RESUMO: 1808 Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil

RESUMO: 1808 Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta...

(Parte 1 de 4)

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ

INSTITUTO DE CIENCIAS SOCIAIS APLICADAS

FACULDADE DE SERVIÇO SOCIAL

DISCIPLINA: FORMAÇÃO ECONÔMICA, SOCIAL E POLÍTICA DO BRASIL AMAZÔNIA

PROFESSOR: DR. SEBASTIÃO CARLOS DE AQUINO E SILVA

RESUMO: 1808

Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil.

BELISSA DE KÁSSIA LOBATO CORDEIRO - 08058003301

PATRÍCIA DE JESUS SOEIRO - 08058007201

SOLANGE PAMPLONA DA SILVA - 08058006901

VÂNIA KARINA PIMENTEL COSTA - 08058007401

TURNO: VESPERTINO

TURMA: 058020

BELÉM

2008

RESUMO

*INTRODUÇÃO

A obra conta a historia de quando o rei de Portugal D, João VI ameaçado pelas invasões napoleônicas por ter furado o bloqueio continental com a Inglaterra, foge para a sua maior colônia na época o Brasil. Incluindo fatos e dados como a Revolução Francesa que “redesenhou o mapa da Europa”, a formação do Império Napoleônico, a vitoriosa resistência Inglesa, as tentativas de dominação francesa e a Colonização do Brasil, cuja riqueza sustentou a realeza lusitana, para onde a Família Real transferiu a sede do governo Português, fato sem precedentes na história conforme afirma autor.

1. A FUGA

A fuga1 da família real para o Rio de Janeiro ocorreu num contexto mais apaixonante e revolucionário do Brasil e Portugal, em que grupos de interesses diversos, como monarquistas, republicanos, federalistas, separatistas, abolicionistas, traficantes e senhores de escravos, se opunham numa luta pelo poder que haveria de mudar radicalmente a história desses dois países.

O fato surge como uma notícia inesperada para os portugueses, que no primeiro momento sentem a sensação de desamparo e traição. Depois, de medo e revolta. Para os Portugueses, além da surpresa da noticia da viagem, havia um fator que agravava a sensação de abandono, o fato de a noção de Estado, Governo e Identidade Nacional não existir com idéia de que todo poder emana do povo e em seu nome é exercido, ou seja, não existia o princípio fundamental da democracia, pois, ainda vigorava o regime de monarquia absoluta. O rei tinha o poder total. Criava leis, além de executá-las, os juizes e as câmeras funcionavam como simples auxiliares do monarca. Assim, sem o rei, o País ficava a mingua e sem rumo, pois dependia do rei toda a atividade econômica e sobrevivência das pessoas, o governo, a independência nacional e a própria razão de ser do Estado Português. Nesta época, o trono de Portugal era ocupado por um príncipe regente. D. João reinava em nome de sua mãe. O príncipe regente incapaz de enfrentar um inimigo que julgava poderoso decidiu fugir abandonando a Europa.

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1. O autor usa o termo fuga para definir o que aconteceu entre novembro de 1807 e julho de 1821, datas da partida e do retorno de D. João VI a Portugal.

2. OS REIS ENLOUQUECIDOS

O começo do século XIX foi uma época de pesadelo e sobressalto para reis e rainhas. Alguns perseguidos, outros destituídos, aprisionados, exilados, deportados ou mesmo executados em praça pública. Sendo que dois deles enlouqueceram. Em resumo, era uma época em que os monarcas literalmente perdiam a cabeça.

Em 1807 Napoleão Bonaparte estava no auge do seu poder, era o Imperador da França, seu triunfo representava o fim de uma etapa na história Européia. Porém envolveu-se em guerras intermináveis e, ao final de seu governo a monarquia francesa estava quebrada.

Esses problemas agravaram-se mais tarde, com o envolvimento da França na guerra da independência americana. O fornecimento de armas e dinheiro para o exército americano deixou a França financeiramente arruinada. Sendo que, para cobrir as despesas, a monarquia teve de aumentar os impostos, gerando descontentamento da burguesia - emergente classe dos comerciante e profissional autônomo, que enriqueciam sem dependerem diretamente do rei.

3. O PLANO

No começo do século XIX, Portugal tinha uma forte dependência em relação ao Brasil. O ouro, o fumo e a cana de açúcar, produzida na colônia constituíam o eixo de suas relações comerciais, visto que 61% das exportações portuguesas para a Inglaterra, saíam do Brasil.

Diante das ameaças constantes de invasão ao reino de Portugal, Luis da Cunha sugere a D. João V, que mudasse a corte para o Brasil. Em 1762 diante de mais uma ameaça de invasão, o então Marquês de Pombal propôs que o rei D. José I “tomasse as medidas necessárias para sua passagem para o Brasil”, e em 1801, com a Europa ocupada por Bonaparte, esse antigo plano ganhou senso de urgência.

No dia 19 de agosto de 1807, o conselho de Estado se reuniu no Palácio de Mafra para discutir a crise política. D. João leu os termos da intimação de Napoleão Bonaparte: Portugal deveria aderir ao bloqueio continental, declarar guerra à Inglaterra, retirar seu embaixador em Londres, expulsar o embaixador inglês de Lisboa e fechar os portos portugueses aos navios britânicos. Por fim, teria que prender todos os ingleses em Portugal e confiscar suas propriedades.

Espremido entre duas potências rivais Portugal tinha a seu favor a precariedade das comunicações e dos transportes, o envio de uma carta de Lisboa para Paris na época demorava cerca de duas semanas. A lentidão permitia aos portugueses ganhar tempo enquanto tentavam, com a Inglaterra e com a França, uma saída mais honrosa ou aceitável para o seu frágil reino colonial.

Ao receber os termos da contra proposta portuguesa, Bonaparte reage como se previa: mandou avisar que, se D. João não concordasse com suas exigências, Portugal seria invadido e a dinastia de Bragança² seria destruída.

No dia 30 de setembro, reunido no Palácio de Ajuda, em Lisboa, o conselho de Estado recomendou que o príncipe regente preparasse seus navios para partir. No começo pensou-se em enviar para o Brasil somente o príncipe da Beira, como era chamado Pedro I o filho mais velho de D. João. Porém, o plano evoluiu para algo mais ambicioso: transferir a corte inteira com o governo, os funcionários e o aparato de Estado. Em resumo, toda a elite portuguesa.

4. O IMPÉRIO DECADENTE

Em 1807, na Inglaterra, um império era movido a vapor. A nova tecnologia, inventada por James Watt em 1769, dera origem ao tear mecânico, máquina propulsora da Revolução Industrial, a locomotiva, ao navio e a impressora a vapor, entre outras novidades. Enquanto que Portugal, após três séculos de inauguração das grandes navegações e descobertas, nem de longe lembrava a metrópole dos tempos de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral. Os sinais de decadências estavam por todo lado. Os tempos de glória pareciam ter ficado pra trás.

O que tinha acontecido com Portugal? Havia duas explicações. Uma era demográfica e econômica. Com a população pequena, Portugal não tinha gente nem recursos para proteger, manter e desenvolver seu imenso império colonial. Dependendo de escravos em quantidade cada vez maior para a exploração de suas minas de ouro e diamantes e suas lavouras de cana -de -açúcar, algodão, café e tabaco. Com uma economia basicamente extrativista e mercantil, enfrentava escassez de capital.

A metrópole portuguesa era uma terra relativamente pobre porque a riqueza não parava ali. Lisboa funcionava apenas como um entreposto comercial. De lá, o ouro, a madeira e os produtos agrícolas do Brasil seguiam direto para a Inglaterra. Os diamantes tinham como destino Amsterdã e Antuérpia, nos Países Baixos.

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2. Sobrenome da família real portuguesa.

A outra explicação para a decadência era política e religiosa. De todas as nações da Europa, Portugal continuaria sendo, no começo do século XIX, a mais católica, a mais conservadora e mais avessa as idéias libertárias que produziam revoluções e transformações em outros paises. A força da igreja era enorme. Por escrúpulos religiosos, a Ciência e a Medicina eram atrasadas ou praticamente desconhecidas.

A exemplo disso temos o episódio em que D. José, herdeiro do trono, irmão mais velho de D. João, ao contrair varíola morreu, porque sua mãe, D. Maria I, tinha proibido os médicos de lhe aplicar vacina, por motivos religiosos. A rainha achava que a decisão entre a vida e a morte estava nas mãos de Deus e que não cabia a ciência interferir nesse processo.

A vida social pautava-se pelas missas, procissões e outras cerimônias religiosas. O comportamento individual coletivo era determinado e vigiado pela Igreja Católica.

Portugal foi o último país europeu a abolir os autos da Inquisição, nos quais pessoas que ousassem criticar ou se opor à doutrina da igreja, incluindo infiéis, hereges, judeus, mouros, protestantes e mulheres suspeitas de feitiçaria, eram julgadas e condenadas à morte na fogueira.

Os dois fatores combinados - a escassez de recursos demográficos e financeiros e o atraso nas idéias políticas e nos costumes - haviam transformado Portugal numa terra nostálgica, refém do passado e incapaz de enfrentar os desafios do futuro.

A riqueza de Portugal era resultado do dinheiro fácil como os ganhos de herança, cassinos e loterias, que não exigem sacrifício. Numa época em que a Revolução Industrial britânica começava a redefinir as relações econômicas e o futuro das nações, os portugueses ainda estavam presos ao sistema extrativista e mercantilista, sobre o qual tinham construído sua efêmera prosperidade três séculos antes. Gomes descreve que segundo a historiadora Lilia Schwarcz:

“A capital do império português, era toda cheia de contrastes, onde conviviam o luxo da corte, que se fartava de metais preciosos dos trópicos, com a falta de víveres e a dependência financeira. Era uma riqueza que não gerava riqueza, Portugal se contentava em sugar suas colônias de maneiras bastante parasitária, baseava-se na exploração pura e simples das colônias, sem que nelas fosse necessário investir em infra-estrutura” (cf. GOMES, 2007, p.60)

A dependência da economia extrativista fez com que a manufatura nunca se desenvolvesse em Portugal. Os cinco principais produtos das colônias portuguesas - ouro, diamante, tabaco, açúcar e tráfico de escravos - compunham o eixo comercial do Atlântico Sul.

O primeiro carregamento de ouro do Brasil chegou a Lisboa em 1699, levava meia tonelada de minérios. No total estima-se que entre 1000 e 3000 toneladas de ouro foram transportadas do Brasil para a capital do império. Só de Minas Gerais o historiador, Tobias Monteiro estimou, que foram despachadas para Portugal cerca de 535 toneladas de ouro entre 1695 e 1817, no valor de 54 milhões de libras esterlinas da época, ou 12 bilhões de reais corrigidos. Pandiá Cológeras avaliou em cerca de três milhões de quilates, aproximadamente 615 quilos, o total de diamante extraído no Brasil entre meados do século XVIII e começo do século XIX - incluindo pedras comercializadas legalmente e contrabandeadas. A prosperidade e o fausto aparentes geradas por esse comércio, não resultavam em cultura ou sofisticação na metrópole.

Em 1755, uma catástrofe natural agravou a decadência econômica e ajudou a reduzir ainda mais a auto-estima portuguesa. Na manhã de 1º de novembro, um terremoto devastador atingiu Lisboa, matando entre 15 000 e 20 000 pessoas. O abalo foi seguido de maremoto e um incêndio que ardeu durante seis dias - tudo foi reduzido a pó e cinzas.

A tragédia, porém resultou no único e breve surto de modernidade em terras portuguesas, a reconstrução de Lisboa no governo de Sebastião José de Carvalho e Melo, - o marquês de Pombal - Pombal fez isso com mão-de-ferro. Subjugou a nobreza e reduziu drasticamente o poder da Igreja. Foi o responsável pela expulsão dos Jesuítas de Portugal e de suas colônias. Foi um período de reformas modernizadoras, mas estava longe de ser liberal.

Com a queda de Pombal, Portugal se via novamente prisioneiro de seu próprio destino: o de um país pequeno, rural e atrasado, incapaz de romper com os vícios e tradições que o prendiam no passado, dependente de mão de obra escrava, intoxicado pela riqueza fácil e sem futuro da produção extrativista de suas colônias.

Portugal procurou manter uma política de neutralidade em relação aos seus vizinhos mais ricos e poderosos. A idéia era se envolver o mínimo possível nos conflitos, para dessa forma, evitar represálias e assegurar o fluxo de riquezas que chegava de seus territórios ultramarinos. Essa política de neutralidade não era tão neutra quanto parecia. Portugal sempre teve a Inglaterra como parceira preferencial. A própria existência de Portugal como Estado independente estava associada à Inglaterra. Foram às cruzadas Inglesas a caminho da Terra Santa, que ajudaram o jovem Afonso Henriques de Borgonha, o primeiro rei de Portugal, a expulsar o mouros e conquistar o Porto situado próximo do Rio Tejo, hoje a cidade de Lisboa.

5. A PARTIDA

No dia 29 de Novembro de 1807, a nau Príncipe Real levava a bordo o príncipe regente, D. João, sua mãe, a rainha louca D. Maria I, e os dois herdeiros do trono, os príncipes D. Pedro e D. Miguel. O restante da família real estava distribuídos em outros três navios.

Como fazer um discurso de despedida era impossível nas circunstâncias, D. João mandou afixar nas ruas de Lisboa um decreto no qual explicava as razões da partida. Dizia que as tropas francesas estavam a caminho de Lisboa e que resistir a elas seria derramar sangue inutilmente.

Antes de embarcar, D. João teve o cuidado de raspar os cofres do governo - fato que se repetiria treze anos mais tarde ao deixar o Rio de Janeiro na viagem de volta a Lisboa. Abandonado a própria sorte, Portugal viveria os piores anos de sua história.

6. O ARQUIVISTA REAL

No outono de 1807, enquanto as tropas do imperador Napoleão se aproximavam da fronteira de Portugal, o arquivista Luiz Joaquim dos Santos Marrocos, tinha a vida suspensa entre duas cidades - uma no passado e outra no futuro. Lisboa onde morava, a capital do ainda vasto império colonial português, exótica e oriental, repleta de mercadores árabes, chineses, indianos, e negros africanos. E o Rio de Janeiro a capital do Brasil colônia - onde estaria após três anos - uma cidade fervilhante de novidades, porto de reabastecimento e parada obrigatória dos navios que cruzavam os oceanos rumo às terras distantes da África, da Índia e da recém descoberta Oceania.

A Lisboa da família Santos Marrocos era ima cidade conservadora, profundamente religiosa e de hábitos antiquados. Com suas casas ornamentadas de tapeçarias orientais e varandas cobertas por colchas da Índia era a mais oriental das capitais européias, na definição do historiador Oliveira Martins. Outros cronistas e viajantes a descreveram como uma cidade medieval, suja, escura e perigosa. A falta de higiene era um problema crônico. Conforme registrou o francês J.B.F.Carrère morador de Lisboa no final do século XVIII:

“Atirava-se pela janela sem aviso algum e a qualquer hora do dia ou da noite, a água suja, as lavaduras da cozinha, as urinas, os excrementos acumulados de toda a família” (cf. GOMES, 2007, p.83).

A falta de bons hábitos de higiene propiciava a disseminação de pragas e doenças e não se resumia a pessoas comuns. Era um problema que afetava também a família real.

Como funcionário da Real Biblioteca, Marrocos tinha convivência muito próxima com a corte do príncipe regente e dos palácios freqüentados pela nobreza. Era um ambiente lúgubre e depressivo, dominado pela presença sufocante da Igreja e seus inúmeros rituais religiosos. Porém, na ultima semana de novembro, sua rotina de trabalho foi interrompida quando o mesmo recebeu ordem para encaixotar as pressas o acervo da biblioteca e despachá-la para o cais de Belém, onde os navios da frota portuguesa aguardavam o embarque da família real para o Brasil. Porém, no tumulto da partida, todas as caixas com os livros ficaram esquecidos no cais, em meio à lama que tomava as ruas devido à chuva do dia anterior. Dois anos e meio depois, o próprio Marrocos embarcaria para o Brasil, com a missão de zelar pela segunda remessa dos livros da biblioteca.

Marrocos estando no Rio de Janeiro, manteve uma correspondência regular com o pai e a irmã durante dez anos, foram escritas 186 cartas que, guardadas até hoje nos arquivos da Biblioteca de Ajuda em Portugal, transformaria o arquivista num personagem importante para a historia do Brasil e de Portugal. Essa correspondência de mão única - uma vez que não se tem noticia das respostas que Luiz Joaquim tenha recebido no Rio de Janeiro - é considerada uma das fontes mais preciosas dos pesquisadores que estudam esse período da historia brasileira. São relatos, de um cidadão comum que testemunha as enormes transformações que portugueses e brasileiros experimentaram nos treze anos em que a família real permaneceu no Rio de Janeiro.

7. A VIAGEM

Enfrentando a sauna em que os navios selados da época se transformavam nos trópicos, com água e refeições racionadas, condições sanitárias precárias, a corte e seus inúmeros lacaios e bajuladores, penaram três meses a céu e mar. Finalmente em 22 de Janeiro de 1808 os navios aportam em Salvador.

A mesma Bahia que trezentos anos antes tinha visto a chegada da esquadra de Cabral, agora testemunhava um acontecimento que haveria de mudar para sempre, a vida dos brasileiros. Com a chegada da corte à Baia de todos os Santos começava o último ato do Brasil colônia e o primeiro do Brasil independente.

8. SALVADOR

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