Propagação de plantas frutiferas

Propagação de plantas frutiferas

(Parte 7 de 12)

As células somáticas e os tecidos apresentam a capacidade de regeneração de órgãos adventícios.

A propagação vegetativa consiste no uso de órgãos da planta, sejam eles estacas da parte aérea ou da raiz, gemas ou outras estruturas especializadas, ou ainda meristemas, ápices caulinares, calos e embriões. Assim, um vegetal é regenerado a partir de células somáticas, sem alterar o genótipo, devido à multiplicação mitótica.

O uso desse tipo de propagação permite a formação de um clone, grupo de plantas provenientes de uma matriz em comum, ou seja, com carga genética uniforme e com idênticas necessidades edafodimáticas, nutricionais e de manejo.

Enquanto em fruticultura a propagação sexuada tem importância restrita, a propagação assexuada é largamente utilizada na produção de mudas. Isso se deve à necessidade de se garantir a manutenção das características varietais, que determinam o valor agronômico do material a ser propagado, em espécies de elevada heterozigose, como as frutíferas.

A utilização da propagação assexuada diz respeito à multiplicação, tanto de portaenxertos, quanto da cultivar-copa. A importância e a viabilidade da utilização da propagação assexuada são uma função da espécie ou da cultivar, da capacidade de regeneração de tecidos (raízes ou parte aérea), do número de plantas produzidas, do custo de cada processo e da qualidade da muda formada. De modo geral, o uso da propagação assexuada justifica-se nos seguintes casos:

Propagação de espécies e cultivares que não produzem sementes viáveis, como, por exemplo, limão-tahiti, laranja-de-umbigo e figueira.

Perpetuação de clones, pois as frutíferas são altamente heterozigotas e perderiam suas características com a propagação sexuada.

A escolha do método a ser utilizado depende da espécie e do objetivo do propagador. Basicamente, um bom método de propagação deve ser de baixo custo, fácil execução e proporcionar um elevado percentual de mudas obtidas.

Dada a sua larga utilização na multiplicação de plantas frutíferas, a propagação assexuada apresenta diversas vantagens, que a torna, muitas vezes, mais viável que a propagação sexuada. São vantagens da propagação assexuada:

Permitir a manutenção do valor agronômico de uma cultivar ou done, pela perpetuação de seus caracteres.

Possibilitar que se reduza a fase juvenil, uma vez que a propagação vegetativa mantém a capacidade de floração pré-existente na planta-mãe. Assim, há redução do período improdutivo.

Permitir a obtenção de áreas de produção uniformes devido à ausência de segregação genética. Assim, plantas obtidas por propagação assexuada apresentam maior uniformidade fenológica, bem como resposta idêntica aos fatores ambientais, o que permite uma definição mais fácil das práticas de manejo a serem executadas no futuro pomar.

Permitir a combinação de clones, especialmente quando a enxertia é utilizada. Como desvantagens da propagação assexuada, podem ser apontadas:

A possibilidade de transmissão de doenças, especialmente as causadas por vírus e fitoplasmas.

A possibilidade de contaminação do material utilizado na propagação vegetativa (estacas, ramos e gemas) por vetores ou pelo uso de ferramentas.

O uso prolongado das mesmas plantas-matrizes aumenta o risco de propagação de doenças.

Os patógenos associados à propagação vegetativa induem fungos (Phytophthora sp., Pythium sp., Rhizoctonia sp.), bactérias (Erwinia sp., Pseudomonas sp. e

Agrobacterium tumefasciens), vírus e fitoplasmas.

Ainda que a manutenção dos caracteres seja citada como uma vantagem, pode ocorrer, ao longo do tempo, uma mutação das gemas, podendo ser gerado um clone diferenciado e de menor qualidade que a planta-matriz. Entre plantas de um clone, podem ocorrer mudanças que resultam em degenerescência e variabilidade do mesmo.

A exposição a um ambiente continuamente desfavorável pode conduzir à deterioração progressiva do done, manifestada em perda gradual do vigor e da produtividade, ainda que o genótipo básico não se altere. A degenerescência do done é causada, principalmente, por doenças de natureza virótica. O uso inadvertido das mesmas matrizes, sem que uma prévia indexagem tenha sido realizada, aumenta o risco de propagação de doenças e de degenerescência do done. Além disso, a replicação do DNA (ácido desoxirribonucléico), durante a divisão celular no meristema, pode resultar em alterações no genótipo e originar mutações. Na variabilidade de um c1one, o efeito da mutação depende da taxa de mutação e da extensão que as células oriundas da célula mutante original ocupam dentro do meristema. Entretanto, como as células do meristema são relativamente estáveis e menos sujeitas a mutações, a significância das mutações, em boas condições fitossanitárias, é reduzida.

A ausência de variabilidade gerada no c10ne pode levar a problemas na futura área de produção, aumentando o risco de danos em todas as plantas por problemas climáticos ou fitossanitários, uma vez que foram fixadas todas as características varietais e todas as plantas têm a mesma combinação genética.

As principais vantagens e desvantagens da propagação assexuada são resumidas na Tabela 2.

Geralmente, espécies frutíferas que se propagam, assexuadamente, são altamente heterozigotas e segregam amplamente, quando se reproduzem por via sexuada. Assim, a propagação assexuada é imprescindível em casos onde há interesse em se manter a identidade do genótipo, ou seja, obter-se um número infinito de plantas, com a mesma constituição genética, a partir de um único indivíduo. A propagação assexuada é especial mente útil para manter a constituição genética de um c10ne ao longo das gerações. O clone é definido por Hartmann et ai. (1990) como "o material geneticamente uniforme derivado de um só indivíduo e que se propaga de modo exclusivo, por meios vegetativos como estacas, divisões ou enxertos".

O clone também pode ser conceituado como "um grupo de organismos que descendem por mitoses de um antecessor comum". Como o fenótipo de um indivíduo é resultante da interação do genótipo com o ambiente, plantas de um mesmo c10ne podem ter diferentes aspectos, em função do clima, do solo e do manejo das plantas.

Um dos problemas sérios apresentados pela propagação vegetativa é o chamado envelhecimento dos clones, fenômeno causado pelo acúmulo de diversos tipos de vírus, responsáveis pela perda de vigor e da produtividade dos clones.

Nesse caso, algumas das soluções que podem ser apontadas, são: o cultivo de meristemas, a termoterapia e podas drásticas na planta-matriz, a fim de estimular a produção contínua de brotações juvenis para propagações subseqüentes, entre outros, bem como o uso associado desses métodos.

Um meio de se preservar o clone e de se eliminar um vírus é proporcionado pelo cultivo de plântulas apomíticas, como tem sido usado em citrus, para obtenção de plântulas nucelares, que são a base de novas estirpes, livres de vírus, de variedades antigas que se encontram fortemente afetadas por viroses.

Uma vez testados e aprovados, os clones podem ser mantidos em . jardins clonais, que seriam a fonte de material vegetativo para uso subseqüente, sem a necessidade de se coletar propágulos de indivíduos mais idosos e o conseqüente risco de transmissão de doenças. Esses jardins clonais devem ser mantidos em condições que impeçam a contaminação e que permitam esdarecer qualquer mudança em relação ao tipo original.

Durante as diferentes fases do crescimento vegetativo de um done, ocorrem milhares de divisões celulares. Quanto maior o período em que o done é multiplicado, maior o risco de alterações genéticas.

A propagação vegetativa dos indivíduos superiores, em grande escala, proporciona vantagens no manejo dos pomares, em função da uniformidade dos tratos culturais requeridos e da qualidade da matéria-prima produzida.

Assim como na propagação assexuada, a escolha das matrizes é fundamental para o sucesso da propagação e para a qualidade da muda. As plantas-matrizes devem ser obtidas em órgãos oficiais de pesquisa (Embrapa, empresas estaduais de pesquisa, universidades, dentre outros) ou em empresas idôneas, e caso haja tecnologia adequada, no próprio Viveiro.

Materiais importados devem ser submetidos a quarentena, atividade de responsabilidade do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e de órgãos de pesquisa a ele vinculados. Uma vez obtido, o material deve ser testado (caso isso não tenha sido feito previamente), para verificar se não está contaminado por pragas ou doenças, principalmente por viroses . A verificação da ocorrência de virose numa planta matriz pode ser por meio de três técnicas:

Indexação por inoculação mecânica sobre plantas herbáceas.

Indexação por enxertia em plantas indicadoras.

Indexação por meio de testes soro lógicos, como o teste de Elisa (Enzyme Linked Immunoabsorbant Assay). A obtenção de material livre de doenças pode ser feita por termoterapia (tratamento com ar quente a uma temperatura de 35°C a 43°C por um tempo variável entre 7 a 32 dias, dependendo da virose). A cultura de meristemas in vitro é outra técnica de larga utilização, sendo que os meristemas podem ser extraídos de plantas submetidas à termoterapia. A micro enxertia é também outra técnica bastante eficiente, na qual se utiliza um meristema como enxerto (ou cavaleiro) sobre uma plântula, sob condições in vitro. A propagação assexuada pode ser realizada por meio de diversos métodos, sendo os principais os seguintes:

Estaquia e microestaquia.

Enxertia e microenxertia.

Uso de estruturas especializadas. Mergulhia.

Propagação por Sementes

A propagação por sementes tem aplicação relativamente restrita na fruticultura, embora tenha tido grande utilização no passado. As principais limitações do uso comercial da propagação por sementes são a juvenilidade, o vigor elevado e a variabilidade genética, mesmo entre plantas originadas da mesma planta-matriz. Entretanto, a propagação comercial por sementes é de grande importância:

Na produção de porta-enxertos (citros e pessegueiro).

Em casos em que a semente é a única forma viável de propagação (mamoeiro, coqueiro, maracujazeiro, etc.).

Em espécies em fase inicial de exploração comercial, como é o caso das frutíferas nativas.

Fatores que afetam a germinação das sementes A germinação abrange todo o processo que vai desde a ativação dos processos metabólicos da semente até a emergência da radícula e da plúmula (ápice do eixo do embrião ou da plântula dos vegetais com sementes). O percentual de germinação depende de fatores internos e externos. Como fatores internos, podem ser citados o estado de dormência, a qualidade da semente e o potencial de germinação da espécie.

Os fatores externos mais importantes são água, temperatura, gases e luz (FACHINELLO et ai., 1995; HOFFMANN et ai., 1998; SAMPAIO et ai., 1996).

Dormência A dormência representa uma condição em que o conteúdo de água nos tecidos é pequeno e o metabolismo das células é praticamente nulo, permitindo que a semente seja mantida sem germinar por um período relativamente longo.

Segundo Hartmann et ai. (1990), a dormência pode ser classificada em:

Dormência devida aos envoltórios da semente

Dormência física - A testa ou partes endurecidas dos envoltórios da semente são impermeáveis à água, mantendo-a dormente (quiescente) devido ao seu baixo conteúdo de umidade.

Dormência mecânica - Os envoltórios impõem uma resistência mecânica à expansão do embrião. Em geral, a dormência mecânica está associada com outras causas de dormência, como a física.

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