O Trator - Máquinas Agrícolas

O Trator - Máquinas Agrícolas

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ALOISIO BIANCHINI Dr. Máquinas agrícolas

Cuiabá – novembro/2002.

Trator Agrícola

1- Introdução

Durante muitos séculos foram os animais os grandes auxiliares do homem nas tarefas agro-pastoris. Hoje ele é, ainda, bastante aproveitado, principalmente em regiões menos desenvolvidas, acidentadas, ou em propriedades de menor tamanho onde o emprego de um trator torna-se inviável economicamente. Em grandes propriedades, a tração animal também é utilizada para complementar o trabalho do trator, principalmente em serviços de cultivo (capina mecânica).

Fig. 01: O animal como fonte de tração (Fonte: Antunes Agropastoril)

Quando necessário, o emprego de animais domésticos como fonte de potência pode se dar de duas maneiras: a)Para transporte de cargas no dorso/lombo (cangalha, arreio, etc.): Para esse tipo de trabalho emprega-se geralmente os animais da família dos eqüídeos (eqüinos, muares e asininos). A capacidade de transporte varia com o peso vivo, segundo a espécie da seguinte forma:

ESPÉCIECAPACIDADE DE CARGA EM % DO PESO VIVO DISTÂNCIA PERCORRIDA EM km/dia

Eqüinos45 – 5025 - 30 Muares55 – 6030 - 35 Asininos60 – 6535 - 40 b) Para desenvolver esforço tratório: acionando máquinas estacionárias e tracionando máquinas e equipamentos agrícolas. O primeiro emprego já não é mais tão comum, restringindo-se apenas ao acionamento de moendas de cana-de-açúcar e máquinas de olarias. O segundo emprego é bem mais comum de ser aplicado, se for o caso, em pequenas e médias propriedades em SPD ou mesmo na agricultura tradicional.

A escolha dos animais para tração muitas vezes é limitada pela disponibilidade dos mesmos na região. A capacidade de trabalho da tração animal relaciona-se com o peso vivo, a velocidade de trabalho e a espécie. Os animais mais aptos para tração usados em nosso país são os eqüídeos e o gado bovino, sendo comum o emprego dos bubalinos na região norte do Brasil

Dentro do grupo dos eqüídeos, os eqüinos são os mais utilizados, por ser um animal mais manso, de fácil adestramento, mais preciso e, principalmente por trabalhar a velocidades maiores ( 3,6 a 5,4 km/h). O gado bovino é o menos empregado, pois trabalha aos pares ou juntas, sendo o atrelamento mais complicado e demorado.

O uso da tração animal na agricultura, quando recomendado, apresenta às seguintes vantagens : - baixo custo de aquisição e manutenção;

- boa reserva de força;

- boa adaptabilidade às condições de clima e topografia;

- não requer mão-de-obra altamente especializada para seu manejo;

O animal também apresenta desvantagens, tais como: - exige alimentação diária, para um aproveitamento de até 5 horas úteis de trabalho por dia;

- menor rendimento devido às paradas para descanso e influência de fatores diversos como clima, saúde, alimentação, etc.

Além dos animais, o homem tem usado ao logo do tempo, outras fontes de potência para tracionar das máquinas agrícolas, dentre ais quais pode-se citar:

-Motores eólicos: utilizados em maior escala para bombeamento de água e em menos escala para produção de eletricidade; -Motores hidráulicos: destacam-se a roda d’água, turbinas e carneiro hidráulico;

-Motores elétricos: empregados em regiões eletrificadas;

-Motores térmicos: largamente empregados em todas as regiões, seja na forma de motor estacionário ou equipando veículos tais como os tratores.

Fig. 02: Roda d’água como fonte de potência (Fonte: I. M. Rochfer)

Antes de entrarmos propriamente no estudo do trator agrícola é preciso definir alguns termos. Aqui será adotada a nomenclatura de máquinas e implementos agrícolas apresentada por Gadanha Júnior et al, 1991 (Máquinas e Implementos Agrícolas do Brasil”) Está é a única referência nacional no que concerne o assunto, não procurando variações de análise semântica dos termos, mas sim, propondo um referencial técnico, objetivo e harmônico, para designar nomes aos equipamentos utilizados na mecanização da agricultura.

O objetivo de incluirmos aqui a nomenclatura correta para máquinas e implementos agrícolas tem a finalidade de nivelar e homogeneizar o “linguajar” técnico e acadêmico para profissionais possam se referir de maneira superior e correta a uma terminologia que indique sistematicamente um mesmo equipamento. Contudo, podem ser mencionados e consultados na bibliografia citada no parágrafo anterior as formas populares e regionais de referência aos equipamentos.

Segundo Gadanha Júnior et al (1991), os equipamentos aplicados na mecanização são assim considerados:

-máquina: é o equipamento agrícola constituído por um conjunto de órgãos que apresentam movimento relativo, e de resistência suficiente para transmitir o efeito de forças ou transformar energia. Quando transmitir o efeito de forças é considerada “movida” e, quando transforma energia é considerada “motora” e,

-implemento: é o equipamento agrícola constituído por um conjunto de órgãos que não apresentam movimento relativo nem tem capacidade para transformar energia.

As máquinas e implementos agrícolas foram ainda classificadas quanto a fonte de potência para o seu acionamento em:

-motorizadas: apresentam motor de combustão interna apenas para o acionamento de seus órgãos ativos;

-tratorizadas: são aquelas que utilizam o trator agrícola para tração com acionamento, ou não, de seus órgãos ativos pela tomada de potência (TDP);

-autopropelidas: possuem motorização para acionamento de seus órgãos ativos e elementos de (pré)processamento e para seu auto deslocamento operacional e/ou transporte;

-de tração animal: a fonte de potência é oferecida pelo esforço de trabalho gerado pelo deslocamento e tração de animais; e

-manual/braçal: quando a fonte de potência para geração de trabalho é diretamente oferecida pelo esforço humano para deslocamento e/ou acionamento.

As máquinas e implementos agrícolas são ainda classificadas quanto a forma de acoplamento, ou sejam:

-de arrasto: os equipamentos de arrasto se caracterizam por apresentar seu acoplamento à fonte de potência em apenas um ponto, no caso das tratorizadas pela barra de tração;

-semi-montados: se caracterizam por apresentar seu acoplamento nos dois braços inferiores do sistema hidráulico de engate de três pontos do trator agrícola, sendo sua parte traseira apoiada no solo por rodas ou patins; e

-montados: são equipamentos que se caracterizam por apresentar seu acoplamento pelos três pontos do sistema hidráulico de engate do trator agrícola.

A terminologia adota o sufixo “ora” para as máquinas e implementos agrícolas, o que designam que executam operações agrícolas, por exemplo: roçadora, semeadora, adubadora, etc. O sufixo “eira” refere-se a pessoas do sexo feminino que executam manualmente ou operam o equipamento que realiza uma operação agrícola propriamente dita, por exemplo: roçadeira, semeadeira, adubadeira. Assim a máquina que lava roupas, denomina-se “lavadora”, ao passo que a mulher que lava roupa, denomina-se “lavadeira”.

Esclarecemos que no transcorrer deste texto muitas vezes encontraremos termos contraditórios às “normas” propostas, isto se dá em virtude de respeito às marcas registradas e de expressões consagradas popularmente no meio rural e no marketing empresarial. Propomos, no entanto, que no meio acadêmico e técnico, profissionalmente, acatemos a terminologia correta.

2- O Trator Agrícola

Os tratores agrícolas são máquinas autopropelidas especialmente projetadas para fornecer potência para tracionar, empurrar, acionar e transportar máquinas e implementos agrícolas de arrasto ou montados. A palavra "trator" tem sido atribuída à várias fontes, mas segundo o dicionário Oxford foi empregada pela primeira vez na Grã-Bretanha, em 1856, como sinônimo de motor de tração.

Inicialmente, as primeiras máquinas eram à vapor (combustão externa). O maior problema dessas máquinas era o seu grande peso que dificultava a sua autopropulsão. O desenvolvimento do trator a gasolina (combustão interna) foi estimulado pela necessidade de se reduzir o número de homens necessários para manejar os tratores a vapor. Logo, apareceu o motor diesel, completando essa evolução em termos de combustível. Inicialmente, estes eram grandes e pesados, próprios para a lavragem e o debulhamento.

Com o passar do tempo, os tratores foram aperfeiçoados para atender a muitos outros fins. Foram feitas adaptações para aplicá-lo como cultivador motorizado, após o que, surgiu o trator de uso agrícola geral, para executar as principais tarefas agrícolas. Adicionaram-se tomada de potência (TDP) e os controles hidráulicos. As rodas, que eram inicialmente de madeira e depois de ferro, foram trocadas por rodas com pneus, que aumentam a flexibilidade dos tratores. Se compararmos tecnologicamente os tratores atuais com os antigos, é nítida a diferença e até mesmo sem sentido esta comparação, porém, conceitualmente o moderno e tecnificado trator da atualidade é muito semelhante aos tratores de outrora.

Fig. 03: Trator agrícola com motor de combustão extensa (Fonte: Farming Press)

Os tratores agrícolas, em geral, são projetados e desenvolvidos para realizarem as mais variadas operações nas mais adversas condições de trabalho. Atualmente há uma tendência de que a indústria de equipamentos agrícolas atenda com mais técnica a uma classe de produtores agrícolas com um perfil cada vez menos “fazendeiros” e mais empresários do “agribusiness”, principalmente os que trabalham com “SPD”. Esses empresários agrícolas são muito mais exigentes em resultados, onde a versatilidade e a economia das máquinas são condições essenciais para o sucesso do investimento realizado.

Neste sentido os fabricantes têm demostrado que estão em sintonia com seus consumidores e o resultado deste sincronismo de pensamentos foi o surgimento de tratores altamente sofisticados, com altíssimo nível tecnológico, cujo objetivo principal é propiciar ao agricultor maior eficiência e qualidade de trabalho (produtividade), com custo de produção cada vez mais reduzido. Assim sendo, algumas dessas inovações tecnológicas disponíveis nos tratores vieram corroborar este novo conceito de produção, ou sejam: computador de bordo; DGPS; cabinas aclimatadas; assentos ergonômicos; sistema de transmissão hidráulica ou eletro-hidráulica, câmbio com diversas opções de marchas à frente e à ré (variação de torque e velocidade); maior reserva de torque; opção de TDP (540 e 1000 rpm); sistema hidráulico de levante dos três pontos mais confiável, preciso e robusto; pneus de alta flutuação e baixa pressão; duplo rodado ou triplo e, principalmente a motorização que evoluiu sobremaneira em termos de potência útil, resistência, durabilidade e consumo específico de combustível.

2.1- Características Técnicas Básicas do Trator

Um trator pode ser considerado como uma unidade móvel de potência, sendo constituído basicamente por um motor, um sistema de transmissão e elementos de direção e locomoção. Em geral a potência disponível pode ser utilizada através de: - Barra de tração.

- Sistema hidráulico de levantamento por três pontos.

-Tomada de potência (tomada de força).

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