(Parte 1 de 2)

Ministério da Educação

Universidade Tecnológica Federal do Paraná Campus Curitiba

Departamento Acadêmico de Química e Biologia

Curso Superior de Tecnologia em Processos Ambientais Disciplina de Tratamento de Águas Residuárias

Profº Dra. Valma Martins Barbosa

APS 2 – Paralelo entre o Caso de Adrianópolis (PR) e o Caso da Cidade dos Meninos (RJ)

CURITIBA DEZEMBRO 2009

O objetivo principal deste trabalho é apresentar um paralelo entre o Caso de Adrianópolis, no estado do Paraná, e o Caso da Cidade dos Meninos,

município localizado no estado do Rio de Janeiro

Ambos os casos representam situações de contaminação ambiental, por substâncias químicas altamente tóxicas, e também de descaso da sociedade brasileira. O município de Adrianópolis sofre com a contaminação pelo chumbo, além de outros metais (CAPITANI et al.), e a Cidade dos Meninos luta contra o hexaclorociclohexano (HCH). Estes cenários representam estados de calamidade pública, porém por estarem situados em locais onde há pouco desenvolvimento econômico, quase não há reconhecimento da mídia. Cabe, portanto, ao meio acadêmico retratar e divulgar as informações à sua maneira.

DESENVOLVIMENTO Adrianópolis

Capitani et al. relatam que o município de Adrianópolis se situa no Alto Vale do Ribeira, no nordeste do Estado do Paraná, próximo a Cerro Azul,

Ribeira, Iporanga e Eldorado (Figura 1). A região abrigou várias minas de chumbo, zinco e prata, além da Plumbum, uma grande refinaria que operou de 1945 até 1995.

Figura 1. Mapa de Adrianópolis (Google Maps, 2009)

A mineração e o beneficiamento do chumbo foram as atividades que mais danificaram a paisagem de Adrianópolis. Porém o maior dano foi social. A cidade de desenvolveu em torno da empresa em seus tempos áureos, e boa parte da população trabalhava lá.

Hoje, entretanto, a cidade encontra-se dividida. Como descrito pelo jornal Gazeta do Povo (2008), alguns moradores ainda relembram a cidade com uma economia fortificada e próspera. Enquanto outros, ex-trabalhadores da mina, sofrem para arrumar um emprego em função do preconceito que sofrem, por habitar em uma região tão degradada e portar moléstias.

O próprio jornal expõe casos de moradores que relatam que o município foi esquecido pelos governos. A população morre a cada ano por doenças advindas da contaminação por chumbo. O quadro só piora depois de vinte anos. Dores no corpo, dores de cabeça, males no pulmão, fadiga, perda de memória, são apenas alguns dos sintomas sentidos pelas pessoas.

Uma pesquisa da Universidade Federal do Paraná (2008) expôs o sentimento dúbio das pessoas com relação à empresa. Com o seu fechamento, eles perderam as condições de sustento que possuíam enquanto trabalhavam. Mas a contaminação assume proporções gigantescas.

O que deveria ser feito?

As concentrações de metais pesados na região de Adrianópolis sempre foram maiores, se comparada a outras regiões do estado do Paraná. Entretanto, não se pode dizer que a contaminação ambiental é ocasionada por fatores ambientais. Ela foi, de fato, causada por intervenção antrópica. O equilíbrio da região foi desestabelecido no momento da mineração.

As atividades potencialmente poluidoras devem ser gerenciadas com base na hierarquia de gerenciamento de resíduos. Nenhuma das seis etapas propostas pela Agência Americana de Proteção Ambiental (USEPA) foi respeitada. Tomadas as devidas proporções, e características geomorfológicas da região, a não geração do resíduo (1) não poderia ser alcançada. Contudo, a minimização do resíduo (2), o seu reuso (3), a reciclagem (4), o tratamento (5) e a disposição adequada (6) poderiam ser executados, e só trariam benefícios para a região.

A avaliação preliminar e a investigação confirmatória foram executadas na cidade, conforme descrito pela Companhia de Tecnologia Ambiental do

Estado de São Paulo (CETESB, 1999). Resta seguir a seqüência proposta, e amplamente difundida, do órgão ambiental para a recuperação desta área contaminada.

O objetivo principal da adoção de medidas corretivas nas áreas contaminadas é a possibilidade de recuperação destas, para um uso compatível com as metas estabelecidas (CETESB, 1999). Ao seguir o Manual de Gerenciamento de Áreas Contaminadas, são identificadas seis etapas a serem seguidas na região (CETESB, 1999):

1. Investigação detalhada; 2. Avaliação de Risco;

3. Investigação para remediação; 4. Remediação;

5. Monitoramento ambiental.

Cidade dos Meninos

Figura 2. Mapa Cidade dos Meninos (Google Maps, 2009)

De acordo com Oliveira et al. (2003) a Cidade dos Meninos é uma área de 20 hectares (um bairro) localizada no km 13 da Avenida Presidente

Kennedy, no município de Duque de Caxiais, no estado do Rio de Janeiro.

Em 1950, foi construída nessa área uma fábrica para sintetizar e formular o pesticida hexaclorociclohexano (HCH) (OLIVEIRA et al., 2003).

Entretanto, em 1960 a fábrica foi desativada (OLIVEIRA apud BASTOS, 1999). Os resíduos foram abandonados no local e eram constituídos de isômeros classificados como rejeitos no processo, ou seja, α-, β- e δ-HCH, formados pela reação de síntese, e não utilizados como inseticida.

No ano de 1989 foi constatada oficialmente a contaminação ambiental da área da Cidade dos Meninos (OLIVEIRA et al. apud FEEMA, 1991). Nessa mesma época foi detectada a presença da substância no soro sanguíneo da população local. Apenas doze anos depois, em 1991 é que foram iniciados os estudos para melhor caracterizar o problema e promover a descontaminação do local e o acompanhamento da saúde da população exposta (OLIVEIRA et al. apud

Em 1995, houve tentativa de remediação da área contaminada com óxido de cálcio (cal) no solo. Uma extensão de 3.000m2 foi coberta com cal, e três meses depois a área foi considerada descontaminada. O caso de contaminação na região foi agravado pelo fato de a população não reconhecer os tipos de isômeros que estavam abandonados. O local foi invadido e as pessoas coletaram material para utilizar como inseticida em seus próprios lares. Com isso, as substâncias tóxicas tiveram uma dispersão muito grande. Se consideradas as tentativas de remediação, pode-se dizer que o caso da Cidade dos Meninos está à frente de Adrianópolis, pois ao menos houve uma tentativa de recuperação da área. Esta tentativa foi ineficaz, como comprovado em estudos (OLIVEIRA et al., 2003). E a área da Cidade dos

Meninos está situada sobre um município com melhor infra-estrutura que Adrianópolis, por isto, observou-se maior quantidade de informações a respeito do tema.

O que deveria ser feito?

Os estudos conduzidos na Cidade dos Meninos atingiram a etapa de investigação confirmatória, na qual foi confirmada a real contaminação da área. Da mesma forma que no município de Adrianópolis, a metodologia da CETESB

(1999) para gerenciamento de áreas contaminadas deveria ser seguida, por meio das etapas:

1. Investigação detalhada; 2. Avaliação de Risco;

3. Investigação para remediação; 4. Remediação;

5. Monitoramento ambiental.

Na etapa de investigação detalhada, a primeira medida – de caráter emergencial – seria o isolamento de ambas as áreas, com deslocamento das populações para outros lugares. Na seqüência, o uso do solo e o consumo de águas superficiais deveriam ser restritos. Recomenda-se que os solos contaminados passem sejam encapsulados, pois as áreas são extensas, e a remediação seria muito cara.

A população de Adrianópolis precisa receber atenção o mais rápido possível, pois o grau de contaminação da região é alto. O governo precisa estimular formas de recuperar a área, promovendo atividades de educação ambiental envolvendo a população local.

A população das cidades foi estudada, através de coletas de sangue, urina e fezes, para constatar a contaminação. Muito já morreram devido aos efeitos deletérios das substâncias. Em ambos os casos a contaminação pontual sofreu difusão: natural e antrópica. A difusão natural ocorreu e está ocorrendo por meio dos mecanismos de transporte da água, do solo e do ar. No caso de Adrianópolis, foi demonstrado por meio de análise de risco que os municípios ao redor

(BRASIL, 2008) também estão contaminados. O mesmo ocorre para o município de Duque de Caxias, no qual as regiões vizinhas à Cidade dos

Meninos também sofrem com o aporte de substâncias maléficas à saúde.

Recomenda-se seguir o modelo da CETESB (1999) para o gerenciamento das duas áreas contaminadas comparadas. A contaminação ambiental em Adrianópolis teve impacto muito maior no município em que ocorreu, devido a este ter poucos meios de sobrevivência. E também porque a contaminação foi constatada antes. Os casos ilustram exemplos de conseqüências sócio-ambientais e econômicas graves, que não podem mais ser tratados com o descaso atual.

BRASIL. Governo do Estado do Paraná. Avaliação de Risco à Saúde Humana por exposição aos resíduos da Plumbum no município de Adrianópolis,

Paraná, Brasil. Disponível em <http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/avaliacao_risco_adrianopolis200 8.pdf>. Acesso em 08 dez. 2009.

CAPITANI, Eduardo M.; FIGUEIREDO, Bernardino R.; GITAHY, Leda C.

(Parte 1 de 2)

Comentários