Fundamentos da Educação de Surdos

Fundamentos da Educação de Surdos

(Parte 4 de 5)

- Filhos do Silêncio - Seu nome é Jonah

QUADROS, Ronice. Educação de surdos: a aquisição da linguagem, Porto Alegre: Artes Médicas, 1997

SKLIAR, Carlos (org.) Atualidade da Educação Bilíngüe para Surdos. Processos e projetos pedagógicos. Volume I Porto Alegre: Editora Mediação, 1999.

_ Atualidade da Educação Bilíngüe para Surdos. Interfaces entre pedagogia e lingüística. Volume I Porto Alegre: Editora Mediação, 1999

FERNANDES, Eulália (org). Surdez e Bilingüismo. Porto Alegre: Editora Mediação, 2005.

4- IDENTIDADES SURDAS FUNDAMENTANDO A EDUCAÇÃO. AS IDENTIFICAÇÕES E OS LOCAIS DAS IDENTIDADES

O substantivo surdo nunca é suficiente. O ser surdo realmente não me basta: eu preciso conhecer nossas políticas culturais. (Autor desconhecido)

A educação que os surdos queremos tem fundamentos numa série de pressupostos culturais entre eles deve estar inserida na identidade, alteridade, cultura e diferença surda.

Para ter uma imagem da identidade, vamos entrar na idéia de que não existe uma concepção única de identidade. Stuart Hall (1997, p 1) na introdução a um artigo cita três concepções como sendo ligadas as diferentes teorias contemporâneas. Assim, para ele, a identidade iluminista está concebida como sendo centrada, unificada, dotada de capacidades de razão com um núcleo interior; a identidade sociológica é concebida refletindo a complexidade do mundo moderno onde o sujeito se forma ao redor de uma gama de representações e na interação com a sociedade; por fim a identidade pós-moderna que ele cita como não sendo fixa, centrada, e em constante mudança, em transformação , ou seja, as identidades pós-modernas são múltiplas, isto é, contraditórias umas as outras e estão em constante construção.

Como temos o objetivo de mapear as identidades surdas vamos entrar numa outra concepção. Trata-se daquilo que Hall (1997, p. 51) questiona: “como o sujeito é colocado em termo de suas identidades culturais?” que é onde conseguimos localizar o sujeito surdo. Woodward (2000, p. 18) através da pesquisa observa que a cultura é a que “molda a identidade ao dar sentido à experiência e ao tornar possível optar entre varias identidades possíveis, por um modo especifico de subjetividade”. A cultura oferece um modo de construir significados e símbolos que influenciam e direcionam nossas ações com as quais podemos nos identificar, construir nossa identidade enquanto surdos, identificar e dar sentido aos significados e significâncias como grupo, ou como povo.

Assim a cultura surda é constituída de significantes e significados, tal como é contada nas narrativas surdas. Vejamos alguns aspectos da cultura surda contidos nas narrativas surdas. Primeiramente temos narrativas pedagógicas onde enfatiza o jeito surdo de ensinar, onde apela por estratégias de ensino visuais, transmissão de conhecimentos em língua de sinais, com presença de professores surdos; as narrativas da política pedem outras considerações em ralação às leis, métodos de educação, saúde; as narrativas lingüísticas que apelam pela diferença e autenticidade de nossa língua de sinais; as narrativas da identidade remetem a que o sujeito subjetiva e simplesmente se reconheça surdo; as narrativas das artes como literatura, teatro, piadas, bem como na poesia, que, como disse Raquel Sutton Spencer (2005), enfatizam e celebram a beleza e a complexidade de nossa língua de sinais, pedem respeito a nossa diferença enquanto surdos, constroem relacionamentos sociais e nos defendem das ameaças à nossa identidade, transmitem valores culturais motivando a troca de experiências sobre o ser surdos, celebram o sucesso do surdo e do povo surdo. Estas narrativas, sem pretender esgotar sobre o assunto remetem para a riqueza e expressividade da cultura surda.

Narrativas culturais - geralmente na teoria cultural se identifica como narrativas aqueles discursos dos sujeitos ou grupos que estão marcados por praticas culturais.

É nesta série de narrativas que enfatizam nossa cultura, moldam a nossa identidade que vamos tecendo a nossa identificação dos surdos. Vale a afirmação de Hall (2003, p: 83) “todos nos localizamos em vocabulários culturais e sem eles não conseguimos produzir enunciações enquanto sujeitos culturais”. A cultura surda tem seus locais pelos quais convido você, agora, a transitar, alguns locais onde as identidades surdas se constituem. Porém lembre-se que a identidade surda não fica restrita a estes pontos de identificação, ela principalmente se constitui no encontro eu-outro.

Para iniciar, temos um exemplo. As concentrações surdas de Porto

Alegre tem sido um tema constante nas narrativas. Foi lá que entre os anos de 1986 a nossos dias iniciou uma nova fase pela política surda nos aspectos principais que movimentaram os direitos dos surdos no Brasil e redirecionaram a política nacional para os surdos: educação, direitos, língua, saúde, leis, defesas culturais e pesquisas. Assim sendo, Porto Alegre é local capaz de lançar luzes de identificação política e cultural, uma cidade de referencia identitária para os surdos do Brasil. Aquela cidade contém a historia de vida de muitos sujeitos surdos e enfatiza como aconteceram os elos fortes, os embates o local de memória aquilo que poderíamos denominar de terra de origem, de determinação de construir identidades surdas. Muitos surdos do Brasil todo buscam Porto Alegre, lugar que pode soar como “um novo começo, empenhar de novo, levar uma vida melhor”no dizer de Sarup ( p. 269).

Mas seria errôneo ver Porto Alegre como único local de identificação.

Isto adere do fato de que as identidades surdas são múltiplas. Há locais que estabelecem elos e as identidades aceitam estes fragmentos. Assim ser surdo da capital gaúcha não é o mesmo que ser surdo do interior gaúcho.

Na verdade existem identificações com o local. Assim a identidade surda também se constitui no local. Se olharmos as interferências da família, da associação, da escola, da cidade, do interior nas identidades veremos elas se constituírem diversamente. Vamos a estes locais:

Notadamente temos referido constantemente a família como espaço e local de identificação. A identidade surda prioriza acontecer na família onde os pais são surdos visto ser portadora de elementos culturais constitutivos da identidade. As famílias de pais ouvintes, cujos terrenos são preparados para o novo membro surdo com elementos da cultura surda como seja: língua, pedagogia, lutas, etc, favorecem a diferença de identidade. Apreensivamente porem a família onde a presença do elemento surdo se constitui em preconceito e em estereotipo a aquisição da identidade surda fica comprometida e este sujeito poderá negar-se a posições de transgressão e consequentemente negando-se a adotar estratégias culturais e textuais nas relações de poder, isto porque a posição critica que estas ocupam está em situação de negação e consequentemente nega a subjetividade surda.

Um outro espaço acontece em face de escola x cultura surda. Temos aqui três das muitas perspectivas educacionais como sejam. A escola na perspectiva ouvicentrica onde todas as assimilações se identificam ao ouvinte; a escola que prima pela perspectiva da diversidade cultural como nas posições da inclusão, do bilingüismo e do multiculturalismo1 em que, simplesmente a estratégia pedagógica tolera o surdo seja em crenças distorcidas2 , seja tratando psicologicamente, seja negando os processos de diferenciação, cultivando sentimentos de boa vontade. No entanto a identidade surda é uma construção, um efeito, um processo e é crucial a adoção de uma teoria pedagógica que descreva e explique o processo de construção de identidade e diferença surdos. A escola como espaço de identificação opta pela presença de professores surdos eles não são aquilo que identificamos como modelo de

1 De acordo com Thompson (2005, p. 23), a teoria critica a qual pertence o multiculturalismo, simplesmente entrega a uma abordagem da cultura como diversidade. A citada ideologia relevante de superioridade cultural em relação a algumas culturas, mostrando com que algumas culturas sejam mais poderosas relativisa a cultura surda e tende a faze-la desaparecer colocando em risco a subjetividade surda. 2 Para uma melhor visualização do problema ver Silva, 2000, p 98.

comportamento, mas o que identificamos como espaço ou marco de identificação cultural. Esta escola opta também por um currículo no qual insere a abordagem da diferença cultural ou seja, no caso surdo, a língua, a história, o jeito surdo de ensinar e leva em conta precisamente as contribuições da teoria cultural recente. Entendendo como Silva (2000, p. 100) “os estudantes e as estudantes surdos devem ser estimulados a explorar as possibilidades de perturbação, de transgressão, de subversão das identidades de fronteira denunciando a artificialidade”. Isto porque a cultura surda sempre tem uma oposição as particularidades da cultura ouvinte e encontra sua forma profunda, a estrutura profunda de sua vida cultural na visão. Ela aceita as particularidades decodificando e codificando-as novamente. Por definição a cultura surda é um espaço contraditório, um local de contestação estratégica. Ela não pode ser explicada por termos de oposições binárias.

Identidades de fronteiras - são as identidades ouvintes segundo as quais o surdo nalguns modelos de educação está obrigado a narrar-se espelhar-se e que na ótica de skliar se denomina ouvintismo.

Por fim temos as associações dos surdos, tidos como um destes espaços de re-identificação crescente. Nestes locais onde acontece o que Ian Chambers (1995) eloquentemente expressa: “como linguagem, estilo, que vai dominar o movimento e dar-lhe forma”. Com a chegada do sujeito surdo, num primeiro momento a associação é como espaço de deslocamentos da cultura ouvinte, ou seja, para o surdo,deslocamento da cultura velha, opressora, marginalizadora. Num segundo momento acontece a descolonização o sujeito surdo entra na luta pelo que é do surdo: desmitologização do estereotipo, celebração do ser surdo, identificação do mundo ao jeito surdo. A identidade está ligada a estruturas discursivas e narrativas daí o sujeito em certo sentido realizou mudança ao adquirir experiências, prazeres, memória e tradições surdas. Um exemplo disto é que o surdo que freqüenta a associação de surdos traz consigo uma gama dos ritmos da vida, modos naturais e espontâneos de articular práticas cotidianas modos de ler o mundo criticamente ou ao seu jeito de ser surdo. O surdo, no deslocamento da família e da escola ovicentricas, vêse transgredindo, construindo sua identidade, fortalecendo-se para as relações de poder.

- HALL, Stuart, A Identidade Cultural na Pós-Modernidade, Rio de Janeiro,DP&A Editora, 2004.

5- O ENCONTRO SURDO-SURDO NA DETERMINAÇÃO DAS IDENTIDADES SURDAS.

O ser surdo está presente como sinal e marca de uma diferença, de uma cultura e de uma alteridade que não equivale à dos ouvintes. Autor desconhecido

Para prosseguirmos com os fundamentos da educação vamos agora analisar alguns pontos sobre a identificação surda, vamos entrar num ensaio na questão do ser surdo, vamos entrar em nossa diferença como surdos, olhar nossas questões de proximidade, enquanto necessidade de sutura como surdos.

Vamos ensaiar nossa identidade subordinada a nosso semelhante surdo. Inicialmente vamos analisar o que uma professora surda sinalizou em língua de sinais sobre seu passado quando aconteceu o seu encontro surdosurdo.

[] aquilo no momento de meu encontro com os outros surdos era o igual

que eu queria, tinha a comunicação que eu queria. Aquilo que identificava eles identificava a mim também e fazia ser eu mesma, igual. (Perlin, 1998, p. 54)

Trago para você esta citação que é uma das melhores afirmações e que motivou meu impulso na pesquisa da identidade surda. Daí podemos deduzir que a identidade surda sempre está em situação de necessidade do outro surdo para se formar, se constituir, buscar signos e significados para a sua identificação. Então de nosso ensaio chegamos a uma questão cultural porque a identidade está motivando um grupo, o grupo que somos como surdos. Daí o que nos identifica sempre se constituirá através da cultura surda.

CONCEITO Encontro surdo-surdo: Processo de encontro entre dois sujeitos surdos em que acontece a sutura. O termo sutura pode ser usado em Estudos Culturais para referir ao processo pelo qual o sujeito constrói sua identidade em interação com o outro semelhante.

Partimos agora para olhar algumas considerações sobre identidade: A identidade cultural ou social é um conjunto dessas características pelas quais os grupos sociais se definem como grupos : aquilo que eles são, entretanto é inseparável daquilo que eles não são, daquelas características que os fazem diferentes de outros grupos. (Silva 1998, p. 58).

Nesse contexto, cultura surda é trazida como elemento constituidor de nossas identidades como surdos, na relação de poder com os ouvintes e na produção de significados a respeito de nós, do nosso grupo, de outros grupos culturais. O encontro surdo-surdo representa, pois, a possibilidade de troca de significados3 de constituição de identidades. Assim, o outro igual, o mesmo, é aquele que usa a mesma língua e que consegue construir possibilidades de troca efetiva e compartilhar o processo político que significa e dá sentido.

Sutura: em cirurgia médica significa a costura de dois tecidos. Segundo Silva 2000, o termo foi utilizado por Alain –Miller para se referir ao processo pelo qual o sujeito sutura seu eu ao meio.

seja: língua de sinais, identidades, pedagogia, política, leis, artes, etc

Cultura surda: Os resultados das interações dos surdos com o meio em que vivem, os jeitos de interpretar o mundo, de viver nele se constitui no complexo campo de produções culturais dos surdos com uma serie de produções culturais que podem ser todas como produções culturais ou

- PERLIN, Gládis T.T. Identidades surdas. In Skliar Carlos (org.) A Surdez: um olhar sobre as diferenças. Porto Alegre: Editora Mediação, 1998

1- AS IDENTIDADES SURDAS MULTIFACETADAS.

Estamos agora olhando para os fundamentos da educação de surdos referente ao fato de que a identidade surda segue um processo que poderíamos dizer uma unidade fictícia provocada pela diferença cultural. Isto acontece porque os surdos se orientam com base em compromisso comum com certo número de forcas centrípetas culturais. Estas forcas culturais são muitas, são diferentes e concorrem para enriquecer com a presença de diferentes identidades. Abaixo alguns pontos que promovem a representação de diferentes identidades:

REFLEXÃO o múltiplo, devido às vezes ao hibridismo, sempre é presente entre os surdos; assim temos: múltiplos jeitos de ser surdo; múltiplas identidades; múltiplas culturas surdas.

Primeiramente vamos notar o caso que nos embates do exercício de poder, ou melhor, do funcionamento das relações de poder, de ação interventora e defensora a identidade surda apesar da interferência cultural nunca será imóvel, fixa, pronta. Ela é móvel, isto é está sempre em construção, mudando, inovando, transformando, contradizendo.

Também podemos por outro lado, notar que a identidade surda sempre é vigiada por agentes devidamente autorizados de outras culturas. Daqueles que, em dados momentos históricos, querem propor uma identidade única a todos. Isso acontece até nos momentos de simples debate e transforma-se em luta intersticial. Nestes embates de fronteiras também se moldam identidades surdas.

Luta Intersticial: quando o encontro entre eu e outro se transforma em espaço de produção que reverte em significados, trocas, construções identitárias.

Também há o momento em que o surdo não quer ser prejudicado nos contatos culturais e intersticiais, e costuma abrir para uma discussão de princípios comuns tratados como “sagrados”, ou seja apela para uma ação intercultural onde se buscam, estudam, modificam símbolos e significados para a constituição da identidade. As trocas interculturais também serão sempre constituídoras de múltiplas identidades.

O quadro acima permite que nos refiramos as múltiplas identidades visto que podemos notar diferenças marcantes entre diferentes momentos pelos quais passam os surdos. Vejamos exemplos de algumas das diferentes identidades:

- no itinerário da diáspora - no cordão da tradição

- os surdos híbridos

- nas posições da diferença no itinerário da diáspora ou seja aqueles com a presença espacial onde concorrem fatores da geografia, da historia atividades interculturais com diferentes elementos ou seja africanos, asiáticos, europeus.

no cordão da tradição: aqueles que possuem uma identidade cultural que no dizer de Hall (2004, 29) estão primordialmente em contato com o núcleo imutável e atemporal, ligando ao passado e ao futuro e o presente numa linha ininterrupta.

os surdos híbridos: aqueles que desagregaram elementos autênticos culturais. Ou seja aqueles que realizaram aspectos com a cultura de fronteira.

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