Fisiologia do Exercício Físico

Fisiologia do Exercício Físico

Fisiologia do exercício físico (revisão)

Aluna: Evelyn Pacheco

Quando nos exercitamos as estruturas orgânicas mudam, a anatomia muda (mais massa muscular, coração hipertrofiado/dilatado), há um conjunto de alterações estruturais a que correspondem variações da função. O organismo muda anatomi-camente, para que a função fique com uma capacidade maior. A mudança é então simultaneamente anatómica e funcional.

Pode acontecer que:

  1. a mudança anatómica corresponda a uma mudança funcional de acor-do com aquilo que se deseja;

  2. mude a anatomia demasiado, sem que signifique melhoria da função;

O exercício faz mudar as estruturas orgânicas para que a função se adeque à necessidade do indivíduo. Resposta aguda, adaptação crónica Estas mudanças ocorrem quando um indivíduo é submetido de uma maneira aguda ou de uma maneira crónica a episódios de exercício. - Maneira aguda significa que quando estamos em repouso e nos exercitamos o organismo muda, quando damos uma corrida chegamos ao fim com taquicardia, tensão arterial fica mais elevada, temperatura corporal sobe, ocorrem modificações dos parâmetros bioquímicos, esta é uma resposta aguda ao exercício. Aquilo que aparece como o exercício agudo, eu considero que é a resposta aguda ao exercício.

- A resposta crónica é aquela que um indivíduo que faz muitas vezes exercí-cio vai ter, a qual vai ser diferente daquele que não faz muitas vezes. É uma respos-ta adaptativa. A repetição do exercício é o treino, ao treinar muda a anatomia, para se ter uma função mais adequada ao próximo exercício, daí considerar que não há uma resposta crónica ao exercício, o que há é uma adaptação crónica ao exercício. Este é o conceito fisiológico de adaptação, de mudança adequada àquilo que indu-ziu a mudança. O treino é a repetição de um determinado gesto e prepara o orga-nismo para esse gesto e não para outro gesto. A resposta aguda ao exercício de um indivíduo treinado, adaptado, é igual à de um sedentário em termos qualitativos, muda é a quantidade da variação. Se um indivíduo sedentário fizer uma volta a um estádio, no final tem uma frequência muito mais alta e leva muito mais tempo a fazer a volta, a pressão arterial está mais eleva-da, a temperatura corporal sobe mais do que o atleta que faz aquilo todos os dias. No entanto, os parâmetros de base do atleta são diferentes no início e no fim. Ele tem a mesma resposta aguda que o sedentário, tem é uma magnitude de resposta menor, porque está adaptado àquela resposta. Se ultrapassar aquilo que é a resposta aguda aceitável pelo organismo corre-se riscos, sendo que o exercício é sempre um risco, pois muda os aspectos fisiológi-cos e de estabilidade, cria uma instabilidade. A morte durante o exercício acontece maioritariamente, porque são postas em stress um conjunto de funções orgânicas.

Resumindo: Como é que o organismo muda, porque é que muda, como é que ele muda quando está submetido ao exercício e porque é que o treino muda a estrutura anatómica e funcional para mudar a resposta?

Capacidade bioenergética, termorreguladora, mecânica

O exercício é a resultante da actividade muscular, é da resposta das estrutu-ras musculares que acontece o exercício. A contracção muscular desencadeia uma resposta que pode ser de vários tipos, dependendo das condições de contracção do músculo. O músculo quando é estimulado contrai, sendo que dessa contracção podem resultar duas coisas:

  1. Encurtamento, se os topos do músculo estiverem presos a estruturas que sejam móveis, se estiver em condições isotónicas, de contracção.

  2. Tensão/Força, se o músculo estiver com os seus topos presos e não poder encurtar.

Portanto a contracção muscular ou desencadeia força ou desencadeia encurtamen-tos, neste caso se houver articulações pelo meio, pode haver deslocação de topos ósseos.

Para que o músculo se contraia tem que ir captar ao exterior energia química, substratos energéticos, que vai transformar em ATP. Esta capacidade que temos que ter para fazer exercício é a capacidade bioenergética, para ter aptidão física tem que se ter aptidão bioenergética, tem que se ser capaz de produzir moléculas de ATP em quantidade necessária para o músculo contrair.

Quando contrai produz calor e produz energia mecânica. A energia mecânica pode ser força ou encurtamento, sendo que a energia térmica é produzida em maior quantidade que a própria energia mecânica, o que cria condições difíceis ao orga-nismo para funcionar, pois somos animais homeotérmicos. Se a temperatura subir exageradamente podemos correr riscos. Ou seja, para além de capacidade bioener-gética, tem que se ter capacidade termorreguladora, um sistema termorregulador capaz de se libertar do calor produzido em excesso, mecanismos da termólise adap-tados, que é preciso activar. Com temperaturas muito altas e humidades relativas elevadas é mais difícil fazer exercício, pois nestas condições a capacidade termor-regulalora está diminuída.

É necessário, também, ter-se capacidade mecânica, isto é utilizar a energia mecânica de acordo com o objectivo.

Na energia mecânica há força e há movimento, sendo que há músculos ago-nistas que contraem e músculos antagonistas que relaxam. Para que a mesma informação contraia agonistas e relaxe antagonistas é necessário que haja controle do movimento pelos centros superiores.

A bioenergética é a formação de moléculas de ATP a partir de substratos energéticos. As vias que o organismo utiliza para produzir ATP são do tipo anaeró-bio e aeróbio, lácticas ou alácticas. Se for na ausência de oxigénio, mecanismo anaeróbio, o mais simples de todos é a degradação da molécula de fosfocreatina, que ao degradar-se liberta energia e gera condições para a produção da molécula de ATP. A quantidade destes substratos energéticos que existem no músculo capaz de produzir energia é muito pequena, rapidamente se esgota, tendo que se fazer recurso a outras capacidades energéticas. Para fazer uma maratona utilizam-se fon-tes energéticas aeróbias, em que na presença de oxigénio, os diferentes substratos energéticos, como a glicose, são degradados podendo haver produção de ácido lác-tico. Não é desejável que seja produzido em grandes quantidades, pois é um produ-to do catabolismo que vai dificultar a acção muscular.O ideal é que durante o exer-cício se produza a energia necessária para consumir durante aquele exercício, com menor gasto orgânico possível, que é consumindo oxigénio e usando os mecanis-mos aeróbios. No entanto se fizer 100 metros ou um levantamento não há tempo para activar mecanismos aeróbios, têm que se usar outras vias.

Capacidade e potência de fontes energéticas

Músculo Esquelético, ATP, Proteínas contrácteis, cálcio, substratos, energéticos, Energia, Química, Energia Mecânica(força, movimentos unitários, movimentos complexos), Energia Térmica Biomecânica Termorregulação Bioenergética (formação de ATP a partir de substratos energéticos).

Quanto às fontes energéticas, devem ter-se em conta duas propriedades: a capacidade e a potência. Deve saber-se qual é a capacidade que elas têm de dispo-nibilizar energia e qual é o tempo que elas precisam para a disponibilizar. Quanto à potência, as mais potentes são aquelas que produzem energia mais rapidamente, energia de ponta, enquanto que as fontes com maior capacidade são aquelas que produzem maior quantidade de energia. Fontes de grande capacidade geralmente têm baixa potência, enquanto que fontes de grande potência têm baixa capacidade.

Para fazer 100 metros ou um levantamento faz-se recurso às fontes de grande potência ainda que tenham baixa capacidade, ao passo que para uma maratona recorre-se às fontes de síntese em que há grande capacidade, mesmo que leve algum tempo a produzir. Pergunta: Estas diferentes fontes de energia estão associados a diferentes tipos de fibras musculares? Também. Cada uma das fibras tem mais facilidade de fazer uma coisa ou outra, e o músculo vai dentro daquela mudança anatómica criar, de acordo com o tipo de treino, as próprias fibras. Sendo que aquelas fibras que já existem e que são mais adequadas aos metabolismos que preciso mais, essas desenvolvem-se mais, hipertrofiam e aprimoram os seus mecanismos. O que vem reforçar a ideia de que o treino muda a anatomia para mudar a função.

Órgãos de troca, distribuição, reserva, controlo

Para tudo isto é necessário oxigénio: captá-lo do exterior, ligá-lo à hemoglobi-na ou transportá-lo livre no plasma, chegar à estrutura muscular, lançá-lo para o músculo, passar a membrana celular, chegar às mitocôndrias e activar os metabo-lismos. Há então um caminho a percorrer onde entram vários órgãos, como é o caso dos órgãos de troca. No caso de um indivíduo ter uma doença pulmonar, vai ter fortes limitações à prática do exercício, uma vez que a sua capacidade bioenergética está reduzida, pois não consegue captar oxigénio. É então preciso garantir a aptidão dos órgãos de troca: aparelho cardio-respiratório, rim e pele, a qual é vital na termor-regulação.

Também os órgãos de distribuição: o aparelho cardiovascular, necessitam de estar aptos, pois no caso de uma doença cardiovascular pode não haver condi-ções para fazer o transporte. É preciso existirem órgãos de reserva: tecido adiposo e fígado, pois durante o exercício não se está sempre a ingerir alimentos. E tem que haver órgãos de controlo, um sistema nervoso central e um sis-tema endócrino, capazes de coordenar a acção destes diferentes órgãos. Tudo isto tem que ser avaliado para garantir que um indivíduo tem aptidão bioenergética para fazer exercício.

Quanto à aptidão biomecânica é necessário que haja uma estrutura óssea, muscular e articular adequada, há morfotipos mais adequados a certo tipo de des-portos, havendo casos em que nem o treino consegue a tal modificação. Há exigên-cias de ossos, músculos e articulações e existe também a exigência de um comando motor adequado, uma sensibilidade profunda e uma actividade sensorial adequada. Um basquetebolista tem que ter estas coisas muito desenvolvidas para ter a percep-ção espacial de onde está o cesto. Biomecânica não é só acção dos ossos e dos músculos, tem uma componente neurológica. Por vezes encontramos profissionais, principalmente na área do treino, com uma linguagem muito diferente da nossa, o que nos obriga a ter um conhecimento mais alargado, para que depois seja possível estabelecer um entendimento. A adaptação é esta situação, é isto que nós desenvolvemos no exercício.

A resposta aguda é uma resposta global. O organismo muda como um todo, muda globalmente. Há modificações nas funções superiores, muito frequentemente os atletas acabam sem terem noção de onde estão. Há imagens de pessoas que ganharam provas e que só alguns segundos depois, ou às vezes minutos, é que se aperceberam que ganharam. A resposta emotiva só acontece muito depois. Por isso é que por vezes os atletas nem têm a percepção do que aconteceu exactamente, porque há uma modificação das funções superiores. Há variáveis cardiovascula-res que mudam, muda também a ventilação, a temperatura corporal, as variáveis metabólicas, varia tudo. É uma resposta global. E esta resposta depende do tipo, da intensidade e da duração do exercício, estas são as variáveis mais simples. Mas não depende só disto, depende de mais coisas. Depende da aptidão física (da situação de base do individuo:se é sedentário ou se já está adaptado ao exercício físico); do meio ambiente, o qual depende da temperatura (influencia a função ter-morreguladora), da humidade relativa e da pressão (fazer exercício em altitude é muito mais difícil do que fazer ao nível do mar; com a humidade relativa alta é muito mais difícil; com calor é muito mais difícil do que com o frio); e depende do stress da competição. Há atletas que fazem excelentes marcas em desportos individuais e no dia da competição são um desastre. Por exemplo, o atleta X ganhava nas grandes competições e tinha marcas piores que as do atleta Y, que perdia sistematicamente nas grandes competições, bastava que lhe dissessem que a TV estava a transmitir e que estavam 2 milhões de pessoas a ver, para ele bloquear de imediato. Portanto a capacidade de resistir ao stress da competição é muito importante. Esta resposta aguda não se processa de uma maneira qualquer. Para esfor-ços longos (esforço longo, em termos fisiológicos, é um esforço com duração supe-rior a 3 minutos, tempo suficiente para os mecanismos todos funcionarem, como a captação do oxigénio, o seu transporte para as células, para depois se desencadea-rem todos os processos. Os esforços são curtos quando duram menos do que 3 minutos. Há muitos desportos curtos que terminam antes dos 3 minutos, para estes não há fonte aeróbia mantida de síntese de ATP) a resposta aguda ao exercício pro-cessa-se em 5 fases: Exercício físicoResposta fisiológica aguda ao exercício físico -Tipo-Intensidade-Duração-Aptidão física-Meio ambiente (calor/frio; humidade; pressão)-StressModificações: funções superiores; variáveis cardiovasculares; ventilação; temperatura corporal; variáveis metabólicas.

  1. 1. Fase de antecipação ao esforço;

  2. 2. Fase de início;

  3. 3. Fase de estado estável;

  4. 4. Fase de esgotamento;

  5. 5. Fase de recuperação.

1. Fase de antecipação ao esforço

Por exemplo, no balneário sente-se esta fase, porque quando lidamos habi-tualmente com um número restrito de atletas sabemos como eles são caracteristi-camente em termos de frequência cardíaca. É frequente um atleta, que tem normal-mente 50 batimentos/minuto, quando se acaba de equipar e antes de ir para o aque-cimento ficar com 100 batimentos/minuto, e antes de sair para o jogo estar com 120. Portanto é obvio que é vantajoso que o atleta tenha isto. (Naquelas rotinas que se fazem dentro do balneário para ocupar o tempo no momento em que o jogo está quase a começar e chega lá dentro o ruído da agitação do que se passa lá fora. As rotinas tornam-se mais fáceis se desenharmos tarefas, como avaliar a frequência cardíaca, pesar, medir a pressão arterial… isto é, se fizermos uma série de coisas que, por um lado ocupam o tempo dos atletas, mas que por outro permitem tirar-lhes parâmetros.) Se eu tiver um atleta que tenha habitualmente uma frequência de 50, e antes do jogo está com 100, é bom ver isso, ele não está doente, está em antecipa-ção ao esforço, já está a viver aquilo que vai acontecer. Se o atleta estiver na mes-ma com 50, ele não se importa com o que vai acontecer, como no caso de jogos de grandes equipas com pequenas equipas, em já estão a contar ganhar (ao contrário do que se fosse um jogo difícil). É a fase de antecipação ao esforço. Esta é uma fase neurológica, é o sistema nervoso central que está em jogo, é a atenção, os processos cognitivos, que alteram e actuam através do sistema nervoso autónomo, particularmente sobre o aparelho cardiovascular, mudando certas componentes. Também actua sobre o sistema motor, mudando sobretudo aspectos de postura e de tónus muscular. A propósito da postura e do tónus muscular, e do exercício, tem que se conhecer o modelo hierárquico funcional do movimento nos seus diferentes níveis, ao nível da intenção, da organização e depois ao nível da acção, são níveis diferentes e tudo isto é harmonizado, podendo ser mudado em pleno exercício. Vol-tando ao exemplo do basquetebolista, ele pode desenhar um gesto para fazer e pelo meio identificar outro factor, depois retrocede para fazer de outra maneira. Portanto a hierarquia do gesto é o resultado final da acção dos inputs (das aferências) sobre o SN, versus os outputs (as eferências) e o jogo das estruturas que são responsá-veis a este nível. Obviamente que no exercício é tudo diferente, se se tiver um exer-cício deste tipo, o que importa não é a mesma coisa que num levantamento, são coisas distintas. Num levantamento interessa a força, enquanto que aqui interessa a elasticidade, a graciosidade com que se faz o gesto. Por exemplo, um futebolista por vezes, em pleno esforço, está a antecipar o esforço que vem a seguir. Ou seja, ele está com atenção àquilo que está a aconte-cer à sua volta, já não está atento à bola, pois já a dominou em termos espaciais. Está agora a colher informações, para depois desenhar o gesto, para determinar para que lado vai mandar a bola e com que força, dependendo da informação que ele receber e perceber, portanto isto é a fase de antecipação ao esforço em pleno esforço. Depois da fase de antecipação ao esforço vem a fase de início.

2. Fase de início

No início, quando um indivíduo começa a fazer esforço, não tem a quantidade de oxigénio que é preciso para formar as moléculas de ATP, ele está numa situação de défice de oxigénio, por isso tem que recorrer às fontes anaeróbias de síntese de ATP. Portanto esta é a fase de défice de oxigénio. Como é que ele vai ter mais oxigénio, como é que vai consumir mais oxigénio? A capacidade que os atletas têm de consumir oxigénio depende de quê? Depende do débito cardíaco (DC = Fre-quência x volume sistólico) e da diferença artério-venosa (quantidade de sangue que entra no músculo – quantidade de sangue que sai do músculo), portanto têm-se aqui as vesiculações mais importantes da hemodinâmica a serem responsáveis pelo débito muscular. No músculo tem que haver mais sangue, para levar mais oxigénio e para trazer os produtos do catabolismo em maior quantidade. Logo o organismo tem que redistribuir o seu sangue, para que ele vá particularmente para o músculo. A seguir temos a fase de estado estável.

3. Fase de estado estável

Esta é a fase teórica em que se qualquer um de nós entrasse, estaria perma-nentemente a exercitar-se. Quer dizer, se a quantidade de oxigénio que eu consumir for exactamenteigual à quantidade de oxigénio que eu gastar, então estou em esta-do estável e aguento o exercício durante muito tempo. Este princípio é verdadeiro. Por exemplo, costumamos aconselhar os maratonistas a encontrar a sua fase de estado estável e assim encontrar o seu melhor resultado possível. Portanto um atleta na maratona entra em estado estável ao fim de 10-15 minutos e, a partir daí, pro-cura manter-se imune a tudo que acontece. É assim que ele consegue o melhor rendimento. Se ele vai correr mais depressa para apanhar o outro e depois descan-sar, vai produzir mais Ácido láctico e vai-se consumir ATP. Por isso é que se diz que as maratonas só acabam quando terminam, como a maior parte dos desportos lon-gos, porque o resultado é no fim que se vê e não no meio. Logo os atletas que con-seguirem dominar o ambiente e fazer isto têm sempre melhores resultados, sobretu-do nas maratonas. O que é que acontece na fase de estado estável? A quantidade de oxigénio consumida é igual àquela que é utilizada, por isso posso manter-me durante mui-to tempo. Quando paro o exercício não deixo logo de consumir oxigénio. Vou dei-xando progressivamente, porque fico em hiperpneia e com músculos em contracção, a consumir mais oxigénio do que na situação de repouso. Portanto eu estou a con-sumir mais oxigénio do que aquele que preciso. Quando isso acontece, fico com um débito de oxigénio, ou seja, tenho mais do que aquele que eu preciso. Se verifica-rem, vão concluir que o valor do débito na fase de recuperação primeira é igual ao valor do défice no início. E o que acontece aqui? Vai ocorrer a reposição do que se gastou no início. Um dos aspectos importantes é o da redistribuição regional de sangue. De um dado débito cardíaco (por exemplo 6 L/min), uma pequena parte vai para o mús-culo; uma parte vai para o território esplâncnico; uma parte para o coração e sistema nervoso; e outra parte para a pele. Vai para todo o organismo, mas tem uma distri-buição relativa nestes territórios assim. À medida que vou fazendo exercício, há um território que ganha: o músculo. Se vai mais sangue para o músculo, tem que ir menos sangue para outros territórios. Logo, vai menos sangue para as vísceras e, no final, vai menos sangue para a pele. No meio há mais sangue na pele, devido à necessidade de activar a termólise. O coração e o sistema nervoso não são grandes perdedores, deixam de ceder a partir de um limite mínimo. Daí que as maiores limi-tações ao exercício são cardiovasculares.

Há outro dado importante, a diferença artério-venosa. A quantidade de san-gue que vem do músculo, depende da quantidade que chega a este e depende tam-bém da capilarização, que é um dos efeitos na anatomia. Quando faço exercício desenvolvo a minha rede capilar, fico com mais capilares, assim fico com mais capacidade de manter sangue próximo das células. O tempo circulatório médio também é importante, se o sangue está lá mais ou menos tempo; a capacidade oxidativa enzimática; e o númeroetamanho das mitocôndrias. É isto que determina a capacidade de sangue que o músculo consegue captar, mas no final vou acabar por me esgotar.

4. Fase de esgotamento

O que é a fase de esgotamento? É aquele momento em que a temperatura corporal sobe e já não consigo arrefecer; em que os mecanismos aeróbios já não são suficientes para produzir as moléculas de ATP e são os mecanismos anaeróbios que entram em função. Isto vai levar a aumentos da concentração de Ácido láctico, vai mudar o pH, vai alterar a ventilação. Portanto, por efeitocardiovascular (grande taquicardia), efeito respiratório (hiperventilação), e por incapacidade em perder calor, entro em esgotamento. Não posso manter o exercício e tenho que parar. Por exemplo, um atleta em fase de esgotamento produz suor, mas não de qualquer maneira: na face começa na testa e depois o suor escorre, ao mesmo tem-po que aumenta a zona que sua; também começa no dorso e depois estende-se a zona que sua. Ou seja, começa sempre nas zonas mais elevadas. O suor faz duas coisas: arrefece quando se produz e arrefece pelo próprio escorrimento. Há outro aspecto, quando o atleta começa a fazer exercício fica vermelho, porque tem uma hiperémia: mais sangue na pele para activar os mecanismos de termólise. A partir de uma certa altura começa a ficar pálido, porque há um conflito de débitos entre aquilo que o músculo precisa e o que a pele precisa. Estes entram em competição e o sangue ou vai para um território, ou para o outro. Então vê-se uma palidez a surgir, a qual invade as mucosas, o que é um dado muito importante. As mucosas normal-mente estão “hiperemeadas”, quando as mucosas começam a ficar pálidas, o atleta está claramente em fase de esgotamento. Outro sinal de fase de esgotamento é a boca aberta, o atleta sente falta de ar, daí a necessidade de abrir a boca para entrar mais ar. E as cartilagens, sobretudo no pavilhão auricular, também ficam com uma palidez acentuada. Seque-se a fase de recuperação.

5. Fase de recuperação

A recuperação é um processo muito complexo e faz-se, sobretudo, aprovei-tando a quantidade de oxigénio a mais que nós produzimos e que nós captamos do exterior, durante esta fase. A resposta aguda não é sempre igual, nos esforços curtos e intensos não há fase de início, nem fase de estado estável, pois o atleta antecipa o esforço e esgota-se quase que de imediato (antecipa → faz o esforço → esgota-se → a seguir recu-pera). Reparem que a fase de recuperação e a fase de antecipação estão em todos os esforços. É na recuperação que o atleta prepara o que vai fazer a seguir, por isso daí a importância que se dá à maneira como ele recupera. Se eu continuar a fazer exercício, apesar de já ter atingido a fase de esgota-mento, nesse caso eu aumento o meu risco. Os riscos são três: a morte súbita, o agravamento de patologias não incapacitantes e o favorecimento de novas patologias. Exemplos:

  1. 1. Agravamento de uma patologia: atleta X entra numa competição já com uma patologia, embora não fosse tão grave que não permitisse fazer o exercício, era o suficiente para a impedir de competir. Como era previsível, esta atleta acabou por se lesionar.

  1. 2. Hipertermia maligna de esforço: acontece quando os atletas insistem em terminar as provas, estando eles a competir em condições ambientais muito agressivas (por exemplo em desportos longos). Depois ficam inca-pazes para o resto das suas carreiras, porque ficam com uma desregula-ção do sistema termo-regulador.

  1. 3. Morte súbita: há atletas que estão predispostos e tem que se conhecer quais são; e há factores que predispõem a isto. E não há só doenças, pois por vezes o atleta é saudável e morre, logo há outras coisas para além da doença. As doenças culpadas são procuradas, mas podem não ser a últi-ma causa. No caso do rastreio de doenças é muito discutido o que se deve fazer, por causa da relação custo/eficácia elevado, por isso os ame-ricanos fazem só um exame clínico; os europeus fazem um electrocardiograma e um raio X ao tórax, aconselhando-se os atletas individualmente a fazer todos os exames ou não. Um atleta quando está a fazer exercício pode morrer por várias razões: se tem alterações hidro-electrolíticas (está desidratado e perde electrólitos pelo suor); se está com elevados níveis de catecolaminas (principalmente de for em competições), tem um efeito sim-pático acrescido; se tem isquémiarelativa em determinados territórios; se toma drogas… reúne todas as condições/alterações (e não doenças) para desenvolver arritmias e morrer, mesmo que não tenha doença nenhuma. Deve-se dar, por exemplo, atenção aos estados febris, a baixas do rendi-mento físico de um atleta (causas físicas, psicológicas…). É difícil identifi-car os indivíduos que têm risco de morte súbita, porque as causas são múltiplas. Estatísticas americanas dizem que a principal causa de morte súbita são as miocardiopatias hipertróficas, 36% dos casos, e displasia arritmogénicado ventrículo direito, 2-3%, enquanto que na Europa a situa-ção é inversa, 23% dos casos são devido a displasia arritmogénica e 2% a miocardiopatia hipertrófica. Esta situação deve-se à diferença da posição dos médicos, uma vez que na Europa se fazem ecografias a quase todos os atletas de alta competição, afastando-se as miocardiopatias hipertrófi-cas. Ao passo que na América não fazem estes exames, devido ao eleva-do custo que acarretam.

Há mesmo riscos no desporto, um dos quais é oculto: são as drogas, muitas vezes não são aquelas que são dadas aos atletas para aumentar o rendimento físi-co. Num exame clínico é preciso ter em atenção, por exemplo, ao pectus scava-tum, não é causa de morte súbita e, não sendo impeditivo de fazer desporto, pode ser impeditivo de fazer competição.

Aspectos a reter: o exercício muda, o organismo muda e tem uma resposta aguda. Essa resposta aguda é desestabilizadora. O indivíduo treina, ou seja, repete o exercício, criando uma estrutura anatómica e funcional diferente, a qual lhe permi-te fazer o exercício com menos efeito. O exercício é a resposta aguda e a adaptação crónica (é o que é feito de acordo com o treino). O papel do médico é rastrear estas situações de patologias não incapacitantes, de morte súbita, assim como procurar avaliar se aquilo que está a ser feito no treino é adequado àquele indivíduo, que é apreciar a adaptação que o treino está a fazer.

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