manejo plantas daninhas

manejo plantas daninhas

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NÚBIA MARIA CORREIA1 PEDRO MILANEZ DE REZENDE2

1. INTRODUÇÃO

A cultura da soja [Glycine max (L.) Merrill], desde a sua introdução no Brasil, tem sido conduzida com alto nível técnico em todas as suas operações. Mesmo assim, vem passando por diversas mudanças, como alterações nas técnicas de manejo, a exemplo do sistema de semeadura direta, e também nas áreas de cultivo.

Por causa do mercado favorável, a cultura se expandiu da Região Sul para o Sudeste do Brasil, atingindo até o norte do País. A soja é hoje a segunda cultura em área plantada no Brasil e, no âmbito mundial, é o segundo maior produtor dessa leguminosa.

Entretanto, a presença de plantas daninhas na cultura causa problemas que se refletem em perdas na qualidade do produto, no rendimento e até mesmo na inviabilização da colheita. Vários métodos de controle estão disponíveis, sendo o químico o preferido pelos agricultores. Segundo Gazziero et al. (1994), do total de vendas faturadas no Brasil com produtos fitossanitários, 2% ou duzentos e setenta milhões de dólares referem-se a herbicidas

1Engenheira Agrônoma, Doutoranda do Curso de Produção Vegetal. Faculdade de Ciências

Agrárias e Veterinárias/UNESP. nubiamc@bol.com.br 2Engenheiro Agrônomo, PhD, Professor. Departamento de Agricultura, Universidade Federal de Lavras. Caixa Postal 37. Lavras, MG 37.200-0. pmrezend@ufla.br na cultura da soja, o que evidencia a importância do problema. Em relação aos custos de produção, o controle das invasoras representa um dos itens que mais oneram o produtor, variando desde 15% até 40% do total utilizado com insumos.

A expectativa é de que a soja mantenha o significante mercado de herbicidas, com muitos novos compostos sendo corretamente desenvolvidos e comercializados. A necessidade de controle das plantas daninhas na fase inicial da cultura tem feito da cultura da soja um dos maiores segmentos da indústria de herbicidas.

No entanto, são diversas as possibilidades de manejo das plantas daninhas na cultura da soja. As diferentes formas de manejo podem ser utilizadas isoladamente ou em combinação de duas ou mais, visando à eficácia, economicidade e praticidade (Deuber, 1997).

2. INTERFERÊNCIA DAS PLANTAS DANINHAS NA CULTURA DA SOJA

O grau de interferência das plantas daninhas nas culturas depende da comunidade vegetal infestante (espécie, densidade e distribuição), da cultura (cultivar, espaçamento e densidade), do ambiente (solo, clima e manejo) e do período de convivência (Pitelli, 1985).

Chemale & Fleck (1982) observaram que 12 e 52 plantas por m2 de

Euphorbia heterophylla L., convivendo com a soja durante 45 dias, reduziram o rendimento em 6% e 16%, respectivamente, e as mesmas densidades, convivendo durante 115 dias, reduziram o rendimento em 2% e 50%.

Estudos de matocompetição na cultura da soja, realizados por Durigan (1983), evidenciam que as características morfológicas podem ser alte- radas pela matocompetição, com implicações diretas na perda de produção. Dentre essas características, estão a altura das plantas e os números de ramos, de folhas e de vagens por planta. De acordo com esses estudos, a ausência das plantas daninhas foi diferenciada em virtude do tipo de solo. Dessa forma, o autor constatou uma certa predominância das dicotiledôneas, na razão de 5 até 10 para cada monocotiledônea em Latossolo Roxo distrófico. Anileira (Indigofera hirsuta L.) e apaga-fogo (Alternanthera tenella Colla) representaram cerca de 50% e 70% das dicotiledôneas, respectivamente, em três observações realizadas, ficando o restante dividido entre dormideira (Mimosa invisa Mart.), carrapicho-de-carneiro (Acanthospermum hispidum DC.) e beldroega (Portulaca oleracea L.). Em Latossolo Vermelho-Escuro distrófico, o mesmo autor constatou uma certa equivalência entre os percentuais de infestação das plantas daninhas mono e dicotiledôneas.

Knake (1992) mostrou que as plantas daninhas afetam a soja de diferentes maneiras. A população da cultura pode ser reduzida pela interferência das plantas daninhas, e o sombreamento imposto pelas mesmas durante o período reprodutivo da soja pode reduzir o desenvolvimento de vagens e, conseqüentemente, a produção final.

Por sua vez, Karam et al. (1993), estudando o efeito de diferentes densidades de algumas plantas daninhas sobre a cultura da soja, observaram que 16,7 plantas por m2 de Acanthospermum hispidum reduziram o rendimento da soja, cultivar BR-16 (50 plantas por m2) em 23%, ao passo que, na mesma densidade, a Brachiaria plantaginea (Link.) Hitch. reduziu em 42% e a Commelina benghalensis L. (49,4 plantas por m2) reduziu em 3%. No mesmo trabalho, os pesquisadores observaram também que outras plantas daninhas, como Euphorbia heterophylla (42,5 plantas por m2), Senna obtu- sifolia (L.) rwin & Barneby (15,9 plantas por m2) e Ipomoea grandifolia O’Donnel (8,5 plantas por m2) reduziram o rendimento da cultivar Invicta (60 plantas por m2) em 12%, 13% e 5%, respectivamente.

Em trabalho similar, Karam et al. (1994) verificaram que o rendimento da cultivar BR-29 (50 plantas por m2) foi reduzido em 15,4% na convivência com três plantas de Acanthospermum hispidum por m2. Quanto à interferência de Ipomoea grandifolia, observou-se uma redução de aproximadamente 6,6 kg ha-1 a cada 1,0 g de biomassa seca acumulada por essa espécie por m2.

Melhorança (1994), avaliando os efeitos da densidade de Desmodium tortuosum (Sw.) DC. sobre a produtividade da soja, verificou que duas plantas daninhas dessa espécie, quer estejam na linha ou na entrelinha, reduzem a produção em 9%. Essa redução atingiu 40% quando a densidade chegou a 25 plantas por m2.

De acordo com Fleck & Candemil (1995), as gramíneas [papuã

(Brachiaria plantaginea) ou milhã (Digitaria ciliaris Retz.) Kael)] apresentaram maior potencial de dano do que as dicotiledôneas caruru (Amaranthus lividus L. e A. viridis L.), picão-preto (Bidens pilosa L.), guanxuma (Sida rhombifolia. L.), beldroega (Portulaca oleracea) e poaia-branca (Richardia brasiliensis Gomez), pois causaram perdas médias na ordem de 42% e 23%, respectivamente.

A esse mesmo respeito, Fleck (1996) verificou que a interferência causada pela presença de Brachiaria plantaginea na soja atingiu reduções no rendimento de grãos de 18% a 82%, decorrentes da densidade da planta daninha de 70 a 780 plantas por m2. Ocorreram perdas de 4,8% no rendimento de grãos de soja para cada incremento de 100 plantas por m2. O ga- nho de produtividade obtido pelo controle de Brachiaria plantaginea variou entre 675 a 3710 kg ha-1 de grãos.

3. MANEJO INTEGRADO DE PLANTAS DANINHAS NA CULTURA DA SOJA

3.1 MANEJO PREVENTIVO

O manejo preventivo envolve a utilização de sementes puras e programas de redução de sementes de plantas daninhas na entressafra, por meio de práticas diversas e da rotação de culturas.

3.1.1 SEMENTES PURAS

O primeiro cuidado que se deve ter na implantação da cultura da soja é realizar a semeadura com sementes isentas de dissemínulos de espécies não desejadas. Ao se adquirir as sementes, é importante verificar se as mesmas são certificadas e garantidas quanto a sua qualidade e sua pureza. Da mesma forma, se o próprio agricultor produz a sua semente, deve-se ter todos os cuidados na sua descontaminação, com uso de peneiras adequadas e ventilação (Deuber, 1997).

3.1.2 MANEJO NA ENTRESSAFRA

Este manejo preventivo pode ser realizado por meios mecânicos, químicos e culturais. Havendo cultura na entressafra, em sucessão, como o trigo ou o sorgo, o manejo desta cultura, qualquer que seja o método, já é um fator positivo de redução de sementes que germinam e vegetam o ano todo, como é o caso de picão-branco (Galinsoga parviflora Cav.) ou falsa- serralha (Emilia sonchifolia DC.). Nessa situação, cuidado especial deve ser tomado após a colheita da cultura de entressafra, evitando a disseminação das mesmas.

O manejo das plantas daninhas, seja após a cultura de entressafra, ou em áreas de pousio, pode ser realizado mecanicamente com a utilização de roçadeira ou rolo-faca, após certo período de desenvolvimento das plantas, mas antes de alcançarem o estádio de formação de sementes. É aconselhável fazer o manejo até o início do florescimento. O material vegetal fica picado sobre o solo, formando cobertura morta útil na proteção contra erosão e reduzindo a germinação de plantas daninhas, além de proporcionar enriquecimento do solo, tanto química quanto biologicamente.

Na Figura 1, verifica-se a diferença na densidade de plantas daninhas em dois sistemas de manejo (com e sem frutificação das infestantes), o que ilustra o aspecto relatado acima.

Outra forma de manejo preventivo na entressafra é o uso de herbicidas ou de dessecantes de amplo espectro (controlando mono e dicotiledôneas), aplicados na mesma época em substituição ao manejo mecânico. No mercado, estão disponíveis os produtos glifosate, sulfosate, 2,4-D, paraquat, paraquat + diuron, cyanazine e flumioxazin. A utilização de um ou mais produtos, bem como a dose a ser utilizada, dependem das espécies presentes na área, do estádio de desenvolvimento e da cultura subseqüente a ser implantada (Buzatti, 1999).

Quando a planta daninha ou a cultura a ser dessecada encontra-se no início da fase vegetativa e a morte das folhas é suficiente, pode-se usar herbicidas com ação de contato. No entanto, quando são capazes de rebrotar ou armazenar energia na parte subterrânea, e a morte da parte aérea não é

Figura 1 – Diferença na densidade de infestação em dois sistemas de manejo das plantas daninhas com e sem frutificação (Fonte: Skóra Neto, 1993).

suficiente, recomendam-se herbicidas sistêmicos, capazes de translocar seu ingrediente ativo na planta (Gassen & Gassen, 1996)

Essas operações de manejo são a base do sucesso do sistema de semeadura direta que, se for bem realizada, vai proporcionar um melhor controle em pós-emergência, evitando que algumas plantas daninhas, como a guanxuma (Sida spp.), a trapoeraba (Commelina benghalensis L.), a ervaquente (Spermacoce latifolia Aubl.) e a poaia-branca (Richardia brasiliensis) venham causar problemas futuros, comprometendo toda a estratégia de controle de plantas daninhas no sistema de semeadura direta (Buzatti, 1999).

No caso da semeadura convencional, os restos vegetais devem ser do menor porte possível e estar bem desintegrados. Com isso, o processo de sem frutificaçãocom frutificação pl a n t a s / infestação inicial após 4 anos decomposição da massa vegetal se fará mais rapidamente, com mais facilidade e menor dispêndio de energia pela incorporação ao solo com o processo de aração e gradagem. Essas operações visam também à eliminação de sementeiras de plantas daninhas.

3.1.3 ROTAÇÃO E SUCESSÃO DE CULTURAS

Com um programa de rotação e sucessão de culturas, é possível alterar o ambiente comparativamente a um processo de monocultura. A rotação de culturas também permite a rotação de herbicidas, e com a sucessão de culturas, tem-se a possibilidade de manter a área ocupada pela espécie desejada, não permitindo a infestação por espécies daninhas (Gazziero, 1998).

Associar a rotação de culturas com o sistema de semeadura direta tem sido a prática mais eficaz do ponto de vista do manejo de plantas daninhas. O não-revolvimento do solo mantém muitas sementes no perfil a profundidades nas quais não germinam. A palha ou restos culturais proporcionam a cobertura da superfície, evitando a germinação de diversas espécies que aí se localizam, além de proteger o solo (Deuber, 1997).

Estudo conduzido por Ruedell (1995) durante nove anos em áreas de rotação de culturas, utilizando a proporção de 1/3 de milho e 2/3 de soja, mostrou redução na densidade de dicotiledôneas e aumento na densidade de gramíneas na cultura da soja. Isso significa que em áreas infestadas de gramíneas, quando cultivadas com milho, o controle das mesmas é suficiente para evitar perdas no rendimento de grãos da cultura, porém não impede sua infestação tardia, deixando a cultura no "mato". Esse fato levou a um aumento da densidade de gramíneas na cultura da soja no verão seguinte (Figura 2).

Figura 2 – Ocorrência e evolução de plantas daninhas na cultura da soja, durante um período de nove anos no sistema de plantio direto, em áreas com 1/3 de milho e 2/3 de soja (com rotação) e somente soja (sem rotação) (Fonte: Ruedell,1995).

g r am ín es ( p l/m com rotação sem rotação

1369 d i c o t i le d ô n e as

( p l/m semeadura direta (anos) g ramíneas

Por outro lado, a presença de capim-marmelada (Brachiaria plantaginea) após a cultura do milho, além de proporcionar uma boa cobertura de solo, pode ser aproveitada como pastagem para bovinos.

3.2 MANEJO CULTURAL

O manejo cultural se faz por meio da escolha de cultivares, do manejo populacional e de práticas fitotécnicas, especialmente aquelas relacionadas com a fertilidade do solo.

3.2.1 ESCOLHA DE CULTIVARES

A escolha correta de cultivares é, na realidade, o primeiro passo no estabelecimento de uma cultura. E, no caso da soja, há um grande número de cultivares adaptadas para as diferentes regiões do Brasil.

3.2.2 MANEJO POPULACIONAL

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