Apontamento de Glicoproteína

Apontamento de Glicoproteína

Apontamentos de

Bioquímica Fisiológica

6 – Hidratos de Carbono Complexos

6.1 – Glicoproteínas

6.2 – Proteoglicanos e glicosaminoglicanos

6.3 – Glicosfingolípidos

Com base em “Harper’s Biochemistry”

(25ª Edição, 2000, Lange)

Evelyn Caroline Almeida Pacheco

2007/2008

Índice de matérias

6.1 – Glicoproteínas

Introdução

Glicoproteínas e funções

Métodos de estudo das glicoproteínas: detecção, purificação e análise estrutural

Oito açúcares predominam nas glicoproteínas humanas

Glícidos nucleotídicos actuam como dadores de glícidos em reacções de biossíntese

Lectinas

São 3 as maiores classes de glicoproteínas

Glicoproteínas contém vários tipos de ligações O-glicosídicas

Mucinas

Biossíntese de glicoproteínas com ligações O-glicosídicas usa açúcares de nucleótidos

Glicoproteínas N-ligadas possuem ligações Asn-GlcNAc

Síntese

  1. síntese e transferência do oligossacárido-PP-dolicol

  2. processamento da cadeia oligossacárida:

Alguns glicanos intermediários formados na N-glicosilação têm funções específicas

Vários factores regulam a glicosilação de proteínas

Inibidores da N-glicosilação, mas não da O-glicosilação

Âncoras de GPI (GlicosilPhosfatidilInositol)

Glicoproteínas estão envolvidas em muitos processos biológicos e em muitas doenças

Fertilização

Selectinas e o processo inflamatório

Doenças

  • hemoglobinúria paroxismal nocturna

  • doenças das células I

  • defeitos genéticos em glicoproteínas lisossomais

6.2 – Proteoglicanos e glicosaminoglicanos

Biossíntese de GAG

Diferenças entre os GAG

Deficiências enzimáticas na degradação de GAG causam mucopolissacaridoses

Funções dos proteoglicanos

Associação com as grandes doenças e com o envelhecer

Cancro

Aterosclerose

Artrite

6.3 – Glicosfingolípidos

Cerebrósidos

Sulfatidos

Gangliósidos

Função dos glicosfingolípidos

Fosfolípidos e esfingolípidos estão envolvidos na esclerose múltipla e lipidoses

Esclerose múltipla

Deficiência de sulfatases múltiplas

6.1 – Glicoproteínas

(Harper’s págs. 675-694)

Introdução

São proteínas com cadeias de oligossacáridos ligadas covalentemente.

Fazem parte dos glicoconjugados ou hidratos de carbono complexos. → moléculas com uma ou mais cadeias de hidratos de carbono ligada a uma proteína (glicoproteínas ou proteoglicanos) ou lípido (glicolípidos).

Exemplos de glicoproteínas: maioria das plasmáticas, na membrana celular (ex.: determinantes dos grupos sanguíneos), hormonas,…

Glicoproteínas e funções

Existem em quase todos os seres vivos. A percentagem de glícidos pode ir de 1% a 85% do peso.

As cadeias de oligossacáridos codificam informação biológica:

  • existem numerosas ligações glicosídicas possíveis entre açúcares (e.g. 3 hexoses diferentes podem formar mais de 1000 trissacáridos diferentes.

  • a configuração das cadeias depende das ligações e proximidade em relação a outros moléculas.

  • a informação depende da sua constituição em açúcares, sequência e conformação

Métodos de estudo das glicoproteínas: detecção, purificação e análise estrutural

Purificação: idêntica a purificação de proteínas

Análise estrutural: espectroscopia de massa e espectroscopia por ressonância magnética nuclear de alta resolução.

A existência de glicoformas (espécies com sequência de aminoácidos idêntica mas diferente composição em sacáridos) dificulta estes estudos.

Oito açúcares predominam nas glicoproteínas humanas

Existem 200 monossacáridos na natureza, mas só 8 predominam nas glicoproteínas humanas.

Ácido siálico (N-acetilneuramínico) encontra-se normalmente no final das cadeias glicídicas, ligado a resíduos terminais de galactose ou N-acetilgalactosamina. Sulfato ocorre abundantemente, ligado a galactose, N-acetilgalactosamina ou N-acetilglicosamina.

Glícidos nucleotídicos actuam como dadores de glícidos em reacções de biossíntese

Ex.: UDP-glicose

Muitas das reacções de glicosilação envolvem estes compostos → a ligação anidrido entre o grupo fosfato e o açúcar é de alta energia → existe grande potencial de transferência de grupos, ou seja, estes compostos estão activados.

Maioria dos glícidos nucleotídicos estão no citosol, e resultam normalmente de reacções com o NTP correspondente. O CMP-ácido siálico é formado no núcleo.

UTP + glicose 1P UDP-Glc + PPi

UDP-Glc UDP-Glc

Como a maioria das glicosilações se dão no Golgi, existe um sistema transportador. Os encontrados são antiportes, em que se troca um glícidos nucleotídicos pelo nucleótido que resulta da hidrólise da ligação fosfato

UDP-Gal + proteína Proteína – Gal + UDP

UDP UMP + Pi

O estudo de glicoproteínas é facilitado pela existência de exo- e endoglicosidases

Nos mamíferos, um receptor de assialoproteínas está envolvido na captação de glicoproteínas pelos hepatócitos → reconhece a porção galactosil das glicoproteínas assialadas.

Lectinas

  • podem ser usadas para purificar glicoproteínas e estudar as suas funções.

  • são proteínas que se ligam a glícidos, que aglutinam células ou precipitam glicoconjugados, sendo muitas delas glicoproteínas

  • possuem dois locais de ligação a glícidos

  • a sua especificidade é normalmente definida pelos açúcares que são melhores a inibir a sua capacidade de causar aglutinação ou precipitação

  • o receptor de assialoproteínas hepático é uma leptina

  • utilização de leptinas: purificação e análise de glicoproteínas, como ferramentas para sondar as superfícies celulares e para gerar células mutantes sem algumas enzimas da síntese de oligossacáridos.

São 3 as maiores classes de glicoproteínas

Classificação é feita de acordo com as ligações entre os péptidos e os oligossacáridos:

  • ligação O-glicosídica: entre o OH de um resíduo de serina ou treonina e um açúcar como a N-acetilgalactosamina (GalNAc-Ser[Thr])

  • ligação N-glicosídica: entre o NH2 de um resíduo de asparagina e N-acetilglicosamina (GlcNAc-Asn)

  • ligação entre o grupo carboxilo terminal da proteína, por um grupo forforiletanolamina, a um glicano, ligado pela glicosamina a fosfatidil inositol (PI) → glicoproteínas ancoradas a glicosilfosfatidil-inositol (GPI-anchored ou GPI-linked)

Uma glicoproteína pode ter várias ligações a glícidos.

Glicoproteínas contém vários tipos de ligações O-glicosídicas

  • ligação GalNAc-Ser(Thr) é predominante. Ex. nas mucinas, predomina a ligação de Gal ou NeuAc a GalNAc.

  • proteoglicanos possuem trissacáridos Gal-Gal-Xyl-Ser

  • colagénio possui ligação Gal-hidroxilisina (Hyl)

  • proteínas nucleares e citosólicas possuem só GlcNAc-Ser(Thr)

Mucinas

Mucinas são glicoproteínas que possuem 2 grandes particularidades:

  • elevado conteúdo de ligações O-glicosídicas (mas também possuem ligações N-glicosídicas)

  • existem muitas sequências repetitivas de aminoácidos na sua porção peptídica, ricas em serina, treonina e prolina

Existem mucinas:

  • de membrana

    • participam nas interacções célula-célula

    • mascaram alguns antigéneos

  • e de secreção ( no muco gastrointestinal, respiratório e do sistema reprodutor).

  • o muco é constituído por 94% água e 5% mucinas.

  • estas mucinas são normalmente oligoméricas, com os monómeros unidos por ligações bissulfito.

  • os mucos possuem grande viscosidade podem formar gel, devido à presença das mucinas (devido às fortes ligações não covalentes que se estabelecem entre as porções glicídicas e polipeptídicas entre as mucinas).

  • a presença elevada de NeuAc e sulfato torna-as negativas

  • funções: lubrificação, barreira de protecção física dos epitélios

Biossíntese de glicoproteínas com ligações O-glicosídicas usa açúcares de nucleótidos, como UDP-GalNAc, UDP-Gal e CMP-NeuAc → estas reacções são catalizadas por glicoproteína glicosiltransferases, específicas para cada ligação estabelecida, e localizam-se no complexo de Golgi

Glicoproteínas N-ligadas possuem ligações Asn-GlcNAc

É a maior classe de glicoproteínas, sendo as melhores estudadas (ex.: glicoproteínas do plasma).

Inclui glicoproteínas de membrana e circulantes.

A sua síntese é diferente da das glicoproteínas O-ligadas.

Principais classes das N-ligadas:

  • complexas

  • híbridas

  • ricas em manose

Estas classes possuem em comum um pentassacárido Man3GlcNAc2, mas diferem nas restantes ramificações → no início, todas estas classes começam pela síntese deste pentassacárido

Síntese envolve oligossacárido-PP-dolicol (oligossacárido é Glc3Man9GlcNAc2)

  1. Síntese e transferência do oligossacárido-PP-dolicol para o resíduo de Asn da proteína

        • dolicol é um composto poliisoprenóide constituído por 17-20 unidades isoprenóides repetidas

        • dolicol cinase: dolicol + ATP → dolicol-P + ADP

        • GlcNAc-PP-dolicol é um lípido que actua como aceptor de glícidos na síntese de oligossacárido-PP-dolicol, sendo sintetizado na membrana do RER

            • GlcNAc-P transferase: Dol-P + UDP-GlcNAc → GlcNAc-PP-dolicol + UMP

  • Dol-P + GDP-Man → Dol-P-Man + GDP → Dol-P-Man é dador de 4 manoses

  • Dol-P + GDP-Glc → Dol-P-Glc + GDP → Dol-P-Glc é dador de 3 glicoses

  • Forma-se Glc3Man9GlcNAc2-PP-dolicol

  • Note-se que os 7 primeiros glícidos são transferidos de nucleótidos e os restantes 7 são do dolicol

  • O oligossacárido ligado ao dolicol é transferido em bloco para o resíduo Asn da proteína do lúmen do RER → pela oligossacárido:proteína transferase (enzima de membrana do RER),

      • para uma Asn de tripéptidos Asn-X-Ser/Thr (X é qualquer aminoácidos excepto prolina, aspartato e glutamato),

      • intervêm outros factores na selecção do resíduo a glicosilar

      • proteína de secreção e intrínsecas de membrana podem ser aceptoras do oligossacárido (as citosólicas raramente são) outro produto da reacção desta enzima é o dolicol-PP, que é convertido em dolicol-P por uma fosfatase, sendo reutilizável na síntese de oligossacárido-PP-dolicol

2. Processamento da cadeia oligossacárida:

  • Fase inicial

reacções

Cadeias ricas em manose

Cadeias complexas

Enzimas lisossomais

reacção 2

remoção da glicose terminal pela glicosidase I

remoção das 2 glicoses seguintes pela glicosidase II

reacção 3

reacção 4

Processo pode parar aqui, ou podem ainda ser removidos 4 resíduos de manose

São removidos 4 resíduos externos de manose por, pelo menos, 2 manosidases

Remoção de um resíduo de manose

reacção 5

*

reacção 6

Resíduo de GlcNAc a um resíduo de manose pela GlcNAc transferase I

reacção 7

Pela Golgi -manosidase II, reduzem-se as manoses do núcleo para 3

* Nas enzimas lisossomais:

  1. um resíduo de GlcNAc-1-Para é adicionada ao carbono 6 de um resíduo de manose específico, pela GlcNAc fosfotransferase:

  • UDP-GlcNAc + Man–proteína → GlcNAc-1-P-6-Man–proteína + UMP

  1. GlcNAc é removida por uma fosfodiesterase, deixando a 6-P-Man–proteína

  • Fase tardia → verifica-se a adição de outros açúcares

Reacção 8

Uma segunda GlcNAc é adicionada ao outro braço da ramificação glicídica, pela GlcNAc transferase II

Reacções 9, 10, 11

Adição de Fuc, Gal e NeuAc em locais específicos, catalizadas pelas fucosil, galactosil e sialil transferases

A formação de N-Acetillactosamina necessita de mais GlcNAc transferases

Alguns glicanos intermediários formados na N-glicosilação têm funções específicas:

  • Sinal de manose 6P → enzimas lisossomais

  • As grandes cadeias glicídicas N-ligadas presentes nas glicoproteínas recém sintetizadas mantém a sua solubilidade no lúmen do RER

  • Algumas cadeias participam no enrolamento e na retenção de determinadas proteínas

      • Calnexina é uma chaperone do RER

Vários factores regulam a glicosilação de proteínas

É um processo complexo, em especial pela grande variedade de isoformas de enzimas que podem estar presentes nesta via.

Controlo da 1ª fase da síntese de N-ligadas(síntese e transferência do oligossacárido-PP-dolicol para o resíduo de Asn da proteína):

  1. presença de locais que sejam aceptores adequados nas proteínas

  2. concentração de Dol-P

  3. actividade da oligossacárido transferase

Controlo da 2ª fase da síntese de N-ligadas (processamento da cadeia oligossacárida)

Inibidores da N-glicosilação, mas não da O-glicosilação

Extensão das cadeias O-ligadas pode ser inibida competitivamente pelo GalNAc-benzil, impedindo a adição de GalNAc.

Âncoras de GPI (GlicosilPhosfatidilInositol)

As glicoproteínas GPI-ligadas são a 3ª maior classe de glicoproteínas → estão na camada externa da membrana plasmática, ligadas a fosfatidilinositol (PI).

O PI liga-se pela sua porção GlcNH2 ao glicano.

O glicano liga-se à fosforiletanolamina, por uma ligação amida ao terminal COOH da proteína.

Normalmente, a âncora é:

Proteína ↔ etanolamina-P ↔ man ↔ man ↔ man ↔ GlcN ↔ mio-inositol-fosfolípido

Podem existir outros resíduos a mais.

Funções da ligação:

  • aumenta a mobilidade da proteína de membrana

  • transdução de sinal

  • sinalização para o domínio apical da membrana plasmática das células epiteliais

Glicoproteínas estão envolvidas em muitos processos biológicos e em muitas doenças

Fertilização:

  • compõem grande parte da zona pelúcida do oócito (ZP 1, 2 e 3)

  • a ZP3 é receptora do espermatozóide, na reacção acrossomal

Selectinas e o processo inflamatório:

  • células endoteliais interagem com os leucócitos através de selectinas (também através de integrinas e imunoglobulinas) em ambas as membranas plasmáticas, aderindo entre si

  • são proteínas transmembranares que se ligam ao Ca2+, com vários domínios

  • o seu terminal amino tem um domínio lectina, para se ligar a glícidos específicos

  • hemoglobinúria paroxismal nocturna é uma anemia ligeira, em que existe Hb na urina devido à hemólise dos eritrócitos durante o sono → diminuição do pH durante o sono

      • é um defeito na enzima que liga a glicosamina + PI → GPI, em 2 proteínas (DAF e CD59) que interagem com o sistema complemento de modo a evitar acções hemolíticas

  • doenças das células I é devido a problemas na sinalização das enzimas lisossomais

      • origina atraso psico-motor e sinais físicos que podem conduzir à morte

      • defeito na enzima GlcNAc fosfotransferase, pelo que as enzimas lisossomais são secretadas (ex.: para o) plasma

      • nem todas as células fazem sinalização de Man 6P para os lisossomas (ex.: hepatócito), nem todas as enzimas lisossomais têm esta sinalização

  • defeitos genéticos em glicoproteínas lisossomais

      • provoca: manosidose, fucosidose, sialisidose, aspartilglicosaminúria e doença de Schindler (acumulação da acetilgalactosamina)

  • glicoproteínas também participam, directa ou indirectamente, na contaminação por Influenza, HIV-1, artrite reumatóide, infecções recorrentes,… (Harper’s págs 692/3)

6.2 – Proteoglicanos e glicosaminoglicanos

(Harper’s págs. 701-707)

Glicosaminoglicanos dos proteoglicanos são compostos por repetição de dissacáridos

Proteoglicanos são proteínas que contém glicosaminoglicanos ligados covalentemente.

Variam na sua distribuição pelos tecidos, natureza do centro proteico (“core protein”), glicosaminoglicanos ligados e função. Nos proteoglicanos, a percentagem de glícidos é elevada, podendo atingir 95%.

Agrecano:

  • é muito grande, com estrutura em forma de escova

  • possui uma longa cadeia de hialuronato, à qual se ligam não covalentemente proteínas de ligação (“link proteins”)

  • estas proteínas de ligação interagem não covalentemente a sulfato de queratano e sulfato de condroitina

Existem pelo menos 7 glicosaminoglicanos (GAG): hialuronato, sulfato de condroitina, sulfatos de queratano I e II, heparina, sulfato de heparano e sulfato de dermatano.

GAG são:

  • polissacáridos não ramificados, compostos por unidades dissacáridas repetidas, em que um dos monossacáridos é um açúcar aminado (glicosamina ou galactosamina), e o outro é um ácido urónico (glicuronato, GlcUA ou iduronato, IdUA).

  • com excepção do hialuronato, todos os GAG são sulfatados

  • hilaruronato é também excepção porque não se liga covalentemente a proteínas

Biossíntese de GAG

    1. Síntese da proteína central no RER

    2. Ligação à proteína central, no RER

      • ligação O-glicosídica entre xilose e serina → transfere-se uma Xyl da UDP-Xyl para a serina e adicionam-se mais 3 Gal → ser–xyl–gal–gal–gal

      • ligação O-glicosídica entre GalNAc e Ser/Thr (sulfato de queratano II) → transfere -se uma GalNAc da UDP-GalNAc para a ser/thr

      • ligação N-acetilglicosamina entre GlcNAc e o grupo amina da Asn (síntese usa oligossacárido-PP-dolicol)

    3. No CG, alongamento da cadeia, com açúcares de nucleótidos e glicosil-transferases específicas → existe uma enzima para cada ligação criada

    4. No CG, outras modificações: adicionar grupos sulfato a GalNAc (por sulfotransferases, usando 3’-fosfoadenosina-5’-fosfosulfato (PAPS) como dador de grupos sulfato) e epimerização de GlcUA a IdUA (por uma epimerase)

Diferenças entre os GAG

Diferem em: composição em açúcares aminados, composição em ácido urónico, ligações entre os componentes, comprimento da cadeia de dissacáridos, presença ou ausência de grupos sulfato, ligação a proteínas centrais, distribuição tecidual e subcelular, função biológica.

  1. Hialuronato:

    1. cadeia não ramificada, dissacárido (GlcUA+GlcNAc)n

    2. presente no líquido sinovial, humor vítreo, cartilagem e tec. conj. laxo

  2. Sulfatos de condroitina (4-sulfato e 6-sulfato):

    1. Ligação O-glicosídica Xyl-Ser: cartilagem

    2. (GlcUA+GalNAc)n com +/- um sulfato por dissacárido

  3. Sulfatos de queratano I e II:

    1. (Gal+GlcNAc)n com sulfato na posição 6 da GlcNAc (ou, menos, na Gal)

    2. Tipo I: córnea

    3. Tipo II: tec conj laxo, ligado a sulfato de condroitina e hialuronato

    4. Tipo I e II diferem na ligação à proteína

  4. Heparina:

    1. (GlcN (glicosamina) + um ácido urónico)n, 90% tem IdUA

    2. maioria das GlcN N-sulfatadas, mas algumas acetiladas

    3. GlcN tem também um éster de sulfato na posição 6

    4. proteína praticamente só possui Ser e Gly

    5. nos grânulos dos mastócitos, fígado, pulmões, pele

  5. Sulfato de heparano:

    1. Em mtas superfícies celulares

    2. Com (GlcN + um ácido urónico), com menos N-sulfatos e predomina GlcUA

  6. Sulfato de dermatano:

    1. Em todos os tecidos animais

    2. (IdUA+GalNAc)n e(GlcUA+GalNAc)não

Deficiências enzimáticas na degradação de GAG causam mucopolissacaridoses

Exo e endoglicosidases degradam GAG, que são sujeitos a turn-over.

GAG são degradados por hidrolases lisossomais, com exo-, endoglicosidases e sulfatases.

Quando não são degradados, os GAG acumulam-se, em particular no fígado, baço, osso, pele e SNC. Os defeitos genéticos que estão na base destas patologias são herdados de forma autossómica recessiva. Os mais estudados são os síndromes de Hurler e Hunter.

Análises: urina (aumento de GAG), análise da actividade das enzimas em leucócitos, fibroblastos, e soro, biópsia tecidual, teste de DNA, diagnóstico pré-natal (células amnióticas ou vilosidades coriónicas).

Mucolipidose refere-se à acumulação de mucopolissacaridoses e esfingolipidoses.

Hialuronidase é uma enzima muito importante envolvida no metabolismo do hialuronato e sulfato de condroitina → é uma endoglicosidase que cliva ligações hexosamínicas

Funções dos proteoglicanos:

  • constituintes da matriz extracelular, associando-se ao colagénio e elastina e outros componentes da matriz

  • modulação dos efeitos de factores de crescimento (ex. decorina)

  • interacção com proteínas adesivas como a fibronectina e laminina

  • GAG são polianiónicos → ligam-se a policatiões, Na+ e K+ → atrai e retém água

  • São gel, em baixas concentrações → actuam como filtradores para macromoléculas na matriz

  • Hialuronato:

      • papel importante na migração celular (na morfogénese embrionária) e na cicatrização

      • atrai água → compressibilidade da cartilagem

  • Sulfato de condroitina:

      • Existe nos locais de ossificação endocondral e cartilagens

      • No interior de neurónios fazem parte do endoesqueleto

  • Sulfato de queratano I e sulfato de dermatano:

      • Na córnea, entre as fibrilhas de colagénio → transparência da córnea

      • Sulfato de dermatano → na esclera, tem função estrutural

      • Sulfato de queratano I → na cartilagem

  • Heparina:

      • É anticoagulante, ligando-se aos factores de coagulação IX e XI e à antitrombina plasmática III → inibição das serina proteases, em particular a trombina

      • Liga-se aos resíduos de lisina da antitrombina plasmática III → alteração conformacional → facilita a ligação de serina proteases

      • Liga-se à lipoproteína lipase → libertação da enzima da parede dos capilares para a circulação

  • Sulfato de heparano:

      • Associado à membrana plasmática das células, com proteína central transmembranar → actua como receptor e participa na mediação do crescimento celular e comunicação célula-célula

      • Na membrana basal do rim, liga-se ao colagénio tipo IV e laminina, onde determina a selectividade de cargas da filtração glomerular

Associação com as grandes doenças e com o envelhecer

Cancro: Hialuronato pode ser importante na migração tumoral. Diminuição do sulfato de heparano à superfície pode diminuir a adesividade entre as células.

Aterosclerose: A camada íntima das artérias possui hialuronato, sulfato de condroitina, sulfato de dermatano e sulfato de heparano → sulfato de dermatano liga-se às LDL. É sintetizado em grandes quantidades pelo músculo liso arterial → estas células proliferam na aterosclerose → aumento do sulfato de heparano → agravamento da doença.

Artrite: proteoglicanos podem agir como antigénios: sulfato de condroitina nas cartilagens diminui com a idade, sulfato de queratano e hialuronato aumentam.

6.3 – Glicosfingolípidos

(Harper’s págs. 265 e 266)

São a combinação da ceramida com um ou mais resíduos de glícidos.

Ácidos gordos C24 ocorrem em muitos glicoesfingolípidos, em particular aqueles do cérebro:

  • Ácido lignocérico (C23H47COOH) é sintetizado da acetilo-CoA

  • Ácido cerebrónico (2-OH- C23H47COOH) é formado a partir do ácido lignocérico

  • Ácido nervónico (C23H45COOH) é monoinsaturado, formado por alongamento do ác. oleico.

Cerebrósidos:

  • São os glicosfingolípidos mais simples

  • Galactocerebrósidos (GalCer) → principal lípido da mielina

  • Glicocerebrósidos (GlcCer) → principais glicosfingolípidos dos tecidos extra-neurais e precursor de outros glicosfingolípidos mais complexos

  • UDPGlc → UDPGal →→→ UDP-Gal + ceramida → galactosilceramida

Sulfatidos:

  • galactosilceramida + PAPS → sulfogalactosilceramida

Gangliósidos:

  • sintetizados da ceramida, por adição progressiva de açúcares activados (UDP-Glc e UDP-Gal) e um ácido siálico (normalmente ác N-acetilneuramínico)

Glicosfingolípidos:

  • são constituintes da camada externa da membrana plasmática e podem ser importantes na comunicação e contacto intracelular

  • alguns são antigénio → antigénio de Frossman e ABO

  • alguns gangliósidos funcionam como receptores de toxinas de bactérias (ex. cólera → activa a adenilil ciclase)

Fosfolípidos e esfingolípidos estão envolvidos na esclerose múltipla e lipidoses

Devemos distinguir: doenças desmielinizantes e esfingolipidoses

Esclerose múltipla:

  • doença desmielinizante, com perda de fosfolípidos e esfingolípidos na substância cinzenta

  • a composição lipídica da substância branca assemelha-se à da substância cinzenta

  • aumentam os níveis de ésteres de colesterol na substância branca onde deviam ser inexistentes

  • LCR regista aumento de fosfolípidos

Deficiência de sulfatases múltiplas:

  • Dá acumulação de sulfogalactosilceramida, sulfatos de esteróides e proteoglicanos, devido a uma deficiência combinada de: arilsulfatases A, B e C e esteróide sulfatase

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