Propagação de plantas frutiferas

Propagação de plantas frutiferas

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Em relação à composição nutricional, um conteúdo equilibrado de alguns nutrientes como o fósforo, o potássio o cálcio e o magnésio favorece o enraizamento. Ainda que o nitrogênio seja necessário para a síntese de proteínas e ácidos nucléicos, essenciais ao enraizamento, seu teor em excesso pode ser prejudicial. O excesso de manganês também pode prejudicar o enraizamento.

O zinco é ativador do triptofano, precursor da auxina, e deve estar presente para que se dê a formação de raízes. Cuidados devem ser tomados, especialmente, com o conteúdo excessivo de nitrogênio e de manganês na planta-mãe, demonstrando a importância de um adequado manejo de adubação das plantas-matrizes para obtenção das estacas.

Em estudos realizados para se estabelecer uma relação entre a capacidade de enraizamento de estacas de pessegueiro e o teor endógeno de triptofano, verificou-se que os maiores percentuais de enraizamento, número e peso da matéria seca das raízes foram encontrados nos meses em que havia menores teores de triptofano nos ramos. Isso leva a concluir que o triptofano tenha se convertido para AIA, com maior quantidade de auxina endógena presente.

Idade da planta-matriz As estacas provenientes de plantas jovens enraízam com mais facilidade e isso se manifesta com mais freqüência em espécies de difícil enraizamento. Possivelmente, esse fato esteja relacionado com o aumento no conteúdo de inibidores e com a diminuição no conteúdo de co-fatores do enraizamento, à medida que aumenta a idade da planta.

É recomendável a obtenção de brotações jovens em plantas adultas, que mesmo não caracterizando uma verdadeira condição de juvenilidade, apresentam maior potencial de enraizamento.

Tipo de estaca

Em espécies de fácil enraizamento, a importância do tipo de estaca na formação de raízes tem menor significado. Entretanto, quanto maior for a dificuldade de formação de raízes adventícias, maior será a necessidade da correta escolha do tipo de estaca.

O tipo mais adequado de estaca varia com a espécie ou com a cultivar. Como a composição química do tecido varia ao longo do ramo, estacas provenientes de diferentes porções do mesmo tendem a diferir quanto ao enraizamento. Assim, em estacas lenhosas, o uso da porção basal geralmente proporciona melhores resultados. Isso pode ser devido ao acúmulo de substâncias de reserva e um menor teor de nitrogênio (resultando uma relação C/N mais favorável) e à presença de iniciais de raízes pré-formadas nessa região. Fato inverso se observa com estacas semilenhosas, para as quais os maiores percentuais de enraizamento são obtidos com a porção mais apical. Nesse caso, isso pode ser atribuído a uma maior concentração de promotores do enraizamento, pela proximidade dos sítios de síntese de auxinas, e à menor diferenciação dos tecidos.

Estacas com gemas floríferas tendem a enraizar menos que aquelas provenientes de ramos vegetativos em fase de crescimento ativo, o que mostra um antagonismo entre a floração e o enraizamento, pois as flores mobilizam as reservas da estaca e abrem antes que o processo de iniciação de raízes tenha ocorrido.

Estacas mais lignificadas geralmente apresentam maior dificuldade de enraizamento do que estacas de consistência mais herbácea e semilenhosa.

Época do ano

A época do ano está estreitamente relacionada com a consistência da estaca, sendo que aquelas coletadas num período de crescimento vegetativo intenso (primavera/verão) apresentam-se mais herbáceas e, de modo geral, em espécies de difícil enraizamento, mostram maior capacidade de enraizamento. Estacas coletadas no inverno possuem um grau de lignificação e tendem a enraizar menos.

Entretanto, estacas menos lignificadas (herbáceas e semilenhosas) são mais propícias à desidratação e à morte, requerendo um manejo adequado em relação ao ambiente, ao passo que estacas lenhosas podem até mesmo ser enraizadas no campo.

Em muitos casos, especialmente em espécies caducifólias, as estacas lenhosas dormentes são preferidas em função da sua facilidade de obtenção, transporte e manuseio.

No que se refere à época mais adequada para obtenção das estacas, há diferença entre espécies, sendo que algumas enraízam melhor no início da primavera e outras, de folhas grandes e persistentes, desde a primavera até o fim do outono. A influência da época de coleta das estacas no enraizamento pode ser, também, atribuída a condições climáticas, especialmente em relação à temperatura e à disponibilidade de água.

Potencial genético de enraizamento

O potencial que uma estaca apresenta para a formação de raízes é variável com a espécie e com a cultivar. Assim, pode ser feita uma classificação como espécie ou cultivar de fácil, médio ou difícil enraizamento, ainda que a facilidade de enraizamento seja resultante da interação de diversos fatores e não apenas do potencial genético.

Sanidade

Em diversas espécies frutíferas, tem-se observado que c10nes livres de vírus têm maior facilidade de enraizamento do que o material com vírus, havendo também efeito das viroses sobre a qual idade das raízes formadas e sobre a variabilidade de resultados, entre diversas estaquias feitas sob as mesmas condições. Da mesma forma que com as viroses, o ataque de fungos e bactérias pode ocasionar a morte das estacas, antes ou após a formação de raízes, podendo afetar a sobrevivência das mesmas ou a qualidade do sistema radicular da muda. A sanidade durante a estaquia é influenciada pelo grau de contaminação do material propagativo, pelo substrato, pela qualidade da água de irrigação e pelos tratamentos fitossanitários que venham a ser feitos nesse período.

Balanço hormonal o equilíbrio entre os diversos fitohormônios tem forte influência no enraizamento de estacas. Assim, é necessário que haja um balanço adequado, especialmente entre auxinas, giberelinas e citocininas. Uma das formas mais comuns de favorecer o balanço hormonal, para o enraizamento, é a aplicação exógena de fitorreguladores sintéticos, tais como o AIB, o ANA e o AIA, que elevam o teor de auxinas no tecido.

Oxidação de compostos fenólicos

Em algumas especies, especialmente as pertencentes à família Myrtaceae, o forte escurecimento dos tecidos na região do corte da estaca, ocasionado pela oxidação de compostos fenólicos, pode dificultar a formação de raízes. Ao entrarem em contato com o oxigênio, os diferentes tipos de fenóis nos tecidos iniciam reações de oxidação, cujos produtos resultantes são tóxicos ao tecido. A oxidação desses compostos pode ser minimizada com o uso de substâncias anti- oxidantes, tais como o ácido ascórbico, o PVP (polivinilpirrolidona), o ácido cítrico e o Dieca (dietilditiocarbamato), além de outros. Têm sido obtidos resultados preliminares que demonstram a importância do controle da oxidação no cultivo in vitro.

Entretanto, a significância e a eficiência do controle da oxidação na propagação por estacas ainda carecem de maiores informações, visto que os resultados obtidos até o momento são incipientes.

Fatores externos

Temperatura - O aumento da temperatura favorece a divisão celular na formação de raízes. Contudo, especialmente em estacas herbáceas e semilenhosas, estimula uma elevada taxa de transpiração, induzindo o murchamento da estaca. Além disso, pode favorecer a brotação das gemas antes que o enraizamento tenha ocorrido, o que é indesejável. O aquecimento do leito de enraizamento ou substrato, com temperaturas que vão de 18°C a 21°C, estimula o enraizamento. Isso é importante para a multiplicação por estacas de espécies de difícil enraizamento.

Luz - A importância da luz no enraizamento está relacionada à fotossíntese e à degradação de compostos fotolábeis, como as auxinas. Geralmente, a baixa intensidade luminosa sobre a planta-mãe, antes da coleta das estacas, tende a favorecer a formação de raízes, provavelmente devido à preservação das auxinas e de outras substâncias endógenas em detrimento aos compostos fenólicos.

Por sua vez, a presença de luz durante o enraizamento de estacas, com folhas, pode favorecer a emissão e o desenvolvimento do sistema radicular.

O estiolamento dos ramos, dos quais serão retiradas as estacas, facilita o enraizamento e é uma prática recomendada, especialmente no caso de espécies de difícil enraizamento. Na região basal da estaca, onde serão formadas as raízes, é necessário que se mantenha um ambiente completamente escuro.

Umidade - Para que haja divisão celular, é necessário que as células se mantenham túrgidas. O potencial de perda de água numa estaca é muito grande, seja por meio das folhas seja por meio das brotaçães em desenvolvimento, especialmente considerando-se o período em que não há raízes formadas. A perda de água é uma das principais causas da morte de estacas. Portanto, a prevenção do murchamento é especialmente importante em espécies que exigem um longo tempo para formar raízes e nos casos em que são utilizadas estacas com folhas ou de consistência mais herbácea. O uso da nebulização intermitente (Fig. 4) permite a redução da perda de umidade pela formação de uma película de água sobre as folhas, além da diminuição da temperatura e da manutenção da atividade fotossintética das mesmas nas estacas.

Por sua vez, a alta umidade favorece o desenvolvimento de patógenos, para os quais devem ser dispensados cuidados especiais.

Substrato - O substrato destina-se a sustentar as estacas durante o enraizamento, mantendo sua base num ambiente úmido, escuro e suficiente aerado.

Os efeitos do substrato, tanto sobre o percentual de enraizamento quanto sobre a qualidade das raízes formadas, relacionam-se especialmente com a porosidade, a qual afeta o teor de água retida e seu equilíbrio com a aeração.

Diferentes materiais são utilizados como meios para enraizamento, como, por exemplo, areia, vermiculita, casca de arroz carbonizada, turfa, solo ou a mistura de ambos.

Condicionamento do ramo antes da estaquia - Em espécies de difícil enraizamento, alguns tratamentos que venham a ser realizados previamente à coleta dos ramos antes do preparo da estaca, podem permitir melhores resultados.

Em diversos casos, o condicionamento é fundamental para que se possa obter um percentual de enraizamento satisfatório. Como exemplos, podem ser citados o tratamento com fitorreguladores, o anelamento, o estiolamento e a dobra dos ramos, antes da estaquia.

Técnicas de estaquia

Para que a estaquia seja feita com sucesso, é necessário que se observem alguns aspectos:

Obtenção do material propagativo - No momento da coleta das estacas, deve-se selecionar como planta-matriz aquela que possui identidade conhecida, características peculiares da espécie ou da cultivar, além de apresentar ótimo estado fitossanitário, vigor moderado e não apresentar danos provocados por déficit hídrico, geadas ou outras intempéries.

A planta-matriz deve estar numa condição nutricional equilibrada.

Esses requisitos são necessários para se obter bons resultados.

Na produção comercial de mudas, é recomendável a obtenção do material propagativo junto a blocos de matrizes, ou coleções de cultivares em instituições de pesquisa para evitar-se o uso de material contaminado por viroses. A posição e o tipo de ramo, de onde serão obtidas as estacas, são variáveis conforme a espécie. Recomenda-se o uso de ramos de crescimento vigoroso. No caso de estacas lenhosas, pode ser utilizado o material descartado pela poda, para obtenção de material propagativo.

Época de coleta das estacas - Conforme citado anteriormente, a época do ano afeta o potencial de formação de raízes, especialmente em espécies de difícil enraizamento. Para cada espécie, são necessários testes para se verificar, empiricamente, qual a época mais adequada para a coleta das estacas. Essa época está mais relacionada com as condições fisiológicas da planta do que com um período fixo do ano. A princípio, desde que se disponha de estrutura com nebulização intermitente, a coleta de estacas pode ser feita em qualquer época.

Podem ser estabelecidos três períodos principais de coleta de material para estaquia, quais sejam:

Período de repouso - Nesse período, são utilizadas estacas com alto grau de lignificação, denominadas estacas lenhosas. Em espécies caducifólias, o uso de estacas com gemas dormentes é bastante difundido, pela simplicidade, baixo custo e viabilidade de uso em diversas espécies, especialmente aquelas de fácil enraizamento.

Não é necessário o uso de estruturas especiais (estufas, nebulização e outras), sendo possível em alguns casos, como o da figueira, a estaquia diretamente no viveiro. Geralmente, são utilizados ramos de 1 ano, ainda que em algumas espécies possam ser utilizadas estacas - ou porções destas - de 2 anos.

É mais recomendável o uso de estacas medianas e basais, porque estas apresentam maior acúmulo de reservas, provenientes da estação de crescimento anterior. As estacas podem ser obtidas no fim do outono, no inverno (dormência plena) ou no início da primavera. Geralmente, a coleta é feita de maio a agosto. A coleta de estacas no fim da dormência pode causar a brotação das gemas, especialmente devido ao aumento da temperatura nessa época. Isso provoca a perda de umidade da estaca e, como ainda não houve formação das raízes e a absorção de água, a brotação torna-se prejudicial ao enraizamento.

Em algumas espécies perenifólias (com folhagem permanente), o uso de estacas lenhosas tem proporcionado bons resultados. Nesse caso, como as estacas possuem

Isso é importante devido à variabilidade da temperatura nessa época

folhas, é necessário o uso de estruturas de propagação, mesmo no período de inverno.

Período de intenso crescimento vegetativo (primavera) - Nessa época, as estacas apresentam baixo grau de lignificação e elevada atividade do câmbio. Resultam da fase mais ativa de crescimento dos ramos e apresentam uma consistência bastante herbácea. Ainda que estacas com essa consistência sejam típicas da primavera, em alguns casos estacas semelhantes podem ser obtidas durante o verão e até mesmo no outono. Em diversas espécies de difícil enraizamento, têm sido obtidos bons resultados com a estaquia nessa época, como no caso do pessegueiro, da ameixeira e do araçazeiro. Estacas desse tipo enraízam com facilidade e rapidez (2 a 5 semanas, na maioria dos casos). Por serem muito tenras, deve-se ter maior cuidado com essas estacas, para se evitar a desidratação e o ataque de microrganismos. Mesmo num sistema de nebulização, a perda de água pode ser a causa de grande mortalidade de estacas.

Além disso, a coleta deve ser feita preferencialmente no início da manhã, quando a umidade do ar é mais elevada, visando minimizar o murchamento dos ramos e das estacas. Para tanto, é recomendável acondicionar os ramos em baldes ou sacos de

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