Conceito de meio ambiente

Conceito de meio ambiente

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Milton Santos

*Com a colaboração de Adriana Bernardes da Silva. Originalmente publicado no Anales de Geografia de la Universidad Complutense, n.º 15, p. 695-705, Madri, 1995. A indicação editorial deste artigo para a revista INTERFACEHS teve a colaboração das professoras Marie-Hélène Tiercelin dos Santos e Flávia Grimm.

A Questão do Meio Ambiente: Desafios para a Construção de uma Perspectiva Transdisciplinar

Milton Santos INTERFACEHS

O tema proposto para o debate nos desafia a refletir, de imediato, sobre duas questões polêmicas que preocupam hoje as comunidades científicas, a saber: o problema da interdisciplinaridade e a questão do meio ambiente.

O grande desenvolvimento das diferentes ciências particulares, durante este século, contribuiu para grandes avanços científicos e tecnológicos, mas também levou a uma extrema especialização do saber, cuja conseqüência é, freqüentemente, o comprometimento do próprio entendimento do mundo. A possibilidade de os saberes antigos sucumbirem aos saberes novos faz com que os prisioneiros de uma visão imobilista corram o risco de ficar à deriva diante da tarefa de interpretação do presente.

A denominada crise ambiental a que hoje assistimos padece dessa situação e deve suscitar uma revisão das teorias e práticas das diversas disciplinas na medida em que demanda uma análise compreensiva, totalizante, uma análise na qual as pessoas, vindas de horizontes diversos e que trabalhem com a realidade presente, tenham o seu passo acertado através do mundo, através de um legítimo trabalho interdisciplinar. Concordamos, também, com Paulo Vieira (1992, p. 103), quando ele diz que “os problemas implicados na crise do meio ambiente se caracterizam pelo fato de exigirem para sua confrontação efetiva novos padrões de organização das comunidades científicas”.

Como oferecer subsídios para uma epistemologia da questão do meio ambiente que contribuam para esse enfoque interdisciplinar? Mas o que é esse trabalho interdisciplinar? As disputas mantidas, desde o século passado, “pelo monopólio do objeto de estudo” (IGLESIAS; ALICIA, 1994, p. 5) e o decorrente isolamento das disciplinas perderam significado em função da complexidade dos dias atuais. Para alcançarmos uma interdisciplinaridade válida precisamos partir de metadisciplinas, o que nos obriga a nos inclinar diante da história contemporânea. Do contrário, chegaríamos a uma interdisciplinaridade coxa, fundada em um afã de especialidade extrema, com todos os perigos da analogia do tipo mecânico.

Não levar em conta a multiplicidade de prismas sob os quais se apresenta aos nossos olhos uma mesma realidade pode conduzir à construção teórica de uma totalidade

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Milton Santos INTERFACEHS cega e confusa. Mas a necessidade de partirmos de metadisciplinas que conduzam à visão sistemática da realidade não exclui as especializações, pois estas continuam necessárias. Por isso, uma exigência também essencial é a de bem precisar o objeto de estudo. Entendemos que um objeto de estudo supõe uma visão do real que denota um sistema de pensamento: a partir do mesmo objeto, as visões podem ser diferentes. É toda questão da objetividade do objeto e da objetividade do sujeito que sempre se recoloca.

Os dados do problema não são dados a priori quando se trata de definir a interdisciplinaridade. Também não podemos nos esquecer de que para cada época e cada objeto há uma interdisciplinaridade. Essa questão não é abstrata, pois não são propriamente disciplinas que estão em jogo, mas aspectos da realidade total tornados autônomos e demandando um tratamento específico. Insistimos no fato de que o processo histórico muda a significação do objeto e a verdade necessária também muda com o tempo que passa. Isso é inevitável, acarretando inclusive mudanças no próprio elenco das disciplinas ou saberes interessados.

Da evolução histórica resultam saberes novos, saberes renovados ou em vias de transformação e cuja definição é por isso mesmo difícil. O reconhecimento dessa evolução histórica é essencial. É sempre temerário trabalhar unicamente com o presente e somente a partir dele. Mais adequado é buscar compreender o seu processo formativo. Quando nos contentamos com o presente e partimos dele, corremos o risco de estabelecer uma cadeia causal inadequada que pode comandar o raciocínio numa direção indesejada. É também problemático tomar como ponto de partida uma verdade planejadora, cujas premissas irão igualmente influenciar o encadeamento de fatos e idéias.

Daí a nossa proposta de rever a própria construção histórica do objeto, de modo a reconhecer os seus elementos formadores, avaliados não isoladamente, mas segundo o respectivo contexto. Para isso, acreditamos que um enfoque baseado no fenômeno técnico é o mais adequado, já que a natureza e o espaço se redefinem a partir da evolução técnica, cuja periodização pode servir de base ao reconhecimento de uma periodização na história territorial, até chegarmos à fase atual, em que a problemática do “meio ambiente” se impõe.

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Uma indispensável premissa de base é que não existe meio ambiente diferente de meio. Tanto a geografia como a sociologia, desde o final do século passado, basearam boa parte de suas proposições nessa idéia de meio, que ainda hoje é válida. Pensadores como Humboldt, Ritter, Vidal de La Blache, Durkheim, entre outros, buscaram refletir sobre a relação sociedade-natureza considerando o entorno das sociedades como um dado essencial da vida humana.

O que hoje se chamam agravos ao meio ambiente, na realidade, não são outra coisa senão agravos ao meio de vida do homem, isto é, ao meio visto em sua integralidade. Esses agravos ao meio devem ser considerados dentro do processo evolutivo pelo qual se dá o confronto entre a dinâmica da história e a vida do planeta.

A história do homem sobre a Terra é a história de uma ruptura progressiva entre o homem e o entorno. Esse processo se acelera quando, praticamente ao mesmo tempo, o homem se descobre como indivíduo e inicia a mecanização do planeta, armando-se de novos instrumentos para tentar dominá-lo. A natureza artificializada marca uma grande mudança na história humana da natureza. Agora, com uma tecnociência, alcançamos o estágio supremo dessa evolução (SANTOS, 1994, p. 16).

Diante das conseqüências advindas dos maus tratos ao meio e que ameaçam a vida no planeta, colocamos, desde logo, uma questão: o locus desses problemas é o lugar, é o mundo.

Na fase atual, momento em que a economia se tornou mundializada, adotando um único modelo técnico, a natureza se viu unificada. Suas diversas frações são postas ao alcance dos mais diversos capitais, que as individualizam, hierarquizando-as segundo lógicas com escalas diversas. A uma escala mundial corresponde uma lógica mundial que, nesse nível, guia os investimentos, a circulação de riquezas, a distribuição de mercadorias. Porém, cada lugar é o ponto de encontro de lógicas que trabalham em diferentes escalas, reveladoras de níveis diversos, às vezes contrastantes na busca de eficácia e de lucro no uso das tecnologias, do capital e do trabalho (ibid., p. 19). Trata-se de uma natureza unificada pela história a serviço dos atores hegemônicos, onde a técnica passou a ser mediação fundamental do homem com seu entorno.

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Ao falarmos em meio ambiente, portanto, temos que entender, antes de mais nada, a formação desse meio técnico que hoje é passível de ser apreendido na relação do lugar com o mundo, posto que a técnica é a base de realização da mundialidade como totalidade empírica (SANTOS, 1985) e esta só é alcançada através dos lugares, na medida em que os lugares exprimem a funcionalização do mundo.

A técnica é a grande banalidade e o grande enigma, é como enigma que ela comanda nossa vida, nos impõe relações, modela nosso entorno, administra nossas relações com o entorno. Se, ontem, o homem se comunicava com o seu pedaço de natureza praticamente sem mediação, hoje a própria definição do que é esse entorno, próximo ou distante, o local ou o mundo, é cheio de mistérios. É nesse sentido que, já em 1949, Georges Friedmann nos aconselhava a considerar esse meio técnico como uma “realidade com a qual nos defrontamos”, propondo, por isso, “estudá-la com todos os recursos do conhecimento e tentar dominá-la e humanizá-la”.

Acreditamos que uma análise histórica da chamada “questão ambiental”, vista do ponto de vista da técnica, possa constituir um bom ponto de partida para uma periodização da problemática e para o entendimento da situação atual. A técnica apareceria, assim, em cada período, como uma espécie de pivot ou referência, na constituição de m saber interdisciplinar.

Nosso ponto de vista parte da premissa hoje adotada por inúmeros historiadores da ciência e filósofos da técnica (B. LATOUR, A. GÁS, J. ELLUL, entre outros), segundo os quais não se pode pensar em técnica ou, mais explicitamente, em objeto técnico, sem pensar paralelamente, na sociedade que os anima. Isso pode ser dito de maneira mais direta: nenhuma técnica é apenas materialidade técnica: a técnica é também social. E sobretudo nos dias de hoje, neste período técnico-científico da história, nada é puramente social, mas também é igualmente técnico. Enfim, tudo é híbrido, misto.

Essa noção de hibridez e mistura constitui um dado fundamental na constituição dos elementos da equação com a qual pretendemos trabalhar. Essa equação é constituída por três elementos: 1. o primeiro é dado pelos sistemas técnicos adicionados à

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A Questão do Meio Ambiente: Desafios para a Construção de uma Perspectiva Transdisciplinar

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Natureza em um lugar dado e um dado momento histórico, uma segunda natureza, já tecnicizada; 2. o segundo é dado pelas motivações de uso dessa natureza segunda. Essas motivações de uso são locais e extralocais, crescentemente extralocais; 3. o terceiro dado é o grau de “indiferença” dos sistemas técnicos utilizados em relação ao meio que os acolhe, em outras palavras, o grau de respeito dos sistemas técnicos quanto às estruturas encontradas: estruturas do meio, visto como materialidade (em seus equilíbrio ditos naturais) e como sociedade (em seus equilíbrios ditos sociais).

Haveria, assim, e numa delimitação grosseira, três grandes períodos:

1. o período pré-técnico;

2. o período técnico;

3. o período científico-técnico-informacional.

Antes mesmo de tentarmos caracterizar cada um desses períodos, é necessário frisar que essa periodização, arbitrária como sempre, obediente, como sempre, às finalidades do tema e do autor, é suscetível de uma subperiodização. As situações eram dificilmente comparáveis até época recente, já que a unidade de evolução do fenômeno técnico é igualmente recente. Mas, em cada área, as diferenças de evolução permitem um tratamento específico do respectivo tempo histórico.

1. O que estamos chamando de período pré-técnico comporta uma definição restritiva. Desde o homem social, os próprios objetos naturais, isto é, as próprias coisas ganhavam um conteúdo social com seu uso humano. As transformações impostas às coisas naturais já eram técnicas, entre as quais a domesticação das plantas e animais aparece como um momento marcante, o homem mudando a Natureza, impondo-lhe leis. A isso também se chama técnica. Mas estamos aqui reservando a apelação período técnico à fase posterior à invenção e ao uso das máquinas, já que estas, unidas ao solo, dão uma toda nova dimensão à respectiva geografia.

Nesse período pré-técnico os sistemas técnicos não tinham existência autônoma.

Sua simbiose com a natureza resultante era total, e podemos dizer, talvez, que o possibilismo da criação mergulhava no determinismo do funcionamento. As motivações de uso eram sobretudo locais, ainda que o papel do intercâmbio nas determinações sociais pudessem ser crescentes. Assim, a sociedade local era, ao mesmo tempo,

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A Questão do Meio Ambiente: Desafios para a Construção de uma Perspectiva Transdisciplinar

Milton Santos INTERFACEHS criadora das técnicas utilizadas, comandante dos tempos e dos limites de sua utilização. Essa harmonia socioespacial assim estabelecida era, desse modo, respeitosa da natureza herdada, no processo de criação de uma nova natureza. Produzindo-a, a sociedade territorial produzia também uma série de normas territoriais, cuja preocupação era preservar o meio de vida, para salvaguardar a continuidade do processo. Exemplos disso são, entre outros, o pousio, a rotação de terras, a agricultura itinerante, que são ao mesmo tempo regras sociais e regras territoriais tendentes a conciliar o uso e a “conservação” da natureza: para ser outra vez utilizada. Esses sistemas técnicos sem objetos técnicos não eram, pois, agressivos, pelo fato de serem indissolúveis em relação à Natureza, que, em sua operação, ajudavam a reconstruir.

2. O período técnico vê a emergência dos objetos técnicos e do espaço mecanizado. Os objetos que formam o meio não são apenas objetos culturais: eles são culturais e técnicos ao mesmo tempo. Quanto ao espaço, o componente material é crescentemente formado do “natural” e da máquina. Dentro da população total de objetos de uma área, o número e a qualidade de objetos técnicos varia. As áreas, os espaços, isto é, regiões e países passam a se distinguir em função da extensão e da densidade da substituição, neles, das coisas e dos objetos culturais por objetos técnicos.

Os objetos técnicos, maquínicos, juntam à razão natural sua própria razão, uma lógica instrumental que desafia as lógicas naturais, criando, nos lugares atingidos, mistos ou híbridos conflitivos.

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