Efeito da Contração de Polimerizaçãoda Resina Composta

Efeito da Contração de Polimerizaçãoda Resina Composta

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Efeito da Contração de Polimerização da Resina Composta

Effect of Polimerization Contraction of Composite Resin

CONTATO C/AUTOR: E-mail: pesquisa.susin@smail.ufsm.br DATA DE RECEBIMENTO: Maio/2005 DATA DE APROVAÇÃO: Agosto/2005

Avaliação em MEV da Fenda Resultante da Interace com Uso de Cimento de Ionômero

- Alexandre Henrique Susin Professor do Programa de Pós-Graduação em Dentística da FO/Araraquara/UNESP e Professor Adjunto Doutor da Disciplina de Dentística da FO/Santa Maria/RS. - Thales Krauspenhar Rosalino

- Daiana Sobroza Pedroso

- Daniele Taís Unfer Cirurgiões Dentistas.

Nos últimos anos, a Odontologia conheceu um grande avanço técnicocientífi co no campo dos materiais restauradores, que se tornaram cada vez mais resistentes e estéticos, melhorando a qualidade das restaurações. Nesse contexto, as resinas compostas apresentaram evolução singular no que diz respeito às suas propriedades, permitindo a realização de restaurações satisfatórias tanto em dentes anteriores quanto em dentes posteriores (MONDELLI et al., 2003).

Métodos e aparelhos para polimerizar as resinas compostas têm evoluído muito rapidamente, buscando melhorar as propriedades e aumentar a longevidade das restaurações. Porém é sabido, que durante a polimerização das resinas, existe uma aproximação das moléculas para permitir a formação das cadeias poliméricas, gerando a contração de polimerização (RUEGGEBERG, 1999), esse movimento molecular tem sido um assunto muito estudado, em função dos problemas clínicos causados às restaurações, tais como infi ltração marginal, sensibilidade pós-operatória, fendas marginais e cáries recorrentes, que podem comprometer a longevidade e sucesso clínico das restaurações (CARVALHO et al., 1996; DEUVILLIER et al., 2000).

Em vista das propriedades negativas das resinas compostas e dos sistemas adesivos, freqüentemente tem sido necessário a indicação de um material protetor pulpar. Dentre os materiais mais comumente utilizados com esse fi m, encontramos os cimentos de ionômero de vidro, que apresentam propriedades inibitórias da atividade cariogênica pela liberação de fl uoretos, adesão à estrutura dental, além de ser biocompatível com os tecidos dentais. Avanços signifi cativos nas técnicas de proteção do complexo dentina-polpa foram obtidos a partir da sua introdução na odontologia, entretanto, esse material é pouco estético e apresenta uma alta sensibilidade à umidade (WALLS, 1986; CHAIN, 1990). Posteriormente, através da adição de monômeros resinosos em sua formulação, foi obtido um material mais estético, menos sensível a sinerese e embebição, além de fotopolimerizável (MATHIS e FERRACANE, 1989). Devido à sua propriedade de liberar fl úor, seu uso é recomendado em pacientes com alta atividade de cárie e como base de restaurações (SIDHU e HENDERSON, 1992), além disso, possui um tempo de trabalho superior (SIDHU e WATSON, 1995), menor sensibilidade à umidade (CHO, 1995), aumento da força de adesão (SIDHU e WATSON, 1995) e uma melhor adaptação marginal (CRIM, 1993), que aumentaram suas indicações clínicas.

A odontologia tem avançado consideravelmente na tecnologia dos polímeros, bem como nas técnicas e materiais protetores pulpares, porém, propriedades mecânicas e biológicas ainda não plenamente satisfeitas, exigem dos pesquisadores a busca constante de soluções clínicas voltadas à diminuição da interferência das mesmas e conquista de restaurações efi cazes.

O objetivo deste trabalho foi avaliar a presença de fendas na interface resina composta/cimento de ionômero de vidro e cimento de ionômero de vidro/dentina, resultante da contração de polimerização da resina composta sobre os cimentos de ionômero de vidro, convencional e modifi cado por resina, quando estes são utilizados

Os A avaliam a formação de fendas resultantes da polimerização da resina composta

como materiais protetores pulpares

47RGO, P. Alegre, v. 54, n. 1, p. 47-51, jan./mar. 2006

Para realização deste estudo, foram utilizados 18 dentes terceiros molares humanos hígidos, recentemente extraídos por indicação terapêutica. Logo após a extração, foram limpos através de raspagem por curetas de Gracey e profi laxia com pedra-pomes e água, e armazenados em água destilada com timol a 0,5% em temperatura ambiente.

As cavidades foram confeccionadas utilizando-se broca carbide número 6, em alta rotação e sob refrigeração à água. Foram realizadas cavidades classe V de forma circular, com 2,5 m de diâmetro e 2,5 m de profundidade, nas faces vestibular e palatina, na altura do 1/3 cervical de todos os dentes. No centro dessa cavidade, foi realizada uma cavidade de menor diâmetro, aprofundando apenas a porção esférica da broca, local utilizado para colocação do material de proteção do complexo dentina-polpa (Figura 1)

Após a realização dos preparos cavitários, os dentes foram divididos aleatoriamente em 3 grupos de 6 dentes cada para a realização das cavidades e restauração de acordo com as técnicas de proteção, adesiva e restauradora empregadas, como está descrito no quadro 1.

O nome comercial, a característica, a composição e o fabricante dos materiais utilizados nesta pesquisa estão apresentados no Quadro 2.

Após restaurados, os dentes foram armazenados em temperatura ambiente durante 24 horas em água destilada e depois foram seccionados em máquina de cortes seriados Isomet 1000(Buehler Lake Bluff, IL, USA) com disco diamantado de 0.3 m de espessura e em seguida os espécimes foram submetidos a polimento seqüencial em Politriz Circular Mecânica AROTEC APL – 4 (Arotec S. A. Indústria e Comércio, SP, Brasil) com lixas silicon-carbide, sendo iniciada com a lixa de granulação 600 durante 10 segundos, depois granulação 800 também por 10 segundos e, por último, a lixa de granulação 1200/1400 durante 20 segundos, sendo ¼ de volta a cada 5 segundos.

Realizada a seqüência de polimento, os espécimes foram condicionados com solução de ácido fosfórico 40% durante 10 segundos e em seguida, foram imersos em água destilada e colocados sob ação do ultra-som ULTRASSONIC CLEANER 1440D (Odontobrás, SP, Brasil) durante 10 segundos.

Posteriormente, os espécimes foram secos com aplicação de calor moderado (35°), em estufa laboratorial durante 6 horas, e em seguida receberam cobertura metálica de 120 nanômetros de ouro 24 k em Metalizadora DENTIN (Bal-Tec S/A), para permitir a visualização em microscópio eletrônico JEOL modelo 3360 com aumento de 400 vezes.

As imagens obtidas permitiram a classifi cação de acordo com a presença ou ausência de fendas nas interfaces de interesse para este estudo. Os resultados foram analisados por teste não paramétrico “Kruskal-Wallis”, bem como descritos em percentagem para melhor compreensão e avaliação dos resultados.

composta)Os resultados dos grupos G2 e G3 foram ainda

A porcentagem, de presença ou ausência de fendas, foi analisada em três grupos distintos: G1 (sistema adesivo e resina composta); G2 (sistema adesivo, cimento de ionômero de vidro convencional e resina composta) e G3 (sistema adesivo, cimento de ionômero de vidro modifi cado por resina e resina analisados em 2 tipos de interfaces diferentes, e são mostrados no quadro 3. As fi guras (2 a 7) são uma seleção de imagens obtidas em MEV em aumento de 400 vezes, representativas de cada grupo estudado.

As restaurações à base de resina composta, ainda que associadas a sistemas adesivos atuais, não proporcionam o perfeito selamento das paredes cavitárias, tanto em esmalte quanto em dentina. A contração de polimerização da resina composta proporciona fendas na interface dente/restauração especialmente quando se utilizam materiais para proteção pulpar, dentre os quais os cimentos de ionômero de vidro.

A contração de polimerização da resina composta é a principal responsável pela formação de fendas nas paredes das restaurações. A reação de polimerização dos materiais poliméricos atuais se dá através da ativação de substância fotossensível, a canforoquinona, que reage com o agente iniciador ou inibidor para formar radicais livres, que por sua vez se unirão às moléculas de monômeros. Assim, as moléculas de monômeros unem-se quimicamente, formando as cadeias poliméricas, em cujo processo há uma diminuição dos espaços entre as moléculas através de uniões covalentes mais curtas entre as unidades de monômeros, o que leva a um encurtamento de cadeias e conseqüente contração de polimerização (ANUSAVICE, 1998). Essa contração é, portanto, inerente às resinas compostas, e, segundo CHRISTENSEN, 1999, persistirão até que resinas sem contração ou portadoras de monômeros que expandam durante a reação de polimerização estejam disponíveis no mercado. Enquanto isso, os materiais utilizados como protetores pulpares, que apresentarem resistência de união à dentina insufi ciente para resistir as forças geradas pela contração de polimerização da resina composta, poderão sofrer deslocamentos e originarão fendas ou poderão ter sua confi guração de película alterada.

Os sistemas adesivos têm apresentado melhoras sensíveis na contenção e selamento das paredes laterais das cavidades, que podem ser observados pelo aumento da resistência de união e resistência a microinfi ltração. O condicionamento ácido promove desmineralização da estrutura dental e proporciona retenções micromecânicas que serão ocupadas pelos monômeros resinosos. Esse microembricamento proporciona suficiente resistência adesiva para suportar

Fig 1 - Vista esquemática das cavidades; 1: espaço para alojamento da base protetora de cimento de ionômero de vidro; 2: espaço para resina composta.

a contração de polimerização da resina composta, como demonstrado no G1(sistema adesivo/resina composta), onde foram encontrados valores concordantes com a afi rmação citada acima, sendo a porcentagem de interfaces com e sem fendas, 25% e 75% respectivamente. Este baixo resultado de presença de fendas reforça ainda mais o conceito de que os sistemas adesivos podem atuar como amortecedores do estresse gerado na polimerização da resina composta (ZHENG et al, 2001).

Não somente as fendas, mas também a degradação das resinas, a qual ocorre em toda superfície restaurada, são problemas que ainda permanecem. São mais signifi cativos na região das margens cavitárias ou interfaces, onde as conseqüências são a perda do vedamento marginal, resultando na passagem através dessa interface dente/restauração de bactérias, fl uídos, substâncias químicas, moléculas e íons, o que tem sido considerado fator primordial para o insucesso do tratamento restaurador (BROWNE e TOBIAS, 1986). Várias e diferentes técnicas têm sido propostas para minimizar os efeitos da contração de polimerização, desde a técnica incremental associada ao uso de matrizes transparentes e cunhas refl ectivas, proposta por LUTZ et al. (1986), até a associação de materiais e modifi cação de técnicas, quando se procura reunir as propriedades de cada um em áreas específi cas onde tenham melhor desempenho sob a forma de incrementos, como quando se utiliza uma base de proteção sob a restauração, associando cimentos de ionômero de vidro com resina composta (MCLEAN et al., 1985; MENEZES, 2002). No grupo 2 empregou-se o cimento de ionômero de vidro convencional, o sistema adesivo e a resina composta, e a contração de polimerização da resina deslocou o material de proteção, gerando fendas entre este e a dentina em 100% das amostras, como também proporcionou uma linha de fratura entre o cimento de ionômero de vidro e a resina composta na totalidade das amostras.

O cimento de ionômero de vidro apresenta propriedades que recomendam o seu uso como base de restaurações. Dentre essas propriedades, destacam-se a biocompatibilidade, a adesão a estrutura dental e a liberação de fl uoretos. Com a incorporação de componentes resinosos em sua formulação, o cimento de ionômero de vidro apresentou também melhores resultados quanto à resistência a fratura e ao desgaste (HOTTA e AONO, 1994). No grupo 3, onde foram empregados sistema adesivo, cimento de ionômero de vidro modifi cado por resina e resina composta, observou-se um desempenho estatisticamente diferente quando comparado ao cimento de ionômero de vidro convencional, pois mesmo apresentando fendas em 100% das amostras na interface dentina/cimento de ionômero de vidro, o cimento de ionômero de vidro modifi cado por resina não apresentou fendas na interface cimento de ionômero de vidro/ resina composta, demonstrando que o componente resinoso do cimento de ionômero de vidro apresenta união química mais efi caz com a resina composta que com a dentina.

O sistema adesivo total-etch One Coat Bond foi utilizado na totalidade das técnicas adesivas e verifi cou-se que ele tem relação direta com a presença ou ausência de fendas.

Grupo Material protetor e material restaurador Descrição da técnica empregada

G1 -Sistema Adesivo

-Resina Composta

. Limpeza da cavidade com clorexidine 2% durante 1 minuto;

. Condicionamento de esmalte e dentina com ácido fosfórico 36% durante 20 segundos;

. Lavagem com spray ar/água durante 15 segundos e secagem com algodão; . Aplicação ativa de 1 camada do adesivo;

. Fotopolimerização* durante 10 segundos com distanciador de 10 m;

. Aplicação da resina composta em dois incrementos: um cervical e outro oclusal; . Fotopolimerização* de cada incremento durante 20 segundos.

-Cimento de Ionômero de Vidro Convencional

-Sistema Adesivo

-Resina Composta

. Limpeza da cavidade com clorexidine 2% durante 1 minuto;

. Proporcionamento e manipulação do cimento de ionômero de vidro convencional;

. Aplicação da base de cimento de ionômero de vidro com aplicador Dycal(Fig. 2);

. Aguarda-se a cristalização do cimento de ionômero de vidro por 5 minutos; . Condicionamento de esmalte e dentina com ácido fosfórico 36% durante 20 segundos;

. Lavagem com spray ar/água durante 15 segundos e secagem com algodão; . Aplicação ativa de 1 camada do adesivo; . Fotopolimerização* durante 10 segundos com distanciador de 10 m;

. Aplicação da resina composta em dois incrementos: um cervical e outro oclusal;

. Fotopolimerização* de cada incremento durante 20 segundos.

-Cimento de Ionômero de Vidro Modificado por Resina

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