, através da investigação sobre um intrigante caso de uma casa demolida no início do século X, os fantasmas de três moças são “libertados do armário” e uma história que reflete um dos maiores pesadelos do imaginário popular de seu tempo emerge da escuridão.

Na verdade, denunciar a arquitetura do desprezo e vivenciar a simbologia do patrimônio histórico e cultural é só um pretexto para falar de gente, de vida e de morte.

Em 2002, “Escombros da memória coletiva” conquistou Menção

Especial no Prêmio Estímulo à Cidadania, categoria Jornalismo, na 9ª Exposição da Pesquisa Experimental em Comunicação (Expocom), promovido pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), em Salvador (BA). A reportagem “Casa da esquina assombrou imaginário popular” foi selecionada em 2003 para participar na seção da Relatos de Experiência do Seminário Internacional Memória, Rede e Mudança Social, promovido pelo Museu da Pessoa e SESC São-Paulo.

André Azevedo da Fonseca - Cotidianos culturais e outras histórias

Um dos mais importantes edifícios do patrimônio histórico da cidade está abandonado e encoberto por cartazes sujos

Escombros da memória coletiva - Arquitetura do desprezo

André Azevedo da Fonseca - Cotidianos culturais e outras histórias

Arquitetura do desprezo

Na Praça Rui Barbosa, coração de Uberaba, apodrece lentamente, aos olhos de todos, uma das casas históricas mais importantes da cidade. Construída por volta de 1860, foi a terceira edificação inteiramente feita de tijolos no município. Anteriormente, as casas eram de pau-a-pique, ripa e barro, recobertas com uma argamassa de areia e estrume de vaca. Chegaram a dizer, na época, que as casas de Uberaba não passavam de “feias arapucas” – escreveu o historiador Hidelbrando Pontes. Foi só com a chegada da estrada de ferro que os imigrantes, arquitetos e construtores trouxeram técnicas usadas na Europa, impulsionando a modernização da cidade.

(Parte 1 de 5)

Comentários