Ii guerra mundial: relatos de um combatente palmeirense que não atuou na guerra, seus anseios e expectativas

Ii guerra mundial: relatos de um combatente palmeirense que não atuou na guerra,...

II GUERRA MUNDIAL: RELATOS DE UM COMBATENTE PALMEIRENSE QUE NÃO ATUOU NA GUERRA, SEUS ANSEIOS E EXPECTATIVAS

Antonio de Melo Torres1

Resumo: Iniciando a Segunda Grande Guerra Mundial, o Brasil que a princípio manteve-se em uma posição de neutralidade. Passou a enviar tropas expedicionárias após o ataque de submarinos alemães aos navios brasileiros. Mas alguns foram que foram convocados ficaram para defender o nosso litoral, como também servirem de força reserva. Este trabalho procura descrever as vivências destes soldados que aqui ficaram, através da análise da fala do Ex-Combatente Eloi Torres (909), que não chegou a ir a guerra, mas que guarda em sua memória fatos e acontecimentos que marcaram esse período. É importância a busca por versões e falas daqueles que estão esquecidos pela sociedade, pessoas que viveram alguns processos históricos. Sendo uma análise que busca delinear o perfil psicológico dos que defendiam a nossa costa, sintetizando suas angustias, incertezas, alegrias, revoltas, dentre outros fatos peculiares que marcaram o seu tempo de serviço no Exército e que marcaram a memória deste soldado.

Palavras-chave: Ex-Combatente. II Guerra. Memórias. Proteção do Litoral

Ao iniciar a Segunda Guerra Mundial, o mundo dividiu-se em três blocos: as potências do eixo, os aliados e os que se mantiveram de início uma postura neutra. Assim, o Brasil, que a princípio teve uma posição de neutralidade perante os dois blocos, já que simpatizava tanto com um quanto com outro. Mas, com o afundamento de alguns navios brasileiros por submarinos das Potências do Eixo (fato ainda discutido por alguns estudiosos), além da pressão dos Estados Unidos, sem contar com as pressões internas motivadas pelo ódio decorrido dos ataques dos submarinos alemães.

O clima de incertezas se espalhou, as populações, mormente as litorâneas, estavam confusas com os acontecimentos, alguns da base aliada de Getulio Vargas eram simpatizantes do fascismo, como combate-lo? Como combater um Estado ditatorial, se convivíamos em uma ditadura do Estado Novo? De certo é que foi declarada as potências do Eixo inimigas do Brasil, sendo providenciado o treinamento para posterior envio de brasileiros para o teatro de operações.

Quando o Brasil declarou guerra contra as potências do eixo, o mesmo não possuía um contingente numeroso e preparado para o combate, já que segundo Moura (2005, p. 16): “O Brasil [...] teve antes de tudo que superar a sua dura realidade de nação subdesenvolvida. Contava naquele momento, com um exército pequeno e mal armado”. Mas essas dificuldades não foram um empecilho que impedisse o envio de nossas tropas, que foi usada também como meio de promoção de Estado Novo.

Quanto aos treinamentos, o exército brasileiro teve que sair de uma realidade, para uma que os soldados tiveram que a todo custo se adaptar. Sabendo que a maioria dos convocados não tinha experiência com armas e provinham de áreas rurais em sua maioria, além de um porte físico inferior ao dos europeus, os seus “inimigos” como nos revela Moura (2005, p.18): “Apesar de todas as limitações, aqueles homens, na maioria caboclos, alguns com dentaduras maltratadas, quase sempre de pequena estatura e sem o físico avantajado dos anglo-saxões souberam superar a sua própria condição em terreno e clima a que não estavam habituados”.

Com o envio de tropas que precisaram ser reequipadas e passadas por um novo treinamento, para assim poderem entrar em combate. Num local estranho para os mesmos e com um clima que foi um desafio a mais para os nossos pracinhas. Deste modo o Brasil participou da Segunda Guerra Mundial, sendo que muito destes soldados ficaram no Brasil.

Aqueles Que Não Foram

Enquanto nossas tropas lutavam contra os fascistas na Itália, no Brasil tropas eram alistadas para servirem de uma força reserva, além de proteção de nossas fronteiras, no caso o nosso litoral. As populações litorâneas eram as que mais se atemorizaram, já que estavam mais vulneráveis a um ataque inimigo, levando empresas, movimentos cívicos, entre outros, incluindo simples pescadores a externarem seu patriotismo. Mas, esses movimentos, como toda as informações eram manipuladas pelo Estado Novo, na pessoa de Getulio Vargas, como afirma Moutinho (2004, p. 42): “A guerra manipulada pelo Estado Novo, levou á população, [...], um clima de medo e incerteza”.

Quando se estuda a participação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Segunda Guerra Mundial, se restringiu, ultimamente, apenasàqueles que participaram diretamente da linha de fogo, na Itália. Esquecendo de colocar os Soldados da Borracha, que os sobreviventes ainda lutam por seus direitos. Também pouco se fala daqueles que permaneceram aqui em treinamento e na defesa de nosso território. No caso analisado, tratam-se do estudo da Fala do ex-combatente Eloi José Torres (909), hoje com 85 anos de idade, que não chegou a ir para o campo de batalha, mas passou pela angustia da separação de seus familiares e amigos, como também viveu a triste expectativa de ir ou não para o teatro de operações.

Em suas palavras percebe-se, com clareza, como eram os treinamentos, como conviviam entre si, os seus medos, suas diversões e a busca pela “liberdade”, já que liberdade para eles é está perto de seus entre queridos.

Em sua fala, também, é perceptível a preocupação do Exército pela guarda do litoral, já que os pontos de treinamentos se detinham ao litoral. Procurando assim espalhar pequenos grupos em pontos distintos para que pudessem ter uma melhor cobertura da costa brasileira, já que segundo Eloi Torres:

Aí saia com a gente no carro, pegava de Maceió, chegava naquela beira de praia Puxim, Feliz Deserto, Pituba, vários lugares, daqui, acolá deixava um, faça o abrigo aí, o camarada já com uma picaretazinha, pá, o equipamento todinho, o camarada fazia o abrigo.

Num extenso litoral, de um país continente, as populações litorâneas sofriam com o temor provocado pela falta de informações ou até mesmo por informações manobradas por pessoas e até pelo governo.

A Mentalidade de um Ex-Combatente

Ao realizar um estudo da entrevista concedida por Eloi Torres (909), em 11 de Novembro de 2006, se tornou fragrante situações e fatos que ocorreram durante o período em que o mesmo estava em serviço no Exército, o mesmo teve que deixar seus planos e suas ambições, tudo desfeito pela guerra, que necessitava de braços para a defesa de ideais que não eram os de muitos soldados, basta ver a situação de sai convocação nas suas próprias palavras:

Eu estava noivo, com uma casinha lá onde mora o Zé do Né, um chalezinho, e foi um dia de sábado, só faltava as duas empenas do chalé, aí passou, e quando foi umas quatro horas, passou o Antônio, o finado Antônio Cândido, você não conheceu não, conheceu, ele era, Toinho [forma de tratamento utilizada pelo entrevistado para com o entrevistador], o, como é que chamava, inspetor, né, inspetor, ela ficava lá com negocio de prefeitura né, ele, lá vem ele, com um paletozão com aquele bolsão, chegou em frente, ali onde estava trabalhando, mais pai, dois pedreiros, ninguém falava em cimento, era no barro. Parou em frente a construção na estrada, – Oia!, Vem aqui; – o que é que há? – Vem aqui. Puxou a carteira do bolso, – Oia aqui, pra você comparecer segunda feira em Maceió. Você foi sorteado para o exército. - Ai da estrada mesmo gritei de cá: - pai, se quiser terminar as empenas termine, se não quiser pode empurrar as paredes, ai deixar cair pra lá, que já vou pra casa tomar banho pra ir para Palmeira, pra amanhã viajar pra Maceió. – Que é isso, que história é essa? – Não sei o que. Pai deu pra chorar. Digo não, fui sorteado pro Exército, agora não sei se fico lá não.

Se pararmos para analisar esse pequeno fragmento de sua entrevista, é notório que o mesmo possui diversas informações a respeito de algumas características mentais, culturais e sociais daquele período.

Analisando os aspectos sócio-econômicos, é visível que se trata de um agricultor que buscava estabilizar sua vida, construindo uma casa, e conseqüentemente casar-se, mas em meio à construção, ver-se desmoronar seus planos já que o “sorteio” como o mesmo coloca, não tem nada a ver com o sentido real da palavra. Um ponto, que demonstra que não era uma situação favorável ser chamado pelo Exército naquele momento foi quando o seu pai chora, o que sintetizado em suas palavras: “[...] agora não sei se fico lá não”.

Outra questão que Eloi Torres colocou em suas palavras foi os códigos utilizados e a preocupação com o inesperado. Já que estavam na expectativa de ir um dia para o teatro de operações, isto é para a Itália. Por isso deveria está sempre preparado e atento para os códigos transformados em sinais sonoros. Como o mesmo colocou:

Quando a gente chegou na sede, que era em são Miguê, foi se espalhando gente pra, pro todo litoral, né, pra beira de praia, uma vez que a gente tinha uma escala pronta, a gente era avisado, um apito do jeito que tivesse, até nu se tivesse, tinha que levantar e apresentar; dois apitos, uniformizados; três apitos, uniformizados e equipados com fuzil, com munição, com cantil, tudo. Ai, a gente ficava, aquele terrasco, de frente ao 20º BC. Completo, aquelas 8 ou 10 filas de soldados e já levava com destino ao praia. – Você tem pasta, você tem escova, tem isso, tem aquilo, aquilo outro? Saia perguntando a tudinho, se o camarada não tivesse esse material já ia preparando, isso, aquilo outro, e se você fosse agora para o campo de batalha, como era? Como era que você ia se arrumar?

Neste fragmento, percebe-se certa preocupação com a disciplina, na qual é colocado o perigo de uma convocação iminente para ir com destino à Itália, como também nos revela que existia, a partir do momento em que era preciso chamar a atenção dos camaradas pelo comandante a respeito da disciplina, os soldados, m parte não estavam conscientemente dispostos a servir na guerra, já que estavam ali obrigados, por isso displicentes.

Não eram só os soldados que ficavam apreensivos com aquele estado de guerra, as populações em torno dos acampamentos ficavam apreensivas, ao invés de se acalmarem com a presença dos soldados, mas essa presença ao mesmo tempo que trazia uma certa paz, também carregava consigo um certo temor ou mesmo um ódio da população com os soldados encarregados da defesa do litoral, já que, segundo o mesmo as pessoas:

Ficava assustadas, lá em Pontal do Cururipe, me escalaram para a cozinha, ia ficar na cozinha, tomando conta do gênero, ali era responsável, chegava a bóia todo mês, ai eu tinha que controla a bóia pro mês todo, as vezes exagerava um pouco, né, e não dava, quando não dava, o tenente escalava dois, três: - vai por ai a fora, aonde encontrar criação de galinha pega, depois vem a conta. Pegava 8 ou 10 e criação e trazia pro soldado comer. Era uma vida aperreada.

Essa vida aperreada, a qual o 909 nos revela, era o desconforto, tanto para alguns soldados, quanto, principalmente para os moradores das regiões que tinham a presença do exército. O que esbarrava no princípio defendido por Maquiavel (2002, p.101): “Os homens esquecem mais rápido a morte do pai do que a perda do patrimônio”. Desta forma, existia um certo mal estar entre os soldados e a população.

Os desentendimentos dentro do próprio grupamento eram constantes, ora eram soldados que desentendiam entre si, ou contra alguns comandos, como também iam de encontro a situação de sobrecarga de serviço colocados sobre a responsabilidade de alguns soldados, como no caso de Eloi Torres:

Me colocaram lá na cozinha, pra eu ser responsável pelo gênero. Neste destacamento eram 13 homens e o sargento, 14. Era pra dá conta de água, de buscar água, mais outro camarada, água lenha pra cozinhar, era nós dois, lavar caldeirão, lavar loiça, quando foi um dia chegou, - amanha é peixe, chegou parece que foi uns 15 ou 25 peixes, pra eu tratar aquele peixe, mais o companheiro, assa ele, fazia um monte de casca de coco, não faltava casca de coco. Assava aquele peixe todinho, ficava amarelinho, pra no outro dia, ser a janta e o almoço dos soldados, 13 homens. Ai, olhei assim, mas né possível, eu me acabando aqui, eu nem comer comia que prestasse no serviço da cozinha, responsável por tantas coisas.

Situação essa que levou o solado 909 a protestar contra a situação que o provava, chagando te ir ao sargento para pedir transferência.

Aí, fui falar com o sargento: - Sargento, num vou tratar o peixe. – 909 você não vai tratar o peixe. Eu disse: –vou não senhor, o senhor pode me transferir pra são miguê, pra Maceió, pra onde quiser, mas eu não vou tratar o peixe não, o senhor tá vendo que são 13 homens ai, nessa beira de praia ai, tomando banho, pra lá e pra cá, só tinha a escala de espionagem, lá no pé de tamarina, fizeram lá um poleiro em cima, um camarada ficava lá com um binóculo, observando o mar se vinha algum navio, alguma embarcação diferente. – num vai tratar?, digo, _ não vou não senhor, de jeito nenhum, pode me transferir.

A essa atitude, que era baseada no mais puro cansaço e situação de stress, provocado pelo afastamento de sua localidade e além do mais, gerava um sentimento de inferioridade, devido alguns estarem em uma vida mais, tomando banho de praia, enquanto outros têm que pegar no pesado. Neste mesmo fragmento é perceptíveis o interesse e a preocupação como o mar, sempre a procura de navios ou embarcações desconhecidas, tais como navios de bandeiras inimigas ou mesmo submarinos.

Mas tal atitude tomada por Eloi Torres teve como conseqüência à decisão de envia-lo para Maceió. No dia seguinte, mas ao amanhecer a decisão foi reconsiderada, segundo nos informa o mesmo:

Quando foi de manhã, me chamou, colocaram outro no meu lugar para ajeitar a cozinha, - 909, você vai ficar agora só responsável a mercadoria, vou colocar outro pra cozinhar e você vai ficar só responsável pela mercadoria que vem para organizar pra dá para o mês todo. – sendo assim eu fico, agora, pra eu ficar aqui responsável a tanta coisa, fico não, pode transferir, me pender, ou quiser fazer o que quiser comigo.

Mostra-se, por essa reversão de atitude do sargento, uma espécie de flexibilidade do comando, mas também reforça a idéia de que existia uma espécie de diferenciação de tratamento por parte do comando para os seus comandados. E Eloi Torres acrescentou que: “Mas a consciência dele acho que bateu, ‘ele tem razão’. Ai não deu nada, não deu prisão, não deu nada pra mim não. Mas eu expliquei tudinho a ele, se convenceu que eu não tava errado não”.

Quanto ao transporte, se utilizavam o automóvel, mas, principalmente, era a marcha o mais comum entre eles, enquanto os superiores andavam a cavalo. Como em quase todo os grupos, ente eles havia um que gostava de chamar as atenções para si, gostando de fazer graça:

[...] a gente era na perna, era a jornada, tinha que ser na perna, e o bichão era montado, né, de botas. Se visse um dá uma risadinha, aí tinha um cabra, um pixote [porque era de baixa estatura], se brincar era menor do que eu, mas esse fazia graça, nisso o tenente tirou ele da fila que tava perto de mim, assim e botou ele no coice [atrás do cavalo]. O cavalo não tem um roncado no peito? Naquela marcha ele fazia “roc, roc, roc, que nem um cavalo, né, e os outros achavam graça e pegavam a sorri, esse ainda levou uma desvantagensinha, que o tente tirou ele e colocou por último, lá na fila. Que em todo canto assim tem camarada presepeiro, né

Esse episódio pode-se classificado como uma curiosidade, diante de tantos fatos ocorridos, mas também podemos extrair a distribuição entre os soldados rasos e os oficiais iam a cavalo. Mas também nem tudo o que ocorria lá nos treinamentos era sacrificoso. Também havia os momentos de diversão, momentos em que os soldados podiam sair para o descanso, como podemos observar em um dos trechos da entrevista:

Nós destacamos no quartel de Cururipe, foi um camarada por nome de Pingüim, o apelidio dele era Pingüim, era José não seu de que ai esse Pingüim andava todo ajustadozinho. Era a botina chegava a espelhar, a roupinha dele era toda passada ferro, todo, só andava daquele jeito, esse Pingüim deu em toda boca de noite, quando ele não tava de serviço, ia pra uma rua que tinha, assim, tudo de rancho de palha, né, na beira da praia. E quando foi um dia chegou um veio e uma veia na portaria, eu tava até dando guarda. Aí fazendo queixa : — É passado assim, assim, com fulano de tal, tava lá em casa, freqüentando lá em casa” e esse velho tinha 3 filha moça, três mulher, coisinha má ajeitada, mas até era até jeitosa de corpo, né. Não é que o pingüim, passou duas, passou os pés [manteve relações com as duas] e o velho veio fazer quixa no quartel, isso em São Miguê”.

Com este fragmento, podemos ter uma noção de que como eram os relacionamentos entre os soldados e os civis, mas não podemos ter generalizar esse fato ocorrido, sendo desta forma possível ver outra com que a população enxergava os soldados, acolhendo-os e incentivando o namoro de suas filhas com os militares, mas esse fato chegou ao extremo, já que de acordo com a história contada pelo 909, continuando o relato anterior:

— 909, eu digo: — Pronto; — E que esse casal de velho veio ver ai, conversar com você?. — Tenente, estes estão reclamando que pingüim, é 910 é o número dele, 910 aprontou assim e assim aqui dentro de são Miguê [interessante é que no relato ele fala em Cururipe e continua a história em São Miguel]. — Chama o Pingüim aqui. Digo: — O tenente ta chamando, vai lá. O Pingüim chegou todo prontinho, todo bem ajeitado. — Pronto seu tenente. Ficou com a mãozinha lá. — Pingüim, é verdade que você praticou isso e isso com a família daquele velho? E ele não tirou a mão, não mandou baixar a mão, quando o tenente manda baixar. — é verdade, seu tenente, do jeito que ia, ia a velha, o velho, tudo ia no eito, né. Aí mandou baixar a mão, o tenente desceu, falou com o velho, o velho contou a mesma história. — Pois de agora por diante, vocês segura as suas poldrinhas que os meninos estão saltos aí, pode.

Dentro do grupamento, como foi mencionado anteriormente, existiam os dias de folgas, que nosso relatado, essa folga era usada para namoricos, com o apoio dos pais, que vendo o namoro ficar de tal proporção, sem que o soldado assumisse as “moças”, veio até o comando, reclamar a intenção de que este obrigasse o soldado reparar o defloramento ocorrido, com as duas; no que o comando despede os dois velhos, recomendando que ambos voltasse para as suas casas, dando a entender que não iria punir o soldado, e que mantivesse suas filhas e casa, e com o tom machista: “vocês segura as suas poldrinhas que os meninos estão saltos”. Revelando, dessa forma, uma certa cumplicidade do comando para com os comandados.

Naquela época o percevejo era comum, naquelas casas a beira de praia, já que as mesmas eram em sua maioria de palha, para evitar uma infestação desses insetos, o comando era bastante exigente quanto a higiene do acampamento, de acordo com Eloi Torres: “[...] tinha aquele negocio, limpeza de armamento, limpeza de cama, naquela época era um percevejo da desgraça, nas camas. E houve fiscalização, e o camarada tinha que trazer a sua cama armada, tudo direitinho sem haver imundície dessas coisas assim”.

Não era só os insetos que atormentavam os soldados, mas também os próprios companheiros que rouba munição dos companheiros e de grupamentos vizinhos, o que causava uma celeuma ente eles, que segundo ele:

Cada um tinha o seu equipamento completo com munição, aquelas balas biogival, e sempre o camarada trazia aquilo em ordem, o equipamento. O camarada foi e roubou minha munição todinha, quando foi de manhã quando fui ajeitar as coisas, cadê a munição, aí fiquei com ar de doido. – O tenete, roubaram minha munição todinha, e agora? O que é que eu faço? Fiquei aperreado, aí saí pesquisando o camarada, “eu não fui, eu não fui”. Ai o cabra que era o cabo que ajudava o sargento, disse: – Vamos dar isso por encerrado, por que for justificar a munição que foi gasta aqui, que houve um tiroteio, né [...]

Esses fatos acorriam, gerando uma desconfiança mútua e um certo receio, que só era superado pelo medo de ser enviado para Itália, o medo do inimigo, entro outros medos, quando foi indagado se houve mortes durante os treinamentos, ele afirmou que só houve desmaio, fora isso, um simples mover de um galho acarretou um desperdício de munição, segundo o 909:

[...] um camarada vinha, um camarada na beira da praia com um fuzil a tiracolo, pra lá e pra cá, de duas em duas horas era rendido, um camarada veio, na beira da praia pra lá e pra cá, veio, ele viu na beira da praia um galho de mato né, ele viu na beira da praia um galho de mato, né, o galho de mato fazia assim, o vento fazia pra lá e pra cá, oia, lá vem o camarada, avisou o destacamento, o destacamento era até um rancho de palha, rancho cumprido, bem feito, mas as camas eram de vara, truxeram os colchão de capim e a gente ficou lá, esses tempos todinho em Ipituba, nesse dia foi gasto, gastaram foi munição, o camarada, saia do destacamento rastejando, e a bala comendo, atirando nesse galho de mato que estava pra lá e pra cá, e quando se aproximaram, era um galho de mato, não era gente [...]

Percebe-se em sua fala, que os soldados estavam, em parte, em um constante estado de preocupação com possíveis ataques inimigos, sendo assim um simples galho poderia deixar o quartel improvisado em polvorosa. Outro ponto que se deve destacar, eram as acomodações, que sendo um rancho de palha e as camas de varas, neste caso a estadia era condizente com as condições do povo de beira de praia. Já que o perigo rondava o acampamento, o incêndio era iminente nestas condições, já que ali se encontrava tudo que possibilitava tal acidente, o fogo e a palha, mas em caso de um ataque, o quartel, que volto a repetir, improvisado, seria um alvo fácil para possíveis inimigos. Neste sentido podemos citar um caso ocorrido nas redondezas, um incêndio que se alastrou fácil devido ao tipo de abrigos que os pescadores viviam que segundo o relato dele:

Uma rua, de com umas quinze ou vinte casas incendiaram, não seu se foi fosco ou foi o que foi. E o vento tangeu e a gente correu todinho a tirar criança, a tirar alguma coisa que tinha dentro de casa, antes do fogo invadir as outras, assim. Não morreu ninguém, né, mas queimou mercadoria um bocado de coisa, lá em Cururipe. É um trupé pesado.

Nisso podemos perceber o perigo que os rondava. Quanto os treinamentos teriam que ser pouco semelhantes com as condições de guerra, nos terrenos da Itália, inclusive, colocando soldados para cavar em cemitérios as suas trincheiras, passar a noite entrincheirados, em pontos estratégicos para tal simulação, neste treinamento, iam para locais que carregavam em si certos desconfortos, como é o caso do cemitério:

[...] aonde o camarada ficasse escondido, tinha que ficar alí né, ai chegou, quando o carro chegou em frente um cemitériozinho, assim um quadradozinho, que nem ali em cima das montanhas, era miudinho o cemitério, cercado de arame farpado, ai o tenente foi: – 909!, ai eu disse: - Pronto, me apresentei. Você vai fazer seu abrigo aqui dentro do cemitério. – eita, fazer o abrigo logo aqui dentro do cemitério? – É, você vai fiar ali até recolher. Desci o equipamento todinho, com um picareta e minha pá fiz o meu abrigo e fiquei lá, com um fuzil na mão, até cinco horas da manha. Cinco da manha é que vieram recolher. Foi uma vida meio sacrificosa.

Esse tipo de treinamento, de trincheira, confere com a situação em que se encontrava a Itália, o frio, o gelo, a lama, além de corpos expostos de defuntos que estavam sepultados, mas com as explosões seus corpos ficavam expostos, num espetáculo grotesco de acordo com Maximiano (2005, p. 28):

A terra, pisada e repisada pelos pés dos solda­dos, tornou-se um lamaçal pastoso e gelado. E féti­do, também. Sobretudo ali, naquelas medonhas e encharcadas posições, abertas, em forma de túnel, enrusti­das que foram sob o velho cemitério de Bombiana. Ali, naqueles buracos de toupeiras, sentia-se ainda muito frio no decorrer das noites. As mãos gelavam-se ao tocar na terra negra e malcheirosa. Dela, permanentemen­te emanava-se o odor sepulcral de defuntos centenários, confundindo­se, misturando-se e aderindo ao fedor do feno podre que enchia os galochões - o fedor de chulé, de suor velho e encalacrado - o mau cheiro de toda sorte de sujeira, acumulada nos corpos vivos que conviviam com os mortos. Um bafejo forte escapava-se do fundo da terra do velho cemitério.

É claro que os que ficavam aqui sofriam essas mesmas experiências, mas foi apenas um cheque psicológico, no sentido de deixa-los de sobre aviso com relação as condições lá existentes, isto é, teriam que se livrar de pudores e receios para com certas condições, já que quando os soldados se entrincheiravam em cemitérios para treinamentos, podiam aferir alguns pudores morais e religiosos, já que isso para alguns daquela época seria uma espécie de profanação de túmulos para com certas condições, mas volto a repetir, as condições vividas pelos soldados aqui, não são comparáveis com as dos soldados que estavam no teatro de guerra.

Fora esses fatos, e devido o gasto de munições sem motivo, havia o furto de munições de acampamentos vizinhos, na qual tratava-se de uma forma de recuperar as munições perdidas que segundo as explicações de Eloi Torres:

[...] ai o argento mais o cabo combinaram: – toda semana eu vou dar liberdade pra um sair, pra outro destacamento, que era muitos destacamentos, - fulano de tal, vai passar um dia no destacamento fulano, agora lá você faz um jeitinho, de lá, era aquelas caixas de munição,cada destacamento, tinha duas ou três caixas de munição, o camarada catava um bocado, quatro, cinco ou dez balas e chegava e entregava ao sargento, nessa brincadeira até completar o que foi gasto.

Com este fato ocorrido, podemos explicar o que aconteceu em um momento anterior, isto é, o roubo das munições do soldado 909, que foi um meio de repor por um outro soldado. Os treinamentos, como já foi dito, tinha que serem mais semelhante possível, desta forma a ordem de comando tinha que ser obedecida a risca, sem nenhum questionamento por parte dos soldados, seguindo esses princípios, um soldado se pôs a correr afim de atender um chamado e sofre um acidente, que é relatado pelo 909:

[...] pois tinha um tenente velho [...] dia tinha que dá instrução a gente, ele era responsável pela instrução, “direita, esquerda, correr, cair. Quando ele dizia “Alto” o camarada tinha que parar no chão, sargento malvado, danado, chegou um dia que ele inventou um, pra ir pra beira da praia, um sítio coqueiro aquelas carreiras de coqueiro no linhamento até que ele gritava, tinha uma voz de comando grossa, “atenção, pelotão, correr” aí o camarada sai; quando ele gritava “alto”, tinha que parar, mas menino, um pobre de um soldado, chamava, tinha um camarada que chamava Aberlado, esqueci o nome. Quando o tenente gritou “alto”, nas plantações de coqueiro um buraco que eles fazem, um buraco quadrado assim [ele faz gestos no sentido de demonstrar como era o buraco], o coqueiro não vingou, né, nasceu [...], foi uns pés de urtiga, que tava rentisinho de urtiga, urtiga verde, um cabra pol, dentro do buraco, mas menino, quando o camarada, o coitado ficou doidinho, o tenente dizia; — Se apresente fulano. Há e ele como a pele todo encalombado.

Se analisarmos esses treinamentos e se ocorressem com balas de verdade, já que eram de festim, ou mesmo se tivesse fossos preparados, como armadilhas, aqui, nos treinamentos haveria mais mortos do que houve entre os pracinhas brasileiros lá na Itália, que na guerra chegou a 430 dos 25. 334 enviados. Muitos não foram, mas constantemente pairava o vulto da convocação, Eloi Torres teve o seu nome relacionado em um listra, ms não seguiu, sendo substituído por outro que cometeu uma desordem, nas palavras de Eloi Torres:

A escala tava pronta, num é, eu fui escalado pra Fernando de Noronha, uma vez, uma camarada deu uma alteraçãozinha, ele mora até aqui, no Lajeiro Novo, chamava-se, eu me esquecei nome do camarada, colocaram ele pra embarcar, [...]. Outra vez foi pra Itália, – 909 tá escalado pra ir a Itália. – tô pronto. Num se virou a volta e o que fizeram pra lá, colocaram outro e seguiu pra Itália, no caminho ainda deram alteração no ônibus, ainda foi preso um bocado, e eu fiquei, graças a Deus, não fui nem pra Alemanha, nem pra Itália.

Apesar do mesmo dizer que estava pronto, a diferença entre está pronto e realmente ser preparado para aquele momento é muito grande, o treinamento, aqui realizado estava muito aquém do que era a realidade, lá na Itália. Eles teriam que se preparar tanto fisicamente quanto psicologicamente, desta forma tais treinamento só serviam para passar uma noção de guerra, já que, nossos soldados eram preparados no campo de batalha, como nos informa Moura (2005, p. 17): “Na realidade, eles foram adestrados em combate [...]. Pouco tempo lhes foi dado para se familiarizarem com o novo armamento e os veículos que teriam que usar”.

Nossos pracinhas, ou ex-combatentes, tiveram um papel importante no que diz respeito à formação do nosso Exército, tanto os que foram quanto os que tiveram um papel importante nesse processo.

A baixa estatura do soldado 909 não foi um empecilho para que o mesmo engajasse nas tropas reservas, mesmo achando que não passaria pelo exame biométrico, mas segundo as suas memórias:

Só sei que tateei como um troço pra não ficar lá. No tempo em que fui sorteado e não teve jeito. Mangavam de mim: — É, tu é pequeno, num vai ficar não, não sei o que, e vamos ajeitar pra dispensar você. Eu disse: — Ta Bom. E quando foi com dois dias o boletim cantou, o camarada leu lá o boletim, na hora da revista: “909, considerado como sorteado, vai servir o Exército”. Lascou tudo. Aí no Certificado de reservista 2 anos, 3 meses e 0 horas, e nas costas tem “nenhuma punição, sofreu durante o seu tempo de serviço”.

É perceptível que não estavam lá porque queriam, boa parte porque eram obrigados. Sendo assim, os nossos ex-combatentes merecem o nosso respeito e a nossa consideração, tanto os que foram para o teatro de operações (com louvor), aos nordestinos que saíram de seu lugar para explorar a borracha no Norte, que são uns verdadeiros soldados da borracha, quanto aqueles que permaneceram no nosso litoral. Guarnecendo e protegendo o nosso território.

No fim deste período de treinamento, o dia mais feliz para os soldados veio teve como porta-vos o rádio, que todas as tardes trazia noticias a respeito da guerra, mas em uma das transmissões fez com que os sinos batessem: “[...]aquele bate, bate, bate no sino, bate na porta, aquela bagaceira danada [...]”, assim em meio aos bate, bate de sinos, terminou essa etapa da vida de Eloi, e retornou a sua vida, não como antes, mas fazendo o que sempre soube fazer, cuidar da lavoura.

Neste estudo, ficou perceptível o quanto é rica a cultura presente em um simples relato, podendo ser de grande proveito para futuros estudos a respeito dos nossos pracinhas, já que o presente estudo procurou delimitar-se apenas à participação de Eloi Torres nesse processo de nossa história, mas, também pincelando alguns pontos importantes tanto do treinamento, quanto o da participação de nossos soldados na campanha da Segunda Grande Guerra Mundial, na Itália.

Fica claro, desta forma, que se trata de um tema amplo, que necessita de contínuos estudos, se possível em monografias ou teses. Nesse sentido, através desta pesquisa ficou claro que não é por falta de fontes que não se faz história, mas por falta de vontade, já que a história está em todas as ações do homem no ambiente em que o mesmo se insere.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MAQUIAVEL, Nicolau. O Principe. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.ISBN 85-219-0199-2.

MAXIMIANO, Campriani Cesar. A tarefa rotineira de matar. Nossa História. São Paulo. n. 15, jan.2005. p.26-29. ISSN1679-7221

MOURA, Aureliano. A luta antes da guerra. Nossa História. São Paulo. n. 15, jan.2005. p.16-20. ISSN1679-7221

MOUTINHO, Augusto César Machado. O medo veio do mar. Nossa História. São Paulo. n. 11, set.2004. p.38-43. ISSN1679-7221.

TORRES, Eloi José. Entrevista concedida a Antonio de Melo Torres no dia 11 de novembro de 2006. Conpact Disc. 41min 57 seg.

1 Pós-Graduação em História do Nordeste Brasileiro – UNEAL – Campus III – Palmeira dos Índios –AL

Orientador: Professor Roberto Calábria G. da Silva.

e-mail: torresa_1979@hotmail.com

Para citar este artigo: TORRES, Antonio de Melo. II Guerra Mundial: Relatos de um Combatente Palmeirense que não atuou na Guerra, Seus Anseios e Expectativas.Palmeira dos Índios: Universidade Estadual de Alagoas, 2007. (Artigo apresentado como pré requisito para conclusão da especialização em História do Nordeste Brasileiro, pela UNEAL)

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