Fatores assossiados ao uso de palmilhas

Fatores assossiados ao uso de palmilhas

(Parte 1 de 3)

v. 10 n. 3, 2006 Adesão ao Uso de Palmilha Biomecânica271ISSN 1413-3555 Rev. bras. fisioter., São Carlos, v. 10, n. 3, p. 271-277, jul./set. 2006

©Revista Brasileira de Fisioterapia

GUIMARÃES CQ 1, TEIXEIRA-SALMELA LF 2, ROCHA IC 1, BICALHO LI 1 E SABINO GS 1

1 Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, Belo Horizonte, MG - Brasil

2 Departamento de Fisioterapia, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, UFMG, Belo Horizonte, MG - Brasil

Correspondência para: Professora Luci Fuscaldi Teixeira - Salmela, Ph.D., Departamento de Fisioterapia , UFMG, Av. Antonio Carlos, 6627, Campus Pampulha, CEP 31270-901, Belo Horizonte, MG - Brasil, e-mail: lfts@ufmg.br

Recebido: 20/04/2005 – Aceito: 08/03/2006

Contextualização: Os benefícios das palmilhas biomecânicas no tratamento de acometimentos nos membros inferiores têm sido relatados. No entanto, observa-se na prática uma baixa adesão ao uso dessa órtese, comprometendo os benefícios que poderiam ser proporcionados. Objetivo: Investigar os fatores relacionados à adesão ao uso de palmilhas biomecânicas. Método: Participaram deste estudo 3 indivíduos (43,97 ± 14,73 anos) para os quais foram confeccionadas palmilhas biomecânicas. Um questionário contendo questões a respeito da palmilha e seu uso foi aplicado, em forma de entrevista, sendo as variáveis de estudo estabelecidas a partir dessas questões. Com base nos resultados obtidos, os indivíduos foram separados em 4 grupos, de acordo com o nível de adesão: adesão total, adesão parcial, adesão inconstante e não-adesão. Utilizou-se o teste “Kruskal- Wallis” para investigar se esses grupos diferiam entre si em relação às variáveis pesquisadas. Coeficientes de Correlação de Spearman foram utilizados para verificar possíveis correlações entre essas variáveis e adesão. Resultados: Dos 3 participantes, 15,2% tiveram adesão total, enquanto 42,4% abandonaram a palmilha. Comparando-se os 4 grupos de adesão em relação às variáveis pesquisadas, observou-se diferença significativa para conforto da palmilha (p=0,003), grau de melhora atribuído à palmilha (p=0,006) e grau de conhecimento sobre o problema (p<0,002). Correlações significativas (rs=0,58; p<0,001 e rs=0,50; p<0,01) foram observadas entre adesão e conforto e grau de melhora atribuído à palmilha, respectivamente. Conclusão: Resultados do presente estudo revelaram que conforto e grau de melhora atribuído à palmilha podem influenciar na adesão ao uso dessas órteses, constituindo-se fatores importantes para o sucesso do tratamento.

Palavras-chave: palmilhas biomecânicas, adesão, órtese.

Factors Related to Compliance with Biomechanical Insole Use

Background: The benefits of biomechanical insoles for treating lower limb impairment have been reported. However, in clinical practice, low compliance with the use of such orthoses has been observed, which detracts from the possible benefits. Objective: To investigate the factors related to compliance with biomechanical insole use. Method: Thirty-three subjects (aged 4 ± 14.7 years) for whom biomechanical insoles had been molded took part in this study. A questionnaire asking about the insoles and their use was applied through interviews. The study variables were established from these questions. Based on the results obtained, the participants were divided into four groups according to their compliance level: full compliance, partial compliance, irregular compliance and non-compliance. The Kruskal-Wallis test was utilized to assess differences between these groups regarding the variables investigated. Spearman correlation coefficients were utilized to investigate possible relationships between these variables and the compliance. Results: Among the 3 participants, 15.2% were fully compliant, while 42.4% abandoned the insoles. Comparing the four compliance groups in relation to the variables investigated, significant differences were observed regarding insole comfort (p=0.003), improvement attributed to the insoles (p=0.006), and degree of knowledge of the problem

(p<0.002). Significant correlations (rs=0.58; p<0.001; and rs=0.50; p<0.01) were observed between compliance and the comfort and improvement attributed to the insoles, respectively. Conclusion: The findings from this study revealed that the comfort and degree of improvement attributed to the insoles may influence the compliance with the use of these orthoses. These factors are important for the success of the treatment.

Key words: biomechanical insoles, compliance, orthosis.

272 Guimarães CQ, Teixeira-Salmela LF, Rocha IC, Bicalho LI e Sabino GSRev. bras. fisioter.

A adesão, essencial para o sucesso de um tratamento1, pode ser definida como o correto cumprimento às prescrições terapêuticas e geralmente requer uma mudança sustentada de comportamento por parte do indivíduo2. Quando a adesão não ocorre, há uma redução considerável dos benefícios que poderiam ser gerados, seja qual for a terapia implementada1,2,3.

Considerando a adesão de forma genérica, relatam-se vários fatores que podem influenciar o cumprimento das prescrições terapêuticas por parte do paciente: sua idade, escolaridade, a gravidade de sua condição4 e a forma como ele a percebe3,4, o impacto da deficiência sobre sua vida5, seu nível de motivação4,6, a forma como as orientações lhe são transmitidas (se oralmente ou por escrito)7, suas experiências com outros tratamentos, sua percepção sobre quem é o responsável pela sua melhora8, o esclarecimento sobre sua condição9, o incentivo recebido do terapeuta10,1 e a duração do tratamento5. Quando o tratamento envolve a prescrição de uma órtese, foi observado que o conforto, a fácil utilização, a relevância de seu uso durante a realização das atividades diárias e sua propriedade em não realçar as deficiências do paciente constituem pontos básicos para sua aceitação11.

Palmilhas biomecânicas são órteses fabricadas com material termomoldável (E.V.A) e são utilizadas no interior de calçados de indivíduos com alterações estruturais no pé. Essas alterações podem originar compensações durante atividades funcionais como marcha, corrida e práticas esportivas, levando a disfunções e patologias12,13. O uso das palmilhas visa acomodar tais alterações, controlando assim o movimento de pronação excessiva na articulação subtalar14 e contribuindo para reduzir a dor, evitar a progressão ou desenvolvimento de morbidades e melhorar a capacidade funcional do paciente13,15,16,17.

Além desses efeitos positivos, já foi demonstrado que as palmilhas biomecânicas possuem boa relação custobenefício, podendo ser usadas como primeira opção para o tratamento de síndrome patelofemoral de grau moderado a severo17. Apesar disso, observa-se na prática uma baixa adesão a esse tipo de tratamento. A não-adesão a uma terapia, em adição à redução dos benefícios esperados, poderá causar considerável frustração ao paciente e ao terapeuta3 e acarretar grandes custos econômicos3,19,20. O aumento dos custos será conseqüência do maior tempo de afastamento das atividades ou da necessidade de buscar uma nova intervenção.

Estima-se que 60% dos pacientes que sofrem de acometimentos crônicos não seguem adequadamente o tratamento proposto19. Compreender os fatores relacionados à baixa adesão ao uso de palmilhas, por exemplo, pode auxiliar na seleção de estratégias adequadas à melhoria de sua aceitação. O que se observa, no entanto, é que a literatura é escassa com relação a estudos que investigaram tais correlações. Desse modo, o objetivo deste trabalho foi investigar os fatores relacionados à adesão ao uso de palmilhas biomecânicas como forma terapêutica.

Participantes

Participaram deste estudo 3 indivíduos, para os quais foram confeccionadas palmilhas biomecânicas. Os seguintes critérios de inclusão foram aplicados: ter sido a palmilha indicada para acomodação de alguma alteração biomecânica nos pés; terem se passado de 25 a 30 meses após a confecção da palmilha; estar na faixa etária entre 18 e 65 anos; residir ou trabalhar na região metropolitana de Belo Horizonte e ter recebido orientação para fazer uso diário da palmilha. O critério de exclusão considerado foi: ter o paciente sofrido qualquer intercorrência que impossibilitasse o uso da palmilha.

Instrumentação e procedimentos

De acordo com os critérios de inclusão estabelecidos, 142 indivíduos foram inicialmente selecionados a partir do cadastro de pacientes da clínica. Eles foram então contactados por telefone para esclarecimentos sobre o estudo e, havendo interesse de participação, foi agendada uma entrevista, a ser realizada por um dos pesquisadores em local e horário de preferência. Antes de responder à entrevista, foi solicitado a cada indivíduo que lesse e assinasse o termo de consentimento livre e esclarecido, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (ETIC 05/04), concordando com sua participação no estudo.

Os dados foram obtidos através da aplicação de um questionário composto por questões objetivas e subjetivas a respeito da palmilha e do seu uso, além de caracterizar os indivíduos com relação a variáveis sócio-demográficas e clínicas (Anexo 1).

A seleção das questões foi feita com base nos fatores apontados pela literatura como importantes para se determinar a adesão do paciente aos diferentes regimes terapêuticos, como características demográficas4, características do problema / disfunção4, percepções do usuário3,4,5,8 e suas experiências com outros tratamentos8. Com base nesses fatores, as variáveis do estudo foram definidas (Tabela 1).

Para verificar a necessidade de adequação das perguntas do questionário foi realizado um estudo piloto com 5 indivíduos que faziam uso de palmilhas. Não foi necessária nenhuma modificação no questionário.

Com base nos resultados obtidos, os indivíduos foram agrupados em categorias, levando-se em consideração o nível de adesão:

corretamente as orientações terapêuticas, fazendo uso diário da palmilha por no mínimo 8 horas;

♦ Adesão parcial (Grupo 2) – indivíduos que usam a palmilha diariamente, mas por período inferior ao orientado;

1. Que problema o levou a colocar a palmilha?

• Possuo grande conhecimento• Razoável conhecimento • Pouco conhecimento

2. Como você considera o seu grau de conhecimento sobre esse problema?

3. Com relação à gravidade desse problema, você acredita que ele seja (sendo 0 o grau mais leve possível e 10 aquele com maior gravidade)

• Esportiva/Recreativa• Atividades de vida diária • Ocupacionais • Nenhuma

4. Quais tipos de atividades foram alteradas devido a esse problema (antes de colocar a palmilha)?

5. Você realizou algum outro tratamento para esse problema? • Sim. Antes de colocar a palmilha. Qual:

• Sim. Simultaneamente ao uso da palmilha. Qual:

• Não

6. Qual foi a orientação passada em relação ao tempo diário de uso da palmilha?

• Recebi orientação oral• Recebi orientação escrita e oral

7. De que forma a orientação sobre uso da palmilha foi passada?

• Sim – exatamente como foi indicado (mínimo de 8 horas por dia)• Sim – eventualmente
• Sim – diariamente, mas por tempo menor do que indicado• Não. Por quanto tempo você usou?_

8. Você ainda usa a palmilha?

• Sim. Qual?• Não

Para resposta negativa: Por que não usa? Para resposta positiva: Nos momentos em que não usa sente alguma diferença? 9. Você considera que a palmilha melhorou seu problema (sendo 0 se não houve melhora e 10 melhora total)

• Não sei• Sei um pouco • Sei bastante.

10. Você sabe como a palmilha atua para melhorar o seu problema? 1. Quanto ao conforto, você considera a palmilha (sendo 0 o mais desconfortável e 10 o mais confortável possível)

• Cara• Acessível • Barata

12. Quanto ao preço, você considera a palmilha: 13. Você ficou satisfeito com o terapeuta que indicou a palmilha (sendo 0 a menor satisfação possível e 10 a satisfação máxima): 14. Você ficou satisfeito com o terapeuta que colocou a palmilha (sendo 0 a menor satisfação possível e 10 a satisfação máxima):

• Sandália• Tênis • Sapato • Chinelo • Sapato ou sandália de salto alto

15. Qual tipo de calçado você mais usa?

16. A palmilha cabe em todos os calçados “fechados”? • Sim • Não. Em quais? _

17. Você é:• Sedentário • Moderadamente ativo (menos que 3 vezes por semana) • Ativo
• Minha• Dos profissionais de saúde • Minha e dos profissionais de saúde
Nome:Telefone:
Sexo Masculino FemininoIdade: Data de Nascimento:
Escolaridade:ID: Ocupação:

18. De quem é a principal responsabilidade pela melhora de sua condição de saúde? ANEXO 1: Questionário

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Características demográficas Sexo; idade; escolaridade; ocupação Características do problema Problema/disfunção; atividades alteradas

Percepções do usuário Grau de conhecimento do problema; grau de conhecimento sobre o mecanismo de ação da palmilha; gravidade que o problema representa; grau de melhora atribuído à palmilha; preço da palmilha; conforto da palmilha; grau de satisfação com o profissional que confeccionou a palmilha; pessoa a quem o usuário atribui a principal responsabilidade da manutenção de sua saúde

Tratamentos realizados para o problema / disfunção Ausência/presença (concomitante ou anterior) de tratamentos associados ao uso da palmilha

Forma de orientação para uso da palmilha Orientação verbal e/ou escrita

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