Herança africana

Herança africana

(Parte 1 de 2)

HERANÇA AFRICANA “Um Filá de Liberdade”

Salvador 2008

NORMAIRES DE SOUZA ALMEIDA HERANÇA AFRICANA “Um Filá de Liberdade”

Trabalho Apresentado a professora Artemisa Odila Cande Monteiro referente à disciplina História e Cultura Afro Brasileira, do curso de Pós Graduação Metodologia da História Cultura Afro-Brasileira .

Salvador 2008

HERANÇA AFRICANA “Um Filá de Liberdade”

O local onde está a exposição é uma casa em estilo Colonial Americano situado em um espaço elitista o Museu Carlos Costa Pinto onde em nada lembra a “Herança Africana” e sim um símbolo da classe dominante.

De acordo com Solange Godoy1,curadora da mostra, apesar do aspecto suntuoso e sem vínculo com o movimento negro,o local foi o escolhido por ter o maior acervo de jóias crioulas do Brasil.

Outro aspecto importante é que esta é a primeira vez que o museu recebe o acervo de casas de candomblé numa mostra especificamente ligada à herança africana, o que nos leva a entender que as fronteiras estão sendo ultrapassadas, e que o candomblé deixa de ser visto como uma religião só de negros, mais uma vez se alto afirma como uma religião de resistência. Entendo que através da exposição os organizadores querem mostrar que o terreiro não é um local só de culto religioso é também de cultura, e que essa cultura tem que ser vista e debatida na sociedade.

Também o fato de não aparecer nenhum babalorixá na exposição, deixa uma interrogação, visto a importância deles dentro da religião,porém a resposta vem logo a coleção de jóias do Museu é simplesmente um patrimônio ligado ao universo feminino do século XIX e X”.Nesse sentido entendemos o porquê do não aparecimento do sexo masculino na amostra. O Acervo esta dividido em três espaços: “Soberania e Encanto” reúnem tudo que era usado por essas mulheres que representavam o candomblé na Bahia, mulheres grandiosas que resistiram a todos as dificuldades e se tornaram verdadeiras rainhas. “Legado e Estilo” estão expostos os trabalhos de designers de jóias e estilistas conhecidos, cujas coleções são voltadas para a cultura afro. “Patrimônio e Memória” expõem parte das jóias crioulas pertencentes ao acervo do Museu Carlos Costa Pinto, Essas jóias são referência como elementos de afirmação e resistência.

1 Museóloga formada pelo curso de Museus do Museu Histórico Nacional. Rio 1961. Graduou-se em História na

PUC-Rio em 1974. Atuou na área de museus, como professora no curso de formação, tendo trabalhado por mais de trinta anos dirigindo museus de pequeno e grande porte como o Museu Histórico Nacional (1984- 1989)È consultora da área de Museus da VITAE;

No mesmo espaço estão sendo exibido um vídeo sobre a utilização dos balangandãs nos séculos XVIII e XIX. Podemos perceber as três nações que estão fazendo parte da exposição na qual falaremos a seguir;

Os rituais de candomblé no Bahia são manifestações em suas formas mais variadas e em complexidade diversas, sua organização a partir de noções confere certas particularidades concretizadas desde o surgimento das culturas africanas de povos diversos por meio do tráfico negreiro em nosso país. Poderíamos nos perguntar o que caracteriza um ritual do candomblé? Mas talvez como resposta viesse outra questão: qual o ritual do candomblé? Angola?Keto?Jeje? Para se ter uma idéia, algumas das nações como Keto, Angola,Jeje, apresentam diferenças entre si, sentidas principalmente quanto a língua dos cânticos, a batida dos atabaques , a dança à nomenclatura utilizada para denominar cada objeto, função, orixás, sacerdotes,não são excludentes porém a essência é a mesma.

Segundo Silva2o candomblé é compreendido como uma religião iniciática e de possessão, onde os ritos apresentam um acesso privilegiado a dimensão que o estruturam, como tempo o espaço a corporalidade,a conduta , os cargos e outros. Poderíamos visualizá-lo ainda como uma forma pelo quais as pessoas revivem a antiga organização familiar africana e religiosa a partir de um novo contexto. Na exposição estão expostas três Nações: Ketu, Jeje e Angola.

Denomina “Nação Ketu”,o candomblé descendente dos cultos religiosos da região Sudanesas, de cultura yorubana. Neste culto, os deuses são chamados de orixás e representam forças da natureza como o ar, o vento, o fogo e outros. A língua ritual destes cultos é composta de fragmentos de iorubá arcaico e de alguns termos de outras línguas com as quais foi se mesclando no decorrer do tempo. Toda a simbologia do candomblé Ketu como ritmo, cores, cantigas (rezas) músicas, comidas rituais e, fundamentalmente, o rito de iniciação, são marcados fortemente pelos valores culturais dos negros yorubanos.Aqui na Bahia os terreiros que pertencem a esta nação: “Ilê Axé Iyá Nassô Oka”, (Terreiro da casa Branca) é considerado a primeira casa de candomblé aberta em Salvador. Considerado Patrimônio Histórico do Brasil desde o

2 Vagner Gonçalves da Silva, op.cit.p.121.

dia 31 de maio de 1984. O Terreiro é de Oxossi e o Templo principal é de Xangô. O Barracão que tem o nome de Casa Branca, é uma edificação alongada com várias divisões internas que encerram residências das principais pessoas do Terreiro, como também espaços reservados aos quartos de Orixás, quarto de Axé, (Salão onde se realizam as festas públicas), bem como a cozinha onde se preparam as comidas sagradas. Uma bandeira branca hasteada no Terreiro indica o caráter sagrado deste espaço. No telhado do Barracão, símbolos de Xangô identificam o Patrono do Templo.Esta localizada na av. Vasco da Gama, 463, Salvador Ba. As Sacerdotisas do terreiro Iyá Nassô Oyo Akalagmabo Olodumare 3 Marcelina da Silva - Oba Tossi 4 Maria Julia Figueiredo de Oxum - Omó Niké 5 Ursulina de Figueiredo- Mãe Sussu 6

Maximiana Maria da Conceição - Massi 7 (citada na exposição)

Maria Deolinda dos Santos - Papai Oké 8 Altamira Cecília dos Santos - Mãe Tatá- Oxum Tomilá - 9(citada na exposição)

“Ilê Iyá Omi Axé Iyamasé”(Terreiro do Gantois ou Axé Yamassê), Sociedade São Jorge do Gantois, como é conhecido essa é outra grande casa de candomblé Gêge- Nagô, que também nasceu da Casa Branca do Engenho Velho, foi fundado por Maria Júlia da Conceição Nazaré em 1849. O nome Gantois veio de um flamengo, originario de Gand que era o dono do terreno onde o templo religioso foi construído. O que diferencia o Gantois de outros terreiros tradicionais da Bahia, é que a sucessão se dá pela linhagem e não através de escolha pelo jogo de búzios. De acordo com o antropólogo Julio Braga: "Historicamente, o Gantois é um candomblé familiar de tradição hereditária consangüínea, em que os regentes são sempre do

3 Africana considerada uma das fundadoras da primeira casa de candomblé da tradição nagô no Brasil. 4 Mais conhecida como Oba Tossi, foi a segunda Iyalorixá do Candomblé da Casa Branca-Engenho Velho. 5 Filha da fundadora do Candomblé da Barroquinha Iyá Nassô, é também a responsável por trazer o culto de Xangô para a Bahia. 6 Quarta Iyalorixá na sucessão do Candomblé da Casa Branca do Engenho Velho em Salvador. 7Foi consagrada ao orixá Oxaguiã Idanko Ezo, uma qualidade de Oxalá cultuada no Bambuzal 8 Era assim chamada por ser de Oxalá, foi a sexta Iyalorixá do Candomblé da Casa Branca do Engenho Velho em Salvador. 9Filha legítima de Maria Deolinda, é a oitava Iyalorixá do Candomblé da Casa Branca do Engenho Velho.

sexo feminino". O Tombamento Terreiro do Gantois relizado em 2002, pelo IPHAN fica no Alto do Gantois, 3, no bairro da Federação, Salvador.

Sacerdotisas do Terreiro Maria Júlia da Conceição Nazaré10 Pulchéria Maria da Conceição Nazaré Maria da Glória Nazareth. (citada na exposição)

Maria Escolástica da Conceição Nazaré. 1(citada na exposição)

Cleuza Millet ou Mãe Cleusa de Nanã 12

Mãe Carmen do Gantois 13(citada na exposição)

“Ilê Axe Opô Afonjá”, Este é o terreiro mais antigo de que se tem notícia e o que, segundo vários autores, serviu de modelo para todos os outros, de todas as nações. Um grupo dissidente do Terreiro da Casa Branca, comandado por Eugênia Anna dos Santos, fundou, em 1910, numa roça adquirida no bairro de São Gonçalo do Retiro, o Terreiro Kêtu do Axé Opô Afonjá

Sacerdotisas do terreiro Mãe Aninha Mãe Bada de Oxalá Mãe Senhora

10 Fundadora do terreiro do Gantois, em 1949. 11Conhecida como Mãe Menininha do Gantois em razão do apelido que recebeu na infância por ser quieta e franzina, era filha de Oxum, a mais famosa de todas as Iyálorixá brasileiras. 12 Mãe Cleuza era filha de Mãe Menininha do Gantois.No Gantois, quem assume o lugar da mãe é a filha mais velha. Segundo Julio Braga: "Historicamente, o Gantois é um candomblé familiar de tradição hereditária consanguínea, em que os regentes são sempre do sexo feminino".Mãe Cleusa construiu toda uma vida longe do candomblé, casou-se aos 21 anos com um oficial da Marinha de Guerra, teve três filhos, Mônica, Zeno e Álvaro, viajou por muitos países. Na volta, decidiu morar no Rio de Janeiro e passou a exercer sua profissão, estudou Medicina na Universidade Federal da Bahia, seu primeiro emprego foi de obstetra. 13É a filha mais nova de Mãe Menininha do Gantois e a irmã caçula de Mãe Cleusa Millet, foi iniciada no Candomblé para Oxalá quando ainda era criança. Após a morte de Mãe Cleusa Millet assumiu o Terreiro mais famoso do Brasil. Mãe Carmen trás o segredo do Axé tendo ao seu lado suas duas filhas: Angela de Oxum e Neli de Oxossi.

Mãe Ondina de Oxalá Mãe Stella de Oxóssi “Ilê Lajuomi/Ilê Odô Ogê”, O Terreiro Pilão de Prata foi instalado em 1963 pelo babalorixá pai Air José de Sousa, que permanece à frente da casa. O espaço possui axé de fundamento da nação Ketu, que teve origem nos ensinamentos do tataravô do babalorixá Air José, Bangboshê Obitikô. Sacerdote do Terreiro Air Jose souza de Jesus

Denomina “Nação Jeje”, o candomblé Jeje é minoritário no Brasil, seus deuses são o voduns, cultuados como nobres famílias mitológicas, associadas cada uma delas aos elementos da natureza. Seu ritual difere muito dos dois anteriores em todos os sentidos. Além destas, existem várias combinações destes três tipos básicos, que são formadas a partir do trânsito dos religiosos entre um e outro grupo. Dentre os daomeanos escravizados, uma mulher chamada Ludovina Pessoa, natural da cidade Mahi (marri), foi escolhida pelos Voduns para fundar três templos na Bahia.

Ela fundou: Um templo para Dan14; um templo para Heviossô 15; um templo para Ajunsun 16 e O templo de Ajunsun-Sakpata foi fundado mais tarde pela africana

Gaiaku Satu, em Cachoeira e São Felix e recebeu o nome de Axé KPó Egi, mais conhecido por Cacunda de Yayá, que tem como sua representante a iyalorixá Maria de Lourdes Buana (Iyá Ominibu Kafae foobá).Dona Lourdes, tem roça em Salvador no Bairro Cabrito, e também em Nilópolis, no Rio de Janeiro funcionando com toda a força apesar de seus quase 80 anos, marcando sua tradição no Kwe Foobá, com diversos descendentes do Jeje Savalu. São os Jeje Savalu ou Savaluno. Sakpata era rei da cidade Savalu na África, segundo alguns historiadores, Sakpata foi o único rei que preferiu o exílio a se render aos conquistadores do Daomé. O dialeto dos savalus também é o Fon.Na Rua do Curuzú, no bairro da Liberdade em Salvador, Amilton de Sogbo segue a luta pela preservação da tradição do Jeje Savalu, na condição de Doté, a frente do Kwe Vodun Zo (Templo do Deus/Espírito do Fogo).

14 Kwé Cejá Hundé, mais conhecido como a Roça do Ventura ou Pó Zehen (pó zerrêm) de Jeje Mahin em Cachoeira e São Felix; 15 Zoogodo Bogun Male Hundô” Terreiro do Bogum em Salvador; 16 Que não se sabe porque não foi fundado. Esse é o segmento Jeje Mahin do povo Fon;

Amilton é descendente espiritual da Terreiro Cacunda de Yayá, onde teve o seu nascimento para o zelo ao Panteão Savaluno, pelas mãos de Jaoci Mãe Tança de Nanã. Seguem os terreiros pertencente a esta nação:

“Zoogodo Bogum Malê Rundó”,(OTerreiro de Bogum),candomblé de tradição Jeje Mahin, tem muitas diferenças em relação aos outros terreiros de Salvador. A principal diferença é a língua falada nos rituais. Como explica Jaime Sodré (ogã da casa há 35 anos), no culto dos Voduns do Daoméa a língua falada pelos jeje é o éwé, do povo fon, com tradição ligada ao Benin.Além da língua, alguns rituais dos jeje são diferentes. No Terreiro do Bogum não existem Orixás, lá se cultuam os Voduns e recebem outras denominações e tem semelhanças com o Vodou haitiano. Segundo historiadores, foi no local onde está o Bogum que Joaquim Jêje, herói do movimento de insurreição de escravos malês, deixou o bogum (baú) onde estavam os donativos que permitiram a famosa Revolta dos Malês ocorrida em Salvador em janeiro de 1835. está localizado na Ladeira do Bogum, antiga Manoel do Bonfim, no Bairro do Engenho Velho da Federação, em Salvador. Sacerdotisas do Terreiro

Ludovina Pessoa 17

Mãe Romana de Possú - Gaiaku Romaninha 18

Luiza Franquelina da Rocha - Gaiaku Luiza 19

Mãe Runhó - Valentina Maria dos Anjos Costa Mãe Nicinha, Gamo Lokossi - Evangelista dos Anjos Costa Emiliana Pidade dos Reis-(citada na exposição) Mãe Índia - Zaildes Iracema de Mello

Denomina “Nação Angola”, Este candomblé é resultado da presença dos negros bantos, da região Congo – Angolesa da África, cujos deuses que cultuam chamam-se Inkices.Também os Inkices são a divinização e personificação da natureza na forma humanizada. As características rituais do candomblé Angola diferem das características do candomblé Ketu, mas as formas do ritual e da iniciação se assemelham muito. Como característica intrínseca da cultura banto,

17 Fundadora 18 irmã de santo de Ludovina 19 Iniciada por Mãe Romaninha entre 1944-1945 mais propensa à assimilação de valores estrangeiros, o candomblé Angola é fortemente marcado pelos valores brasileiros.

“Terreiro São Jorge Filho da Goméia”- Foi fundado por Mãe Mirinha do Portão, é de origem congo-angolesa. Após o falecimento de Mãe Mirinha em 1989, assumiu o posto Valdete dos Santos, sobrinha de Mãe Mirinha e filha de santo. Com o afastamento dela, assumiu então Mameto Kamurici, Maria Lúcia Neves, neta de Mãe Mirinha e atual responsável pelo Terreiro.

Sacerdotisas do Terreiro Mãe Mirinha do Portão20 Mãe Valdete dos Santos Maria Lúcia Santana Neves

Os Trajes

Do ponto de vista dos elementos que compõem os trajes21 utilizadas, são marcos simbólico do pertencimento a determinado orixá, bem como distintivos de poder e diferenciação entre os membros da hierarquia. As roupas dos iaôs são mais simples, geralmente brancas; para os homens, calça e uma camisa branca sem bolsos ou enfeites; para as mulheres, saias rodadas com fitas e bico nas bordas, batas com adornos de bico de renda e bordados, anáguas, um camisu e o pano da costa. Em dias de festa, utilizam estampas em cores que lembram seus orixás. A mãe e o pai-de-santo, os ebômis e ogãs têm roupas mais incrementadas do que os iaôs, usam rechilier e outros tecidos mais nobres e bastante coloridos com um pano da costa. Só os ebômis entram no xirê calçados, os iaôs dançam descalços.

Na Cabeça-Torço, turbante ou rodilha (anexo 1) No Ombro- Xale de pano de Costa (anexo 1 e 2) Corpo –Camisa de Crivo; Blusa de cabeção rendado ou Bata (anexo 1)

20 Mirinha é iniciada aos sete anos de idade, para o Nkisi Mutalombô e tem como segundo Nkisi Bambulusema, juntamente com mais 18 muzenzas. Na época foi de grande ousadia o feito de tirar, como se fala na linguagem do Candomblé, um barco de 19 muzenzas, mas Joãozinho da Goméia era assim (desafiador e polêmico), logo, desta forma nasceu para o Candomblé Congo/Angola da Bahia e do Brasil a Monankisi "Sessa Dya Umbula", sendo chamada pelos seus irmãos de santo por Sessetu, o nome de seu erê, sendo filha pequena de Kilondirá chamada carinhosamente por Mirinha de Mãe Kiló. 21 Anexo 1

(Parte 1 de 2)

Comentários