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Dissertação para obtenção do Grau de Mestre em Agroecossistemas, do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Santa Catarina.

Florianópolis,

Estado de Santa Catarina - Brasil

Maio de 2000 CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO MESTRADO EM AGROECOSSISTEMAS CENTRO DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

DISSERTAÇÃO submetida por Jorge Luiz Vivan como um dos requisitos para a obtenção do Grau de MESTRE EM AGROECOSSISTEMAS,

Núcleo Temático

Sistemas de Produção Agroecológicos Aprovada em_/_/___

Prof. Dr. Paul Richard Momsen Miller, CCA/UFSC, Orientador BANCA EXAMINADORA:

Prof. Dra. Ana Rita Rodrigues Vieira,CCA-UFSC. Presidente

Prof. Dr. José Antônio Costabeber, EMATER-RS

Prof. Dr. Alfredo Celso Fantini, CCA-UFSC

Prof. Dr. Sérgio Leite Guimarães Pinheiro, CIRAM-EPAGRI Dr. Francisco Roberto Caporal, EMATER-RS

VIVAN, Jorge Luiz. Saber Ecológico e Sistemas Agroflorestais: um estudo de caso na Floresta Atlântica do Litoral Norte do RS, Brasil. Florianópolis, 2000, 98pp. Dissertação (Mestrado em Agroecossistemas) - Curso de Pós-Graduação em Agroecossistemas, Universidade Federal de Santa Catarina

Orientador: Paul Richard Momsen Miller Defesa: 30/05/0

Analisa como os técnicos da extensão rural e agricultores baseiam suas tomada de decisão em saberes que, ao convergirem ou divergirem, afetam vários aspectos de bananais em Sistemas Agroflorestais (SAF). Pelo contraste de argumentos e avaliação de características microecológicas deste sistema, o trabalho propõe temas de pesquisa e aprofundamento, tanto no plano da geração, manejo e difusão como do monitoramento ecológico de SAF.

Autor: JORGE LUIZ VIVAN Orientador: PAUL RICHARD MOMSEN MILLER Co-orientador: SERGIO LEITE GUIMARÃES PINHEIRO

A bananicultura é a principal atividade econômica em propriedades familiares no

Litoral Norte do Estado do Rio Grande do Sul. A área escolhida para a pesquisa foi a Região de Torres, que compreende 5 municípios, num total de 1.103km2. Esta atividade interage com importantes remanescentes da Floresta Atlântica, em situação limítrofe com os Parques Nacionais da Serra Geral e dos Aparados da Serra. Em algumas destas propriedades, o Saber Ecológico (SE) dos agricultores se expressa em quintais e bananais que são conduzidos como um consórcio seqüencial de espécies, inclusive lenhosas, caracterizando Sistemas Agroflorestais (SAF).

Porém, algumas questões surgem: como esse saber interage com o Saber dos

Técnicos (ST)? Quais são as implicações dessas diferentes percepções para a sustentabilidade ecológica, cultural e econômica do agroecossistema? Como agricultores e técnicos pensam em aumentar seus saberes em SAF?

Neste sentido, foi desenvolvida uma metodologia que se complementa em duas etapas. A primeira foi interativa com técnicos e agricultores e incluiu diagnóstico e desenho de SAF baseado em práticas participativas e pesquisa-ação, entrevistas semiestruturadas, Oficinas de Diagnóstico e Desenho de SAF em etapas separadas para técnicos e agricultores, e um Seminário de Devolução para o contraste de resultados e encaminhamento de ações. A segunda etapa foi analítica e constou de uma avaliação ecológica de um SAF em parâmetros que foram diagnosticados por agricultores durante as entrevistas. Foram sujeitos da pesquisa agricultores ligados às Associações de Agricultores Ecologistas e técnicos da extensão rural do estado (EMATER-RS) que atuam na mesma região. Os resultados mostram que o SE dos agricultores, uma vez aplicado aos bananais, pode ajudar a ajustar e tirar proveito das particularidades de cada microecossistema. Uma vez que o método propiciou o diálogo e relações de poder horizontais, o contraste de saberes esclareceu como diferem ou convergem os parâmetros, em que argumentos estes parâmetros se baseiam, e quais as principais contribuições do Saber Ecológico para (a)zoneamento com vistas à implantação de novas áreas,(b)listagem de espécies de interesse em quatro diferentes estratos da vegetação para a composição do SAF,(c)desenhos de bananais em SAF,(d)propostas para o incremento de informação e saberes para a geração, manejo e difusão desses sistemas. A avaliação ecológica, por sua vez, indicou parâmetros e métodos que, uma vez mais desenvolvidos, poderão servir de base para monitoramento e avaliação do desempenho ecológico do SAF no que diz respeito à fertilidade dos solos, composição florística nos diferentes estratos, cobertura de solo, radiação fotossinteticamente ativa, temperatura e umidade relativa do ar. Este trabalho, ao integrar SE e ST, aponta temas de pesquisa e prioridades nos planos sócio-cultural, econômico e ambiental que podem contribuir para programas de desenvolvimento rural sustentável para a região.

Author: JORGE LUIZ VIVAN Adviser: PAUL RICHARD MOMSEN MILLER

Banana growing is the economic mainstay of small farming in the North Coast of Rio Grande do Sul State, Brazil. The chosen research site was Torres Region, which is constituted by five municipalities, in an area of 1,103km2. This activity interacts with important Atlantic Rainforest remnants, which is bounded by the Serra Geral and Aparados da Serra National Parks. In some of these farms, Ecological Knowledge (EK) is expressed through forest gardens and banana fields, managed as a sequence of consortiums which includes woody plants, and characterized as Agroforestry Systems(AFS).

However, some questions arise: How do these knowledge interact with the

Technical Knowledge (TK) from extension agents? What are the implications that these different perceptions means to the sustainability of the agroecosystem, in the economic, cultural and ecological field? How do these farmers and technicians visualize the process of improvement of their AFS knowledge?

To answer these questions, a two stage method was developed. The first stage was interactional with farmers and technicians and based in action-research and participatory methods, including semi-structured interviews, AFS Workshops for Diagnosys and Design of AFS with farmers and technicians in different stages, and a Presentation Seminary. The second stage was analytical, and consisted of an ecological evaluation of a AFS by parameters indicated by the farmers during the interviews. The state rural extension agents (EMATER-RS) and farmers that joined the Ecological Farmers' Association, representing all the Torres Region participated.

The results shows that farmers’ Ecological Knowledge, once applied to the banana fields, can adjust and take advantage of environment diversity. As the method encouraged empowerment throughout the dialog process, the results cleared which adopted parameters are different or converge, which arguments support these parameters, and which contributions farmers’ Ecological Knowledge has to offer to (a)agroecological zoning for new plantings, (b)choice of species in four different strata and their functionality, (c)AFS designs, (d)proposals for improvement of information and knowledge for the design, management and difusion of these systems.

The ecological evaluation, in turn, indicated parameters and methods which, with further development, could form a basis for monitoring and evaluating ecological efficiency of AFS in terms of soil fertility, floristic composition in four different strata, soil cover, Photosyntetic Active Radiation (PAR) and Relative Air Humidity and Temperature. This work, by integrating farmer Ecological Knowledge and Extension Agents Knowledge, points to research themes and priorities that can be helpful to improve sustainable rural development programs at this region.

Resumovi
Summaryviii

ÍNDICE INTRODUÇÃO 1

REVISÃO DE BIBLIOGRAFIA5

tropical úmida5
A ocupação humana pré-colombiana7
A ocupação humana pós-colombiana7
A Floresta, os colonos e a extensão rural9
As Associações de Agricultores Ecologistas14
O processo de transição16
A Extensão Rural20
Reconhecendo e conceituando saberes2
Saber Popular e Saber Ecológico24
Saber dos Técnicos29
A interação de saberes e suas ferramentas32

Floresta Atlântica: a trajetória de uma floresta SAF e sua dimensão econômica e ambiental.....35

ETAPA INTERATIVA45
Entrevistas Semi-estruturadas45
Oficinas em SAF46
Seminário de Devolução da Pesquisa53
ETAPA ANALÍTICA5
Zoneamento56
Análise química do solo(0-20cm)56
Cobertura do solo57
Composição florística58
Radiação Fotossinteticamente Ativa (RFA)60
Temperatura e Umidade do Ar61

MÉTODO 43

ETAPA INTERATIVA62
ENTREVISTAS SEMI-ESTRUTURADAS62
OFICINAS EM SISTEMAS AGROFLORESTAIS67
SEMINARIO DE DEVOLUÇÃO74
ETAPA ANALÍTICA79
Análise da Fertilidade de Solos a 0-20cm79
Cobertura do solo80
Temperatura do Ar84
Umidade Relativa do Ar85
DISCUSSÃO87
CONCLUSÕES112
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS114

Saber Ecológico e Sistemas Agroflorestais:

um estudo de caso na Floresta Atlântica do Litoral Norte do RS

(...) educar e educar-se, na prática da liberdade, é tarefa daqueles que sabem que pouco sabem - por isto sabem algo e assim podem chegar a saber mais – em diálogo com aqueles que, quase sempre, pensam que nada sabem, em saber que pouco sabem, possam igualmente saber mais.

Freire, P. Extensão ou Comunicação. Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, p 25, 1982

(...) "Os intelectuais, na sua ânsia de auto-afirmação, dizem que saber é poder, mas a verdade é que o saber só dá poderes àqueles que têm ou podem conseguir poder para usá-lo".

Lewontin, R. The Dream of Human Genome in It Aint Necessarily So: The Dream of The Human Genome and Other Illusions. New York, New York Review Books, 2000.

1.Introdução

Esta dissertação aborda como as diferentes formas de agricultores e técnicos perceberem uma mesma realidade, uma vez estruturadas em saberes que, aplicados numa rotina agrícola, podem afetar a geração, manejo, difusão e sustentabilidade dos sistemas resultantes.

O estudo foi realizado na denominada Região de Torres, que ocupa parte da Floresta Atlântica do Litoral Norte do Estado do Rio Grande do Sul, Brasil, onde uma maioria de pequenos agricultores tem na banana seu eixo econômico. Nos últimos 10 anos, através da interação com Organizações Não-

Governamentais (ONGs), em torno de 100 famílias constituíram diferentes Associações de Agricultores Ecologistas. Além dos técnicos das ONGs, elas interagem em menor escala com técnicos da Extensão Rural do estado(EMATER-RS). Neste universo, as diferentes percepções e o processo de interação de saberes constituem parâmetros de tomadas de decisão para as atividades agrícolas rotineiras nos bananais, desde a implantação à colheita.

Ao longo desta interação de 10 anos, a ONG denominada “Centro

Ecológico” reconheceu a existência de um saber dos agricultores, que é definido neste trabalho como Saber Ecológico (SE), a partir da denominação dada por Lewis(1989). Assume-se que o SE evolui e também adapta informações de fontes variadas, o que proporciona uma interface dinâmica que define a relação entre as demandas culturais e econômicas dos agricultores e os recursos disponíveis no ecossistema.

Por sua vez, esse saber e sua distinção do Saber dos Técnicos (ST), em termos da práxis1, constitui parte do estudo. Os bananais resultantes da aplicação deste saber que são aqui enfocados podem ser conceituados como Sistemas Agroflorestais (SAF), uma vez que utilizam várias espécies herbáceas, arbustivas e arbóreas, tanto nativas como exóticas, combinando elementos perenes, herbáceos e lenhosos e, conseqüentemente, gerando estruturas multi-estratificadas(Nair, 1993).

A partir de 1991, a ONG passou também a estimular a adoção de SAF, principalmente através da discussão de princípios de sucessão vegetal para aplicação geral. Foi também neste processo que se percebeu que: -mesmo anteriormente à intervenção dos técnicos da ONG, tais práticas e sua compreensão não eram homogêneas nem generalizadas entre os agricultores; -não eram recomendadas oficialmente pelos técnicos da extensão rural, embora informalmente alguns reconhecessem méritos parciais no sistema; -a discussão de princípios de sucessão em cursos para agricultores pela ONG motivou entre os agricultores ecologistas a geração de diferentes formas de SAF.

1 "O conjunto de operações práticas através das quais se dá a apropriação material da natureza"(Toledo, 1992).

As questões básicas que surgiram como decorrência de tal intervenção referiram-se especificamente ao modo como o Saber Ecológico dos agricultores (SE) e o Saber dos Técnicos (ST) podem se expressar no diagnóstico e desenho de um bananal em SAF, que implicações essas diferentes interpretações têm para a sustentabilidade dos sistemas, e ainda como ambos imaginam preencher suas lacunas de saber.

Para avaliar essas questões, tornou-se necessário uma abordagem etnoecológica a qual, segundo adaptado de Toledo (1992), deve: (a)descrever o ecossistema onde se desenrola o processo produtivo; (b)entender e decodificar os diferentes saberes através do diálogo; (c)analisar como o agroecossistema é projetado e conduzido com base nestes saberes; (d)buscar uma avaliação das implicações ecológicas dessa práxis.

Assim, a revisão bibliográfica prepara este roteiro, ao: (a)construir um relato da Floresta Atlântica e sua trajetória de interação com as sucessivas ondas de ocupação humana; (b)contextualizar a percepção e os saberes de técnicos e agricultores à suas trajetórias históricas; (c)buscar entender como estes saberes podem interagir; (d)proporcionar uma visão do possível resultado agroecológico e implicações à sustentabilidade da aplicação desses saberes. O Método para o trabalho de campo que investiga saberes e sua práxis se divide basicamente em uma Etapa Interativa e uma Etapa Analítica, estas complementares.

Considerando que a descrição do ecossistema era suficiente pelas informações já disponíveis e que constam na revisão de bibliografia, partiu-se para a Etapa Interativa. Nela, a decodificação de saberes foi propiciada tanto no processo histórico comum a cada indivíduo, através de entrevistas semiestruturadas, como em seu grupo social, transitando entre o individual e o coletivo, através de Oficinas Participativas em SAF. Estas foram realizadas separadamente para técnicos e agricultores e após contrastadas em seus resultados através de um Seminário de Devolução que juntou agricultores e técnicos. Tais oficinas e mais o seminário permitiram também uma visão de como os diferentes saberes projetam o agroecossistema, através de perguntas que refizeram a rotina básica do bananal e produziram Desenhos de

SAF. Finalmente, se inquiriu como ambos consideravam a superação das atuais limitações dos saberes de cada um e as possibilidades de integração.

Na Etapa Analítica, as implicações ecológicas de um bananal em SAF foram precedidas por um zoneamento da área feito pelo agricultor, baseado no vigor e produção da bananeira. Foi avaliada a fertilidade dos solos a 0-20 cm, a natureza da cobertura do solo, a composição florística e o comportamento microclimático, em termos de Radiação Fotossinteticamente Ativa e Temperatura e Umidade Relativa do Ar.

A discussão de resultados da etapa interativa foi complementada pelos resultados da etapa analítica, não como uma "contraprova", mas como um indicativo de temas de pesquisa e aprofundamento que podem constituir pontes entre os saberes.

Por sua vez, os resultados indicam que a incorporação do SE e a interação de saberes que ele proporciona, uma vez aplicada aos bananais, pode possibilitar a evolução destes SAF para estruturas e funções análogas às encontradas no ecossistema original (Moles, 1989; Ernst Götsch, 1988, comunicação pessoal; Michon, 1997; Michon, 1998). Como os SAF apresentam interações positivas para a sustentabilidade em uma grande diversidade de ambientes sócio-econômicos, sócio-culturais e ecológicos (Fearnside, 1998; Smith, 1977; Buck, 1999), a questão fundamental que surge é como eles poderiam ser disponibilizadas a um maior número de agricultores.

A partir disso, o processo passa pela construção de novas formas de diálogo e relações de poder entre técnicos e agricultores. Assim, a resposta parece ser que a construção deste diálogo estará condicionando grande parte à capacidade de técnicos e agricultores de reconhecerem a si próprios e aos microecossistemas, e assim gerar SAF que contemplem e estejam de acordo com essa diversidade em todas as suas dimensões.

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