Guia para controle da hanseníase

Guia para controle da hanseníase

(Parte 1 de 6)

Guia para o Controle da Hanseníase

Brasília, DF 2002

Secretaria de Políticas de Saúde Departamento de Atenção Básica

Distribuição de informações: Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde Departamento de Atenção Básica Área Técnica de Dermatologia Sanitária Esplanada dos Ministérios, Bloco G, 6 andar 70.058-900 - Brasília/DF Tel: (61) 321-3452 / 315-2546 Fax: (61) 226-4340 E-mail: cosac@saúde.gov .br psf@saúde.gov .br atds@saude.gov .br

Ministro da Saúde Barjas Negri Secretário de Políticas de Saúde Cláudio Duarte Diretora do Departamento de Atenção Básica Heloiza Machado de Souza Coordenador Nacional da Área Técnica de Dermatologia Sanitária Gerson Fernando Mendes Pereira

Editores Gerson Oliveira Penna - Núcleo de Medicina Tropical/Universidade de Brasília Maria Bernadete Rocha Moreira - Área Técnica de Dermatologia Sanitária

Elaboração Maria Bernadete Rocha Moreira - Ministério da Saúde/SPS/Departamento de Atenção Básica Gerson Oliveira Penna - Núcleo de Medicina Tropical/Universidade de Brasília Gerson Fernando Mendes Pereira - Ministério da Saúde/SPS/Departamento de Atenção Básica Maria Madalena - Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal

Colaboração Jair Ferreira - Departamento de Medicina Social/Universidade Federal do Rio Grande do Sul Milton Menezes da Costa Neto - Ministério da Saúde/SPS/Departamento de Atenção Básica

Apoio Institucional Sociedade Brasileira de Dermatologia Sociedade Brasileira de Hansenologia

Editoração e Projeto Gráfico Edite Damásio da Silva

Revisão Ortográfica Alberico Carvalho Bouzón

Apoio ILEP - International Federation of Anti Leprosy Association

Ministério da Saúde Permitida a reprodução, desde que citada a fonte. 3 edição, 2002 Tiragem: 70.0 exemplares Impresso no Brasil / Printed in Brazil

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Departamento de

Atenção Básica. Guia para o Controle da hanseníase. Brasília: Ministério da Saúde, 2002.

p.:il. - (Série A. Normas e Manuais Técnicos; n. 1) ISBN 85-334-0346-1

1. Hanseníase. 2. Saúde da Família. 3. Profissionais em Saúde. I. Brasil.

Ministério da Saúde. I, Brasil. Secretaria de Políticas de Saúde. Departamento de Atenção Básica. I. Título. IV.

Prefácio
Introdução
1. Definição de Caso de Hanseníase
2. Aspectos Epidemiológicos
2.1. Agente etiológico
2.2. Modo de transmissão
3. Aspectos Clínicos
3.1. Sinais e sintomas dermatológicos
3.2. Sinais e sintomas neurológicos
4. Diagnóstico
4.1. Diagnóstico clínico
4.2. Diagnóstico laboratorial
4.3. Diagnóstico diferencial
5. Tratamento
5.1. Tratamento quimioterápico
5.2. Duração do tratamento e critério de alta
5.3. Efeitos colaterais dos medicamentos
5.4. Situações especiais
5.5. Acompanhamento das intercorrências pós-alta
5.6. Prevenção e tratamento de incapacidades físicas
6. Estados Reacionais ou Reações Hansênicas
7. Vigilância Epidemiológica
7.1. Descoberta de casos
7.2. Sistema de informação
8. Educação em Saúde

Apresentação ...........................................................................................................................

9.1. No diagnóstico
9.2. No controle
9.3. Na vigilância de contatos
9.4. Suprimentos de medicamentos
9.5. Dados e documentação utilizados
10. Atribuições dos Profissionais de Saúde
10.1. Planejamento / Programação do Cuidado
10.2. Execução do Cuidado
10.3. Gerência / Acompanhamento do Cuidado
1. Atividades Desenvolvidas nas Unidades de Saúde
1.1. Unidade de Saúde / Rede Básica
1.2. Centro de Saúde / Ambulatório Especializado
1.3. Centro de Referência / Hospital Geral
12. Referências Bibliográficas

9. Atividades Administrativas ..........................................................................................

Este Guia para o Controle da Hanseníase integra a série de Cadernos de Atenção Básica e é dirigido particularmente aos profissionais que compõem as equipes de saúde da família. Aqui está o resultado do trabalho que vem sendo desenvolvido ao longo do tempo pelo Ministério da Saúde, com o objetivo de aperfeiçoar as medidas voltadas à integração e à efetividade das ações de controle da doença na rede básica de saúde. Contempla também os mais importantes e atualizados conhecimentos para a abordagem do paciente, configurando, portanto, instrumento relevante para o atendimento adequado e resolutivo.

A hanseníase ainda constitui relevante problema de saúde pública, a despeito da redução drástica no número de casos - de 17 para cinco por 10 mil haitantes - no período de 1985 a 1999. Embora o impacto das ações, no âmbito dessa endemia, não ocorra em curto prazo, o Brasil reúne atualmente condições altamente favoráveis para a sua eliminação como problema de saúde pública, compromisso assumido pelo País em 1991 - a ser cumprido até 2005 - e que significa alcançar um coeficiente de prevalência de menos de um doente em cada 10 mil habitantes.

O alcance dessa meta, no entanto, requer um esforço conjunto dos setores público, privado e do terceiro setor de modo a superar fatores que dificultam uma ação decisiva sobre a doença, entre os quais o diagnóstico e o tratamento tardios dos pacientes.

Nesse sentido, o Ministério da Saúde lançou, em novembro de 2002, o Plano Nacional de

Mobilização e Intensificação das Ações para a Eliminação da Hanseníase e o Controle da Tuberculose no Brasil, que tem reunido os mais diversos segmentos sociais em torno destas doenças, bem como os gestores do Sistema Único de Saúde e os profissionais de saúde. Ao lado dessa intensa mobilização que vem sendo empreendida no País, soma-se a ratificação do compromisso do governo brasileiro, em janeiro de 2002, durante a reunião da Aliança Global para a Eliminação da Hanseníase, ocasião em que o Brasil assumiu a sua presidência.

Esta 3a edição do Guia de Controle da Hanseníase contribuirá, certamente, para o alcance da meta em que estamos todos engajados, visto que os profissionais que atuam na atenção básica passam a dispor de conhecimentos atualizados para o atendimento efetivo do paciente de hanseníase e o desenvolvimento das demais ações necessárias à eliminação da doença como problema de saúde pública no Brasil.

Cláudio Duarte da Fonseca Secretário de Políticas de Saúde

A grande reorganização da assistência aos pacientes com hanseníase iniciou-se na década de 80 na Secretaria de Ações Básicas de Saúde, recebeu um importante impulso na Secretaria Nacional de Programas Especiais de Saúde passando pela Secretaria de Assistência à Saúde e pela Fundação Nacional de Saúde. Um enorme esforço vem sendo feito desde então, de forma continuada, envolvendo um verdadeiro arsenal de profissionais de saúde em todo o país.

Agora, em 2002, através da Rede Básica de Saúde, dos milhares de trabalhadores das Equipes de Saúde da Família e dos Agentes Comunitários de Saúde, o Departamento de Atenção Básica (DAB) alia-se a esse esforço buscando a eliminação da hanseníase como probelma de saúde pública.

E é com esse espírito de luta, que, em nome de toda a equipe do DAB, cumprimos com a nossa obrigação institucional de entregar à rede de serviços de saúde de todo o país o Guia para o Controle da Hanseníase.

Heloiza Machado de Souza Diretora do Departamento de Atenção Básica

CANCRO MOLE No Brasil, apesar da redução drástica no número de casos, de 19 para 4,68 doentes em cada 10.0 habitantes, no período compreendido entre 1985 a 20 a hanseníase ainda se constitui em um problema de saúde pública que exige uma vigilância resolutiva.

Desde 1985, o país vem reestruturando suas ações voltadas para este problema e, em 1999 assumiu o compromisso de eliminar a hanseníase até 2005, quando se objetiva alcançar o índice de menos de um doente em cada 10.0 habitantes.

A hanseníase é fácil de diagnosticar, tratar e tem cura, no entanto, quando diagnosticada e tratada tardiamente pode trazer graves conseqüências para os portadores e seus familiares, pelas lesões que os incapacitam fisicamente.

As ações preventivas, promocionais e curativas que vêm sendo realizadas com sucesso pelas Equipes de Saúde da Família, já evidenciam um forte comprometimento com os profissionais de toda a equipe, com destaque nas ações do agente comunitário de saúde, que vive e vivência, em nível domiciliar, as questões complexas que envolvem a hanseníase.

Esse comprometimento, no entanto, exige que a população seja informada sobre os sinais e sintomas da doença, que tenha acesso fácil ao diagnóstico e tratamento e que os portadores de hanseníase possam ser orientados individualmente e juntamente com a sua família durante todo o processo de cura. Exige, assim, profissionais de saúde capacitados para lidar com todos esses aspectos.

As incapacidades físicas nos olhos, nas mãos e nos pés podem ser evitadas ou reduzidas, se os portadores de hanseníase forem identificados e diagnosticados o mais rápido possível, tratados com técnicas simplificadas e acompanhados nos serviços de saúde de atenção básica.

O Ministério da Saúde, através desse documento, objetiva subsidiar os profissionais de saúde que atuam na rede de atenção à saúde, com destaque para os profissionais da Equipe de Saúde da Família, sobre os mais importantes e atualizados conhecimentos para a abordagem do paciente de hanseníase, como instrumento de capacitação, esperando que ele possa contribuir para a eliminação da doença no país e, evitando a desintegração dos pacientes curados ao convívio na família e na sociedade.

Gerson Fernando Mendes Pereira Coordenador Nacional de Dermatologia Sanitária

11Guia para o Controle da Hanseníase Cadernos da Atenção Básica

1. DEFINIÇÃO DE CASO DE HANSENÍASE

Um caso de hanseníase é uma pessoa que apresenta uma ou mais de uma das seguintes características e que requer quimioterapia:

•lesão (ões) de pele com alteração de sensibilidade;

•acometimento de nervo(s) com espessamento neural;

•baciloscopia positiva.

12Guia para o Controle da Hanseníase Cadernos da Atenção Básica

Hanseníase é uma doença infecto-contagiosa, de evolução lenta, que se manifesta principalmente através de sinais e sintomas dermatoneurológicos: lesões na pele e nos nervos periféricos, principalmente nos olhos, mãos e pés.

O comprometimento dos nervos periféricos é a característica principal da doença, dando-lhe um grande potencial para provocar incapacidades físicas que podem, inclusive, evoluir para deformidades. Estas incapacidades e deformidades podem acarretar alguns problemas, tais como diminuição da capacidade de trabalho, limitação da vida social e problemas psicológicos. São responsáveis, também, pelo estigma e preconceito contra a doença.

Por isso mesmo ratifica-se que a hanseníase é doença curável, e quanto mais precocemente diagnostica e tratada mais rapidamente se cura o paciente.

2.1. AGENTE ETIOLÓGICO

A hanseníase é causada pelo Mycobacterium leprae, ou bacilo de Hansen, que é um parasita intracelular obrigatório, com afinidade por células cutâneas e por células dos nervos periféricos, que se instala no organismo da pessoa infectada, podendo se multiplicar. O tempo de multiplicação do bacilo é lento, podendo durar, em média, de 1 a 16 dias.

O M.leprae tem alta infectividade e baixa patogenicidade, isto é infecta muitas pessoas no entanto só poucas adoecem.

O homem é reconhecido como única fonte de infecção (reservatório), embora tenham sido identificados animais naturalmente infectados.

2.2. MODO DE TRANSMISSÃO

O homem é considerado a única fonte de infecção da hanseníase. O contágio dá-se através de uma pessoa doente, portadora do bacilo de Hansen, não tratada, que o elimina para o meio exterior, contagiando pessoas susceptíveis.

A principal via de eliminação do bacilo, pelo indivíduo doente de hanseníase, e a mais provável porta de entrada no organismo passível de ser infectado são as vias aéreas

2. ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS

13Guia para o Controle da Hanseníase Cadernos da Atenção Básica superiores, o trato respiratório. No entanto, para que a transmissão do bacilo ocorra, é necessário um contato direto com a pessoa doente não tratada.

O aparecimento da doença na pessoa infectada pelo bacilo, e suas diferentes manifestações clínicas, dependem dentre outros fatores, da relação parasita / hospedeiro e pode ocorrer após um longo período de incubação, de 2 a 7 anos.

A hanseníase pode atingir pessoas de todas as idades, de ambos os sexos, no entanto, raramente ocorre em crianças. Observa-se que crianças, menores de quinze anos, adoecem mais quando há uma maior endemicidade da doença. Há uma incidência maior da doença nos homens do que nas mulheres, na maioria das regiões do mundo.

Além das condições individuais, outros fatores relacionados aos níveis de endemia e às condições socioeconômicas desfavoráveis, assim como condições precárias de vida e de saúde e o elevado número de pessoas convivendo em um mesmo ambiente, influem no risco de adoecer.

Dentre as pessoas que adoecem, algumas apresentam resistência ao bacilo, constituindo os casos Paucibacilares (PB), que abrigam um pequeno número de bacilos no organismo, insuficiente para infectar outras pessoas. Os casos Paucibacilares, portanto, não são considerados importantes fontes de transmissão da doença devido à sua baixa carga bacilar. Algumas pessoas podem até curar-se espontaneamente.

Um número menor de pessoas não apresenta resistência ao bacilo, que se multiplica no seu organismo passando a ser eliminado para o meio exterior, podendo infectar outras pessoas. Estas pessoas constituem os casos Multibacilares (MB), que são a fonte de infecção e manutenção da cadeia epidemiológica da doença.

Quando a pessoa doente inicia o tratamento quimioterápico, ela deixa de ser transmissora da doença, pois as primeiras doses da medicação matam os bacilos, torna-os incapazes de infectar outras pessoas.

O diagnóstico precoce da hanseníase e o seu tratamento adequado evitam a evolução da doença, conseqüentemente impedem a instalação das incapacidades físicas por ela provocadas.

14Guia para o Controle da Hanseníase Cadernos da Atenção Básica

A hanseníase manifesta-se através de sinais e sintomas dermatológicos e neurológicos que podem levar à suspeição diagnóstica da doença. As alterações neurológicas, quando não diagnosticadas e tratadas adequadamente, podem causar incapacidades físicas que podem evoluir para deformidades.

3.1. SINAIS E SINTOMAS DERMATOLÓGICOS

A hanseníase manifesta-se através de lesões de pele que se apresentam com diminuição ou ausência de sensibilidade.

As lesões mais comuns são:

•Manchas pigmentares ou discrômicas: resultam da ausência, diminuição ou aumento de melanina ou depósito de outros pigmentos ou substâncias na pele.

•Placa: é lesão que se estende em superfície por vários centímetros. Pode ser individual ou constituir aglomerado de placas.

•Infiltração: aumento da espessura e consistência da pele, com menor evidência dos sulcos, limites imprecisos, acompanhando-se, às vezes, de eritema discreto. Pela vitropressão, surge fundo de cor café com leite. Resulta da presença na derme de infiltrado celular, às vezes com edema e vasodilatação.

•Tubérculo: designação em desuso, significava pápula ou nódulo que evolui deixando cicatriz.

•Nódulo: lesão sólida, circunscrita, elevada ou não, de 1 a 3 cm de tamanho. É processo patológico que localiza-se na epiderme, derme e/ou hipoderme. Pode ser lesão mais palpável que visível (Figura 1).

Essas lesões podem estar localizadas em qualquer região do corpo e podem, também, acometer a mucosa nasal e a cavidade oral. Ocorrem, porém, com maior freqüência, na face, orelhas, nádegas, braços, pernas e costas.

3. ASPECTOS CLÍNICOS

Na hanseníase, as lesões de pele sempre apresentam alteração de sensibilidade. Esta é uma característica que as diferencia das lesões de pele provocadas por outras doenças dermatológicas.

15Guia para o Controle da Hanseníase Cadernos da Atenção Básica

A sensibilidade nas lesões pode estar diminuída (hipoestesia) ou ausente (anestesia), podendo também haver aumento da sensibilidade (hiperestesia).

3.2. SINAIS E SINTOMAS NEUROLÓGICOS

A hanseníase manifesta-se, além de lesões na pele, através de lesões nos nervos periféricos.

Essas lesões são decorrentes de processos inflamatórios dos nervos periféricos (neurites) e podem ser causados tanto pela ação do bacilo nos nervos como pela reação do organismo ao bacilo ou por ambas. Elas manifestam-se através de:

(Parte 1 de 6)

Comentários