Propagação de plantas frutiferas

Propagação de plantas frutiferas

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Maturação do embrião

Destina-se a superar a dormência da semente, por meio do amadurecimento do embrião, ou do estabelecimento de um balanço hormonal favorável à germinação. Isso é obtido pelo armazenamento das sementes em ambiente úmido e frio, por um determinado período (estratificação). Geralmente, o meio adequado para a estratificação é aquele que retém adequado teor de umidade e não contém substâncias tóxicas. Como exemplos, podem-se citar o solo, a areia lavada, o musgo, a vermiculita e a serragem, ou a mistura desses. Camadas de sementes são intercaladas com camadas de substrato à temperatura ambiente, ou em câmaras refrigeradas, com temperaturas entre 0°C e 10°e. a período de armazenamento varia conforme a espécie, sendo que para a maioria, esse período é compreendido entre 1 e 4 meses. Durante a estratificação, deve-se ter cuidado com o teor de umidade do substrato e com a eventual germinação das sementes, antes que o período previsto para a estratificação das mesmas se expire.

Em variedades precoces, nas quais o embrião não está completamente desenvolvido no período em que ocorre a maturação do fruto, muitas vezes é necessário cultivar o embrião em meio de cultura adequado, permitindo que seu desenvolvimento seja completado. Esse processo é utilizado em cultivares precoces de pessegueiro que se destinam ao melhoramento genético, bem como no melhoramento genético de uvas sem sementes.

Manejo das sementes e das sementeiras

Antes da semeadura em viveiro, é importante que se adote um tratamento das sementes com fungicida ou hipoclorito de sódio. Assim, é possível minimizar a ocorrência de doenças que possam vir a prejudicar as plântulas.

A sementeira deve estar localizada fora da área de produção, de preferência em terreno bem drenado, com pequena declividade, com plena exposição à luz e boa disponibilidade de água para irrigação. A má drenagem favorece a ocorrência de uma doença denominada dumping off que afeta a germinação e a sobrevivência das plantas jovens, provocando queda perece. Na verdade, essa doença é causada por fungos pertencentes aos gêneros Pythium, Rhizoctonia e Phytophthora, agentes também causadores de outras doenças de sementeiras.

É recomendável o uso de áreas submetidas a uma prévia rotação de culturas, como forma de reduzir o potencial de inóculo de doenças. Não é aconselhável o uso de uma mesma área como sementeira, por mais de 2 anos. O tratamento do solo é útil para reduzir a incidência de patógenos nas futuras plantas, especialmente considerando-se a sensibilidade das mesmas no estágio de plântula. Esse tratamento pode ser feito com o uso de solarização (tratamento que consiste na cobertura do solo com filme plástico, sob insolação, para aumento da temperatura), uso de calor (por aquecimento direto, vapor d'água ou tratamento em autoclaves de alta pressão), uso de fungicidas ou de agentes de controle biológico (Trichoderma, por exemplo). Em alguns casos, pode ocorrer a esterilização completa do solo, o que pode ser inadequado, considerando-se que organismos benéficos também são eliminados pelos tratamentos. O tratamento do solo será tanto mais eficiente quanto melhor a qualidade sanitária do substrato empregado. A semeadura pode ser feita em covas, diretamente na embalagem, a lanço ou em linha. A semeadura em linha é a mais utilizada em grandes viveiros de pessegueiro e de citros. A quantidade de sementes a ser utilizada deve ser de 3 a 4 vezes o número desejado de plantas, para permitir uma seleção rigorosa. Contudo, deve-se evitar uma densidade muito elevada de plântulas, para que não ocorra redução do tamanho e do vigor, obtendo-se plantas com sistema radicular pouco desenvolvido.

A cobertura das sementes pode ser feita com solo ou areia, e a cobertura do canteiro com uma fina camada de palha. O objetivo da cobertura com palha é impedir o crescimento de plantas invasoras e conservar a umidade do solo. A palha deve ser removida pouco tempo antes da emergência das plântulas.

Cuidados especiais devem ser dispensados no que se refere à irrigação, considerando-se a exigência de água para o processo da germinação e a sensibilidade das plântulas à falta de umidade do solo.

A irrigação deve ser feita por aspersão, com uso de regadores ou de qualquer outro sistema de irrigação, no caso de sementeiras de maior porte. O controle da umidade pode ser feito por avaliação visual, uso de trados, tensiômetros ou pela estimativa da evapotranspiração. O controle de plantas invasoras pode ser feito por métodos químicos' ou mecânicos. A distância entre as linhas deve possibilitar a utilização de implementos agrícolas, e o uso de herbicidas pode ser feito em pré ou pós-emergência. Para definir a forma de controle das plantas invasoras, deve-se considerar a viabilidade econômica de cada método, e a sensibilidade das plantas aos herbicidas.

De acordo com a espécie e o tempo de permanência na sementeira, é aconselhável proceder a adubação de correção e de cobertura. Conforme a exigência da espécie, é importante que o pH seja corrigido, com o uso de calcário.

Se a adubação nitrogenada for necessária, deve ser feita com cautela, pois aplicações em excesso podem criar um desequilíbrio nutricional, que resulta em excesso de crescimento e elevada suscetibilidade a pragas e doenças. Por sua vez, elevadas concentrações de sais, produzidas por excesso de fertilizantes, inibem a germinação.

Dada a sensibilidade das plântulas e a elevada densidade na sementeira, é necessário que se adotem medidas eficientes de monitoramento e controle de pragas e doenças. A partir da sementeira, assim que as mudas atinjam um crescimento satisfatório, são submetidas a uma seleção por tamanho, visando obter-se um padrão adequado das plantas destinadas ao viveiro, quando estarão colocadas em maiores espa- çamentos. No viveiro, as plantas poderão ser utilizadas como porta-enxertos ou como mudas destinadas à formação de pomares. No caso de mudas, é necessário selecionar as plantas próximas a um padrão característico da planta-mãe.

Propagação Vegetativa por Estaquia

Introdução

Estaquia é o termo utilizado para denominar o método de propagação, no qual ocorre a indução do enraizamento adventício em segmentos destacados da planta-mãe que, uma vez submetidos a condições favoráveis, originam uma muda.

A estaquia baseia-se no princípio de que é possível regenerar uma planta, a partir de uma porção de ramo ou folha (regeneração de raízes), ou de uma porção de raiz (regeneração de ramos). Assim, a partir de um segmento, é possível formar-se uma nova planta.

Entende-se por estaca, qualquer segmento da planta capaz de formar raízes adventícias e de originar uma nova planta. A estaquia é um dos principais métodos utilizados na multiplicação de plantas frutíferas. Inúmeras espécies de interesse comercial podem ser propagadas por esse método, destacando-se a produção direta de mudas de figueira, goiabeira, e a propagação de porta-enxertos de videira. Em espécies não comumente propagadas por outros métodos (sementes, mergulhia ou enxertia), a estaquia pode ser uma alternativa viável na produção de mudas. Na propagação comercial, a viabilidade do uso da estaquia é função da facilidade de enraizamento de cada espécie ou cultivar, da qualidade do sistema radicular formado e do desenvolvimento posterior da planta na área de produção. Muitas espécies de folhas caducas - como é o caso do pessegueiro e da ameixeira - não são propagadas comercialmente, por meio de estacas. Contudo, combinando-se uma ou mais técnicas auxiliares, como a nebulização intermitente, a aplicação de fitorreguladores, o anelamento, o estiolamento, a dobra dos ramos, entre outras, os resultados poderão ser satisfatórios e viáveis na maioria das espécies frutíferas. Geralmente, as aplicações da estaquia são:

Multiplicação de variedades ou espécies com aptidão para emitir raízes adventícias.

Produção de porta-enxertos c1onais.

Perpetuação de novas variedades oriundas de processos de melhoramento genético.

Vantagens e desvantagens Como vantagens da estaquia, podem ser destacadas:

Permite que se obtenham muitas plantas a partir de uma única planta-matriz, em curto espaço de tempo.

É uma técnica de baixo custo e de fácil execução.

Não apresenta problemas de incompatibilidade entre o enxerto e o portaenxerto.

Plantas produzidas com porta-enxertos, originados de estacas, apresentam maior uniformidade do que plantas enxertadas sobre mudas oriundas de sementes.

A propagação por estacas, praticamente, não apresenta inconvenientes. Entretanto, nem sempre é viável, especialmente quando a espécie ou cultivar apresenta baixo potencial genético de enraizamento, resultando em pequena percentagem de mudas obtidas.

Por sua vez, mesmo que haja formação de raízes, seu desenvolvimento pode ser insuficiente e o percentual de mudas que sobrevivem após o plantio, no viveiro, pode ser muito baixo. Nesses casos, ainda que seja possível produzir estacas enraizadas, deve-se dar preferência a outros métodos de propagação assexuada.

Classificação

Há várias classificações para as estacas, estabelecidas por diversos autores, adotando-se diferentes critérios (Fig. 1).

Quanto à época de coleta, as estacas podem ser classificadas em: Herbáceas - São obtidas no período de crescimento vegetativo (primavera/verão), quando os tecidos apresentam alta atividade meristemática e baixo grau de lignificação (Fig. 2).

Para alguns autores, são consideradas como estacas herbáceas aquelas com folhas e com tecidos ainda não lignificados, como no caso de estacas com folhas da goiabeira.

Semilenhosas - Quando obtidas no final do verão e início do outono.

Em geral, o termo refere-se a estacas com folhas, porém mais lignificadas que as estacas herbáceas. Entretanto, alguns autores consideram estacas semi-lenhosas aquelas que provêm de ramos não-lignificados, oriundos de plantas lenhosas.

Lenhosas - São obtidas no período de dormência (inverno), quando as estacas apresentam a maior taxa de regeneração potencial e são altamente lignificadas.

A preferência por um ou outro tipo de estaca depende da espécie, da facilidade de enraizamento e da infra-estrutura do viveirista. Este último item refere-se, especialmente, ao fato de que o uso de estacas semi-lenhosas e herbáceas requer instalações com nebulização intermitente, que não são necessárias quando se utilizam estacas lenhosas.

Princípios anatômicos do enraizamento

No momento em que uma estaca é preparada, esta consiste de uma ou mais gemas (sistema aéreo em potencial) e de uma porção de tecido diferenciado, aéreo ou subterrâneo, sem o sistema radicular formado. As raízes formadas na estaca serão, portanto, uma resposta ao traumatismo produzido pelo corte. Assim, dois aspectos são fundamentais no enraizamento de estacas:

Desdiferenciação - Processo pelo qual células de um tecido já diferenciado retornam à atividade meristemática e originam um novo ponto de crescimento. Totipotência - Capacidade de uma só célula originar um novo indivíduo, uma vez que ela contém toda a informação genética necessária, para reconstituir todas as partes da planta e suas funções.

Com o preparo da estaca, há uma lesão dos tecidos, tanto de células do xilema, quanto do floema. Esse traumatismo é seguido de cicatrização, que consiste da formação de uma capa de suberina, que reduz a desidratação na área danificada. Geralmente, nessa área, há a formação de uma massa de células parenquimatosas que constituem um tecido pouco diferenciado, desorganizado e em diferentes etapas de lignificação, denominado calo.

O calo é um tecido cicatricial, que pode surgir a partir do câmbio vascular, do córtex ou da medula, cuja formação representa o início do processo de regeneração. As células que se tornam meristemáticas dividem se e originam primórdios radiculares. Depois, células adjacentes ao câmbio e ao floema iniciam a formação de raízes adventícias (Fig. 3).

Pode-se dividir a formação de raízes adventícias em duas fases.

A primeira fase é de iniciação, caracterizada pela divisão celular. Em seguida, vem a fase de diferenciação das células num primórdio radicular, que resulta no crescimento da raiz adventícia. Geralmente, esses processos ocorrem em seqüência.

Durante a iniciação das raízes, quatro etapas de modificações morfológicas podem ser citadas:

Desdiferenciação de algumas células adultas.

Diferenciação de algumas células em primórdios de raízes próximas aos feixes vasculares.

Formação de primórdios radiculares.

Desenvolvimento dos primórdios e emergência, por meio do córtex e epiderme da estaca, das raízes adventícias, acompanhada da sua conexão com o sistema vascular da estaca. O local de emissão dos primórdios radiculares é bastante variável, conforme a espécie e o tipo de estaca. Em estacas herbáceas - que não possuem um câmbio desenvolvido - os primórdios podem surgir entre os feixes vasculares, e para fora destes, e as raízes podem emergir em filas, acompanhando os feixes vasculares. As raízes adventícias também podem ser formadas a partir da epiderme e do periciclo.

Os primórdios se formam em estacas lenhosas, a partir do xilema secundário jovem, geralmente, num ponto correspondente à entrada do raio vascular. Também podem ser formados primórdios a partir do câmbio, do floema, das lenticelas ou da medula.

À medida que o ramo se torna mais lignificado, o local de formação das raízes parece se deslocar em direção centrípeta, ou seja, em estacas semilenhosas, originadas do floema, e em estacas lenhosas, do câmbio. Geralmente, as raízes adventícias se originam próximas ao cilindro vascular.

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