Fisiologia do Envelhecimento

Fisiologia do Envelhecimento

Fisiologia do Envelhecimento (revisão)

Aluna: Evelyn Pacheco

Definir Envelhecimento vs. Doença

O envelhecimento é um processo contínuo que começa desde que nascemos e inevitavelmente nos conduz à morte. É um processo de deterioração da função de órgãos e das funções biológicas que não é estimulado por uma noxa particular , como acontece nas doenças - em vez de termos este estímulo que é a noxa temos um estímulo que é o tempo.

Envelhecer é um processo contínuo que:

  1. Depende do factor tempo

  2. Acontece em todos nós, mesmo que morramos antecipadamente (até mesmo nós já estamos a envelhecer)

  3. Determina a degradação das funções fisiológicas.

Envelhecer não é estar doente, uma vez que a doença pressupõe que haja qualquer coisa que a desencadeie. Por exemplo: uma infecção urinária alta (uma pielonefrite) por um microorganismo como a E. Coli pode levar a um quadro de febre e de choque, com falência multi-orgânica. Sabe-se que a falência associada a sépsis por um microorganismo identificado está correlacionada com a infecção, e portanto se a tratarmos podemos tentar vencer essa falência de órgão.

No envelhecimento isto não acontece: existe um factor tempo, um relógio que começa no momento em que nascemos e que também determina falência e deterioração de órgãos. Vai portanto determinar que a manutenção da homeostasia se torne cada vez mais complexa porque, se há deterioração progressiva da função dos órgãos, o indivíduo em questão deixa de conseguir fazer face a desequilíbrios da sua homeostasia.

Teorias de Envelhecimento

Há N teorias de envelhecimento entre as quais não há consenso. Algumas delas são teorias sociológicas/psicológicas que colocam a perda de papel social como o determinante para o processo de envelhecimento (a abstinência de papel social).

Também há teorias médicas e biológicas que têm comum a verificação de uma tendência para a morte celular.

Existem vários exemplos de teorias biológicas:

  1. A teoria relacionada com os telómeros: portanto sabe-se que sempre que uma célula se divide há encurtamento dos telómeros e que à medida que eles vão encurtando se vai sinalizando a morte celular programada. Chega a um ponto em que há um encurtamento tal que há morte celular programada. Isto é protector para doenças como o cancro, mas determina a morte celular e o envelhecimento.

  2. Há teorias dos radicais livres, em que o stress oxidativo ou acumular de radicais livres determina a morte celular.

No fundo há uma série de teorias que têm este denominador comum: perceber o que é que do ponto de vista biológico pode ser determinante neste processo de senescência.

Conclusão da Introdução

Como eu vos disse, o envelhecimento é um processo natural, não é doença, porque a doença implica um desencadeante etiológico que aqui desconhecemos. Enquanto que a doença precisa de um desencadeante etiológico, o envelhecimento precisa de um desencadeante temporal. E portanto envelhecer acaba por ser uma deterioração de função que interliga genética, ambiente e esgotamento de recursos. Tudo isto determina alterações que são universais a partir de uma certa altura, por órgão e por sistema.

O indivíduo idoso (o indivíduo que já tem o processo de envelhecimento com vários anos de evolução) é um indivíduo que vai ser necessariamente diferente de um indivíduo jovem e portanto vai ter, a nível dos vários órgãos e sistemas, idiossincrasias que são determinadas pelo tal processo de envelhecimento.

Propõe-se agora percebermos o efeito do envelhecimento nos diversos sistema:

Alterações Relacionadas com o Sistema Nervoso

  1. Perda de massa

  2. Substituição de neurónios por gliose

  3. Declínio nos neurotransmissores, alterações na vasculatura do sistema nervoso central

  4. Acumulação de amilóide

  5. Perda de axónios motores e sensoriais

  6. Alterações da mielina e depois consequentemente alterações no músculo esquelético associado.

Há consequentemente alterações do músculo esquelético associadas a esta degeneração do SNC. Do ponto de vista anatómico e fisiológico tudo isto são manifestações deste processo de envelhecimento e não de doença.

Se olharmos para os pares cranianos, naturalmente, mesmo sem doença, um indivíduo idoso vai ter uma alteração da acuidade visual, alterações dos reflexos fotomotores e da acomodação, uma diminuição do olfacto e uma diminuição da audição.

Do ponto de vista motor vamos ter alguma rigidez ou eventualmente espasticidade. Do ponto de vista sensorial temos diminuição da sensibilidade, sobretudo vibratória e táctil, e da capacidade de discriminação e de estereognosia. Do ponto de vista da coordenação, há também alterações.

Quanto ao sistema nervoso autónomo, há um estudo que foi feito há relativamente pouco tempo, tanto em ambiente hospitalar como em ambiente de lares de idosos, em que se tentava avaliar a prevalência de hipotensão ortoestática no indivíduo idoso. Verificou-se que mais de 60% dos idosos têm efectivamente hipotensão ortostática sintomática . A hipotensão ortostática é extremamente prevalente no indivíduo idoso porque há degeneração associada. Há alterações na temperatura sendo muito frequente o indivíduo idoso doente não ter febre mesmo tendo uma infecção grave com compromisso de órgão associado.

Do ponto de vista cognitivo isto é do senso comum. Efectivamente, o indivíduo idoso tem uma alteração da memória, sobretudo de curto prazo, e uma alteração da performance do discurso. Por todas as características já referidas, o indivíduo idoso torna-se mais susceptível a todo um conjunto de doenças, como a demência. Existe deterioração cognitiva se tivermos, por exemplo, um acidente vascular cerebral, que pode ser o ponto fulcral para depois haver uma deterioração grave cognitiva e um consequente quadro demencial. Há também mais susceptibilidade ao delírio quando um idoso é colocado fora do seu espaço habitual, é mais natural que fique desorientado e agitado, porque deixa de se conseguir habituar a um ambiente externo novo. Isto para vos dizer que todas estas alterações fisiológicas que nós falámos agora, que no fundo são comuns a todos os idosos, não devem ser consideradas quase como patológicas.

Alterações Relacionadas com o Sistema Músculo-Esquelético

  1. Diminuição da massa muscular

  2. Alterações na remodelação óssea

  3. Perda de massa óssea

  4. Atrofia muscular

  5. Degeneração da cartilagem

Quase de forma universal, a osteoporose afecta a população idosa, embora a mulher seja mais susceptível à doença. Nesta patologia desenvolve-se uma perda gradual de massa óssea. A osteoporose susceptibiliza os indivíduos a terem eventos relacionados com a perda de massa óssea, que podem ser muito importantes na degradação da sua função. A ocorrência de fracturas associadas, por exemplo, condiciona uma degradação funcional muito marcada nos idosos.

Além da osteoporose, há que ter presente a osteoartrite, um processo degenerativo ao nível da cartilagem. Esta provoca dor, alteração funcional e deformidade, acabando por ser muito prevalente no idoso.

Alterações Relacionadas com o Sistema Cardiovascular

  1. Alterações ao nível da vasculatura – arterial e venosa

  2. Alterações na massa miocárdica

  3. Alterações na condução

De um modo geral, o idoso é mais susceptível a problemas cardiovasculares. Por um lado, há uma diminuição da função cardíaca. Se existirem factores de risco de doença cardiovascular (hipertensão, diabetes ou a dislipidémia) o coração - que já sofre naturalmente um processo degenerativo com perda de função relacionado com o aumento da idade - será na presença destes factores de risco mais facilmente um coração insuficiente. Por outro lado, alterações comuns como o processo de aterosclerose (que começa próximo do nascimento e é progressivo ao longo da vida) são notoriamente agravadas na presença de factores de risco: formam-se mais facilmente placas de ateroma, aumenta o risco de doença coronária e de enfarte agudo do miocárdio. Por fim, há alterações da condução – encontram-se muitas vezes indivíduos idosos sem factores de risco relevantes mas com doença do nódulo sinusal. Efectivamente, há alterações do tecido da condução que são determinadas pela idade.

Alterações Relacionadas com o Sistema Respiratório

  1. Diminuição da elasticidade do tecido pulmonar

  2. Diminuição do diâmetro

  3. Enfraquecimento dos músculos respiratórios

  4. Diminuição da capacidade vital

  5. Diminuição do volume residual

Estas alterações vão provocar:

  1. Aumento do uso de músculos acessórios

  2. Aumento da energia dispendida na respiração

  3. Diminuição das trocas gasosas

  4. Diminuição do reflexo da tosse

Consequentemente, o indivíduo idoso encontra-se muito mais susceptível a infecções respiratórias, que são uma causa muito frequente do internamento dos idosos.

De salientar que estas infecções nem sempre se manifestam nos idosos do mesmo modo que nos jovens, uma vez que os primeiros podem:

  1. Nem sempre “fazem” febre (já falado com o sistema nervoso),

  2. Podem não tossir (o reflexo da tosse encontra-se diminuído/abolido),

  3. Têm dificuldade em compensar falta de oxigenação (utilização dos músculos acessórios, podendo hiperventilar mas com compensação pouco eficaz).

Por isso, deve-se sempre encarar o idoso com degradação do estado geral como um indivíduo que está naturalmente mais sujeito a infecções respiratórias, mesmo na

ausência de sintomatologia de órgãos associados. Isto é facilmente justificado pela presença de alterações do sistema respiratórioque levam a que a infecção respiratória não se manifeste de um modo convencional.

Alterações Relacionadas com o Sistema Urinário

  1. Diminuição do número de nefrónios

  2. Diminuição da taxa de filtração glomerular

  3. Hormona anti-diurética menos eficaz

  4. Diminuição do tónus abdominal e da pélvis

  5. Alargamento da próstata – à quem diga que, aos 100 anos, inevitavelmente todos os homens não terão só hipertrofia benigna da próstata mas também neoplasia da próstata

  6. Diminuição da capacidade da bexiga

Por tudo isto, o idoso é mais susceptível a infecção e a hiponatrémia. De salientar que, quando se calcula a clearance (eliminação) de creatinina, utilizam-se fórmulas de ajuste à idade (que factor muito importante). Por sua vez, as doses são ajustadas de acordo com a clearance, adaptando-as à capacidade do rim em função da idade.

Quase universalmente haverá problemas de incontinência urinária e de noctúria (diurese nocturna) muito frequente.

Alterações Relacionadas com o Sistema Gastrointestinal

  1. Atrofia da mucosa oral e perda de dentes

  2. Alteração do apetite causado por alterações ao nível dos corpúsculos gustativos (taste buds)

  3. Diminuição da produção de saliva

  4. Diminuição do tempo de enchimento gástrico

  5. Alteração da citoprotecção

  6. Diminuição da síntese de ácidos biliares

  7. Diminuição da massa hepática

Consequentemente temos:

  1. Diminuição do apetite (ocorre em indivíduos idosos com anorexia derivada de uma diminuição da ingesta, sem causa específica).

  2. Maior susceptibilidade a úlceras pépticas

  3. Maior susceptibilidade a litíase biliar - o mesmo que colelitíase – presença de cálculos na vesícula e nas vias biliares.

  4. Alterações no metabolismo das drogas que são mais difíceis de ajustar do que no rim.

Reforça-se que é natural a perda de apetite no indivíduo idoso porque o gosto não está tão conservado.

Alterações Relacionadas com o Sistema Endócrino

Há alterações no metabolismo da insulina, com consequente intolerância à glicose, tornando os indivíduos idosos mais susceptiveis à Diabetes. Também há alterações ao nível das hormonas sexuais que levam a alterações da sexualidade dos indivíduos, desenvolvimento de osteoporose e arteriosclerose.

Sistema Imune

O sistema immune também vai estar alterado no indivíduo idoso. Existem alterações nas funções linfocitárias, produção de anticorpos, imunidade das mucosas o que faz com que haja maior susceptibilidade, reincidência e reactivação de infecções (um dos casos mais frequentes é o reaparecimento de herpes - zona em indivíduos mais idosos). Este reaparecimento de infecções está associado a neuropatias e o tratamento torna-se mais difícil. Esta alteração do sistema imunitário leva naturalmente ao aumento da susceptibilidade a infecções mas também leva ao aumento da susceptibilidade ao cancro. O cancro é uma doença que é modulada por interacção entre hospedeiro e a célula tumoral, e se este hospedeiro de alguma forma tem o sistema imune alterado vai ser mais susceptível à doença.

Conclusão da Aula

Do ponto de vista fisiológico o envelhecimento é um processo natural e contínuo do qual resultam diferenças entre um indivíduo idoso e um indivíduo adulto ou uma criança.

Resumindo, o indivíduo idoso vai naturalmente ter alterações fisiológicas como:

  1. Ver pior

  2. Ouvir pior

  3. Alterações do apetite

  4. Alterações na mobilidade,

  5. Alterações da sensibilidade,

  6. Deterioração cognitiva

  7. Do ponto de vista musculo-esquelético pode ter dores musculares generalizadas e doença degenerativa

  8. Osteoporose (cuidados com quedas)

  9. Reserva cardíaca mais baixa,

  10. Maior susceptibilidade a arritmias,

  11. Função respiratória mais detriorada (mais susceptibilidade a infeccções respiratórias)

  12. Incontinencia urinária (em que é preciso ajustar a medicação à clearence de creatinina e a uma função renal que não é igual à de um indivíduo adulto normal)

  13. Paladar alterado (aparelho não está integro porque há atrofia da muscosa da cavidade oral)

  14. Alterações do sistema imunitário (em que a infeccão no idoso manifesta-se de maneira diferente do indivíduo adulto)

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