(Parte 1 de 13)

Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo — Vol 13 — No 1 — Janeiro/Fevereiro de 20031

KRIEGER EM A evolução do conhecimento e a criação das Sociedades de

Hipertensão

Neste artigo será feita uma breve síntese histórica sobre a evolução da pesquisa e a criação de novos conhecimentos em hipertensão, que, naturalmente, motivaram os pesquisadores da área a se organizar, formando as Sociedades de Hipertensão.

Com a introdução, no início do século X, da medida da pressão arterial no homem pelo método esfigmográfico, e a constatação de ser freqüente a ocorrência de hipertensão, houve grande interesse de produzir modelos de hipertensão em animais de experimentação. A des- coberta dos nervos depressores aórticos e carotídeos, que exercem ação tônica de inibição sobre o simpático, suscitou inúmeros estudos na década de 30, visando à provocação de hipertensão neurogênica permanente no cão e no coelho pela desnervação sinoaórtica. Constatou-se, porém, que se era bem verdade que os animais desnervados apresentavam picos de hipertensão de grande intensidade, associados

Unidade de Hipertensão — Instituto do Coração (InCor) — HC-FMUSP

Endereço para correspondência: Av. Dr. Enéas Carvalho de Aguiar, 4 — CEP 05403-0 — São Paulo — SP

Neste artigo é feita uma breve revisão sobre a evolução do conhecimento e a criação das Sociedades de Hipertensão.

Palavras-chave: hipertensão, Sociedades de Hipertensão.

(Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo 2003;1:1-6) RSCESP (72594)-1288 à maior labilidade da pressão arterial, a hipertensão era bem tolerada, não acarretando grandes alterações nos órgãos-alvo, como ocorria com a hipertensão no homem. O grande salto aconteceu em 1934, quando Goldblatt e colaboradores(1) desenvolveram uma pinça para produzir compressão controlada da artéria renal de cães, obtendo, pela primeira vez, hipertensão renal crônica, revivendo o interesse pela renina descrita por Tigerstedt e Bergman, no fim do século XIX. O grupo argentino liderado por Braun-Menendez(2) e o grupo norte-americano liderado por Page(3), simultaneamente, descobri- ram, em 1940, que a hipertensão produzida pela renina, na verdade, era mediada pela formação de angiotensina (inicialmente descrita como hipertensina pelos argentinos e angiotonina pelos norte-americanos). Nas décadas seguintes, o sistema renina-angiotensina foi estudado intensamente, esclarecendo-se a cadeia de formação da angiotensina I e das outras angiotensinas, o papel central da enzima conversora, e as ações funcionais e tróficas exercidas pelo sistema. Um marco importante foi a descoberta dos inibidores da enzima conversora por Sergio

2Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo — Vol 13 — No 1 — Janeiro/Fevereiro de 2003

KRIEGER EM A evolução do conhecimento e a criação das Sociedades de

Hipertensão

Ferreira(4-6), em Ribeirão Preto, na década de 60, naturalmente influenciada pela descoberta da bradicinina por Mauricio Rocha e Silva(7), em 1949. Nos últimos vinte anos, foi claramente estabelecida a existência do sistema renina-angiotensina tecidual, que atua ao lado do clássico sistema endócrino dependente da renina re- nal, cuja importância fisiológica e fisiopatológica não está totalmente elucidada. De grande importância foi o reconhecimento dos fatores endoteliais na regulação da pressão arterial, a partir da histórica descoberta de Furchgott(8), em

1980, sobre o fator de relaxamento endotelial identificado como óxido nítrico. Também importante foi a descoberta do peptídeo natriurético atrial por De Bold(9), em 1981. Foi amplamente reconhecido que a elevação da pressão arterial na hipertensão primária é multifatorial, resultando do desequilíbrio entre os fatores pressores (simpático, sistema renina-angiotensina, endotelina, vasopressina, etc.) e depressores (óxido nítrico, cininas, peptídeo natriurético atrial, etc.), cada um deles estudado intensamente quanto às ações vasoconstritoras ativas e quanto às alterações trófico-estruturais, que perpetuam a elevação da resistência periférica e da hipertrofia cardíaca. Tanto os fatores pressores como os depressores envolvem uma cadeia de reações na qual as proteínas desempenham papel fundamental, e cuja síntese está subordinada ao funcionamento dos respectivos genes. Uma verdadeira revolução está ocorrendo na pesqui- sa da hipertensão com a introdução das técnicas que permitem a identificação e a manipulação dos genes que sintetizam as proteínas que integram os mecanismos de regulação da pressão arterial. O mapeamento de genes candida- tos associados ao aparecimento e ao desenvolvimento da hipertensão, a obtenção de animais de experimentação geneticamente modificados, o conhecimento do painel regulador da expressão dos genes, a associação de marcadores genéticos com marcadores funcionais, entre outras, são ferramentas de grande poder e que estão avançando rapidamente nosso conhecimento sobre os mecanismos responsáveis pela hipertensão, prevendo-se para breve melhoria na prevenção e tratamento da enfermidade de forma individualizada e racional(10, 1).

“Council for High Blood Pressure Research” O grande marco nas reuniões que congre- gam os que se dedicam à hipertensão ocorreu em 1949, com a criação do “Council for High

Blood Pressure Research of the American Heart Association”. Essa sociedade funcionou durante décadas, realizando reuniões anuais na cidade de Cleveland, considerada a Meca da hipertensão graças à notável personalidade de

Irving Page, que aí vivia, trabalhando na Cleveland Clinic. Ainda hoje suas reuniões são consideradas como da mais alta qualidade no campo da hipertensão, cujos trabalhos são altamente selecionados (em pequeno número) e depois pu- blicados em um número especial do “Hypertension”.

“International Society of Hypertension” (ISH) Depois de uma conferência em Paris, foi a reunião realizada em Oxford, em 1970, que realmente iniciou as atividades da “International Society of Hypertension”. Essa sociedade, organizada por Sir George Pickering, então diretor do Pembrocke College-Oxford, e por Irving

Page, contou, ainda, com os grandes chefes de escola daquela época: C. Bartorelli (Itália), Sir Horace Smirk (Nova Zelândia), J. Genest (Canadá), E. F. Gross (Alemanha). Foram apresentados 26 trabalhos nessa ocasião, o que é notá- vel, pois, no último congresso da “International Society of Hypertension” em Praga, em 2002, foram apresentados mais de 1.500 trabalhos, evidenciando o crescimento extraordinário da pesquisa na área da hipertensão nos últimos trin- ta anos. Como curiosidade, as Figuras 1 e 2 apresentam cópias do programa como ele foi impresso na época. A Figura 3 representa o esquema de distribuição dos lugares aos participantes dessa sociedade no refeitório do Pem- brocke College.

Depois de Oxford, a “International Society of

Hypertension” vem realizando reuniões regulares a cada dois anos: Milão (1972), Milão (1974) e Sydney (1976) foram as três primeiras, e Ams- terdã (1998), Chicago (2000) e Praga (2002) as três últimas. Em 2004, a previsão é de que a reunião da “International Society of Hypertension” ocorra em São Paulo, e que seja presidida pelo Dr. Artur Ribeiro.

“Inter-American Society of Hypertension” (IASH)

Foi criada em Mendoza, Argentina, em 1974, no “Pan American Symposium on Vasoactive

Peptides and Hypertension”, com a presença de 53 participantes (25 dos Estados Unidos, 19 da Argentina, 4 do Canadá, 3 do Chile e 2 do Bra-

Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo — Vol 13 — No 1 — Janeiro/Fevereiro de 20033

KRIEGER EM A evolução do conhecimento e a criação das Sociedades de

Hipertensão

Figura 1. Cópia do pro- grama da reunião da “International Society of Hypertension”, realizada em Oxford, em 1970 (primeira parte, 3 de setem- bro, quinta-feira).

sil). As três primeiras reuniões bianuais foram realizadas em Rochester (Estados Unidos), em 1976, no México, em 1978, e no Chile, em 1981, e as três últimas no México, em 1997, na Argentina, em 1999, e no Chile, em 2001. Curiosamente, na primeira reunião, em Mendoza, havia só dois participantes do Brasil (W. T. Beraldo e E. M. Krieger), enquanto nas reuniões mais recentes a participação brasileira foi res- ponsável por 40% a 50% dos trabalhos apre- sentados. Digno de nota é a publicação de um número especial do “Hypertension”, com trabalhos selecionados nos congressos da “Inter- American Society of Hypertension”.

Sociedade Brasileira de Hipertensão (SBH)

Os principais grupos dedicados à hipertensão, e originados, principalmente, da Socieda-

4Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo — Vol 13 — No 1 — Janeiro/Fevereiro de 2003

KRIEGER EM A evolução do conhecimento e a criação das Sociedades de

Hipertensão

Figura 2. Cópia do programa da reunião da “International Society of Hyper- tension”, realizada em Oxford, em 1970 (segunda parte, 4 de setembro, sexta-feira).

de Brasileira de Cardiologia, da Sociedade Brasileira de Nefrologia e da Federação das Sociedades de Biologia Experimental (FESBE), reuniram-se inicialmente nas chamadas Jornadas Integradas de Hipertensão em 1983, 1985, 1987 e 1989, sem ainda constituírem uma nova sociedade. Isso só ocorreu em 1990, depois de um relatório feito pelo Comitê de Organização indicado para constituir a nova sociedade: Oswal- do Ramos (Nefrologia), Emilio Francischetti (Cardiologia) e Eduardo M. Krieger (FESBE). O primeiro congresso anual foi realizado em São Paulo, em 1991, e o último, em Porto Alegre, em 2002. O próximo está programado para a cidade de Natal, em 2003, esperando-se o comparecimento de aproximadamente mil participantes, que tem sido a média de assistência dos últimos congressos. A Sociedade Brasilei-

Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo — Vol 13 — No 1 — Janeiro/Fevereiro de 20035

KRIEGER EM A evolução do conhecimento e a criação das Sociedades de

Hipertensão

Figura 3. “Conference Dinner” durante a reu- nião da “International Society of Hypertension”, realizada em Oxford, em 1970: esquema de distribuição dos lugares aos participantes.

ra de Hipertensão, que funciona com sede permanente em São Paulo, tem como principal característica a multidisciplinaridade, reunindo profissionais das mais variadas disciplinas interessadas no estudo e no avanço da hipertensão, principalmente da Cardiologia e da Nefrologia, e pesquisadores das áreas básicas (fisiologistas, farmacologistas, biologistas moleculares, professores de educação física, etc.).

6Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo — Vol 13 — No 1 — Janeiro/Fevereiro de 2003

KRIEGER EM A evolução do conhecimento e a criação das Sociedades de

Hipertensão

1. Goldblatt H, Lynch J, Hanzal RF, Ramon F,

Summerville W. Studies on experimental hypertension. I. The production of persistent elevation of systolic blood pressure by means of renal ischemia. J Exp Med 1934;59: 347-79. 2. Braun-Menendez E, Fasciolo JC, Leloir LF, Munoz JM. La substancia hipertensora de la sangre del riñon isquimiado. Rev Soc Argent Biol 1939;15:420-5. 3. Page IH, Helmer OM. A crystalline pressor substance (angiotonin) resulting from the reaction between renin and renin activator. J

Exp Med 1940;71:29-42. 4. Ferreira SH. A bradykinin-potentiating factor

(BPF) present in the venom of Bothrops jararaca. Br J Pharmacol 1965;24:163. 5. Greene LJ, Camargo ACM, Krieger EM,

Stewart JM, Ferreira SH. Inhibition of the conversion of the angiotensin I to I and potentiation of bradykinin by small peptides present in Bothrops jararaca venom. Cir Res 1972; 30,31(suppl I):62.

6. Krieger EM, Salgado HC, Assan CJ, Greene

LJ, Ferreira SH. Potential screening test for detection of overactivity of the renin angiotensin system. Lancet 1971;1:269. 7. Rocha e Silva M, Beraldo WT, Rosenfeld G.

Bradykinin, a hypotensive and smooth muscle stimulating factor released from plasma globulin by snake venom and by trypsin. Am J Physiol 1949;156:261. 8. Furchgott RF, Zawadzki JV. The obligatory role of endothelial cells in the relaxation of arterial smooth muscle by acetylcholine. Nature 1980;299:373-6. 9. de Bold AJ, Borenstein HB, Veress AT, Sonnenberg H. A rapid and potent natriuretic res- ponse to intravenous injection of atrial myocardial extract in rats. Life Sci 1981;28:89-94. 10. Krieger JE. New contributions to clinical hypertension from molecular biology. Curr Opin Cardiol 1998;13:312-6.

1. Pereira AC, Krieger JE. Biologia e genética molecular aplicadas ao diagnóstico e tratamento da hipertensão. Novos paradigmas, antigos problemas. Rev Bras Hipertens 2001;8:105-13.

This review was focused on the evolution of the knowledge and on the creation of Societies of Hypertension.

Key words: hypertension, Societies of Hypertension.

(Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo 2003;1:1-6) RSCESP (72594)-1288

Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo — Vol 13 — No 1 — Janeiro/Fevereiro de 20037

BRANDÃO AP e cols. Epidemiologia da hipertensão arterial

A importância da hipertensão arterial como um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento da doença arterial coronariana, do acidente vascular encefálico, da insuficiência car- díaca, da insuficiência renal e da doença arterial periférica encontra-se, na atualidade, perfeitamente estabelecida. O Estudo de Framingham classificou a hipertensão arterial como um dos fatores de risco de maior magnitude e, dessa maneira, essa condição responde por grande

Setor de Hipertensão Arterial — Serviço de Cardiologia — Hospital Universitário Pedro Ernesto — Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Endereço para correspondência: Rua Abade Ramos, 107/101 — Jardim Botânico — CEP 22461-090 — Rio de Janeiro — RJ

A hipertensão arterial é altamente prevalente em praticamente todos os países. O VI Joint National

Committee on Detection, Evaluation and Treatment of High Blood Pressure destaca que um dos maiores desafios deste milênio será o de modificar essa realidade. Calcula-se que pelo menos 50 milhões de norte-americanos são hipertensos e estudos brasileiros têm mostrado prevalência entre 12% e

35% em diferentes regiões.

Sabe-se que os indivíduos portadores de hipertensão arterial têm maior risco para desenvolver doença arterial coronariana, além de freqüentemente agregarem diversos fatores de risco cardiovascular. A associação entre a hipertensão arterial e o risco de doença cardiovascular é forte, contínua e está presente mesmo quando as cifras pressóricas ainda são consideradas normais. Nesse contexto, considerando-se que o ponto de corte de normalidade das cifras pressóricas é arbitrário, o valor numérico da pressão arterial deve necessariamente ser contextualizado e individualizado, para permitir avaliar a real dimensão do problema.

Estudos epidemiológicos e clínicos têm demonstrado que valores de pressão situados abaixo do ótimo (inferiores a 120/80 mmHg), mesmo em crianças e adultos jovens, já são capazes de se associ- ar a eventos cardiovasculares, notadamente em presença de fator de risco cardiovascular. Sabendose que quanto menor o ponto de corte admitido como normal maior é a expressão populacional do problema, políticas de saúde voltadas para a detecção e abordagem precoce desses indivíduos devem ser priorizadas, até que estudos clínicos bem conduzidos sejam realizados para avaliar o impacto dessas medidas na morbidade e na mortalidade cardiovascular.

(Parte 1 de 13)

Comentários