Evolução História da Engenharia de Segurança

Evolução História da Engenharia de Segurança

EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA ENGENHARIA DE SEGURANÇA

ESTUDOS DE H.W. HEINRICH E R.P. BLAKE - (Idéia de acidentes com danos à propriedade - acidentes sem lesão)

Foram os primeiros a apontar que apenas a reparação de danos não era suficiente e sim a necessidade de ações tão ou mais importantes, que além de assegurar o risco de acidentes (pela abordagem tradicional acidente = lesão) tendessem a prevení-los.

Heinrich pertencia a uma companhia de seguros dos Estados Unidos e em 1926, a partir da análise de acidentes do trabalho liquidados por sua companhia, iniciou uma investigação nas empresas em que os acidentes haviam ocorrido, tentando obter informações sobre os gastos adicionais que as mesmas haviam tido, além das indenizações pagas pelo seguro. Os dados refletiam a média da indústria americana, não sendo sua intenção, no entanto, generalizar esta estimativa para todos os casos de levantamento de custos de acidentes nas empresas.

Desta forma, Heinrich chamou de custos diretos os gastos da companhia seguradora com a liquidação de acidentes, e de custos indiretos as perdas sofridas pelas empresas em termos de danos materiais e de interferências na produção. Com relação a estes custos, em 1931 Heinich revelou em sua pesquisa a relação 4:1 (custos indiretos : custos diretos) entre os custos dos acidentes, ou seja, os custos indiretos eram cerca de 4 vezes maiores do que os custos diretos, para a indústria como um todo.

De acordo com DE CICCO (1984) a consistência e o significado da proporção de 4 para 1 são extremamente fracos, e o fato de não ter sido utilizado nenhum modelo padronizado para o cálculo dos referidos custos torna o emprego desta proporção totalmente inviável, além do que, a necessidade da realização de estudos específicos e da não generalização deriva também do fato de que esta relação poder variar de 2,3:1 até 100:1, não sendo objetivo do autor aplicar tal proporção em casos individuais e específicos.

Em 1947, a partir dos estudos de outro norte-americano R.H.Simonds apud DE CICCO (1984), os termos custo direto e custo indireto de Heinrich foram substituídos, respectivamente, por custo segurado e custo não segurado. O método proposto por Simonds, para o cálculo dos custos de acidentes, enfatiza a realização de estudos-piloto em cada empresa, dos custos associados a quatro tipos básicos de acidentes: lesões incapacitantes, casos de assistência médica, casos de primeiros socorros e acidentes sem lesão.

Foi Heinrich quem introduziu pela primeira vez a idéia de acidentes sem lesão, ou seja, os acidentes com danos a propriedade. Sob este enfoque são considerados todos aqueles acidentes que, de uma forma ou de outra, comprometem o andamento normal de uma atividade, provocando danos materiais.

As proporções obtidas entre os diversos tipos de acidentes: com lesão incapacitante, com lesões não incapacitantes e acidentes sem lesão, obtidos pelos estudos de Heinrich, são os representados na figura 1.

De acordo com a pirâmide de Heinrich observa-se que para 1 acidente com lesão incapacitante , correspondiam 29 acidentes com lesões menores e outros 300 acidentes sem lesão. Esta grande parcela de acidentes sem lesão não vinha sendo considerada, até então, em nenhum aspecto, nem no financeiro e nem no que tange aos riscos potenciais que implica à saúde e vida do trabalhador caso algum fator contribuinte (ato ou condição insegura) os transformassem em acidentes com perigo de lesão.

Figura 1. – Pirâmide de Heinrich (1931)

Heinrich apud HEMÉRITAS (1981), em sua obra "Industrial Accident Prevention", aponta que os acidentes de trabalho, com ou sem lesão, são devidos à personalidade do trabalhador, à prática de atos inseguros e à existência de condições inseguras nos locais de trabalho. Supõe-se, desta forma, que as medidas preventivas devem ater-se ao controle destes três fatores causais. Neste ponto, pode-se ter uma idéia da importância e do não esquecimento dos mecanismos tradicionais, pois o reconhecimento e identificação das causas podem ser realizados através da coleta de dados durante a investigação dos acidentes. O uso dos quadros estatísticos baseados nesta coleta podem ser fundamentais para elaboração e programação da prevenção de acidentes.

Anos mais tarde, R. P. Blake analisando o assunto sob o mesmo ponto de vista de Heinrich, chegou a formular com ele afirmativas e sugestões, visando a diminuição da perda por acidentes. Do ponto de vista destes autores as empresas, mais do que promover medidas de proteção social a seus empregados, deveriam efetivamente preocupar-se em evitar os acidentes, sendo eles de qualquer natureza. Esta sugestão estava calcada no pressuposto de que, segundo suas observações, apesar das empresas direcionarem esforços na proteção social de seu empregado, as perdas materiais com acidentes continuavam a ser de grande magnitude sendo que, muitas vezes, os acidentes com danos à propriedade tinham as mesmas causas ou, pelo menos, causas semelhantes aos dos acidentes pessoais.

ESTUDOS DE FRANK E. BIRD JR. - (Controle de Danos, Prevenção de Perdas, Controle de Perdas)

Apesar de já haver sido alertado por Heinrich duas décadas antes, foi somente na década de 50 que tomou forma nos E.U.A um movimento de grande valorização dos programas de prevenção de riscos de danos materiais.

O Conselho Nacional de Segurança dos E.U.A., em 1965, concluiu que em dois anos o país havia perdido em acidentes materiais uma parcela que se igualava ao montante de perdas em acidentes pessoais, chegando as perdas a uma cifra de US$ 7,2 e US$ 7,1 bilhões para danos materiais e pessoais respectivamente. E mais, em 1965 os acidentes com danos materiais nas empresas superavam, quase em duas vezes, as perdas com danos materiais em acidentes de trânsito no ano de 1964, ficando as perdas em um valor de US$ 1,5 bilhões para estes e de US$ 2,8 bilhões para aqueles. Nesta mesma época estimativas semelhantes começaram a ser realizadas pelas empresas.

Em 1915 a Luckens Steel, empresa siderúrgica da Filadélfia, havia nomeado um Diretor de Segurança e Bem-Estar conseguindo, com isto, reduzir, até 1954, o coeficiente de freqüência de 90 para 2 acidentes pessoais por milhão de homens-hora trabalhados. Igual sucesso, porém, não obteve na redução dos acidentes graves com danos à propriedade sofridos pela empresa neste mesmo ano. Os controles de medição de custos e programas executados durante os 5 anos subsequentes serviram para mostrar à gerência, os grandes danos incorridos na empresa por decorrência de acidentes materiais. Em 1956, reconhecendo a importância do problema, os acidentes com danos à propriedade eram, então, incorporados aos programas de prevenção de lesões já existentes na empresa.

Face aos resultados satisfatórios obtidos, o ano de 1959 foi adotado como base para o futuro, sendo o custo dos danos à propriedade observado neste ano-base de US$ 325.545 por milhão de horas-homem trabalhadas. Em 1965 o mesmo custo era estimado em US$ 137.832 por milhão de horas-homem trabalhadas, com uma redução, durante estes 7 anos, de US$ 187.713.

Na Luckens Steel, Bird desenvolveu seus estudos e iniciou um programa de Controle de Danos, que sem descuidar dos acidentes com danos pessoais - o homem é o fator preponderante em qualquer programa de engenharia de segurança -, tinha o objetivo principal de reduzir as perdas oriundas de danos materiais. A motivação inicial para seu trabalho foram os acidentes pessoais e a consciência dos acidentes ocorridos durante este período com ele e seus companheiros de trabalho, já que o próprio Bird fora operário da Luckens Steel. Estes dois fatores aliados levaram-no a se preocupar com a área de segurança. Os quatro aspectos básicos do programa por ele elaborado foram: informação, investigação, análise e revisão do processo.

Em 1966, baseando sua teoria de Controle de Danos em uma análise de 90.000 acidentes ocorridos na Luckens Steel, durante um período de mais de 7 anos, observou que do total, 145 acidentes foram incapacitantes, 15.000 acidentes com lesão e 75.000 foram acidentes com danos à propriedade. Assim, Bird chegou a proporção entre acidentes pessoais e com danos à propriedade mostrada na figura 2.2.

Pela pirâmide de Bird, na figura 2., observa-se que para cada acidente com lesão incapacitante, ocorriam 100 pequenos acidentes com lesões não incapacitantes e outros 500 acidentes com danos à propriedade.

Bird, em seu trabalho, também estabeleceu a proporção entre os custos indiretos (não-segurados) e os diretos (segurados), obtendo a proporção 6,1:1. O objetivo do estabelecimento de tais custos foi o de mostrar como cada empresa pode estimar os seus individuais. Cabe ressaltar que a proporção de Bird (6,1:1) não é mais significativa do que a proposta, por exemplo, por Heinrich (4:1), e que cada empresa deve, na verdade, fazer inferências sobre os resultados dos próprios dados levantados.

Figura 2. – Pirâmide de Bird (1966)

Ao invés de simples slogans, como era comum na época, o trabalho de Bird teve o mérito de apresentar dados com projeções estatísticas e financeiras, além das perdas materiais e pessoais sofridas pela empresa.

Apesar disto, nos últimos 10 anos não houve diminuição significativa na taxa de freqüência de acidentes havendo, isso sim, uma diminuição de cerca de 50% na taxa de gravidade dos mesmos.

Segundo Bird apud OLIVEIRA (1991) a forma de se fazer segurança é através do combate a qualquer tipo de acidente e que a redução das perdas materiais liberará novos recursos para a segurança.

Mais tarde, os estudos de Bird foram denominados de Controle de Perdas e os programas gerenciais como Administração do Controle de Perdas, cuja visão, anos mais tarde, foi bastante ampliada pelos estudos de Fletcher que incorpora outros fatores como: proteção ao meio ambiente, qualidade, projeto, confiabilidade, etc.

ESTUDOS DA INSURANCE COMPANY OF NORTH AMERICA (ICNA) - (Dados estatísticos sobre acidentes pessoais e materiais)

Seguindo-se aos estudos de Bird, em 1969 a ICNA analisou e publicou um resumo estatístico de dados levantados junto a 297 empresas que empregavam cerca de 1.750.000 pessoas, onde foram obtidos 1.753.498 relatos de ocorrências. Esta amostra, consideravelmente maior, propiciou chegar-se a uma relação mais precisa que a de Bird e Heinrich quanto à proporção de acidentes, além de incluir um fato novo - os quase acidentes.

Como pode-se observar na figura 3, as proporções obtidas pela ICNA demonstram que, para cada acidente com lesão grave associam-se 10 acidentes com lesão leve, 30 acidentes com danos à propriedade e 600 acidentes sem lesão ou danos visíveis - os quase acidentes.

Cabe aqui ressaltar a importância da inclusão dos acidentes sem lesão ou danos visíveis, pois, por serem quase-acidentes os mesmos nos revelam potenciais enormes de acidentes, ou seja, situações com risco potencial de ocorrência sem que tenha havido, ainda, a perda pessoal ou não pessoal.

Figura 3. – Pirâmide da ICNA (1969)

Apesar do objetivo da ICNA ser exclusivamente econômico-financeiro, os resultados apresentados são de grande importância não só para evitar as perdas materiais, mas também para evitar as perdas pessoais, já que se o acidente "quase ocorreu", a perda também "quase aconteceu" e se realmente ocorresse, poderia ser tanto material como pessoal.

ESTUDOS DE JOHN A. FLETCHER E H.M. DOUGLAS (Controle Total de Perdas)

Os estudos de Fletcher e Douglas vieram aprofundar os trabalhos de Bird.

Em 1970, Fletcher propôs o estabelecimento de programas de Controle Total de Perdas, ou seja, a aplicação dos princípios do Controle de Danos de Bird a todos os acidentes com máquinas, materiais, instalações, meio ambiente, etc. sem, contudo, deixar de lado ações de prevenção de lesões.

Objetivando reduzir e eliminar todos os acidentes que pudessem interferir ou paralisar o sistema, os programas de Controle Total de Perdas preocupam-se com todo e qualquer tipo de evento que interfira negativamente no processo produtivo, prejudicando a utilização plena do pessoal, máquinas, materiais e instalações.

A filosofia de Fletcher é a que mais se aproxima dos modernos programas de segurança. Cabe ressaltar, que apesar de generalizar as atividades para outros campos não pessoais, os acidentes pessoais são obrigatoriamente parte integrante dos programas de segurança que seguem esta filosofia.

ESTUDOS DE WILLIE HAMMER (Engenharia de Segurança de Sistemas)

Apesar do grande avanço ocorrido com as filosofias de Controle de Danos de Bird e Controle Total de Perdas de Fletcher, as mesmas incluíam somente práticas administrativas, quando os problemas de prevenção de perdas também exigiam e exigem soluções de ordem técnica.

A partir de 1972, criou-se uma nova mentalidade, fundamentada nos trabalhos de Willie Hammer, atentando-se para a necessidade de dar um enfoque sob o ponto de vista de engenharia às abordagens de administração e de controle de resultados preconizados por Heinrich, Bird, Fletcher e outros. Segundo ele, as atividades administrativas eram muito importantes, porém, existiam problemas técnicos que obrigatoriamente teriam que ter soluções técnicas.

A experiência na área de projetos e participação na força aérea e nos programas espaciais norte-americanos permitiu ao engenheiro e especialista na área de Engenharia de Segurança de Sistemas, Willie Hammer, reunir as diversas técnicas utilizadas na força aérea e aplicá-las, após adaptação, na indústria. Estas técnicas, com alto grau de integração com a Engenharia de Confiabilidade, demonstraram ser de grande valia na preservação dos recursos humanos e materiais dos sistemas de produção.

Os estudos de Hammer vieram ajudar a compreender melhor os erros humanos. Muitos desses erros são provocados por projetos ou materiais deficientes e, por este mesmo motivo, devem ser debitados à organização e não ao executante - o operário.

CONSIDERAÇÕES GERAIS

A partir dos estudos realizados, grande desenvolvimento ocorreu na área de segurança. Passando de um enfoque puramente informativo para corretivo, preventivo e por último um enfoque que, englobando todos os demais, procura integrar toda a organização num esforço conjunto de dar proteção ao empregado, resguardando sua saúde e sua vida e propiciando o progresso da organização como empresa.

Como conclusões e resultados dos enfoques abordados pode-se citar vários pontos:

a) Os enfoques tradicionais e os programas de segurança dirigidos apenas à prevenção de lesões estão corretamente sendo substituídos por outros, onde todas as ocorrências que interfiram na produção e na plena utilização dos recursos, além da proteção ao meio ambiente são consideradas em conjunto, isto sem colocar a proteção pessoal em segundo plano. Muito pelo contrário, ao abranger um número maior de situações, maior atenção e proteção se dá ao homem, objetivo primeiro de todo e qualquer programa;

b) Os estudos de Bird e seus antecessores, que deram forma a sistemática de Controle de Danos, fornecem métodos para aferir, controlar e projetar as possíveis perdas dos sistemas produtivos, por isso não devem ser preteridas;

c) Os preceitos formulados por Bird e a complementação dada por Fletcher e Douglas permitiram a criação de uma doutrina administrativa, permitindo às empresas estabelecer programas gerais de segurança, que além de considerar os danos pessoais, também considera outros danos, como os danos à propriedade e ainda os quase-acidentes. As técnicas de recursos humanos, de motivação, treinamento, dinâmica de grupo, que são conceitos consagrados de administração de empresas, juntamente com outras técnicas sistemáticas de cálculos, correlações e projeções de custos são utilizadas por estas doutrinas, aplicando-as às possíveis perdas advindas de acidentes com danos pessoais e materiais. Além destas técnicas, outras já aplicadas na segurança tradicional foram adaptadas, ampliando seu enfoque para programas mais participativos e responsáveis do ponto de vista das gerências, em todos os níveis e mais abrangentes quanto às áreas envolvidas;

d) Tornou-se necessário uma visão mais técnica para complementar os estudos de Bird e Fletcher, pois os problemas relacionados com o processo produtivo, a manutenção e o projeto tinham, até então, soluções específicas muito no plano filosófico. Conforme preconizado por Hammer, a visão técnica aliada à doutrina administrativa permite o conhecimento dos riscos de uma atividade através de custos mais baixos. Embora possa-se pensar que estes programas esqueçam o homem e fixam-se nos resultados econômico-financeiros, a experiência tem mostrado que estes programas são eficazes tanto para redução de perdas materiais quanto de pessoais. Quando corretamente aplicados, estes programas poderão melhorar a segurança de forma direta, como também na aplicação dos recursos financeiros advindos da redução das perdas dos acidentes;

e) O trabalhador, ao participar de um programa mais amplo poderá conhecer melhor os riscos a que está exposto e quais as medidas eficazes para sua redução ou eliminação, pois através de educação e treinamento ele será mais preciso nas suas atividades, já que possuirá um maior conhecimento da tecnologia que opera reduzindo, por sua iniciativa ou exigindo de terceiros, os efeitos da mesma sobre si.

O PREVENCIONISMO

INTRODUÇÃO

Na década de 60 os trabalhos de diversos autores de renome mundial apontavam para a ineficácia e pobreza dos enfoques dos programas de engenharia de segurança tradicional.

Dado o seu enfoque limitado e calcado basicamente sobre algumas estatísticas que não refletiam a gravidade real do problema, o que ocorria era uma estagnação de resultados, não havendo suficiente engajamento por parte de empregados e empregadores.

Os estudiosos do problema analisaram aspectos concernentes à engenharia de segurança e lançaram as "doutrinas preventivas de segurança".

Estas doutrinas formam hoje o que chamamos de "Prevenção e Controle de Perdas", concebidas como um conjunto de diretrizes administrativas, onde os acidentes são vistos como fatos indesejáveis, cujas causas podem ser evitadas.

As doutrinas possuem visões diferenciadas sobre os acidentes, suas causas e conseqüências, como também sobre as medidas preventivas a adotar. Porém, embora diferentes, elas têm como ponto em comum o princípio de que a atividade de segurança só é eficaz quando, conhecidas as causas dos acidentes fixa-se a atuação sobre as mesmas, buscando a sua eliminação e necessitando para isso, o envolvimento de toda a estrutura organizacional.

Nesta abordagem considera-se que existem perdas empresariais como: produtos fora de especificação, agressão ao meio-ambiente, perdas com materiais, desperdícios e paradas de produção, que são provocadas por causas semelhantes às perdas provocadas por acidentes com lesões pessoais.

Dentro da metodologia de Prevenção e Controle de Perdas, a teoria de Controle de Danos de Bird ampliada pelo Controle Total de Perdas de Fletcher e, aliados aos conceitos tradicionais de segurança, enfatizam a ação administrativa na tarefa de prevenção e controle das perdas. Já a Engenhaira de Segurança de Sistemas ampliando tal postura, defende que problemas técnicos prescindem de soluções técnicas.

Modernamente, a divulgação e aplicação das metodologias de Análise de Segurança de Sistemas com o auxílio da Teoria da Confiabilidade, vem consolidando o conceito de que a Prevenção e Controle de Perdas é uma diretriz de posturas administrativas, com o objetivo principal de conhecer os riscos de uma atividade e promover medidas tanto administrativas quanto técnicas para seu controle e prevenção.

A EVOLUÇÃO DO PREVENCIONISMO

O início da Revolução Industrial em 1780, a invenção da máquina a vapor por James Watts em 1776 e do regulador automático de velocidade em 1785, marcaram profundas alterações tecnológicas em todo o mundo.

Foi este avanço tecnológico que permitiu a organização das primeiras fábricas modernas, a extinção das fábricas artesanais e o fim da escravatura, significando uma revolução econômica, social e moral.

Porém, foi com o surgimento das primeiras indústrias que os acidentes de trabalho e as doenças profissionais se alastraram, tomando proporções alarmantes. Os acidentes de trabalho e as doenças eram, em grande parte, provocados por substâncias e ambientes inadequados, dadas as condições subumanas em que as atividades fabris se desenvolviam, e grande era o número de doentes e mutilados.

Apesar de apresentar algumas melhoras com o surgimento dos trabalhadores especializados e mais treinados para manusear equipamentos complexos, que necessitavam cuidados especiais para garantir maior proteção e melhor qualidade, esta situação ainda perdurou até a Primeira Guerra Mundial. Até esta data apenas algumas tentativas isoladas para controlar os acidentes e doenças ocupacionais haviam sido feitos. A partir de sua real constatação surgem as primeiras tentativas científicas de proteção ao trabalhador, com esforços voltados ao estudo das doenças, das condições ambientais, do lay-out de máquinas, equipamentos e instalações, bem como das proteções necessárias para evitar a ocorrência de acidentes e incapacidades.

Durante a Segunda Grande Guerra, o movimento prevencionista realmente toma forma, pois foi quando pôde-se perceber que a capacidade industrial dos países em luta seria o ponto crucial para determinar o vencedor, capacidade esta, mais facilmente adquirida com um maior número de trabalhadores em produção ativa.

A partir daí, a Higiene e Segurança do Trabalho transformou-se, definitivamente, numa função importante nos processos produtivos e enquanto nos países desenvolvidos este conceito já é popularizado, os países em desenvolvimento lutam para implantá-lo.

Nos países da América Latina, a exemplo da Revolução Industrial, a preocupação com os acidentes do trabalho e doenças ocupacionais também ocorreu mais tardiamente, sendo que no Brasil os primeiros passos surgem no início da década de 30 sem grandes resultados, tendo sido inclusive apontado na década de 70 como o campeão em acidentes do trabalho. Apesar disto, pode-se dizer que atualmente nós, latino-americanos, evoluímos muito neste campo.

A problemática econômica, sócio-econômica, humana, psicológica tem tal magnitude que pode-se afirmar que um país em vias de desenvolvimento só sairá deste estágio com sucesso, se os acidentes e doenças do trabalho estiverem sob controle.

Sob o aspecto humano, a preservação da integridade física é um direito de todo o trabalhador, pois a incapacidade permanente para o trabalho poderá transformá-lo num inválido, com a conseqüente perda para a Nação.

Segundo HEMÉRITAS (1981), a Segurança do Trabalho, para ser entendida como prevenção de acidentes na indústria, deve preocupar-se com a preservação da integridade física do trabalhador e também precisa ser considerada como fator de produção. Os acidentes, provocando ou não lesão no trabalhador, influenciam negativamente na produção através da perda de tempo e de outras conseqüências que provocam, como: eventuais perdas materiais; diminuição da eficiência do trabalhador acidentado ao retornar ao trabalho e de seus companheiros, devido ao impacto provocado pelo acidente; aumento da renovação de mão-de-obra; elevação dos prêmios de seguro de acidente; moral dos trabalhadores afetada; qualidade dos produtos sacrificada.

De acordo com SOTO (1978), as cifras correspondentes aos acidentes do trabalho representam um entrave ao plano de desenvolvimento sócio-econômico de qualquer país, cifras estas que se avolumam sob a forma de gastos com assistência médica e reabilitação dos trabalhadores incapacitados, indenizações e pensões pagas aos acidentados ou suas famílias, prejuízos financeiros decorrentes de paradas na produção, danos materiais aos equipamentos, perdas de materiais, atrasos na entrega de produtos e outros imprevistos que prejudicam o andamento normal do processo produtivo.

Desta forma, de algumas décadas passadas até nossos dias, estudiosos dedicaram-se ao estudo de novas e melhores formas de se preservar a integridade física do homem e do meio em que atua, através do controle e, o que é mais importante, da prevenção dos riscos potenciais de acidentes.

Assim, em diversos países surgiram e evoluíram ações voltadas, inicialmente, à prevenção de danos causados às pessoas advindos de atividades laborais. Foram elaboradas normas e disposições legais com o fim social de reparação de danos às lesões pessoais. Surge o seguro social, realizando, até hoje, ações assegurando o risco de acidentes, ou seja, o risco de lesões.

Entretanto, a medida que a preocupação quanto a reparação das lesões se avolumava, estudiosos como H.W. Heinrich e Roland P. Blake apontavam com outro enfoque, onde além de assegurar o risco de lesões, indicavam a importância de ações que tendessem a prevenir os acidentes antes dos mesmos se tornarem fato concreto.

Juntamente ao seguro social, começaram então a desenvolverem-se estudos e criaram-se técnicas que propiciaram a evolução do prevencionismo.

Um dos primeiros e significativos avanços no controle e prevenção de acidentes foi a teoria de Controle de Danos concretizada nos estudos de Bird e complementada pela teoria de Controle Total de Perdas de Fletcher. Com a Engenharia de Segurança de Sistemas introduzida por Hammer, surgem as técnicas de análise de riscos com o que hoje se tem de melhor em prevenção. A visão do acidente sobe a um patamar onde o homem é o ponto central, rodeado de todos os outros componentes que compõe um sistema: equipamentos, materiais, instalações e hoje, numa visão mais moderna de qualidade, o meio ambiente e a preservação à natureza. Cabe ressaltar que ao buscar-se o objetivo abrangente da prevenção e controle de perdas, quer pelo Controle de Danos, Controle Total de Perdas ou Engenharia de Segurança de Sistemas, se está buscando mais intensamente a proteção do homem.

Antes de iniciarmos ao estudo das teorias de controle e prevenção de perdas e das técnicas por elas utilizadas, e facilitar seu entendimento, é necessário introduzir algumas definições básicas dos termos fundamentais em gerenciamento de riscos como: ato inseguro, condição insegura, perigo, risco, acidente, etc., que veremos a seguir.

DEFINIÇÕES BÁSICAS

"Acidentes ocorrem desde os tempos imemoriais, e as pessoas têm se preocupado igualmente com sua prevenção há tanto tempo. Lamentavelmente, apesar do assunto ser discutido com frequência, a terminologia relacionada ainda carece de clareza e precisão. Do ponto de vista técnico, isto é particularmente frustrante, pois gera desvios e vícios de comunicação e compreensão, que podem aumentar as dificuldades para a resolução de problemas. Qualquer discussão sobre riscos deve ser precedida de uma explicação da terminologia, seu sentido preciso e inter-relacionamento."

De acordo com a assertiva de Hammer apud DE CICCO e FANTAZZINI (1994), é importante que antes de prosseguir o estudo quanto à evolução do prevencionismo e gerenciamento de riscos em geral, sejam definidos alguns termos básicos.

Incidente Crítico (ou quase-acidente): É qualquer evento ou fato negativo com potencialidade para provocar dano. Também chamados quase-acidentes, caracterizam uma situação em que não há danos macroscópicos ou visíveis. Dentro dos incidentes críticos, estabelece-se uma hierarquização na qual basear-se-ão as ações prioritárias de controle. Na escala hierárquica, receberão prioridade aqueles incidentes críticos que, por sua ocorrência, possam afetar a integridade física dos recursos humanos do sistema de produção.

Risco: - Como sinônimo de Hazard: Uma ou mais condições de uma variável com potencial necessário para causar danos como: lesões pessoais, danos a equipamentos e instalações, danos ao meio-ambiente, perda de material em processo ou redução da capacidade de produção. A existência do risco implica na possibilidade de existência de efeitos adversos. - Como sinônimo de Risk: Expressa uma probabilidade de possíveis danos dentro de um período específico de tempo ou número de ciclos operacionais, podendo ser indicado pela probabilidade de um acidente multiplicada pelo dano em valores monetários, vidas ou unidades operacionais. Risco pode ainda significar: - incerteza quanto à ocorrência de um determinado evento (acidente); - chance de perda que uma empresa pode sofrer por causa de um acidente ou série de acidentes.

Perigo: Como sinônimo de Danger, expressa uma exposição relativa a um risco que favorece a sua materialização em danos. Se existe um risco, face às precauções tomadas, o nível de perigo pode ser baixo ou alto, e ainda, para riscos iguais pode-se ter diferentes tipos de perigo.

Dano: É a gravidade da perda, seja ela humana, material, ambiental ou financeira, que pode ocorrer caso não se tenha controle sobre um risco. O risco (possibilidade) e o perigo (exposição) podem manter-se inalterados e mesmo assim existir diferença na gravidade do dano.

Causa: É a origem de caráter humano ou material relacionada com o evento catastrófico (acidente ou falta) resultante da materialização de um risco, provocando danos.

Perda: É o prejuízo sofrido por uma organização sem garantia de ressarcimento através de seguros ou por outros meios.

Sinistro: É o prejuízo sofrido por uma organização, com garantia de ressarcimento através de seguros ou por outros meios.

Segurança: É a situação em que haja isenção de riscos. Como a eliminação completa de todos os riscos é praticamente impossível, a segurança passa a ser um compromisso acerca de uma relativa proteção da exposição a riscos. É o antônimo de perigo.

Ato inseguro: São comportamentos emitidos pelo trabalhador que podem levá-lo a sofrer um acidente. Os atos inseguros são praticados por trabalhadores que desrespeitam regras de segurança, que não as conhecem devidamente, ou ainda, que têm um comportamento contrário à prevenção.

Condição Insegura: São deficiências, defeitos ou irregularidades técnicas na empresa que constituem riscos para a integridade física do trabalhador, para sua saúde e para os bens materiais da empresa. As condições inseguras são deficiências como: defeitos de instalações ou de equipamentos, falta de proteção em máquinas, má iluminação, excesso de calor ou frio, umidade, gases, vapores e poeiras nocivos e muitas outras condições isatisfatórias do próprio ambiente de trabalho.

Acidente: É uma ocorrência, uma perturbação no sistema de trabalho, que ocasionando danos pessoais ou materiais, impede o alcance do objetivo do trabalho.

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