nutrição e adubação do milho

nutrição e adubação do milho

(Parte 1 de 4)

Sete Lagoas, MG Dezembro, 2006

Autores

Antônio Marcos Coelho

Ph.D em Solos e Nutrição de

Plantas Embrapa Milho e

Sorgo Cx. Postal 151, Sete

Lagoas, MG. correio eletrônico: amcoelho@cnpms.embrapa.br

Introdução

Nos últimos anos, a cultura do milho no Brasil, vem passando por importantes mudanças tecnológica, resultando em aumentos significativos da produtividade e produção. Entre essas tecnologias destaca-se a conscientização dos produtores da necessidade da melhoria na qualidade dos solos, visando uma produção sustentada. Essa melhoria na qualidade dos solos está geralmente relacionada ao manejo adequado, o qual inclui entre outras práticas, a rotação de culturas, plantio direto, manejo da fertilidade através da calagem, gessagem e adubação equilibrada com macro e micronutrientes, utilizando fertilizantes químicos e/ou orgânicos (estercos, compostos, adubação verde, etc.).

Para que o objetivo do manejo racional da fertilidade do solo seja atingido é imprescindível a utilização de uma série de instrumentos de diagnose de possíveis problemas nutricionais que, uma vez corrigidos, aumentarão as probabilidades de sucesso na agricultura.

Assim, o agricultor ao planejar a adubação do milho deve levar em consideração os seguintes aspectos: a) diagnose adequada dos problemas – análise de solo e histórico de calagem e adubação das glebas; b) quais nutrientes devem ser considerados neste particular caso? (muitos solos tem adequado suprimento de Ca, Mg, etc.); c) quantidades de N, P e K necessários na semeadura ? - determinado pela análise de solo e removido pela cultura; d) qual a fonte, quantidade e, quando aplicar N ? (baseado na produtividade desejada); e) quais nutrientes podem ter problemas neste solo ? (lixiviação de nitrogênio em solos arenosos, ou são necessários em grandes quantidades).

Exigências Nutricionais

Dados médios de experimentos conduzidos na Embrapa Milho e Sorgo, em Sete Lagoas- MG, dão uma idéia da extração de nutrientes pelo milho, cultivado para produção de grãos e silagem (Tabela 1). Observa-se que a extração de nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio e magnésio aumenta linearmente com o aumento na produtividade, e que a maior exigência do milho refere-se a nitrogênio e potássio, seguindo-se cálcio, magnésio e fósforo.

Com relação aos micronutrientes, as quantidades requeridas pelas plantas de milho são muito pequenas. Para uma produtividade de 9 t de grãos/ha, são extraídos: 2.100 g de ferro, 340 g de manganês, 400 g de zinco, 170 g de boro, 110 g de cobre e, 9 g de molibdênio. Entretanto, a deficiência de um deles pode ter tanto efeito na desorganização de processos metabólicos e redução na produtividade, como a

Nutrição e Adubação do Milho

2Nutrição e Adubação do Milho deficiência de um macronutriente como, por exemplo, o nitrogênio.

Tabela 1. Extração média de nutrientes pela cultura do milho destinada á produção de grãos e silagem em diferentes níveis de produtividades.

K, caracterizando a cultura do milho destinada a produção de grãos como uma “bomba” recicladora de K, com uma reciclagem de 12 kg de K por tonelada de palha. O milho destinado à produção de forragem tem recomendações especiais porque todo material é cortado e removido do campo antes que a cultura complete o seu ciclo. Com isso, a remoção de nutrientes é muito maior quando comparada com a cultura destinada à produção de grãos (Figura 1). Essas informações tem implicações na recomendação de adubação tanto para o milho como para as outras culturas semeadas em rotação ou em sucessão a este cereal. Assim, ao se planejar a adubação para cultura do milho é importante considerar, além dos resultados das análises de solo, a extração dos nutriente pela cultura, a finalidade de exploração (grãos ou forragem) e a estimativa do potencial de produtividade a ser alcançado.

Tipo de exploração Produtividade Nutrientes extraídos

18,65 231 26 259 58 32Para converter P em P O ;K em K O; Ca em CaO e Mg em MgO, multiplicar por 2,29; 1,20; 1,39 e 1,6; respectivamente. Fonte: Coelho & França (1995).

Em milho, os nutrientes têm diferentes taxas de translocação entre os tecidos (colmos, folhas e grãos). No que se refere à exportação dos nutrientes, o fósforo é quase todo translocado para os grãos (7 a 86 %), seguindo-se o nitrogênio (70 a 7 %), o enxofre (60 %), o magnésio (47 a 69 %), o potássio (26 a 43 %) e o cálcio (3 a 7 %). Isso implica que a incorporação dos restos culturais do milho devolve ao solo grande parte dos nutrientes, principalmente potássio e cálcio, contidos na palhada. Quando o milho é colhido para silagem, além dos grãos, a parte vegetativa também é removida, havendo consequentemente alta extração e exportação de nutrientes (Tabela 1). Assim, problemas de fertilidade do solo se manifestarão mais cedo na produção de silagem do que na produção de grãos. Na figura 1 são apresentadas a reciclagem (restituição) e exportação de nutrientes por milho destinado à produção de grãos e forragem.

De acordo com os dados apresentados na Figura 1, para alcançar produção de 9,20 t de grãos ha-1, a cultura do milho absorveu um total de 185 kg/ha de N, dos quais 138 kg/ha (75 %), foram exportados nos grãos e 47 kg/ha encontravam-se na palhada; 132 kg/ ha de K, dos quais apenas 42 kg/ha (32 %) foram exportados nos grãos e 90 kg ha-1 de K (68 %) encontravam - se na palhada (Figura 1). Pode-se afirmar, portanto, que a manutenção dos restos culturais na área, devolve ao solo grande quantidade de

Figura 1. Reciclagem (restituição) e exportação de nutrientes pelo milho destinado a produção de grãos e forragem. Fonte: Coelho (2005).

Acidez do solo, Toxidez de Aluminio e Necessidade de Calagem

As recomendações de calagem objetivam corrigir a acidez do solo e tornar insolúvel o alumínio, o que, aliadas a outras práticas de manejo da fertilidade, têm a função de elevar a capacidade produtiva dos solos. As quantidades de corretivos da acidez do solo são determinadas por diferentes metodologias e visam o

3Nutrição e Adubação do Milho retorno econômico das culturas a médio prazo (4 a 5 anos). Como a calagem é uma prática que envolve sistemas de rotação e sucessão de culturas, na sua recomendação, deve-se priorizar a cultura mais sensível à acidez do solo.

Entre as espécies cultivadas, o milho é classificado como sendo de tolerância mediana as condições de acidez e toxidez de alumínio. Solos com saturação de alumínio da CTC efetiva (valor m) maior do que 20 %, causam limitações no rendimento do milho. Entretanto, deve-se acrescentar que isto é dependente da ocorrência de déficit hídrico, teores de matéria orgânica e fósforo no solo e híbrido de milho.

Redução na produtividade de híbridos de milho, variando de 7 % a 47 %, em função do aumento da saturação de alumínio no solo, foi verificado por Prado (2001), em experimento conduzido em Uberaba, MG, em um Latossolo Vermelho, textura muito argilosa, com 4 anos de plantio direto (Tabela 2).

Tabela 2. Produtividade média de grãos de híbridos de milho em solo com dois níveis de saturação de alumínio da CTC efetiva, na profundidade de 0 a 20 cm.

visando manter no solo uma relação cálcio/magnésio de 3:1 a 5:1. Entretanto, para a cultura do milho, experimentos realizados por Coelho & Vasconcelos (1996), demonstraram que esta relação pode ser mais ampla (Ca/Mg = 12/1), sem prejuízo da produção desde que o teor de magnésio no solo esteja acima de

0,5 cmolc /dm3 de solo. Coelho & Vasconcelos (1996), não obtiveram respostas do milho e ao magnésio em experimentos realizados em um Latossolo Vermelho, com teor inicial de 0,5 cmolc de Mg/dm3 de solo e que havia recebido doses de até 6 t/ha de um calcário calcítico (CaO = 54% e MgO = 0,27%).

Acumulação de Nutrientes e Manejo da Adubação

Definida a necessidade de aplicação de fertilizantes para a cultura do milho, o passo seguinte, e de grande importância no manejo da adubação, visando a máxima eficiência, é o conhecimento da absorção e acumulação de nutrientes nas diferentes fases de desenvolvimento da planta, identificando as épocas em que os elementos são exigidos em maiores quantidades. Esta informação, associada ao potencial de perdas por lixiviação de nutrientes nos diferentes tipos de solos, são fatores importantes a considerar na aplicação parcelada de fertilizantes, principalmente nitrogenados e potássicos.

O milho apresenta períodos diferentes de intensa absorção, com o primeiro ocorrendo durante a fase de desenvolvimento vegetativo, V12 a V18 folhas, quando o número potencial de grãos está sendo definido; e, o segundo, durante a fase reprodutiva ou formação da espiga, quando o potencial produtivo é atingido (Figura 2). Isto enfatiza que para altas produções, mínimas condições de estresses devem ocorrer durante todos os estádios de desenvolvimento da planta.

A absorção de potássio apresenta um padrão diferente em relação ao nitrogênio e ao fósforo (Figura 2), com a máxima absorção ocorrendo no período de desenvolvimento vegetativo, com elevada taxa de acúmulo nos primeiros 30 a 40 dias de desenvolvimento, com taxa de absorção superior ao de

Híbridos Produtividade de grãos (t ha ) Redução

CV (%) 8,70 12,10Redução na produtividade de grãos em função do aumento na saturação de alumínio. Fonte: modificada de Prado (2001).

Esses resultados evidenciam que embora existam materiais genéticos mais tolerantes às condições de acidez, a correção desta acidez é muito importante ao adequado desenvolvimento do milho. Assim, altas produtividades de milho, tem sido possíveis em solos que apresentam perfil de fertilidade no primeiros 40 cm, sem problemas de saturação de alumínio da CTC efetiva maior do que 20 %. Saturação de bases de 50 a 60 %.

No Brasil existe o conceito generalizado para o uso em sua maioria de calcários dolomítico e magnesiano

4Nutrição e Adubação do Milho nitrogênio e fósforo, sugerindo maior necessidade de potássio na fase inicial como um elemento de “arranque’. Para o nitrogênio e o fósforo, o milho apresenta dois períodos de máxima absorção durante as fases de desenvolvimento vegetativo e reprodutivo ou formação da espiga, e menores taxas de absorção no período compreendido entre a emissão do pendão e o inicio da formação da espiga (Figura 2).

de plantio direto no Brasil e a necessidade de utilizar culturas de cobertura e rotação de culturas, visando a sustentabilidade desse sistema, são aspectos que devem ser considerados na otimização da adubação nitrogenada.

As recomendações atuais para a adubação nitrogenada em cobertura são realizadas com base em curvas de resposta, histórico da área e produtividade esperada. A recomendação da adubação nitrogenada em cobertura para a cultura do milho de sequeiro, de modo geral, varia de 60 a 100 kg de N/ha. Em agricultura irrigada, onde prevalece o uso de alta tecnologia, para a obtenção de elevadas produtividades esta recomendação seria insuficiente. Nestas condições, doses de nitrogênio variando de 120 a 160 kg/ha podem ser necessárias para obtenção de elevadas produtividades (Tabela 1).

Na tomada de decisão sobre a necessidade de adubação nitrogenada alguns fatores devem ser considerados, tais como: condições edafo-climáticas, sistema de cultivo (plantio direto e convencional), época de semeadura (época normal e safrinha), responsividade do material genético, rotação de culturas, época e modo de aplicação, fontes de nitrogênio, aspectos econômicos e operacional. Isso enfatiza a regra de que as recomendações de nitrogênio devem ser cada vez mais específicas e não generalizadas.

Dentre as informações requeridas para otimizar essa recomendação, incluem-se: a) a estimativa do potencial de mineralização do N do solo; b) a quantidade de N mineralizado ou imobilizado pela cultura de cobertura; c) o requerimento do N pela cultura, para atingir um rendimento projetado; d) a expectativa da eficiência de recuperação do N disponível das diferentes fontes (solo, resíduo de cultura, fertilizante mineral). A Figura 3 ilustra a complexidade envolvida, por exemplo, para recomendação de N para a cultura do milho, baseandose em informações obtidas em solo sob cerrado.

Como critério para recomendação a serem avaliados, em condições específicas, parece-nos adequado considerar a técnica da estimativa das necessidades de

Figura 2. Acúmulo de matéria seca, nitrogênio, fósforo e potássio na parte aérea de plantas de milho. Fonte: modificada de Karlen et al. (1987).

Nitrogênio

O milho é uma cultura que remove grandes quantidades de nitrogênio e usualmente requer o uso de adubação nitrogenada em cobertura para complementar a quantidade suprida pelo solo, quando se deseja produtividades elevadas. Resultados de experimentos conduzidos no Brasil, sob diversas condições de solo, clima e sistemas de cultivo, mostram resposta generalizada do milho à adubação nitrogenada. Em geral, 70 a 90 % dos ensaios de adubação com milho realizados a campo no Brasil, apresentaram respostas à aplicação de nitrogênio.

Avaliação da necessidade de adubação nitrogenada

Do ponto de vista econômico e ambiental a dose de N a aplicar é para muitos, a mais importante decisão no manejo do fertilizante. A crescente adoção do sistema

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